Advogado e poeta brasileiro, Manoel de Barros é um dos principais autores contemporâneos do país. O Pantanal é tema frequente de seus escritos.

Advogado e poeta brasileiro, Manoel de Barros é um dos principais autores contemporâneos do país. O Pantanal é tema frequente de seus escritos.

Frases e Pensamentos

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    "Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças, nem barômetros. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. —"

        Manoel de Barros

    "No descomeço era o verbo.
    Só depois é que veio o delírio do verbo.
    O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
    criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
    A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
    para cor, mas para som.
    Então se a criança muda a função de um verbo, ele
    delira.
    E pois.
    Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
    nascimentos —
    O verbo tem que pegar delírio."

        Manoel de Barros

    "Que a palavra parede não seja símbolo
    de obstáculos à liberdade
    nem de desejos reprimidos
    nem de proibições na infância
    etc. (essas coisas que acham os
    reveladores de arcanos mentais)
    Não.
    Parede que me seduz é de tijolo, adobe
    preposto ao abdômen de uma casa.
    Eu tenho um gosto rasteiro de
    ir por reentrâncias
    baixar em rachaduras de paredes
    por frinchas, por gretas - com lascívia de hera.
    Sobre o tijolo ser um lábio cego.
    Tal um verme que iluminasse."

        Manoel de Barros

    "Eu sou o medo da lucidez.
    Choveu na palavra onde eu estava.
    Eu via a natureza como quem a veste.
    Eu me fechava com espumas.
    Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
    Peguei umas ideias com as mãos - como a peixes.
    Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
    Aquele arame do horizonte que separava o morro do céu estava rubro.
    Um rengo estacionou entre duas frases.
    Um descor
    Quase uma ilação do branco.
    Tinha um palor atormentado a hora.
    O pato dejetava liquidamente ali."

        Manoel de Barros

    "O fingidor
    O ermo que tinha dentro do olho do menino era um
    defeito de nascença, como ter uma perna mais curta.
    Por motivo dessa perna mais curta a infância do
    menino mancava.
    Ele nunca realizava nada.
    Fazia tudo de conta.
    Fingia que lata era um navio e viajava de lata.
    Fingia que vento era cavalo e corria ventena.
    Quando chegou a quadra de fugir de casa, o menino
    montava num lagarto e ia pro mato.
    Mas logo o lagarto virava pedra.
    Acho que o ermo que o menino herdara atrapalhava
    as suas viagens.
    O menino só atingia o que seu pai chamava de ilusão."

        Manoel de Barros

    "Nasci para administrar o à-toa, o em vão, o inútil. Pertenço de fazer imagens. Opero por semelhanças.
    Retiro semelhanças de pessoas com árvores, de pessoas com rãs, de pessoas com pedras, etc.
    Retiro semelhanças de árvores comigo.
    Não tenho habilidade pra clarezas. Preciso de obter sabedoria vegetal.(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
    E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral."

        Manoel de Barros

    "...que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós."

        Manoel de Barros

    "Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.

    Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.

    No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de

    sol, de céu e de lua mais do que na escola.

    No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo

    mais do que os padres lhes ensinavam no internato.

    Aprendeu com a natureza o perfume de Deus

    seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul

    E descobriu que uma casa vazia de cigarra esquecida

    no tronco das árvores só serve pra poesia.

    No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.

    Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,

    envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros

    e tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.

    Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore

    porque fez amizade com muitas borboletas."

        Manoel de Barros

    "Por pudor sou impuro."

        Manoel de Barros

    "Escrever nem uma coisa
    Nem outra -
    A fim de dizer todas -
    Ou, pelo menos, nenhumas.

    Assim,
    Ao poeta faz bem
    Desexplicar -
    Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes."

        Manoel de Barros

    "A minha independencia tem algemas"

        Manoel de Barros

    "Tudo que eu não invento é falso"

        Manoel de Barros

    "Sou água que corre entre pedras.
    Liberdade caça jeito."

        Manoel de Barros

    "A palavra amor anda vazia. Não tem gente dentro dela."

        Manoel de Barros

    "Quando as aves falam com as pedras"

        Manoel de Barros

    "As coisas muito claras me noturnam."

        Manoel de Barros

    "Do lugar onde estou já fui embora"

        Manoel de Barros

    "Experimentando a manhã dos galos


    ... poesias, a poesia é

    - é como a boca
    dos ventos
    na harpa

    nuvem
    a comer na árvore
    vazia que
    desfolha a noite

    raíz entrando
    em orvalhos...

    floresta que oculta
    quem aparece
    como quem fala
    desaparece na boca

    cigarra que estoura o
    crepúsculo
    que a contém

    o beijo dos rios
    aberto nos campos
    espalmando em álacres
    os pássaros

    - e é livre
    como um rumo
    nem desconfiado..."

        Manoel de Barros

    "O rio que fazia uma volta
    atrás da nossa casa
    era a imagem de um vidro mole...

    Passou um homem e disse:
    Essa volta que o rio faz...
    se chama enseada...

    Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
    que fazia uma volta atrás da casa.
    Era uma enseada.
    Acho que o nome empobreceu a imagem."

        Manoel de Barros

    "Difícil fotografar o silêncio.
    Entretanto tentei. Eu conto:
    Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,.
    Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
    O silêncio era um carregador?
    Estava carregando o bêbado.
    Fotografei esse carregador.
    Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
    Fotografei a existência dela.
    Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
    Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
    Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
    Mais justa para cobrir sua noiva.
    A foto saiu legal."

        Manoel de Barros

    "Prezo insetos mais que aviões.
    Prezo a velocidade
    das tartarugas
    mais que a dos mísseis.
    Tenho em mim
    esse atraso de nascença.
    Eu fui aparelhado
    para gostar de passarinhos.
    Tenho abundância
    de ser feliz por isso.
    Meu quintal
    É maior do que o mundo."

        Manoel de Barros

    "Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
    Com janelas de aurora e árvores no quintal -
    Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
    E ao crepúsculo fiquem cinzentas
    como a roupa dos pescadores.



    O que desejo é apenas uma casa.
    Em verdade, Não é necessário que seja azul,
    nem que tenha cortinas de rendas.
    Em verdade, nem é necessário que tenha cortinas.
    Quero apenas uma casa em uma rua sem nome.



    Sem nome, porém honrada, Senhor.
    Só não dispenso a árvore,
    Porque é a mais bela coisa que
    nos destes e a menos amarga.
    Quero de minha janela sentir
    os ventos pelos caminhos, e ver o sol

    Dourando os cabelos negros
    e os olhos de minha amada.



    Também a minha amada não dispenso, meu Senhor.
    Em verdade ele é a parte mais importante deste poema.
    Em verdade vos digo, e bastante constrangido,
    Que sem ela a casa também eu não queria,
    e voltava pra pensão.



    Ao menos, na pensão, eu tenho meus amigos
    E a dona é sempre uma senhora
    do interior que tem uma filha alegre.
    Eu adoro menina alegre,
    e daí podeis muito bem deduzir

    Que para elas eu corro nas minhas horas de aflição.



    Nas minhas solidões de amor e
    nas minhas solidões do pecado
    Sempre fujo para elas, quando não fujo delas, de noite,
    E vou procurar prostitutas. Oh, Senhor vós bem sabeis
    Como amarga a vida de um
    homem o carinho das prostitutas!



    Vós sabeis como tudo amarga
    naquelas vestes amassadas
    Por tantas mãos truculentas ou tímidas ou cabeludas
    Vós bem sabeis tudo isso, e portanto permiti
    Que eu continue sonhando com a minha casinha azul.



    Permiti que eu sonhe com
    a minha amada também, porque:
    - De que me vale ter casa sem ter
    mulher amada dentro?
    Permiti que eu sonhe com uma que ame
    andar sobre os montes descalça
    E quando me vier beijar faça-o
    como se vê nos cinemas...



    O ideal seria uma que amasse fazer comparações
    de nuvens com vestidos, e peixes com avião;
    Que gostasse de passarinho pequeno,
    gostasse de escorregar no corrimão da escada
    E na sombra das tardes viesse pousar
    Como a brisa nas varandas abertas...



    O ideal seria uma menina boba:
    que gostasse de ver folha cair de tarde...
    Que só pensasse coisas leves que nem existem na terra,
    E ficasse assustada quando ao cair da noite
    Um homem lhe dissesse palavras misteriosas ...
    O ideal seria uma criança sem dono,
    que aparecesse como nuvem,
    Que não tivesse destino nem nome -
    senão que um sorriso triste
    E que nesse sorriso estivessem encerrados
    Toda a timidez e todo o espanto
    das crianças que não têm rumo..."

        Manoel de Barros

    "Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina"

        Manoel de Barros

    "Onde eu não estou, as palavras me acham."

        Manoel de Barros

    "Liberdade busca jeito. Sou água que corre entre pedras. Quem anda no trilho é trem de ferro"

        Manoel de Barros

    "“(…) E, aquele
    Que não morou nunca em seus próprios abismos
    Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
    Não foi marcado. Não será exposto
    Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.”"

        Manoel de Barros

    "No osso da fala dos loucos têm lírios."

        Manoel de Barros

    "Meu fado é de não entender quase tudo.
    Sobre o nada eu tenho profundidades."

        Manoel de Barros

    "A inércia é o meu ato principal."

        Manoel de Barros

    "Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário."

        Manoel de Barros

Biografia


Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT), em 1916. Ainda novo, foi morar em Corumbá (MS) e mais tarde iria para o Rio de Janeiro, para fazer a faculdade de Direito. Viajou pela Bolívia e Peru, morou em Nova York, captou em cada um dos lugares por onde passava um pouco da essência da liberdade, que aplicaria em suas poesias.

Apesar de ter publicado o primeiro livro em 1937, o “Poemas Concebidos Sem Pecado”, o primeiro livro que escreveu acabou nas mãos de um policial. O jovem Manoel fez a pichação “Viva o comunismo”, em um monumento, e a polícia foi em busca do autor da ousadia. Para defendê-lo, a dona da pensão em que vivia disse ao policial que o “criminoso” em questão era autor de um livro. O policial pediu para ver e levou o livro. Chamava-se “Nossa Senhora de Minha Escuridão" e Manoel nunca o teve de volta.

Formou-se em Direito, em 1941, na cidade do Rio de Janeiro. E já no ano seguinte publicou “Face Imóvel” e em 1946, “Poesias”.

Na década de 1960 foi para Campo Grande (MS) e lá passou a viver como fazendeiro. Manoel consagrou-se como poeta nas décadas de 1980 e 1990, quando Millôr Fernandes publicava suas poesias nos maiores jornais do país.

Manoel é normalmente classificado na Geração de 45 da literatura. Trabalha bastante com a temática da natureza, mais especificamente, o Pantanal. Mistura estilos e aborda o tema regional com originalidade.

Outros livros do autor são: ”Compêndio para Uso dos Pássaros”, de 1961, “Gramática Expositiva do Chão”, de 1969, “Matéria de Poesia”, de 1974, “O Guardador de Águas”, de 1989, “Retrato do Artista Quando Coisa”, de 1998, “O Fazedor de Amanhecer”, de 2001, entre outros.

Alguns dos prêmios que o autor recebeu: “Prêmio Orlando Dantas”, em 1960, ”Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal”, em 1969. “Prêmio Nestlé”, em 1997 e o “Prêmio Cecília Meireles” (literatura/poesia), em 1998.

"Onde não puderes amar, não te demores..."

    Augusto Branco

"Eu não desisti...apenas não insisto mais."

    Cazuza

"As coisas muito claras me noturnam."

    Manoel de Barros

"Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por um sonho."

    Carlos Drummond de Andrade

"Os mentirosos estão sempre prontos a jurar."

    Vittorio Alfieri

"Soltar os demônios pode ser muito educativo em certas ocasiões."

    Deepak Chopra

"O sexo é o alívio da tensão. O amor é a causa"

    Woody Allen

"Todo o homem é culpado do bem que não fez."

    Voltaire

"A maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que é infeliz."

    Fiódor Dostoiévski

"Vento

Pastor das nuvens."

    Mario Quintana