Ninguém resiste à lisonja sendo administrada, oportunamente, com a perícia e destreza de um hábil adulador.

Sobre o Autor

Marquês de Maricá

Pseudónimo de Mariano da Fonseca (1773-1848), político carioca.

Mais frases de Marquês de Maricá

A suspensão, remoção ou cessão de um grave mal são reputados pelo paciente como um grande bem: deixar de sofrer é também gozar.

A virtude é comunicável, mas o vício, contagioso.

Em vão procuramos a verdadeira felicidade fora de nós, se não possuímos a sua fonte dentro de nós.

Muito pouco se padece na vida, em comparação do que se goza; aliás, não sendo assim, como se viveria?

Não devemos gozar para sofrer, mas sofrer para melhor gozar.

Querendo prevenir males de ordinário contingente, o homem prudente vive sempre em tortura, gozando menos do presente do que sofre no futuro.

Sem os males que contrastam os bens, não nos creríamos jamais felizes por maior que fosse nossa felicidade.

Viver é gozar e sofrer, resistir e batalhar com os homens, as coisas, os eventos e os elementos.

Não se pode formar bom conceito de quem não tem boa opinião de pessoa alguma.

Os aduladores são como as plantas parasitas que abraçam o tronco e ramos de uma árvore para melhor a aproveitar e consumir.

Nenhum tempo e nenhum lugar nos agrada tanto como o tempo que não existe, e o lugar em que não estamos.

As nossas necessidades unem-nos, mas as nossas opiniões separam-nos.

Custa menos ao nosso amor-próprio caluniar a sorte, do que acusar a nossa má conduta.

Inveja-se a riqueza, mas não o trabalho com que ela se granjeia.

Não provoques o Poder, que ele se tornará cruel e despótico no seu desagravo.

O temor da morte é a sentinela da vida.

Aquele que se envergonha ainda não é incorrigível.

O amor-próprio do tolo, quando se exalta, é sempre o mais escandaloso.

A sinceridade é muitas vezes louvada, mas nunca invejada.

Os vícios, como os cancros, têm a qualidade de corrosivos.

Há opiniões que nascem e morrem como as folhas das árvores, outras, porém, que têm a duração dos mármores e do mundo.

O nosso bom, ou mau procedimento, é o nosso melhor amigo, ou pior inimigo.

Os sábios duvidam mais que os ignorantes; daqui provém a filáucia destes e a modéstia daqueles.

Aproveita muito subir aos maiores empregos do Estado, para nos desenganarmos da sua vanglória e inanidade.

Se as viagens simplesmente instruíssem os homens, os marinheiros seriam os mais instruídos.

Os empregos que por intrigas e facções se alcançam, por facções e intrigas se perdem.

A razão, sem a memória, não teria materiais com que exercer a sua atividade.

A opinião pública é sempre respeitável, não pelo seu racionalismo, mas pela sua omnipotência muscular.

Nos nossos revezes, queremos antes passar por infelizes, do que por imprudentes, ou inábeis.

A razão também tiraniza algumas vezes, como as paixões.

Os moços de juízo honram-se em parecer velhos, mas os velhos sem juízo procuram figurar como moços.

Não invejemos os que sobem muito acima de nós: a sua queda será muito mais dolorosa do que a nossa.

A sinceridade imprudente é uma espécie de nudez que nos torna indecentes e desprezíveis.

Achar em tudo desordem é prova de supina ignorância; descobrir ordem e sistema em tudo é demonstração de profundo saber.

Muitas pessoas se prezam de firmes e constantes que não são mais que teimosas e impertinentes.

Quando os tiranos caem, os povos levantam-se.

Desperdiçamos o tempo, queixando-nos sempre de que a vida é breve.

O louvor não merecido embriaga como o vinho.

É mais fácil perdoar os danos do nosso interesse, que os agravos do nosso amor-próprio.

Mudai os tempos, os lugares, as opiniões e circunstâncias, e os grandes heróis se tornarão pequenos e insignificantes homens.

A autoridade de poucos é e será sempre a razão e argumento de muitos.

Os velhos que se mostram muito saudosos da sua mocidade não dão uma ideia favorável da maturidade e progresso da sua inteligência.

O ódio e a guerra que declaramos aos outros gasta-nos e consome-nos a nós mesmos.

A familiaridade tira o disfarce e descobre os defeitos.

A preguiça dificulta, a atividade tudo facilita.

Há muita gente para quem o receio dos males futuros é mais tormentoso que o sofrimento dos males presentes.

Há mentiras que são enobrecidas e autorizadas pela civilidade.

É mais útil algumas vezes a extirpação de um erro, que a descoberta de muitas verdades.

Os conselhos dos moços derivam das suas ilusões, os dos velhos, dos seus desenganos.

Quando defendemos os nossos amigos, justificamos a nossa amizade.

Os nossos inimigos contribuem mais do que se pensa para o nosso aperfeiçoamento moral. Eles são os historiadores dos nossos erros, vícios e imperfeições.

Podemos reunir todas as virtudes, mas não acumular todos os vícios.

A vingança comprimida aumenta em violência e intensidade.

As grandes livrarias são monumentos da ignorância humana. Bem poucos seriam os livros se contivessem somente verdades. Os erros dos homens abastecem as estantes.

O louvor que mais prezamos é justamente aquele que menos merecemos.

Os homens são poucas vezes o que parecem; eles trabalham incessantemente por parecer o que não são.

Sabei escusar o supérfluo, e não vos faltará o necessário.

Uns homens sobem por leves como os vapores e gases, outros como os projécteis pela força do engenho e dos talentos.

É tão fácil o prometer, e tão difícil o cumprir, que há bem poucas pessoas que cumpram as suas promessas.

É falta de habilidade governar com tirania.

A razão prevalece na velhice, porque as paixões também envelhecem.

As revoluções frequentes fazem raquíticas as nações recentes.

Mudamos de paixões, mas não vivemos sem elas.

A amizade mais perfeita e mais durável é somente aquela que contraímos com o nosso interesse.

Os bons conselhos desagradam aos apaixonados como os remédios aos que estão doentes.

A verdade é tão simples que não deleita: são os erros e ficções que pela sua variedade nos encantam.

Os elogios de maior crédito são os que os nossos próprios inimigos nos tributam.

Os bens que a virtude não dá ou não preserva são de pouca duração.

Dói mais ao nosso amor-próprio sermos desprezados, que aborrecidos.

O luxo, assim como o fogo, tanto brilha quanto consome.

Saber viver com os homens é uma arte de tanta dificuldade que muita gente morre sem a ter compreendido.

O erro máximo dos filósofos foi pretender sempre que os povos filosofassem.

Os que não sabem aproveitar o tempo dissipam o seu, e fazem perder o alheio.

Dói tanto a injúria publicada como a ferida exposta ao ar.

A má educação consiste especialmente nos maus exemplos.

O velho crê-se feliz em não sofrer, o moço infeliz em não gozar.

Há males na vida humana que são preservados de outros maiores, e muitas vezes ocasionam bens incalculáveis.

O trabalho involuntário ou forçado é quase sempre mal concebido e pior executado.

Se fôssemos sinceros em dizer o que sentimos e pensamos uns dos outros, em declarar os motivos e fins das nossas ações, seríamos reciprocamente odiosos e não poderíamos viver em sociedade.

Há enganos que nos deleitam, como desenganos que nos afligem.

Não somos sempre o que queremos, mas o que as circunstâncias nos permitem ser.

Ninguém avalia tão caro o nosso merecimento, como o nosso amor-próprio.

Não é raro aborrecermos aquelas mesmas pessoas que mais admiramos.

Como a luz numa masmorra faz visível todo o seu horror, assim a sabedoria manifesta ao homem todos os defeitos e imperfeições da sua natureza.

Ninguém quer passar por tolo, antes prefere parecer velhaco.

O espírito de intriga inculca demérito nos intrigantes.

Há um limite nas dores e mágoas que termina a nossa vida, ou melhora a nossa sorte.

Somos muitos francos em confessar e condenar os nossos pequenos defeitos, contanto que possamos salvar e deixar passar sem reparo os mais graves e menos defensáveis.

O lisonjeiro conta sempre com a abonação do nosso amor-próprio.

A paixão da leitura é a mais inocente, aprazível e a menos dispendiosa.

Ninguém se agasta tanto do desprezo como aqueles que mais o merecem.

Os velhos dão bons conselhos para se redimirem de ter dado maus exemplos.

A morte anula sempre mais planos e projectos do que a vida executa.

Num povo ignorante a opinião pública representa a sua própria ignorância.

Os bens de que gozamos exercem sempre menos a nossa razão do que os males que sofremos.

Não é a fortuna, mas juízo somente, o que falta a muita gente.

Quem muito nos festeja, alguma coisa de nós deseja.

Os maus não são exaltados para serem felizes, mas para que caiam de mais alto e sejam esmagados.

É tal a falibilidade dos juízos humanos, que muitas vezes os caminhos por onde esperamos chegar à felicidade conduzem-nos à miséria e à desgraça.

O que ganhamos em autoridade, perdemos em liberdade.

Enganamo-nos ordinariamente sobre a intensidade dos bens que esperamos, como sobre a violência dos males que tememos.

A dissimulação algumas vezes denota prudência, mas ordinariamente fraqueza.

A pobreza e a preguiça andam sempre em companhia.

Há muitos homens que se queixam da ingratidão humana para se inculcarem benfeitores infelizes ou se dispensarem de ser benfazentes e caridosos.

Dizer-se de um homem que tem juízo é o maior elogio que se lhe pode fazer.

O insignificante presume dar-se importância maldizendo de tudo e de todos.

A atividade sem juízo é mais ruinosa que a preguiça.

Muita luz deslumbra a vista, muita ciência confunde o entendimento.

A razão destrói nos homens as criações da sua própria imaginação.

A preguiça gasta a vida, como a ferrugem consome o ferro.

Os grandes empregos desacreditam e ridicularizam os pequenos homens.

O que há de melhor nos grandes empregos é a perspectiva ou a fachada com que tanta gente se embeleza.

A ignorância tem os seus bens privativos, como a sabedoria os seus males peculiares.

A religião supre o juízo e a razão que falta em muita gente.

Ninguém considera a sua ventura superior ao seu mérito, mas todos se queixam das injustiças dos homens e da fortuna.

Os homens têm querido dar razão de tudo, para dissimular ou encobrir o seu pouco saber.

É judiciosa a economia de palavras, tempo e dinheiro.

Há homens que hoje crêem pouco ou nada, porque já creram muito e demasiado.

Os homens enganam-se miseravelmente quando esperam encontrar a sua felicidade, mais na forma dos seus governos que na reforma dos seus costumes.

O governo dos tolos é sempre mais infesto aos povos que o dos velhacos.

Somos tão avaros em louvar os outros homens, que cada um deles se crê autorizado a louvar-se a si próprio.

Há homens para nada, muitos para pouco, alguns para muito, nenhum para tudo.

A dialética do interesse é quase sempre mais poderosa que a da razão e consciência.

O homem mais sensível é necessariamente o menos livre e independente.

A mocidade é a estação da felicidade sensual, a velhice, a da moral e intelectual.

A maledicência pode muitas vezes corrigir-nos, a lisonja quase sempre nos corrompe.

A pobreza não tem bagagem, por isso marcha livre e escuteira na viagem da vida humana.

Quem não pode ou não sabe acumular, nunca chega a ser sábio nem rico.

A razão dos filósofos é muitas vezes tão extravagante como a imaginação dos poetas.

Os nossos maiores inimigos existem dentro de nós mesmos: são os nossos erros, vícios e paixões.

Todos reclamam reformas, mas ninguém se quer reformar.

É mais fácil maldizer dos homens do que instruí-los e melhorá-los.

Não é dado ao saber humano conhecer toda a extensão da sua ignorância.

Os velhos ruminam o pretérito, os moços antecipam e devoram o futuro.

Quando a cólera ou o amor nos visita a razão se despede.

Os moços são tão solícitos sobre o seu vestuário, quanto os velhos são negligentes: aqueles atendem mais à moda e à elegância, estes à sua comodidade.

Desempenhar bem os grandes empregos depende muitas vezes mais das circunstâncias que dos homens.

Deve-se julgar da opinião e caráter dos povos pelo dos seus eleitos e prediletos.

O mal ou bem que fazemos aos outros reverte sobre nós acrescentado.

A riqueza doura a sabedoria e os talentos, mas não os constitui.

Em certas circunstâncias o silêncio de poucos é culpa ou delito de muitos.

Desesperar na desgraça é desconhecer que os males confinam com os bens, e que se alternam ou se transformam.

Sem as ilusões da nossa imaginação, o capital da felicidade humana seria muito diminuto e limitado.

A maior parte dos males e misérias dos homens provêm, não da falta de liberdade, mas do seu abuso e demasia.

A falsa ciência não aumenta o nosso saber, agrava a nossa ignorância.

O homem que frequentes vezes se inculca por honrado e probo, dá justos motivos de suspeitar-se que não é tal ou tanto como se recomenda.

Nada agrava mais a pobreza, que a mania de querer parecer rico.

É triste a condição de um velho que só se faz recomendável pela sua longevidade.

Não emprestes, não disputes, não maldigas, e não terás de te arrepender.

O melhor sono da vida a inocência o dorme, ou a virtude.

O futuro é como o papel em branco em que podemos escrever e desenhar o que queremos.

Os crimes fecundam as revoluções, e dão-lhes posteridade.

Nas revoluções dos povos a insignificância é a maior garantia de segurança pessoal.

O saber é riqueza, mas de qualidade tal que a podemos dissipar e desbaratar sem nunca empobrecermos.

A celebridade, que custa pouco, tem pequeno fulgor e duração.

É mais fácil refutar erros que descobrir verdades.

Os erros circulam entre os homens como as moedas de cobre, as verdades como os dobrões de ouro.

Há homens que afectam de muito ocupados, para que os creiam de muito préstimo.

Os males da vida são os nossos melhores preceptores, os bens, os nossos maiores aduladores.

A companhia dos livros dispensa com grande vantagem a dos homens.

Perante um auditório de tolos, os velhacos tornam-se fecundos, e os doutos silenciosos.

Os homens nos parecerão sempre injustos enquanto o forem as pretensões do nosso amor-próprio.

Ninguém se conhece tão bem como aquele que mais desconfia de si próprio.

A paciência dispensa a resistência e a reacção.

Não há coisa mais fácil que vencer os outros homens, nem mais difícil que vencer-nos a nós mesmos.

Os bons presumem sempre bem dos outros; os maus, pelo contrário, sempre mal; uns e outros dão o que têm.

Ganhamos frequentes vezes perdoando oportunamente.

O interesse explica os fenómenos mais difíceis e complicados da vida social.

A indiferença ou apatia que em muitos é prova de estupidez pode ser em alguns o produto de profunda sapiência.

A obstinação nas disputas é quase sempre efeito do nosso amor-próprio: julgamo-nos humilhados se nos confessamos convencidos.

Os moços, por falta de experiência, de nada suspeitam, os velhos, por muito experimentados, de tudo desconfiam.

É nas grandes assembleias deliberantes que melhor se conhece a disparidade das opiniões dos homens, e o jogo das paixões e interesses individuais.

Sempre haverá mais ignorantes que sabedores, enquanto a ignorância for gratuita e a ciência dispendiosa.

O nosso orgulho eleva-nos para que nos precipitemos de mais alto.

A força sem inteligência é como o movimento sem direcção.

A inveja de muitos anuncia o merecimento de alguns.

Desprezos há, e de pessoas tais, que honram muito os desprezados.

Não há escravidão pior que a dos vícios e paixões.

Há verdades que é mais perigoso publicar do que foi difícil descobrir.

A imaginação é o paraíso dos afortunados, e o inferno dos desgraçados.

Quando o amor nos visita, a amizade despede-se.

Deixamos de subir alto quando queremos subir de um salto.

Ignorância e preguiça a ninguém enriquecem.

Os homens são geralmente tão avaros do seu dinheiro, como pródigos dos seus conselhos.

Ignorância e pobreza vêm de graça, não custam trabalho nem despesa.

Pouco dizemos quando o interesse ou a vaidade não nos faz falar.

Os velhos invejam a saúde e vigor dos moços, estes não invejam o juízo e a prudência dos velhos: uns conhecem o que perderam, os outros desconhecem o que lhes falta.

Os anarquistas são como os jogadores infelizes ou inábeis, que, baralhando muito as cartas, ou mudando de baralhos, esperam melhorar de fortuna e condição.

O fraco ofendido atraiçoa, o forte e magnânimo perdoa.

Os grandes, os ricos e os sábios sorriem-se: os pequenos, os pobres e os néscios dão gargalhadas.

O nosso amor-próprio é tão exagerado nas suas pretensões, que não admira se quase sempre se acha frustrado nas suas esperanças.

A paciência em muitos casos não é mais senão medo, preguiça ou impotência.

O prazer do crime passa, o arrependimento sobrevem e o remorso perpetua-se.

A tirania não é menos arriscada para o opressor, do que penosa para o oprimido.

A liberdade que nunca é suficiente para os maus é sempre sobeja para os bons.

O luxo, como o fogo, devora tudo e perece de faminto.

A imaginação exagera, a razão desconta, o juízo regula.

Bem curta seria a felicidade dos homens se fosse limitada aos prazeres da razão; os da imaginação ocupam os maiores espaços da vida humana.

É muito provável que a posteridade, para quem tantos apelam, tenha tão pouco juízo como nós e os nossos antepassados.

Os soberbos são ordinariamente ingratos; consideram os benefícios como tributos que se lhes devem.

O velho teme o futuro e abriga-se no passado.

A ignorância, lidando muito, aproveita pouco: a inteligência, diminuindo o trabalho, aumenta o produto e o proveito.

Há duas coisas que não se perdoam entre os partidos políticos: a neutralidade e a apostasia.

As revoluções, que regeneram as nações velhas, arruinam e fazem degenerar as novas.

Não haveria História mais insípida e insignificante que a dos homens, se todos tivessem juízo.

A religião amansa os bravos e alenta os fracos.

Os homens preferem geralmente o engano, que os tranquiliza, à incerteza, que os incomoda.

Fazemos ordinariamente mais festa às pessoas que tememos do que àquelas a quem amamos.

Os homens em sociedade são como as pedras numa abóbada, resistem e ajudam-se simultaneamente.

Nenhum governo é bom para os homens maus.

A avareza contribui muito para a longevidade, pela dieta e abstinência.

É felicidade para os homens que cada um deles a defina a seu modo com variedade, na sua essência e objectos.

Os velhacos têm por admiradores todos os tolos, cujo número é infinito.

A memória dos velhos é menos pronta, porque o seu arquivo é muito extenso.

A democracia é como a tesoura do jardineiro, que decota para igualar; a mediocridade é o seu elemento.

Os homens de pouca inteligência não sabem encarecer a própria capacidade sem rebaixar a dos outros.

Há pessoas que dizem mal de tudo para inculcar que prestam para muito.

O invejoso é tirano e verdugo de si próprio: ele sofre porque os outros gozam.

Para quem não tem juízo os maiores bens da vida convertem-se em gravíssimos males.

Os homens mais orgulhosos são geralmente os mais irritáveis e vingativos.

Os tolos são muitas vezes promovidos a grandes empregos em utilidade e proveito dos velhacos, que melhor os sabem desfrutar.

A covardia preserva frequentes vezes a vida.

Ninguém duvida tanto como aquele que mais sabe.

Todos querem liberdade, muitos a possuem, poucos a merecem.

A experiência que não dói pouco aproveita.

A maledicência é uma ocupação e lenitivo para os descontentes.

Uma grande qualidade ou talento desculpa muitos pequenos defeitos.

A ignorância pasma ou espanta-se, mas não admira.

As paixões são como os vidros de graus, que alteram para mais ou para menos a grandeza e volume dos objectos.

A ambição sujeita os homens a maior servilismo do que a fome e a pobreza.

Louvemos a quem nos louva para abonarmos o seu testemunho.

Há certos passatempos e prazeres ilícitos, que censuramos nos outros, mais por inveja do que por virtude.

Condenamos por ignorantes as gerações pretéritas, e a mesma sentença nos espera nas gerações futuras.

Nunca perdemos de vista o nosso interesse, ainda mesmo quando nos inculcamos desinteressados.

Há povos que são felizes em não ter mais que um só tirano.

As virtudes se harmonizam, os vícios discordam sempre entre si.

Todos se queixam, uns dos males que padecem, outros da insuficiência, incerteza, ou limitação dos bens de que gozam.

O espírito vive de ficções, como o corpo se nutre de alimentos.

A vida humana é uma intriga perene, e os homens são recíproca e simultaneamente intrigados e intrigantes.

Os velhos tornam-se nulos e inúteis à força de prudência e circunspecção.

O arrependimento é ineficaz quando as reincidências são consecutivas.

São incalculáveis os benefícios que provêm da noção de incerteza do dia e ano da nossa morte: esta incerteza corresponde a uma espécie de eternidade.

O velho calcula muito, executa pouco: a mocidade é mais executiva que deliberativa.

Adular os tolos é um meio ordinário de os desfrutar; os velhacos empregam-no eficazmente.

Os abusos, como os dentes, nunca se arrancam sem dores.

Perdoamos mais vezes aos nossos inimigos por fraqueza, que por virtude.

O juízo, por mais vulgar, é menos apreciado que o engenho.

Para bem conhecer os homens, é necessário primeiramente vê-los e praticá-los de perto, e depois estudá-los e meditá-los de longe.

Os pequenos inimigos, ainda que menos danosos, são sempre mais incómodos que os grandes.

Dos especuladores em revoluções muitos se perdem, e poucos prosperam por algum tempo.

Os bens que a ambição promete são como os do amor, melhores imaginados que conseguidos.

Os homens geralmente preferem ser enganados com prazer a ser desenganados com dor e desgosto.

A morte que tira a importância a todos, confere-a a muito poucos.

Onde os homens se persuadem que os governos os devem fazer felizes, e não eles a si próprios, não há governo que os possa contentar nem agradar-lhes.

Em tese geral não há homem feliz sem mérito, nem desgraçado sem culpa.

Os homens não sabem avaliar-se exactamente: cada um é melhor ou pior do que os outros o consideram.

Os homens em geral ganham muito em não serem perfeitamente conhecidos.

Capitulamos quase sempre com os nossos males, quando os não podemos evitar ou remover.

Amigos há de grande valia, que todavia não podem fazer-nos outro bem, senão impedindo pelo seu respeito que nos façam mal.

A inveja, que abrevia ou suprime os elogios, é sempre minuciosa e prolixa na sua crítica e censura.

Não se apaga o fogo com resinas, nem a cólera com más palavras.

Os pobres divertem-se com pouco dinheiro, os ricos enojam-se com muita despesa.

É tão fácil enganar, quanto é difícil desenganar os homens.

O remorso é no moral o que a dor é no físico da nossa individualidade: advertência de desordens que se devem reparar.

Há pessoas que ganham muito em ser lidas, e perdem tudo em ser tratadas: escrevem com estudo e vivem sem ele.

O mundo floresce pela vida, e renova-se pela morte.

A vida humana seria incomportável sem as ilusões e prestígios que a circundam.

Os povos, como as pessoas, variam de opiniões e gostos, e na sua inconstância passam frequentes vezes de um a outro extremo.

O sábio que não fala nem escreve é pior que o avarento que não despende.

Os mais arrojados em falar são ordinariamente os menos profundos em saber.

O fraco ofendido desabafa maldizendo.

É mais difícil sustentar uma grande reputação que granjeá-la ou merecê-la.

O silêncio, ainda que mudo, é frequentes vezes tão venal como a palavra.

A mocidade expande-se para conhecer o mundo e os homens, a velhice contrai-se por havê-los conhecido.

Um grande mérito força o respeito, e afugenta a adulação.

Em saber gozar e sofrer, os animais levam-nos grande vantagem: o seu instinto é mais seguro do que a nossa altiva razão.

Um grande crime glorificado ocasiona e justifica todos os outros crimes e atentados subsequentes.

As crenças religiosas fixam as opiniões dos homens, as teorias filosóficas perturbam-nas e confundem.

Há muita gente que procura apadrinhar com a opinião pública as suas opiniões e disparates pessoais.

Quem não espera na vida futura, desespera na presente.

A virtude é o maior e mais eficaz preservativo dos males da vida humana.

O muito juízo é um grande tirano pessoal.

Pouco espírito inutiliza muito saber.

As verdades mais triviais parecem novas quando se enunciam por um modo mais elegante e desusado.

A sabedoria indigente é menos invejada que a ignorância opulenta.

Somos muitas vezes maldizentes para nos inculcarmos perspicazes.

A prudência é uma arma defensiva que supre ou desarma todas as outras.

Os homens são sempre mais verbosos e fecundos em queixar-se das injúrias do que em agradecer os benefícios.

Há benefícios conferidos com tal rudeza e grosseria que de algum modo justificam os beneficiados da sua ingratidão.

Mudai um homem de classe, condição e circunstâncias, vós o vereis mudar imediatamente de opiniões e de costumes.

A vaidade é talvez um grande condimento da felicidade humana.

A vaidade de muita ciência é prova de pouco saber.

A beneficência é sempre feliz e oportuna quando a prudência a dirige e recomenda.

Os que mais possuem não são os que melhor digerem.

Os arrufos entre amantes podem ser renovações de amor, mas entre os amigos são deteriorações da amizade.

É fácil avaliar o juízo ou a capacidade de qualquer homem, quando se sabe o que ele mais ambiciona.

Como os sábios não adulam os povos, estes também não os promovem.

A impunidade é segura, quando a cumplicidade é geral.

Um povo corrompido não pode tolerar um governo que não seja corrupto.

O tempo pretérito se torna presente pela memória, e o futuro pela nossa imaginação.

O homem que cala e ouve não dissipa o que sabe, e aprende o que ignora.

O poder repartido por muitos não é eficaz em nenhum.

Sofrei privações na mocidade, e sereis regalados na velhice.

Somos em geral demasiadamente prontos para a censura, e demasiadamente tardos para o louvor: o nosso amor-próprio parece exaltar-se com a censura que fazemos, e humilhar-se com o louvor que damos.

Viver é doce; viver é agro: nesta alternativa se passa a vida.

De nada vale a celebridade, quando os grandes crimes também a conseguem.

Com trabalho, inteligência e economia só é pobre quem não quer ser rico.

Os homens probos são menos capazes de dissimulação do que os velhacos.

Os governos fracos fazem fortes os ambiciosos e insurgentes.

A vida humana parece de algum modo tríplice, quando reflectimos que vivemos e sentimos em três tempos, no pretérito, presente e no futuro.

O medo é a arma dos fracos, como a bravura a dos fortes.

A mocidade é um sonho que deleita, a velhice uma vigília que incomoda.

Os ignorantes exageram sempre mais que os inteligentes.

Os velhos erram muitas vezes por demasiadamente prudentes, os moços quase sempre por temerários.

Querendo parecer originais, tornamo-nos ridículos ou extravagantes.

Ninguém mente tanto nem mais do que a História.

A virtude é comunicável, mas o vício contagioso.

O ignorante espanta-se do mesmo que o sábio mais admira.

A virtude remoça os velhos, o vicio envelhece os moços.

Os velhos prezam ordinariamente os mortos e desprezam os vivos.

A filosofia não entorpece a sensibilidade, quando muito pode chegar a regulá-la.

Com pouco nos divertimos, com muito menos nos afligimos.

Muito se perde por falta de inteligência, porém muito mais por preguiça e aversão ao trabalho.

Os acontecimentos políticos humilham e desabonam mais a sabedoria humana que quaisquer outros eventos deste mundo.

Não desespereis na desgraça, ela é frequentes vezes uma transição necessária para a boa fortuna.

Há muita gente infeliz por não saber tolerar com resignação a sua própria insignificância.

O hóspede acanhado é um dobrado incómodo para quem o hospeda.

O louvor fecundo distingue menos que a admiração silenciosa.

Os sábios falam pouco e dizem muito, generalizando e abstraindo resumem tudo.

Ninguém é mais adulado que os tiranos: o medo faz mais lisonjeiros que o amor.

A harmonia da sociedade, como da natureza, consiste e depende da variedade e antagonismo dos seus elementos e carácteres.

A intemperança da língua não é menos funesta para os homens que a da gula.

Ninguém nos aconselha tão mal como o nosso amor-próprio, nem tão bem como a nossa consciência.

Há muitos homens reputados infelizes na nossa opinião, que todavia são felizes a seu modo, segundo as suas ideias.

Ninguém é tão prudente em despender o seu dinheiro, como aquele que melhor conhece as dificuldades de o ganhar honradamente.

Quando moços, contamos tantos amigos quantos conhecidos; porém maduros pela experiência, não achamos um homem de cuja probidade fiemos a execução do nosso testamento.

Os que reclamam para si maior liberdade são os que ordinariamente menos a toleram e permitem nos outros.

Os faladores não nos devem assustar, eles revelam-se: os taciturnos incomodam-nos pelo seu silêncio, e sugerem justas suspeitas de que receiam fazer-se conhecer.

Em vão procuramos a verdadeira felicidade fora de nós, se não possuímos a sua fonte dentro de nós mesmos.

A ignorância dócil é desculpável, a presumida e refractária é desprezível e intolerável.

O avarento é o mais leal e fiel depositário dos bens dos seus herdeiros.

A modéstia doura os talentos, a vaidade os deslustra.

É tão fácil sentir a felicidade como é difícil defini-la.

O homem que não é indulgente com os outros, ainda não se conhece a si próprio.

O silêncio é o melhor salvo conduto da mais crassa ignorância como da sabedoria mais profunda.

Como o espaço compreende todos os corpos, a ambição abrange todas as paixões.

Um homem pode saber mais do que muitos, porém nunca tanto como todos.

Queixam-se muitos de pouco dinheiro, outros de pouca sorte, alguns de pouca memória, nenhum de pouco juízo.

O coração enlutado eclipsa o entendimento e a razão.

As ideias novas são para muita gente como as frutas verdes que travam na boca.

Todas as virtudes são restrições, todos os vícios, ampliações da liberdade.

Os velhos caluniam o tempo presente atribuindo-lhes os males de que padecem, consequências do passado.

Aflige-nos a glória alheia contrastada com a nossa insignificância.

Os homens, para não desagradarem aos maus de quem se temem, abandonam muitas vezes os bons, a quem respeitam.

A sabedoria é geralmente reputada como pobre, porque não se podem ver os seus tesouros.

Ainda que perdoemos aos maus, a ordem moral não lhes perdoa, e castiga a nossa indulgência.

Os povos desencantados tornam-se insubordinados.

A aura popular é como a fumaça, que desaparece em poucos instantes.

Os maldizentes, como os mentirosos, acabam por não merecer crédito ainda que digam verdades.

O homem de palavra é aquele que menos fala.

Deve-se usar da liberdade, como do vinho, com moderação e sobriedade.

A sabedoria humana, bem ponderada, vale sempre menos do que custa.

Os anos mudam as nossas opiniões, da mesma forma que alteram a nossa fisionomia.

Os erros de uns são lições para outros; estes acertam porque aqueles erraram.

Ninguém é grande homem em tudo e em todo o tempo.

O homem que despreza a opinião pública é muito tolo ou muito sábio.

A ambição é um enredo que nos enreda por toda a vida.

O estudo confere ciência, mas a meditação, originalidade.

Há muita gente boa e feliz, porque não tem suficiente liberdade para se fazer má e desgraçada.

Ninguém é tão solícito e diligente em requerer empregos, como aqueles que menos os merecem.

Há crimes felizes que são reputados heróicos e gloriosos.

Os homens crêem tão pouco na autoridade da própria razão que acabam por justificá-la com a alegação da dos outros.

A morte que desordena muitas coisas, coordena muitas outras.

O nosso espírito é essencialmente livre, mas o nosso corpo torna-o frequentes vezes escravo.

Em geral o temor ou medo, e não a virtude, mantêm a ordem entre os homens.

O desejo da glória literária é de todas as ambições a mais inocente, sem ser todavia a menos laboriosa.

Somos enganados mais vezes pelo nosso amor-próprio do que pelos homens.

Somos bons consoladores, e muito maus sofredores.

Há empregos em que é mais fácil ser homem de bem, que parecê-lo ou fazê-lo crer.

O homem de juízo aproveita, o tolo desaproveita a experiência própria.

O medo e o entusiasmo são contagiosos.

Há muita gente que, assim como o eco, repete as palavras sem lhes compreender o sentido.

Agrada-nos o homem sincero, porque nos poupa o trabalho de o estudarmos para o conhecermos.

O que se qualifica em alguns homens como firmeza de carácter não é ordinariamente senão emperramento de opinião, incapacidade de progresso, ou imutabilidade da ignorância.

Ocupados em descobrir os defeitos alheios, esquecemo-nos de investigar os próprios.

O silêncio é o melhor rebuço para quem não se quer revelar, ou fazer-se conhecer.

Há opiniões que, assim como as modas, parecem bem por algum tempo.

A ingratidão dos povos é mais escandalosa que a das pessoas.

Os homens têm geralmente saúde quando não a sabem apreciar, e riqueza quando a não podem gozar.

A incredulidade que é da moda nas pessoas jovens, torna-se o seu tormento na velhice.

É mais fácil cumprir certos deveres, que buscar razões para justificar-nos de o não ter feito.

Aprovamos algumas vezes em público por medo, interesse ou civilidade, o que internamente reprovamos por dever, consciência ou razão.

A inconstância humana é o produto necessário das variações da natureza, das circunstâncias e dos eventos.

O interesse forma as amizades, o interesse dissolve-as.

Há homens que parecem grandes no horizonte da vida privada, e pequenos no meridiano da vida pública.

A igualdade repugna de tal modo aos homens que o maior empenho de cada um é distinguir-se ou desigualar-se.

Quem não desconfia de si, não merece a confiança dos outros.

O interesse sempre transparece no desinteresse que afectamos.

A ignorância, exagerando a nossa pouca ciência, promove a nossa grande vaidade.

Ninguém resiste à lisonja sendo administrada, oportunamente, com a perícia e destreza de um hábil adulador.

Os homens de bem perdem e empobrecem nos mesmos empregos em que os velhacos ganham e se enriquecem.

Nenhum homem é tão bom como o seu partido o apregoa, nem tão mau como o contrário o representa.

As virtudes são económicas, mas os vícios dispendiosos.

O império mais poderoso e fatal que existe é o das circunstâncias.

Os erros de uns são lições para outros, estes acertam porque aqueles erraram.

Folgamos com os erros alheios como se eles justificassem os nossos.

A imperfeição é a causa necessária da variedade nos indivíduos da mesma espécie. O perfeito é sempre idêntico e não admite diferenças por excesso ou por defeito.

O roubo de milhões, enobrece os ladrões.

Os maiores detractores dos governos são aqueles que pretendem governar.

Divertimo-nos com os doidos na hipótese de que o não somos.

Os homens poderiam parecer-nos mais justos ou menos injustos, se não exigíssemos deles mais do que podem ou devem dar-nos.

O amor na mocidade é ocupação, na velhice distracção ou alienação.

A mocidade é temerária; presume muito porque sabe pouco.

Uns homens ocasionam os males e exigem que outros os remedeiem.

Os grandes homens em certas relações são pequenos homens em outras.

Na admissão de uma opinião ou doutrina, os homens consultam primeiramente o seu interesse, e depois a razão ou a justiça, se lhes sobeja tempo.

Não desenganemos os tolos se não queremos ter inumeráveis inimigos.

A mocidade viciosa faz provisão de achaques para a velhice.

Em diversas épocas da nossa vida somos tão diversos de nós mesmos como dos outros homens.

O valor mais resoluto é o que procede da desesperação.

Ordinariamente tratamos com indiferença aquelas pessoas de quem não esperamos bens nem receamos males.

A opinião pública é sujeita à moda, e tem ordinariamente a mesma consistência e duração que as modas.

Não há homem que não deseje ser absoluto, aborrecendo cordialmente o absolutismo em todos os outros.

Quando a consciência nos acusa, o interesse ordinariamente nos defende.

É muito difícil, e em certas circunstâncias quase impossível, sustentar na vida pública o crédito e conceito que merecemos na vida privada.

A duração de um bem não assegura a sua perpetuidade.

Queixamo-nos da fortuna para desculpar a nossa preguiça.

A intolerância irracional de muitos escusa ou justifica a hipocrisia ou dissimulação de alguns.

O nosso amor-próprio exalta-se mais na solidão: a sociedade reprime-o pelas contradições que lhe opõe.

Uma grande reputação é talvez mais incómoda que a insignificância pessoal.

A velhice reflexiva é um grande armazém de desenganos.

Não podemos deixar de ser difusos com os ignorantes, mas devemos ser concisos com os inteligentes.

Quando não podemos gozar a satisfação da vingança, perdoamos as ofensas para merecer ao menos os louvores da virtude.

A vida tem uma só entrada: a saída é por cem portas.

A razão é escrava quando a fé e autoridade são senhoras.

O medo faz mais tiranos que a ambição.

A herança dos sábios tem sempre maior extensão e perpetuidade que a dos ricos: compreende o género humano, e alcança a mais remota posteridade.

Formam-se mais tempestades em nós mesmos que no ar, na terra e nos mares.

Arguimos a vaidade alheia porque ofende a nossa própria.

Os homens de extraordinários talentos são ordinariamente os de menor juízo.

As esperanças, quando se frustram, agravam mais os nossos infortúnios.

A virtude resplandece na adversidade, como o incenso reacende sobre as brasas.

Descontentes de tudo, só nos contentamos com o nosso próprio juízo, por mais limitado que seja.

Os homens disfarçam-se, tal como as mulheres se enfeitam, para agradarem ou enganarem.

Há muitas ocasiões em que os ricos e poderosos invejam a condição dos pobres e insignificantes.

Os homens sem mérito algum, brochados de insígnias e de ouro, são comparáveis aos maus livros ricamente encadernados.

O nosso amor-próprio é muitas vezes contrário aos nossos interesses.

Ter privança com os que governam é contrair responsabilidade no mal que fazem, sem partilhar o louvor do bem que operam.

Quem desconfia de si próprio, menos pode confiar nos outros.

A constância nas nossas opiniões seria geralmente embaraço e oposição ao progresso e melhoramento da nossa inteligência.

Os governos tendem à monarquia, como os corpos gravitam para o centro da terra.

Afectamos desprezar os bens que não podemos conseguir.

Muitos homens são louvados porque são mal conhecidos.

A impaciência, quando não remedeia os nossos males, agrava-os.

A beleza é uma letra que se vence à vista, a sabedoria tem o seu vencimento a prazos.

Não se reconhece tanto a ignorância dos homens no que confessam ignorar, como no que blasonam de saber melhor.

A nossa imaginação gera fantasmas que nos espantam durante toda a nossa vida.

A credulidade e confiança de muitos tolos faz o triunfo de uns poucos velhacos.

É necessário subir muito alto para bem descortinar as ilusões e angústias da ambição, poder e soberania.

O prazer que mais deleita é o que provém da satisfação de uma necessidade mais incómoda e urgente.

O ateísmo é tão raro quanto é vulgar o politeísmo e a idolatria.

A opinião da nossa importância nos é tão funesta como vantajosa e segura a desconfiança de nós mesmos.

O meio mais eficaz de nos vingarmos dos nossos inimigos é fazendo-nos mais justos e virtuosos do que eles.

Os homens fingem desinteresse para melhor promoverem os seus interesses.

Somos muito generosos em oferecer por civilidade o que bem sabemos que por civilidade se não há-de aceitar.

O trabalho é amargo, mas os seus frutos são doces e aprazíveis.

Pouco saber exalta o nosso amor-próprio, muito saber humilha-o.

Nas revoluções políticas os povos ordinariamente mudam de senhores sem mudarem de condição.

É tal a incapacidade pessoal de alguns homens, que a fortuna, empenhada em sublimá-los, não pode conseguir o seu propósito.

A alegria do pobre, ainda que menos durável, é sempre mais intensa que a do rico.

Nobre e ilustrada é a ambição que tem por objeto a sabedoria e a virtude.

As opiniões de um século causam riso ou lástima em outros séculos.

Em matérias e opiniões políticas os crimes de um tempo são algumas vezes virtudes em outro.

O pródigo pode ser lastimado, mas o avarento é quase sempre aborrecido.

Ambicionando o louvor e admiração dos outros homens, provocamos frequentes vezes a sua inveja e aversão.

Disputa-se sobre tudo neste mundo; argumento irrefragável do nosso pouco saber.

A ignorância vencível no homem é limitada, a invencível infinita.

Sucede aos homens como às substâncias materiais, as mais leves e menos densas ocupam sempre os lugares superiores.

O orgulho pode parecer algumas vezes nobre e respeitável, a vaidade é sempre vulgar e desprezível.

A sabedoria é sintética; ela expressa-se por máximas, sentenças e aforismos.

Prezamos e avaliamos a vida muito mais no seu extremo que no seu começo.

A liberdade é a que nos constitui entes morais, bons ou maus; é um grande bem para quem tem juízo; e para quem o não tem, um mal gravíssimo.

É necessário saber muito para poder admirar muito.

Amamo-nos sobre tudo, e aos outros homens por amor de nós.

A vitória de uma fação política é ordinariamente o princípio da sua decadência pelos abusos que a acompanham.

As desgraças que vigoram os homens probos e virtuosos, enervam e desalentam os maus e viciosos.

Ambos se enganam, o velho quando louva somente o passado, o moço quando só admira o presente.

Quando o interesse é o avaliador dos homens, das coisas e dos eventos, a avaliação é quase sempre imperfeita e pouco exata.

A fruição desencanta muitos bens e prazeres sensuais, que a imaginação, os desejos e as esperanças figuravam encantadores.

O entusiasmo é um género de loucura que conduz algumas vezes ao heroísmo, e muitas outras a grandes crimes e malfeitorias.

Unir para desunir, fazer para desfazer, edificar para demolir, viver para morrer, eis aqui a sorte e condição de natureza humana.

Afetamos desprezar as injúrias que não podemos vingar.

A vida reluz nos olhos, a razão nas palavras e ações dos homens.

Os velhos que seguem as modas, presumem rejuvenescer com elas.

Não há inimigo desprezível, nem amigo totalmente inútil.

Há muitas ocasiões em que a mesma prudência recomenda o aventurar-nos.

A força é hostil a si própria, quando a inteligência a não dirige.

Na mocidade buscamos as companhias, na velhice evitamo-las: nesta idade conhecemos melhor os homens e as coisas.

A solidão liberta-nos da sujeição das companhias.

Se a vida é um mal, por que tememos morrer; e se um bem, porque a abreviamos com os nossos vícios?

A opinião que domina é sempre intolerante, ainda quando se recomenda por muito liberal.

Ordem social é limitação de liberdade; desordem, liberdade ilimitada.

O pobre lastima-se de querer e não poder, o avarento ufana-se de que pode, mas não quer.

Há pessoas que, assim como as modas, parecem bem por algum tempo.

É quando menos se crê em milagres que os povos os exigem dos que governam.

Os bons tremem quando os maus não temem.

A ignorância que deverá ser acanhada, conhecendo-se, é audaz e temerária quando não se conhece.

A riqueza não acompanha por muito tempo os viciosos.

Ninguém pode se queixar da falta de um amigo, podendo ter um cão.

O mundo intelectual deleita a poucos, o material agrada a todos.

Sem a crença em uma vida futura, a presente seria inexplicável.

Os que menos sabem governar-se são os que mais ambicionam governar os outros.

A leitura deve ser para o espírito como o alimento para o corpo, moderada, sã e de boa digestão.

O dia descobre a terra: a noite descortina o céu.

A aquisição de um amigo leal e constante não é difícil, quando o buscamos na raça animal dos cães.

Niguém pode se queixar de não ter um amigo, podendo ter um cão.

Para bem julgar não basta sempre ver, é necessário olhar; nem basta ouvir, é conveniente escutar.

O avarento, por um mau cálculo, sofre de presente os males que receia no futuro.

A preguiça enfada e quebranta mais que o trabalho regular.

O que mais sabe, menos sofre: a sabedoria infinita é impassível.

De todas as paixões do homem, depois de satisfeitas as que são comuns aos brutos, nenhuma tem mais veemência e força para impulsioná-lo, do que o desejo de se distinguir e ser superior aos outros.

A nossa imaginação é mais leviana,extravagante e indecente do que o nosso procedimento.