Sobre o Autor

Jean de la Bruyere

Jean de la Bruyere foi um célebre ensaísta e moralista francês. Sua obra "Os caracteres" é considerada um fiel retrato moral.

A verdadeira inteligência consiste em dar valor à dos outros.

O interior das famílias é muitas vezes perturbado por desconfianças, ciúmes e antipatias, e enganam-nos as aparências de satisfação, calma e cordialidade, fazendo-nos supor uma paz que não existe; poucas há que ganham em ser aprofundadas.

É a profunda ignorância que inspira o tom dogmático.

A demasiada atenção que se emprega em observar os defeitos dos outros, faz que se morra sem ter tido tempo de conhecer os próprios.

A modéstia é para o mérito o que as sombras são para um quadro. Dão-lhe forma e relevo.

O homem honrado nunca jura; contenta-se com dizer: isto é ou isto não é. O seu carácter jura por ele.

As crianças não têm passado, nem futuro, e coisa que nunca nos acontece, gozam o presente.

A polidez nem sempre inspira a bondade, a equidade, a complacência, a gratidão; mas, pelo menos, dá-lhes a aparência e faz aparecer o homem por fora como deveria ser por dentro.

Todo o espírito que existe no mundo é inútil para quem não o tem; ele não tem perspectivas sobre nada e é incapaz de aproveitar as dos outros.

Entre todas as expressões diferentes que pode tomar cada um dos nossos pensamentos só há uma que seja boa.

Depois do espírito de discernimento, o que há de mais raro no mundo são os diamantes e as pérolas.

Cada virtude apenas requer um homem; apenas a amizade requer dois.

A tortura é uma invenção maravilhosa e absolutamente segura para causar a perda de um inocente.

As coisas maiores só devem ser ditas com simplicidade; a ênfase estraga-as. As menores precisam de ser ditas com solenidade; elas só se sustentam pelo modo de expressão, pela atitude e pelo tom.

O homem que diz não ter nascido feliz, podia ao menos vir a sê-lo mediante a felicidade dos amigos e parentes. A inveja priva-o deste ultimo recurso.

Pensar só em si e no presente é uma fonte de erro em política.

Arrependemo-nos raramente de falar pouco, e muito frequentemente de falar demais: máxima usada e trivial, que todo o mundo sabe e que ninguém pratica.

Quem afirma que não é feliz, poderia sê-lo com a felicidade do próximo, se a inveja lhe não tirasse esse último recurso.

Não poder suportar todos os maus carácteres de que a sociedade está cheia não revela bom carácter: e isso é indispensável no comércio das peças de ouro e da moeda.

O dever dos juizes é fazer justiça; a sua profissão, a de deferi-la. Alguns conhecem o próprio dever e exercem a profissão.

O ciúme nunca está isento de certa espécie de inveja, e frequentemente se confundem essas duas paixões.

A gentileza faz com que o homem pareça exteriormente, como deveria ser interiormente.

É alcançar muito de um amigo se, tendo subido ao poder, ainda se recorda de nós.

Ser-se livre não é nada fazer, é ser-se o único árbitro daquilo que se faz ou daquilo que se não faz.

Se a pobreza é a mãe dos crimes, a falta de espírito é o seu pai.

Somos tão responsáveis por amar sempre como o somos por nunca amar.

Um homem que acaba de arranjar um emprego já não faz uso do espírito e da razão para regrar a sua conduta e as suas atitudes perante os outros: toma de empréstimo a regra do seu posto e da sua situação; donde o esquecimento, a altivez, a arrogância, a dureza e a ingratidão.

Entre todas as diferentes expressões que podem reproduzir um único dos nossos pensamentos só há uma que seja a boa. Nem sempre a encontramos ao falar ou escrever; entretanto, o fato é que ela existe, que tudo o que não é ela é fraco e não satisfaz a um homem de espírito que deseja fazer-se entender.

O amor começa pelo amor; não se pode passar de uma forte amizade senão para um amor fraco.

O prazer mais delicado é o de dar prazer a alguém.