O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem..

Sobre o Autor

Guimarães Rosa

Renomado escritor brasileiro, que também trabalhou como médico e diplomata. Suas principal obra, Grande Sertão: Veredas, é considerada um marco em virtude da linguagem inovadora utilizada.

Mais frases de Guimarães Rosa

É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado.

Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?

o coqueiro coqueirando as manobras do vermelho no branqueado do azul

outrarte o ouro esboço do crepúsculo

e um vaga-lume lanterneiro que riscou um psiu de luz

para onde nos atrai o azul?

o arrozal lindo por cima do mundo no miolo da luz

tênue tecido alaranjado passando em fundo preto da noite à luz

tatalou e caiu com onda espiralada fragor de entrudo

mar não tem desenho o vento não deixa o tamanho...

verdes vindo à face da luz na beirada de cada folha a queda de uma gota

o bambual se encantava parecia alheio uma pessoa

sussurro sem som onde a gente se lembra do que nunca soube

alvor avançavam parados dentro da luz

entre as folhas de um livro-de-reza um amor-perfeito cai

os aloendros em fila nos separavam do mundo

há qualquer coisa no ar além dos aviões da Panair...

na barra sul do horizonte estacionavam cúmulus esfiapando sorveret de coco

Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.

Viver é etecetera.

Felicidade se acha é em horinhas de descuido

O mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando.

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem..

Saudade é ser, depois de ter.

Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando.

Quem sabe direito o que uma pessoa é?Antes sendo:julgamento é sempre defeituoso,porque o que a gente julga é o passado.

Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.

Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

Quem muito se evita, se convive

O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há.Mas o demônio não precisa de existir para haver.

Deus come escondido, e o Diabo sai por toda a parte lambendo o prato.

Infelicidade é uma questão de prefixo.

Viver é um descuido prosseguido.

Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.

Mas, onde é bobice a qualquer resposta, é aí­ que a pergunta se pergunta.

O rio não quer chegar, mas ficar largo e profundo...

Para ódio e amor que dói, amanhã não é consolo.

Ah, mas a fé nem vê a desordem ao redor...

Sorte é isto. Merecer e ter.

Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.

(...) a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é.

E, outra coisa, o Diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro - dá gosto! A força dele, quando quer - moço ! - me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho - assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.

Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possí­vel, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar, é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo.

Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? Este mundo é muito misturado.

Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma coisa só - a inteira - cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber?

-Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia, lá para cima - me disseram. Mas, de repente chegou neste sertão, viu tudo diverso diferente, o que nunca tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para nada... Serviu algum?

Viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa... O mais difí­cil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.

Os outros têm uma espécie de cachorro farejador, dentro de cada um, eles mesmos não sabem. Isso feito um cachorro, que eles têm dentro deles, é que fareja, todo o tempo, se a gente por dentro da gente está mole, está sujo ou está ruim, ou errado... As pessôas, mesmas, não sabem. Mas, então, elas ficam assim com uma precisão de judiar com a gente...

O calor do dia abrandava. Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha muita velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a idéia da gente não dá para se entender - e acho que é por isso que a gente morre. De Diadorim ter vindo, e ficar esbarrado ali, esperando meu acordar e me vendo meu dormir, era engraçado, era para se dar a feliz risada. Não dei. Nem pude nem quis. Apanhei foi o silêncio dum sentimento, feito um decreto: - Que você em sua vida toda toda por diante, tem de ficar para mim, Riobaldo, pegado em mim, sempre!... - que era como se Diadorim estivesse dizendo.

Mãe, o que é que é o mar, Mãe? Mar era longe, muito longe dali, espécie duma lagoa enorme, um mundo d´água sem fim, Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. Pois, Mãe, então mar é o que a gente tem saudade?

O amor? Pássaro que põe ovos de ferro.

Viver para odiar uma pessoa é o mesmo que passar uma vida inteira dedicado à ela

No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade.

Cada um rema sozinho uma canoa que navega um rio diferente, mesmo parecendo que esta pertinho.

As pessoas não morrem, ficam encantadas!

Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

O de hoje é um dia que comprei fiado.

Quando eu morrer, que me enterrem na beira do chapadão, contente com minha terra, cansado de tanta guerra, crescido de coração.

De sofrer e de amar, a gente não se desfaz.

Nunca digas que esqueceste um amor diga apenas que consegue falar nele sem chorar, pois o amor é... inesquecível

O trágico não vem a conta-gotas

Todo abismo é navegável a barquinhos de papel

Eu não sentia nada. Só uma transformação pesável. Muita coisa importante falta nome.

Natureza da gente não cabe em certeza nenhuma.

Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era - ficar sendo!

Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o lugar. Viver é muito perigoso...

Sertão: estes seus vazios.

Tem coisa e cousa, e o ó da raposa...

Eu quase não sei de nada, mas desconfio de muita coisa

O corpo não traslada, mas muito sabe, adivinha se não entende.

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem...

Viver é um descuido prosseguido. Mas quem é que sabe como? Viver... o senhor já sabe: viver é etcétera...

Viver é etcétera!

Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente - o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.

O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta, esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

1. Sou figura reduzida e de pouco aparecimento. 2. Quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa. 3. Quem rala no aspro não fantaseia.

Cada criatura é um rascunho a ser retocado sem cessar.

Viver é um rasgar-se e remendar-se.

Viver — não é? — é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo.

Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração…

Porque eu só preciso de pés livres, de mãos dadas, e de olhos bem abertos.

Mas quem é que sabe como? Viver... o senhor já sabe: viver é etcétera...

A água de boa qualidade é como a saúde ou a liberdade: só tem valor quando acaba.

Tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparos de avisar

Merece de a gente aproveitar o que vem e que se pode, o bom da vida é só de chuvisco.

Esperar é reconhecer-se incompleto.

Viver é uma questão de rasgar-se e remendar-se

Rezar muito e ter fé. Porque as coisas estão todas amarradinhas em Deus.

O rio não quer chegar a lugar algum, só quer ser mais profundo

A vida é feita de poucas certezas e muitos dar-se um jeito.

Tudo é real,por que tudo é inventado.

Se a gente puder ir devagarinho como precisa, e ninguém não gritar com a gente para ir depressa demais, então eu acho que nunca que é pesado.

Sigo à risca. Me descuido e vou … Quebro a cara. Quebro o coração. Tropeço em mim. Me atolo nos cinco sentidos.

A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

As coisas mudam no devagar depressa dos tempos.

Julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.

A culpa minha, maior, é meu costume de curiosidade de coração. Isso de estimar os outros, muito ligeiro, defeito esse que me entorpece

O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza...

Vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro.

O fato se dissolve. As lembranças são outras distâncias. Eram coisas que paravam já, à beira de um grande sono. A gente cresce sempre, sem saber para onde.

Eu eu? Eu eu?

Afinal, há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte.

É e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é.

Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi. Aqui, a estória se acabou. Aqui, a estória acabada. Aqui, a estória acaba.

Posso me esconder de mim?

(…) Alegre, embora física e metafisicamente só, sentia o universo. Chovia-se-lhe.

Eu sou é eu mesmo, divêrjo de todo mundo. Eu quase que não sei de nada, mas desconfio de muita coisa.

O que leva o homem para as más ações estranhas, é estar diante do que é seu, por direito, e não sabe...Não sabe...Não sabe...

Quem desconfia fica sábio.

Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jó Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se.

Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam-se. Deu-se a entrada dos demônios.

Sem malícia, com paciência, sem insistência, principalmente.

O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam.

Significa que posso não ter muito conhecimento e/ou experiência, porém desconfio de como as coisas sucedem já que possuo imaginação. (Riobaldo - Grande Sertão: Veredas)

Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas que sempre passa. E você ainda pode ter um muito pedaço bom de alegria (...) Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua. (Guimarães Rosa)

Vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro.