Sobre o Autor

Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe (1809 - 1849) foi um escritor, romancista, poeta, crítico literário e editor americano.

ALONE / Só Desde a infância eu tenho sido Diferente doutros – tenho visto Doutro modo – minhas paixões Tinham uma outra fonte e Minhas mágoas outra origem - No mesmo tom não despertava O meu coração para a alegria - O que amei – eu amei só. Então – na infância – a aurora Da vida atormentada – estava Em cada nicho de bem e mal O mistério que me prendia - Da correnteza, da fonte - Da escarpas rubras do monte - Do sol que me rodeava Em pleno outono dourado - Do relâmpago nos céus Quando sobre mim passava - Do trovão, da tormenta - E a nuvem tem a forma (Quando o resto do céu é azul) Dum demônio aos meus olhos. .

(...)Entretanto, nem por isso sou menos capaz de definir essa sensação, de analisá-la, ou mesmo de ter dela uma percepção integral. Reconheci-a, repito-o, algumas vezes no aspecto duma vinha rapidamente crescida, na contemplação de uma falena, duma borboleta, duma crisálida, duma corrente de água precipitosa. Senti-a no oceano, na queda dum meteoro. Senti-a nos olhares de pessoas extraordinariamente velhas. E há uma ou duas estrelas no céu (uma especialmente, uma estrela de sexta grandeza dupla e mutável, que se encontra perto da grande estrela da Lira) que, vistas pelo telescópio, me deram aquela sensação. Sentindo-me invadido por ela ao ouvir certos sons de instrumentos de corda e, não poucas vezes, ao ler certos trechos de livros. Entre numerosos outros exemplos. (...)

Experience has shown, and a true philosophy will always show, that a vast, perhaps the larger portion of the truth arises from the seemingly irrelevant.

Tudo o que amei, amei sozinho.

We loved with a love that was more than love.

Science has not yet taught us if madness is or is not the sublimity of the intelligence.

Entretanto, nem por isso sou menos capaz de definir essa sensação, de analisá-la, ou mesmo de ter dela uma percepção integral. Reconheci-a, repito-o, algumas vezes no aspecto duma vinha rapidamente crescida, na contemplação de uma falena, duma borboleta, duma crisálida, duma corrente de água precipitosa. Senti-a no oceano, na queda dum meteoro. Senti-a nos olhares de pessoas extraordinariamente velhas. E há uma ou duas estrelas no céu (uma especialmente, uma estrela de sexta grandeza dupla e mutável, que se encontra perto da grande estrela da Lira) que, vistas pelo telescópio, me deram aquela sensação. Sentindo-me invadido por ela ao ouvir certos sons de instrumentos de corda e, não poucas vezes, ao ler certos trechos de livros. Entre numerosos outros exemplos, lembro-me de alguma coisa num de Joseph GlanvilI que (talvez simplesmente por causa de sua singularidade, quem sabe lá?) jamais deixou de inspirar-me a mesma sensação: E ali dentro está a vontade que não morre. Quem conhece os mistérios da vontade, bem como seu vigor? Porque Deus é apenas uma grande vontade, penetrando todas as coisas pela qualidade de sua aplicação. O homem não se submete aos anjos nem se rende inteiramente à morte, a não ser pela fraqueza de débil vontade.

Que essa palavra nos aparte, ave ou inimiga! eu gritei, levantando - Volta para a tua tempestade e para a orla das trevas infernais! Não deixa pena alguma como lembrança dessa mentira que tua alma aqui falou! Deixa minha solidão inteira! - sai já desse busto sobre minha porta! Tira teu bico do meu coração, e tira tua sombra da minha porta! E o Corvo disse: Nunca mais. O Corvo

Eu nunca fui desde a infância jamais semelhante aos outros. Nunca vi as coisas como os outros as viam. Nunca logrei apaziguar minhas paixões na fonte comum. Nunca tampouco extrair dela os meus sofrimentos. Nunca pude em conjunto com os outros despertar o meu peito para doces alegrias, E quando eu amei o fiz sempre sozinho. Por isso, na aurora da minha vida borrascosa evoquei como fonte de todo o bem o todo o mal. O mistério que envolve, ainda e sempre, Por todos os lados, o meu cruel destino...

Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como os outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar das fontes igual à deles; e era outro o canto, que acordava o coração de alegria Tudo o que amei, amei sozinho

O CORVO Certa vez, quando, à meia- noite eu lia, débil, extenuado, um livro antigo e singular, sobre doutrinas do passado, meio dormindo - cabeceando - ouvi uns sons trêmulos, tais como se leve, bem de leve, alguém batesse à minha porta. É um visitante, murmurei, que bate leve à minha porta. Apenas isso, e nada mais. Bem me recordo! Era em dezembro. Um frio atroz, ventos cortantes... Morria a chama no fogão, pondo no chão sombras errantes. Eu nos meus livros procurava - ansiando as horas matinais - um meio (em vão) de amortecer fundas saudades de Lenora, - bela adorada, a quem, no céu, os querubins chamam Lenora, e aqui, ninguém chamará mais. E das cortinas cor de sangue, um arfar soturno, e brando, e vago causou-me horror nunca sentido, - horror fantástico e pressago. Então, fiquei (para acalmar o coração de sustos tais) a repetir: É alguém que bate, alguém que bate à minha porta; Algum noturno visitante, aqui batendo à minha porta; é isso! é isso e nada mais! Fortalecido já por fim, brado, já perdendo a hesitação: Senhor! Senhora! quem sejais! Se demorei peço perdão! Eu dormitava, fatigado, e tão baixinho me chamais, bateis tão manso, mansamente, assim de noite à minha porta; que não é fácil escutar. Porém só vejo, abrindo a porta, a escuridão, e nada mais. Perquiro a treva longamente, estarrecido, amedrontado, sonhando sonhos que, talvez, nenhum mortal haja sonhado. Silêncio fúnebre! Ninguém. De visitante nem sinais. Uma palavra apenas corta a noite plácida: - Lenora!. Digo-a em segredo, e num murmúrio, o eco repete-me - Lenora! Isto, somente - e nada mais. Para o meu quarto eu volto enfim, sentindo nalma estranho ardor, e novamente ouço bater, bater com mais vigor. Vem da janela, presumi, estes rumores anormais. Mas eu depressa vou saber donde procede tal mistério. Fica tranqüilo, coração! Perscruta, calmo, este mistério. É o vento, o vento e nada mais! Eis, de repente, abro a janela, e esvoaça então, vindo de fora, um Corvo grande, ave ancestral, dos tempos bíblicos, - doutrora! Sem cortesias, sem parar, batendo as asas noturnais, ele, com ar de grão-senhor, foi, sobre a porta do meu quarto, pousar num busto de Minerva, - e sobre a porta do meu quarto quedou, sombrio, e nada mais. Eu estava triste, mas sorri, vendo o meu hóspede noturno tão gravemente repousado, hirto, solene e taciturno. Sem crista, embora - ponderei -, embora ancião dos teus iguais, não és medroso, ó Corvo hediondo, ó filho errante de Plutão! Que nobre nome é acaso o teu, no escuro império de Plutão? E o Corvo disse: Nunca mais! Fiquei surpreso - pois que nunca imaginei fosse possível ouvir de um Corvo tal resposta, embora incerta, incompreensível, e creio bem, em tempo algum, em noite alguma, entes mortais viram um pássaro adejar, voando por cima de uma porta, e declarar (do alto de um busto, erguido acima de uma porta) que se chamava Nunca mais. Porém o Corvo, solitário, essas palavras só murmura, como que nelas refletindo uma alma cheia de amargura. Depois concentra-se e nem move - inerte sobre os meus umbrais - uma só pena. Exclamo então: Muitos amigos me fugiram... Tu fugiras pela manhã, como os meus sonhos me fugiram... Responde o Corvo: Oh! Nunca mais! Pasmo, ao varar o atroz silêncio uma resposta assim tão justa, e digo: Certo, ele só sabe essa expressão com que me assusta. Ouviu-a, acaso, de algum dono, a quem desgraças infernais hajam seguido, e perseguido, até cair nesse estribilho, até chorar as ilusões com esse lúgubre estribilho de - nunca mais! oh! nunca mais!. De novo, foram-se mudando as minhas mágoas num sorriso... Então, rodei uma poltrona, olhei o Corvo, de improviso, e nos estofos mergulhei, formando hipóteses mentais sobre as secretas intenções que essa medonha ave agoureira - rude, sinistra, repulsiva e macilenta ave agoureira, - tinha, grasnando Nunca mais. Mil coisas vagas pressupus... Não lhe falava, mas sentia que me abrasava o coração o duro olhar da ave sombria. ... E assim fiquei, num devaneio, em deduções conjeturais, minha cabeça reclinando - à luz da lâmpada fulgente nessa almofada de veludo, em que ela, agora, - à luz fulgente -, não mais descansa - ah! nunca mais. Subitamente o ar se adensou, qual se em meu quarto solitário, anjos pousassem, balançando um invisível incensário. Ente infeliz - eu exclamei. - Deus apiedou-se dos teus ais! Calma-te! calma-te e domina essas saudades de Lenora! Bebe o nepente benfazejo! Olvida a imagem de Lenora! E o Corvo disse: Nunca mais. Profeta! - brado. Anjo do mal, Ave ou demônio mais irreverente que a tempestade, ou Satanás, aqui lançou tragicamente, e que te vês, soberbo, nestes desertos areais, nesta mansão de eterno horror! Fala! responde ao certo! Fala! Existe bálsamo em Galaad? Existe? Fala, ó Corvo! Fala! E o Corvo disse: Nunca mais. Profeta! - brado. Anjo do mal, Ave ou demônio irreverente, dize, por Deus, que está nos céus, dize! eu to peço humildemente, dize a esta pobre alma sem luz, se lá nos páramos astrais, poderá ver, um dia, ainda, a bela e cândida Lenora, amada minha, a quem, no céu, os querubins chamam Lenora! E o Corvo disse: Nunca mais. Seja essa frase o nosso adeus - grito, de pé, com aflição. Vai-te! Regressa à tempestade, à noite escura de Plutão! Não deixes pluma que recorde essas palavras funerais! Mentiste! Sai! Deixa-me só! Sai desse busto junto à porta! Não rasgues mais meu coração! Piedade! Sai de sobre a porta! E o Corvo disse: Nunca mais. E não saiu! e não saiu! ainda agora se conserva pousado, trágico e fatal, no busto branco de Minerva. Negro demônio sonhador, seus olhos são como punhais! Por cima, a luz, jorrando, espalha a sombra dele, que flutua... E a alma infeliz, que me tombou dentro da sombra que flutua, não há de erguer-se, Nunca mais. trad. Gondin da Fonseca - 1928

Annabel Lee Foi há muitos e muitos anos já, Num reino ao pé do mar. Como sabeis todos, vivia lá Aquela que eu soube amar; E vivia sem outro pensamento Que amar-me e eu a adorar. Eu era criança e ela era criança, Neste reino ao pé do mar; Mas o nosso amor era mais que amor -- O meu e o dela a amar; Um amor que os anjos do céu vieram a ambos nós invejar. E foi esta a razão por que, há muitos anos, Neste reino ao pé do mar, Um vento saiu duma nuvem, gelando A linda que eu soube amar; E o seu parente fidalgo veio De longe a me a tirar, Para a fechar num sepulcro Neste reino ao pé do mar. E os anjos, menos felizes no céu, Ainda a nos invejar... Sim, foi essa a razão (como sabem todos, Neste reino ao pé do mar) Que o vento saiu da nuvem de noite Gelando e matando a que eu soube amar. Mas o nosso amor era mais que o amor De muitos mais velhos a amar, De muitos de mais meditar, E nem os anjos do céu lá em cima, Nem demônios debaixo do mar Poderão separar a minha alma da alma Da linda que eu soube amar. Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos Da linda que eu soube amar; E as estrelas nos ares só me lembram olhares Da linda que eu soube amar; E assim stou deitado toda a noite ao lado Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado, No sepulcro ao pé do mar, Ao pé do murmúrio do mar.

Na ética o mal é uma conseqüência do bem, assim na realidade da alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angustia de hoje, ou as agonias que são tem sua origem nos êxtases que poderiam ter siso.

O corvo (trdução de Machado de Assis) Em certo dia, à hora Da meia-noite que apavora, Eu, caindo de sono e exausto de fadiga, Ao pé de muita lauda antiga, De uma velha doutrina agora morta, Ia pensando, quando ouvi à porta Do meu quarto um soar devagarinho, E disse estas palavras tais: É alguém que me bate à porta de mansinho; Há de ser isso e nada mais. Ah! bem me lembro! bem me lembro! Era no glacial dezembro; Cada brasa do lar sobre o colchão refletia A sua última agonia. Eu ansioso pelo Sol, buscava Sacar daqueles livros que estudava Repouso (em vão!) à dor esmagadora Destas saudades imortais Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora, E que ninguém chamará mais. E o rumor triste, vago, brando Das cortinas ia acordando Dentro em meu coração um rumor não sabido, Nunca por ele padecido. Enfim, por aplacá-lo aqui, no peito, Levantei-me de pronto, e Com efeito, (Disse), é visita amiga e retardada Que bate a estas horas tais. É visita que pede à minha porta entrada: Há de ser isso e nada mais. Minhalma então sentiu-se forte; Não mais vacilo, e desta sorte Falo: Imploro de vós - ou senhor ou senhora, Me desculpeis tanta demora. Mas como eu, precisando de descanso Já cochilava, e tão de manso e manso, Batestes, não fui logo, prestemente, Certificar-me que aí estais. Disse; a porta escancar, acho a noite somente, somente a noite, e nada mais. Com longo olhar escruto a sombra Que me amedronta, que me assombra. E sonho o que nenhum mortal há já sonhado, Mas o silêncio amplo e calado, Calado fica; a quietação quieta; Só tu, palavra única e dileta, Lenora, tu, com um suspiro escasso, Da minha triste boca sais; E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço; Foi isso apenas, nada mais. Entro coa alma incendiada. Logo depois outra pancada Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela: Seguramente, há na janela Älguma coisa que sussurra. Abramos, Eia, fora o temor, eia, vejamos A explicação do caso misterioso Dessas duas pancadas tais, Devolvamos a paz ao coração medroso, Obra do vento, e nada mais. Abro a janela, e de repente, Vejo tumultuosamente Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias. Não despendeu em cortesias Um minuto, um instante. Tinha o aspecto de um lord ou de uma lady. E pronto e reto, Movendo no ar as suas negras alas, Acima voa dos portais, Trepa, no alto da porta em um busto de Palas: Trepado fica, e nada mais. Diante da ave feia e escura, Naquela rígida postura, Com o gosto severo, - o triste pensamento Sorriu-me ali por um momento, E eu disse: Ó tu que das noturnas plagas Vens, embora a cabeça nua tragas, Sem topete, não és ave medrosa, Dize os teus nomes senhoriais; Como te chamas tu na grande noite umbrosa? E o corvo disse: Nunca mais. Vendo que o pássaro entendia A pergunta que eu lhe fazia, Fico atônito, embora a resposta que dera Dificilmente lha entendera. Na verdade, jamais homem há visto Coisa na terra semelhante a isto: Uma ave negra, friamente posta Num busto, acima dos portais, Ouvir uma pergunta a dizer em resposta Que este é seu nome: Nunca mais. No entanto, o corvo solitário Não teve outro vocabulário. Como se essa palavra escassa que ali disse Toda sua alma resumisse, Nenhuma outra proferiu, nenhuma. Não chegou a mecher uma só pluma, Até que eu murmurei: Perdi outrora Tantos amigos tão leais! Perderei também este em regressando a aurora. E o corvo disse: Nunca mais! Estremeço. A resposta ouvida É tão exata! é tão cabida! Certamente, digo eu, essa é toda a ciência Que ele trouxe da convivência De algum mestre infeliz e acabrunhado Que o implacável destino há castigado Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga, Que dos seus cantos usuais Só lhe ficou, na amarga e última cantiga, Esse estribilho: Nunca mais. Segunda vez nesse momento Sorriu-me o triste pensamento; Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo; E, mergulhando no veludo Da poltrona que eu mesmo ali trouxera, Achar procuro a lúgubre quimera, A alma, o sentido, o pávido segredo Daquelas sílabas fatais, Entender o que quis dizer a ave do medo Grasnando a frase: Nunca mais. Assim pôsto, devaneando, Meditando, conjeturando, Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava, Sentia o olhar que me abrasava. Conjeturando fui, tranqüilo, a gosto, Com a cabeça no macio encosto Onde os raios da Lâmpada caíam, Onde as tranças angelicais De outra cabeça outrora ali se desparziam E agora não se esparzem mais. Supus então que o ar, mais denso, Todo se enchia de um incenso, Obra de serafins que, pelo chão roçando Do quarto, estavam meneando Um ligeiro turíbulo invisível: E eu exclamei então: Um Deus sensível Manda repouso à dor que te devora Destas saudades imortais. Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora. E o corvo disse: Nunca mais. Profeta, ou o que quer que sejas! Ave ou demônio que negrejas! Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno Onde reside o mal eterno, Ou simplesmente náufrago escapado Venhas do temporal que te há lançado Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo Tem os seus lares triunfais, Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo? E o corvo disse: Nunca mais. Profeta, ou o que quer que sejas! Ave ou demônio que negrejas! Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende! Por esse céu que além se estende, Pelo Deus que ambos adoramos, fala, Dize a esta alma se é dado inda escutá-la No Éden celeste a virgem que ela chora Nestes retiros sepulcrais, Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora! E o corvo disse: Nunca mais! Ave ou demônio que negrejas! Profeta, ou o que quer que sejas! Cessa, ai, cessa! (clamei, levantando-me) cessa! Regressando ao temporal, regressa À tua noite, deixa-me comigo... Vai-te, não fique no meu casto abrigo Pluma que lembre essa mentira tua. Tira-me ao peito essas fatais Garras que abrindo vão a minha dor já crua E o corvo disse: Nunca mais. E o corvo aí fica; ei-lo trepado No branco mármore lavrado Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho. Parece, ao ver-lhe o duro cenho, Um demônio sonhando. A luz caída Do lampião sobre a ave aborrecida No chão espraia a triste sombra; e fora Daquelas linhas funerais Que flutuam no chão, a minha alma que chora Não sai mais, nunca, nunca mais!

Santa Maria! Volve o teu olhar tão belo, de lá dos altos céus, do teu trono sagrado, para a prece fervente e para o amor singelo que te oferta, da terra, o filho do pecado. Se é manhã, meio-dia, ou sombrio poente, meu hino em teu louvor tens ouvido, Maria! Sê, pois, comigo, ó Mãe de Deus, eternamente, quer no bem ou no mal, na dor ou na alegria! No tempo que passou veloz, brilhante, quando nunca nuvem qualquer meu céu escureceu, temeste que me fosse a inconstância empolgando e guiaste minha alma a ti, para o que é teu. Hoje, que o temporal do Destino ao Passado e sobre o meu Presente espessas sombras lança, fulgure ao menos meu Futuro, iluminado por ti, pelo que é teu, na mais doce esperança.

O CORVO Em certo dia, à hora, à hora Da meia-noite que apavora, Eu caindo de sono e exausto de fadiga, Ao pé de muita lauda antiga, De uma velha doutrina, agora morta, Ia pensando, quando ouvi à porta Do meu quarto um soar devagarinho E disse estas palavras tais: É alguém que me bate à porta de mansinho; Há de ser isso e nada mais. Ah! bem me lembro! bem me lembro! Era no glacial dezembro; Cada brasa do lar sobre o chão refletia A sua última agonia. Eu, ansioso pelo sol, buscava Sacar daqueles livros que estudava Repouso (em vão!) à dor esmagadora Destas saudades imortais Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora, E que ninguém chamará jamais. E o rumor triste, vago, brando, Das cortinas ia acordando Dentro em meu coração um rumor não sabido Nunca por ele padecido. Enfim, por aplacá-lo aqui no peito, Levantei-me de pronto e: Com efeito (Disse) é visita amiga e retardada Que bate a estas horas tais. É visita que pede à minha porta entrada: Há de ser isso e nada mais. Minha alma então sentiu-se forte; Não mais vacilo e desta sorte Falo: Imploro de vós - ou senhor ou senhora - Me desculpeis tanta demora. Mas como eu, precisando de descanso, Já cochilava, e tão de manso e manso Batestes, não fui logo prestemente, Certificar-me que aí estais. Disse: a porta escancaro, acho a noite somente, Somente a noite, e nada mais. Com longo olhar escruto a sombra, Que me amedronta, que me assombra, E sonho o que nenhum mortal há já sonhado, Mas o silêncio amplo e calado, Calado fica; a quietação quieta: Só tu, palavra única e dileta, Lenora, tu como um suspiro escasso, Da minha triste boca sais; E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço; Foi isso apenas, nada mais. Entro coa alma incendiada. Logo depois outra pancada Soa um pouco mais tarde; eu, voltando-me a ela: Seguramente, há na janela Alguma coisa que sussurra. Abramos. Ela, fora o temor, eia, vejamos A explicação do caso misterioso Dessas duas pancadas tais. Devolvamos a paz ao coração medroso. Obra do vento e nada mais. Abro a janela e, de repente, Vejo tumultuosamente Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias. Não despendeu em cortesias Um minuto, um instante. Tinha o aspecto De um lord ou de uma lady. E pronto e reto Movendo no ar as suas negras alas. Acima voa dos portais, Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas; Trepado fica, e nada mais. Diante da ave feia e escura, Naquela rígida postura, Com o gesto severo - o triste pensamento Sorriu-me ali por um momento, E eu disse: Ó tu que das noturnas plagas Vens, embora a cabeça nua tragas, Sem topete, não és ave medrosa, Dize os teus nomes senhoriais: Como te chamas tu na grande noite umbrosa? E o Corvo disse: Nunca mais. Vendo que o pássaro entendia A pergunta que lhe eu fazia, Fico atônito, embora a resposta que dera Dificilmente lha entendera. Na verdade, jamais homem há visto Coisa na terra semelhante a isto: Uma ave negra, friamente posta, Num busto, acima dos portais, Ouvir uma pergunta e dizer em resposta Que este é o seu nome: Nunca mais. No entanto, o Corvo solitário Não teve outro vocabulário, Como se essa palavra escassa que ali disse Toda sua alma resumisse. Nenhuma outra proferiu, nenhuma, Não chegou a mexer uma só pluma, Até que eu murmurei: Perdi outrora Tantos amigos tão leais! Perderei também este em regressando a aurora. E o Corvo disse: Nunca mais. Estremeço. A resposta ouvida É tão exata! é tão cabida! Certamente, digo eu, essa é toda a ciência Que ele trouxe da convivência De algum mestre infeliz e acabrunhado Que o implacável destino há castigado Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga, Que dos seus cantos usuais Só lhe ficou, na amarga e última cantiga, Esse estribilho: Nunca mais. Segunda vez, nesse momento, Sorriu-me o triste pensamento; Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo; E mergulhando no veludo Da poltrona que eu mesmo ali trouxera Achar procuro a lúgubre quimera. A alma, o sentido, o pávido segredo Daquelas sílabas fatais, Entender o que quis dizer a ave do medo Grasnando a frase: Nunca mais. Assim, posto, devaneando, Meditando, conjecturando, Não lhe falava mais; mas se lhe não falava, Sentia o olhar que me abrasava, Conjecturando fui, tranqüilo, a gosto, Com a cabeça no macio encosto, Onde os raios da lâmpada caiam, Onde as tranças angelicais De outra cabeça outrora ali se desparziam, E agora não se esparzem mais. Supus então que o ar, mais denso, Todo se enchia de um incenso. Obra de serafins que, pelo chão roçando Do quarto, estavam meneando Um ligeiro turíbulo invisível; E eu exclamei então: Um Deus sensível Manda repouso à dor que te devora Destas saudades imortais. Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora. E o Corvo disse: Nunca mais. Profeta, ou o que quer que sejas! Ave ou demônio que negrejas! Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno Onde reside o mal eterno, Ou simplesmente náufrago escapado Venhas do temporal que te há lançado Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo Tem os seus lares triunfais, Dize-me: Existe acaso um bálsamo no mundo? E o Corvo disse: Nunca mais. Profeta, ou o que quer que sejas! Ave ou demônio que negrejas! Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende! Por esse céu que além se estende, Pelo Deus que ambos adoramos, fala, Dize a esta alma se é dado inda escutá-la No Éden celeste a virgem que ela chora Nestes retiros sepulcrais. Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora! E o Corvo disse: Nunca mais. Ave ou demônio que negrejas! Profeta, ou o que quer que sejas! Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa! Regressa ao temporal, regressa À tua noite, deixa-me comigo. Vai-te, não fica no meu casto abrigo Pluma que lembre essa mentira tua, Tira-me ao peito essas fatais Garras que abrindo vão a minha dor já crua. E o Corvo disse: Nunca mais. E o Corvo aí fica; ei-lo trepado No branco mármore lavrado Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho. Parece, ao ver-lhe o duro cenho, Um demônio sonhando. A luz caída Do lampião sobre a ave aborrecida No chão espraia a triste sombra; e fora Daquelas linhas funerais Que flutuam no chão, a minha alma que chora Não sai mais, nunca, nunca mais! trad. Machado de Assis - 1883

I became insane with long intervals of horrible sanity.

A ciência ainda não nos provou se a loucura é ou não o mais sublime da inteligência.

Para sermos felizes até certo ponto é preciso que tenhamos sofrido até o mesmo ponto.

Aqueles que sonham acordados têm consciência de mil coisas que escapam aos que apenas sonham adormecidos.

Convencido eu mesmo, não procuro convencer os demais.

Quando um louco parece completamente lúcido é o momento de colocar-le a camisa de força.

Nenhum homem que tenha vivido conhece mais sobre a vida depois da morte que eu ou você. Toda religião simplesmente desenvolveu-se com base no medo, ganância, imaginação e poesia.

Os que sonham de dia são conscientes de muitas coisas que escapam aos que sonham apenas à noite.

A vida real do ser humano consiste em ser feliz, principalmente por estar sempre na esperança de sê-lo muito em breve.

É de se apostar que toda idéia pública, toda convenção aceita seja uma tolice, pois se tornou conveniente à maioria.

Defino a poesia das palavras como Criação rítmica da Beleza. O seu único juiz é o Gosto.

Quem sonha de dia tem consciência de muitas coisas que escapam a quem sonha só de noite.

Não é na ciência que está a felicidade, mas na aquisição da ciência.

Para se ser feliz até um certo ponto é preciso ter-se sofrido até esse mesmo ponto.