Millôr Fernandes (1923 - 2012) foi um desenhista, humorista, dramaturgo, escritor e tradutor brasileiro.

Millôr Fernandes (1923 - 2012) foi um desenhista, humorista, dramaturgo, escritor e tradutor brasileiro.

Frases e Pensamentos

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    "Poeminha de Louvor ao Strip-tease Secular




    Eu sou do tempo em que a mulher
    Mostrar o tornozelo
    Era um apelo!
    Depois, já rapazinho, vi as primeiras pernas
    De mulher
    Sem saia;

    Mas foi na praia!


    A moda avança
    A saia sobe mais
    Mostra os joelhos
    Infernais!



    As fazendas
    Com os anos
    Se fazem mais leves
    E surgem figurinhas
    Em roupas transparentes
    Pelas ruas:

    Quase nuas.

    E a mania do esporte
    Trouxe o short.
    O short amigo
    Que trouxe consigo
    O maiô de duas peças.
    E logo, de audácia em audácia,
    A natureza ganhando terreno

    Sugeriu o biquíni,
    O maiô de pequeno ficando mais pequeno
    Não se sabendo mais
    Até onde um corpo branco
    Pode ficar moreno.


    Deus,
    A graça é imerecida,
    Mas dai-me ainda
    Uns aninhos de vida!"

        Millôr Fernandes

    "Poesia Matemática

    Às folhas tantas
    do livro matemático
    um Quociente apaixonou-se
    um dia
    doidamente
    por uma Incógnita.
    Olhou-a com seu olhar inumerável
    e viu-a do ápice à base
    uma figura ímpar;
    olhos rombóides, boca trapezóide,
    corpo retangular, seios esferóides.
    Fez de sua uma vida
    paralela à dela
    até que se encontraram
    no infinito.
    Quem és tu?, indagou ele
    em ânsia radical.
    Sou a soma do quadrado dos catetos.
    Mas pode me chamar de Hipotenusa.
    E de falarem descobriram que eram
    (o que em aritmética corresponde
    a almas irmãs)
    primos entre si.
    E assim se amaram
    ao quadrado da velocidade da luz
    numa sexta potenciação
    traçando
    ao sabor do momento
    e da paixão
    retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
    nos jardins da quarta dimensão.
    Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
    e os exegetas do Universo Finito.
    Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
    E enfim resolveram se casar
    constituir um lar,
    mais que um lar,
    um perpendicular.
    Convidaram para padrinhos
    o Poliedro e a Bissetriz.
    E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
    sonhando com uma felicidade
    integral e diferencial.
    E se casaram e tiveram uma secante e três cones
    muito engraçadinhos.
    E foram felizes
    até aquele dia
    em que tudo vira afinal
    monotonia.
    Foi então que surgiu
    O Máximo Divisor Comum
    freqüentador de círculos concêntricos,
    viciosos.
    Ofereceu-lhe, a ela,
    uma grandeza absoluta
    e reduziu-a a um denominador comum.
    Ele, Quociente, percebeu
    que com ela não formava mais um todo,
    uma unidade.
    Era o triângulo,
    tanto chamado amoroso.
    Desse problema ela era uma fração,
    a mais ordinária.
    Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
    e tudo que era espúrio passou a ser
    moralidade
    como aliás em qualquer
    sociedade."

        Millôr Fernandes

    "Chapeuzinho Vermelho

    Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho. (Esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo). Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo Sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anômala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos, Mucambés ou Muçambas, planta medicinal da família das Caparidáceas, e brincando aqui e ali com uma Jurueba, da família dos Psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios. Chapeuzinho Vermelho andava, pois, na Floresta, quando lhe aparece um lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão e... (Um parêntesis para os nossos pequenos leitores — o lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho. Tendo que andar na floresta sozinha, - natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes.).

    Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo lobo que lhe disse: (Outro parêntesis; os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que o Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ascentralíssimo e está em todo o folclore universal.) Disse o Lobo: Onde vais, linda menina? Respondeu Chapeuzinho Vermelho: Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, a uma hora e trinta e cinco minutos da tarde.

    Ouvindo isso o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos reprimidos (Freud: Psychopathology Of Everiday Life, The Modern Library Inc. N.Y.). Chegando na casa da avozinha ele engoliu-a de uma vez — o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a idéia do capitalismo devorando o proletariado — e ficou esperando, deitado na cama, fantasiado com a roupa da avó.

    Passaram-se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o lobo não era sua avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea. Nem percebeu que a voz não era a da avó, porque sofria de Otite, inflamação do ouvido, nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrênica, débil mental e paranóica pequenas doenças que dão no cérebro, parte-súpero-anterior do encéfalo. (A tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em Sexual Behavior in the Human Female. W. B. Saunders Company, Publishers.) Mas, para salvação de Chapeuzinho Vermelho, apareceram os lenhadores, mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da avó através da Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranqüila 57 anos, que é a média da vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau.

    Extraído do livro Lições de Um Ignorante, José Álvaro Editor - Rio de Janeiro, 1967, pág. 31"

        Millôr Fernandes

    "Gostaria,querida,de ser Inesperado
    Como a madrugada amanhecendo
    á noite
    E engraçado também ,como pato num trem"

        Millôr Fernandes

    "Algumas pessoas matam. As outras pessoas se satisfazem lendo a notícia dos assassinatos."

        Millôr Fernandes

    "O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia."

        Millôr Fernandes

    "É melhor ser pessimista do que otimista. O pessimista fica feliz quando acerta e quando erra."

        Millôr Fernandes

    "Quem fala muito mente smepre porque se esgota seu estoque de verdades."

        Millôr Fernandes

    "O homem é o único animal que ri e é rindo que ele mostra o animal que realmente é"

        Millôr Fernandes

    "O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O socialismo é o contrário."

        Millôr Fernandes

    "Diga-me com quem andas e dir-te-ei [que língua, a nossa!] quem és. Pois é: Judas andava com Cristo. Cristo andava com Judas"

        Millôr Fernandes

    "Basta um avião sacudir um pouquinho mais, e logo todos os passageiros ficam parecidos com a foto do passaporte."

        Millôr Fernandes

    "Se você agir sempre com dignidade, pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa: haverá na Terra um canalha a menos."

        Millôr Fernandes

    "Amor ao próximo é folgado, o difícil é se dar com o homem ao lado."

        Millôr Fernandes

    "Trabalho não mata. Mas vagabundagem nem cansa."

        Millôr Fernandes

    "O dinheiro não traz a felicidade. Manda buscar"

        Millôr Fernandes

    "Quem mata o tempo não é assassino, é suicida."

        Millôr Fernandes

    "coisa rara:
    teu espelho
    tem minha cara"

        Millôr Fernandes

    "A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar, ao amigo, de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades."

        Millôr Fernandes

    "Toda alegria é assim: já vem embrulhada numa tristezinha de papel fino."

        Millôr Fernandes

    "Quando o homem sabe que certa mulher já cedeu a alguém, ele não resiste em verificar se a história se repete."

        Millôr Fernandes

    "nada tem nexo
    tudo é apenas
    um reflexo"

        Millôr Fernandes

    "O homem é um macaco que não deu certo."

        Millôr Fernandes

    "Há homens que devem à esposa tudo o que são, mas em geral, os homens devem à esposa tudo o que devem."

        Millôr Fernandes

    "nos dias quotidianos
    é que se passam
    os anos"

        Millôr Fernandes

    "estrela cadente
    ponto de exclamação
    quente"

        Millôr Fernandes

    "Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

        Millôr Fernandes

    "Não é que com a idade você aprenda muitas coisas; mas você aprende a ocultar melhor o que ignora."

        Millôr Fernandes

    "Sim, irmão, o dinheiro não é tudo. Mas o que é que é tudo?"

        Millôr Fernandes

    "Quando a gente está cansado, dá uma bruta vontade de dizer que sim."

        Millôr Fernandes

Biografia


Millôr Viola Fernandes (16 de agosto de 1923 - 27 de março de 2012) foi um cartunista, jornalista, cronista, dramaturgo, roteirista, tradutor e poeta brasileiro. Nasce no Rio de Janeiro, em 1923, filho do engenheiro Francisco Fernandes e de Maria Viola Fernandes.

Nasceu Milton Viola Fernandes, tendo sido registrado, graças a uma caligrafia duvidosa, como Millôr, o que veio a saber na adolescência. Órfão de pai aos dois anos e de mãe aos 11, desde muito cedo começa a trabalhar. Aos 15 anos entra para a revista O Cruzeiro como contínuo. Aos 16 anos, convidado para colaborar na revista A Cigarra, cria o pseudônimo Vão Gôgo. Em 1943 volta para a revista O Cruzeiro, que passa, ao longo dos anos, de 11 mil exemplares para 750 mil exemplares semanais. Em 1946, faz sua estréia literária com o livro Eva sem Costela - um livro em defesa do homem, e sete anos depois é montada sua primeira peça de teatro, Uma Mulher em Três Atos. Em 1964 edita a revista humorística O Pif-Paf, considerada uma das pioneiras da imprensa alternativa, e quatro anos depois participa da fundação do jornal O Pasquim.

Cartunista, vem colaborando nos principais órgãos da imprensa brasileira; cronista, tem mais de 40 títulos publicados; dramaturgo, alcançou sucessos como Liberdade, Liberdade (em parceria com Flávio Rangel), Computa, computador, computa e É..; artista gráfico, tem trabalhos expostos em várias galerias de arte do Rio de Janeiro e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ. Faz roteiros de filmes, programas de televisão, shows e musicais e é um dos mais solicitados tradutores de teatro do país. Irônico, polêmico, com seus textos (aforismos, epigramas, ironia, duplos sentidos e trocadilhos) e seus desenhos constrói a crônica dos costumes brasileiros dos últimos sessenta anos.

"Onde não puderes amar, não te demores..."

    Augusto Branco

"Eu não desisti...apenas não insisto mais."

    Cazuza

"As coisas muito claras me noturnam."

    Manoel de Barros

"Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por um sonho."

    Carlos Drummond de Andrade

"Os mentirosos estão sempre prontos a jurar."

    Vittorio Alfieri

"O sexo é o alívio da tensão. O amor é a causa"

    Woody Allen

"Soltar os demônios pode ser muito educativo em certas ocasiões."

    Deepak Chopra

"Todo o homem é culpado do bem que não fez."

    Voltaire

"A maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que é infeliz."

    Fiódor Dostoiévski

"Vento

Pastor das nuvens."

    Mario Quintana