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Sobre o Autor

Raul Seixas

Raul dos Santos Seixas (28 de junho de 1945, Salvador, Bahia - 21 de agosto de 1989, São Paulo) foi um músico brasileiro.

Porque que sempre a solidão vem junto com o Luar?

Prefiro Ser Louco, Em Um Mundo Onde Os Normais, Constroem Bombas.

Eu sou canceriano E meu signo ascendente é Leão Leão luar de câncer Louco de nascença Filho da Bahia Que já não faz mais A minha cuca,minha tia Graças aos demônios Deuses,totens meus Eu nasci louco Dou graças a deus como um anormal Não durmo a noite Não tenho mais medo Do livro Baú do Raul

Eu não posso entender tanta gente aceitando a mentira, de que os sonhos desfazem aquilo que o padre falou. Porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo, hoje eu sei! Que ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez, uma vez...

Sem Titulo (1984) Eu minha lanterna e o peixe Felipe. Cheio de coisas para botar pra fora e não tenho quem ouça. - Quem tem um ouvido aí? O que eu despejo no papel do caderno? Caderno tem ouvido? Será que ele entende minha angústia? Será que as linhas frias do caderno me bastam? Ahhh! que besteira enorme é escrever, e no entanto se não o fizesse eu por certo morreria... Mas... Morreria de fato... mesmo. Escrever... escrever... escrever... Tudo já foi escrito; mas não importa.

Metido a escrever (1984) (Por que se eu não escrevesse por certo morreria) Eu, louco do absurdo Cansado de cansaços Desmorono-me em breves reticências Meus dentes caem Meus lábios doem de tanto arder Ardor de falar Palavras inúteis Poeta do caos Imbecil como uma criança Imprudente como uma mulher Estômago ácido-espelho-da língua?

Sem Titulo (1984) Eu não quero ficar em silêncio Não mais! Eu não quero escrever no banheiro Jamais. Eu não quero ficar no escuro Não mais! Eu não quero me sentir solitário Nunca mais. Eu não quero viver com quem é fraco Não mais! Eu não quero me sentir tenso Jamais. Eu não quero sofrer Não mais Eu não quero peso nas costas Nunca mais. Eu não quero deixar de sorrir Jamais Eu não quero andar de passo leve Não mais. Eu não quero viver gastando palavras Pra quem não me ouve jamais! Eu não quero dúvidas de quem não me aceita, não mais! Eu não quero o silêncio De quem não me preenche com palavras de paz.

Culpo minha pobre e velha mãe e meu magro e triste pai, por me jogarem na vida e ousadamente me colocarem o nome de Raul. Eis-me! Culpo ao meu próprio escárnio de repetir tres vezes o mesmo erro, se é que qualquer um desses tres tenham a mesma lucidez dilacerante do que a dor do absurdo do ser. Nada é mais que um nada mergulhado no oceano de uma dor de chibata chamada Deus! Que este tenha o meu perdão. Só peço que um raio de amor venha do espaço, e blind as tres para que a escuridão da santa divina ignorãncia lhes vedem a visão do apocalipse, amem!

Oculos A grande novidade agora sou eu usando óculos. Todos fazem perguntas ao ver-me de cara nova, e a todos eu pareço dever uma explicação. Astigmatismo, digo. Uma rizada forçada, uma pileria sem graça e vamos partindo para outro. No entanto esse óculos veio me benificiar. Certas pessoas que não gostavam do meu aspecto pessoal passaram a gostar do novo eu. Acham que assim eu pareço gente direita, e parecer é muito importante para essa gente. Posso afirmar que é muito interessante ter um par de óculos de vidro pendurado nas orelhas e e nariz. Hoje pela tarde encontrei um conhecido que me perguntou tolamente. _Voce está usando óculos agora? É? E eu lhe respondi: Ontem eu tomei banho de óculos, sabe? Agente fica enxergando tudo chuviscado... embaça o vidro...

Ele vivia assim em plena depressão ultimamente. Solidão!!! Solidão!!! Eu sou testemunha que ele queria que Kika voltasse morar com ele. Ele precisava de uma família, sentia falta. Ela não voltou, teve medo! (não a culpem) a barra era pesada demais. Ele se deixou morrer, sem se cuidar. Ele era um suicida em potencial. Deus cuide de sua alma, meu filho, minha dor! escrito por: D. Maria Eugênia Seixas.

Sou punk: ”Amanheci determinado a mudar, agora vou ser punk até apodrecer. Apodrecer para incomodar, com meu mau cheiro empesteando o teu jantar. Eu sou punk, nojento, e mais, eu quero é matar minha vozinha, botar veneno na cerveja do meu pai. Não acredito mais em nada, vou cuspir na cara da empregada. Eu sou punk nojento, vulgar, demais.

Cada vez que eu cumprimentava uma pessoa, dava três giros em torno do próprio corpo. Eu era o próprio rock. Eu era Elvis quando andava e penteava o topete. Eu era alvo de risos, gracinhas, claro. Eu tinha assumido uma maneira de vestir, falar e agir que ninguém conhecia. Claro que eu não tinha consciência da mudança social que o rock implicava. Eu achava que os jovens iam dominar o mundo.

Por favor... Por favor... Já que eu nasci, eu só preciso de alguem Alguem como eu, preciso com jeito de me dar amor. Me sinto só... aaahhh... Quero carinho Por favor, eu tenho medo Não to apelando pra ninguem Só estou normal - te gritando Por favor !!! Estou só !!! Ninguem pode me dar o que eu sei que ninguem tem, Mas... Por favor !!! ô ô ô olhe a vida !!! Feitos pra sentir uma coisa que não existe. Eu só sei gritar... não sei cantar AAAHHH ! Não vou cantar Se posso gritar AHHH !!!

Eu do Sol Hoje a janela me ofereceu uma paisagem Ofereceu-me o pôr do sol muitos, eu sei, em meu lugar seriam capazes de poetar de escrever em tintas coloridas ou belas palavras O cenário que se apresentava ante minha janela Eu, eu porém estava neutro eu havia visto aquilo antes muitos exaltaram o lilás-avermelhado do céu teceriam espíritos iluminados das nuvens ressuscitando formas Ontem, eu teceria também, mas hoje estou neutro sem forças, somente existindo ontem, eu disse, que lindo azul eu sou que lilás-avermelhado eu posso ver eu posso, eu posso ver pois a natureza é incolor Natureza morta somente átomos em profusão dominam o que percebemos erradamente como formas numa gestalt que no fundo não há nada de belo é só você, você, você os poetas descritivos estão redondamente enganados ao invés de exaltar a beleza da natureza falsa deveriam dedicar odes a si próprios exaltando nosso eu que sem dúvida é maravilhoso e incrível pois é com esse mecanismo complexo que nos leva a perceber tais fotografias O pôr do sol Eu me ponho às 6 horas na Bahia e às 7 no Rio Eu sou o céu com andorinhas Eu sou o mar com seus peixes Eu sou o mundo inteiro assim piso no lugar que cheguei aqui está minha ode que faria ontem Eu sou o sol que belo lilás estou, que faço aqui, porque me ponho criatura cheia de porquês e vivo e gracioso cérebro que linda massa acinzentada, oh máquina poderosa, força de energias mil faze-me crer que estou vivo que existo nesse Brasil Ô mago do cosmos, poderoso mais que Alexandre poderoso mais que eu possa conceber ou imaginar entre tu e as tripas aparentemente parecidas diferes em criação desde tempos já idos Oh, massa molecular eu sou o azul lilás que essa janela me trás

As vezes eu me olho no espelho Sinto medo, medo de mim Eu não me conheço Sou esquisito Sou humano Uso óculos, como, bebo, fumo e defeco Mijo Olho-me no espelho E esse da-me de volta quem saiu Eu riu, alto, assustado e engraçado. Duas longas coisas saindo do corpo: são os braços Buracos, pelos, peles, nariz ponteagudo Duas orelhas presas na minha cabeça Olho os dedos, meus olhos, me assusta. Falo, sinto emoções e tomo cerveja Rídícula coisa, ali em pé em frente ao espelho Eu me vejo de fora Faço uma abstração mental do que eu nunca vi Que sou humano, e me vejo. É esquisito. É realmente esquisito. Procuro-me no espelho Enão me acho. Só vejo aquilo ali. Parado. Um monte de carnes equilibradas por ossos duros que me mantem em pé. Ali no espelho. Eu sei que não sou aquilo, e o que sou, o espelho não pode me mostrar... AINDA... eu não brilho... ainda... fornecido por D. Maria Eugenia Seixas 08/90

Texto Sem Título [1976] Aí então o mundo todo estava com um pano no pescoço, e o chefe dos soldados gostou e disse que todos tinham que usar aquilo. Foi assim que até hoje (mesmo no calor e mesmo sem pescoço grande) é que seu pai usa gravata. Tia Lúcia gosta muito de diamantes de perfumes franceses. Ela gosta por que diamante é uma pedra muito difícil, poucas pessoas têm, e ela acha bonito. Eu não gosto por que não preciso mesmo, mesmo, dele. Ele só fica ali pendurado no pescoço, e além disso ele não serve para brincar. E outra coisa, eu sou uma pessoa diferente dela e é por isso que ela gosta de diamantes e eu não. Vamos fazer um brinquedo: vamos inventar uma palavra qualquer. V-a-l-o-r. O que que isso quer dizer? Valor é a maneira de cada pessoa ser diferente das outras. Cada um dá valor àquelas coisas que cada um gosta, certo? É como dar nota. Eu dou nota 10 a minha bicicleta e dou 0 ao diamante. Eu tenho um valor para cada coisa do mundo. Eu tenho muitos valores, quer dizer, tenho muitas notas que eu dou a tudo que eu gosto e que eu não gosto. Todo mundo tem também seus valores, suas notas. Quer ver? O padre. O valor dele é a reza. Ele acha que se a pessoa rezar vai sempre estar contente. Mas o padre, coitado, ele não sabe que tem gente que está contente sem precisar rezar. Eu não gosto de ficar triste. Ficar triste é chato, por que a gente só fica triste quando está fazendo o que não gosta. Veja só, porque se você está fazendo o que gosta você só pode estar feliz da vida; e, por falar em vida, você sabe o que é vida??? - Vida é viver contente. Basta você fazer o que gosta e nunca o que outra pessoa diferente lhe manda fazer. Claro, né? Aí todo mundo fica vivendo contente. - Mas como é então que pode tanta gente diferente um do outro viver junto assim como lá na cidade? Parece que todo mundo é igual por que todo mundo trabalha, e se todo mundo trabalha é por que todo mundo é igual. - Não, tem muita gente que trabalha porque se não trabalha não tem dinheiro pra comprar comida e aí morre magrinho. - Quem inventou o dinheiro? - Não sei quem, mas foi um homem alto e louro. Mas isso foi há muito tempo. - Pra que o dinheiro? - Do dinheiro foi feito para que todo mundo tenha que trabalhar para comprar comida. Se não trabalha não come. Você trabalha para alguém e essa pessoa lhe paga, lha dá o dinheiro. - Mas então quem trabalha e não gosta é uma pessoa muito triste, coitada. - Pois é, mas você não deve ter pena dela porque se essa pessoa não faz o que gosta é porque é burra e não sabe como é fácil ser feliz.

Decálogo Ao pé do monte Sinai A voz do anjo gritou O solene momento do início Da soberania do Estado-Senhor A trombeta fatídica da lei Que o mundo inteiro escutou: Não te reunirás Não te imprimirás Não lerás Respeito aos que te representam Fiel vais pagar o orçamento Vais amar o teu governo Que é teu Deus e Senhor. [1984]

Nunca se vence uma guerra lutando sozinho.

Levante sua mão sedenta. E recomece a andar. Não pense Que a cabeça agüenta se você parar.

Conserve seu medo mas sempre ficando sem medo de nada, por que dessa vida de qualquer maneira não se leva nada.

O punk é um modismo que não atinge o governo e vai acabar sendo engolido pelo sistema.

Eu perco pra malandro, perco pra ladrão, perco pra espertinhos e espertões, perco na transação bancária, nos juros e na taxa diária. Ah, mas na sabedoria é que eu ganho de vocês, essa ninguém me tira.

Eu sou só um ator que interpreta o papel de cantor e compositor. Um magro abusado.

Você tem todo o direito de tentar me ensinar das tuas coisas, porque a vida é séria e guerra é dura, mas se eu não quiser aprender tudo, deixe eu viver minha loucura, pois nunca criticarei a sua.

Tudo tem exatamente a mesma importância, a mesmíssima importância, ou seja, nenhuma.

O povo brasileiro não tem tempo pra ler, anda muito ocupado para poder pensar.

Já me borrei de tanto rir ouvindo o infinito sempre explicado. Se sendo é um verbo, prefiro ficar sendo calado.

Desabafo de Segunda-feira É impossível para o espelho da alma refletir na imaginação alguma coisa que não esteja diante dele. É impossível que o lago tranqüilo mostre em sua. profundeza a imagem de qualquer montanha ou o retrato de qualquer árvore ou nuvem que não exista perto do lago. É impossível que a luz projete na terra a sombra de um objeto que não exista. Nada pode ser visto, ouvido ou de outro modo sentido, sem ter essência real. O resto é excesso. Na luta contra o mal o excesso é bom; quem é moderado em anunciar a verdade está apresentando apenas uma meia-verdade. Esconde a outra metade com receio da cólera do povo. Não vou me surpreender se os pensadores disserem de mim: É um homem de excessos que se volta para o lado mais desagradável da vida e não apresenta nada mais que desgraças e lamentações. Se não entende, cumpadre, na casa da ignorância não há espelho no qual se possa ver a alma. A vida, mestre, é uma escuridão que termina na explosão da luz do dia. Sempre!

Só há amor quando nenhuma autoridade existe. Essa coisa autoridade é uma das coisas mais perigosas da vida. Eu não quero ser autoridade. Nós temos e podemos criar um mundo novo. Ó gente! Eu estou perguntando a vocês, cabe a vocês achar essa resposta. Se aceitar a verdade de outrem não será a sua resposta. Há um imenso trabalho para fazermos juntos, isso nos acrescenta uma enorme responsabilidade. Devemos ser revolucionários; dentro em nós deve se operar uma profunda revolução psicológica.

Carta a um Amigo Sabe Francisco Eu vi pela televisão Notícias que falam do mundo Mergulhado em confusão Parece Francisco Que tudo o que você falou Somente os peixes e as aves É que prestaram atenção Você disse que é melhor Amar que ser amado Mas tem gente que ainda vive Dando amor pré fabricado Você que um dia arrancou A roupa do teu corpo e ousou Mostrar com sua nudez Coisas que outro homem jamais fez Venha de novo Fazer outra revolução Pois quem sabe dessa vez O mundo preste atenção