...Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena !...

Sobre o Autor

Clarice Lispector

Clarice Lispector (1920 - 1977), escritora brasileira de origem judia nascida na Ucr√Ęnia

Mais frases de Clarice Lispector

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Brasília…Uma prisão ao ar livre.

Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

Enquanto eu tiver perguntas e n√£o houver respostas... continuarei a escrever

J√° que se h√° de escrever, que pelo menos n√£o se esmaguem com palavras as entrelinhas.

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam. (A Hora da Estrela)

Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. (Perto do Coração Selvagem)

Terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária. (A paixão segundo G.H)

E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano

Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós.

Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha √Ęnsia de acertar.

Eu não: quero é uma realidade inventada.

Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca.

O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós.

Porque h√° o direito ao grito. ent√£o eu grito.

Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

Sendo este um jornal por excel√™ncia, e por excel√™ncia dos precisa-se e oferece-se, vou p√īr um an√ļncio em negrito: precisa-se de algu√©m homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta est√° t√£o contente que n√£o pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a pr√≥pria alegria. √Č urgente pois a alegria dessa pessoa √© fugaz como estrelas cadentes, que at√© parece que s√≥ se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite √© muito perigosa e nenhuma ajuda √© poss√≠vel e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao an√ļncio s√≥ tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. N√£o faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se d√° √© t√£o grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se tamb√©m que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se tamb√©m uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. D√°-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. N√£o se precisa de pr√°tica. E se pede desculpa por estar num an√ļncio a dilacerar os outros. Mas juro que h√° em meu rosto s√©rio uma alegria at√© mesmo divina para dar.

Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo n√£o pode durar. N√£o, ela n√£o est√° se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarni√ßa-se ent√£o sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Ent√£o, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a m√£o livre do homem, e ao prend√™-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja. in Onde estivestes de noite - 7¬™ Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro ¬Ė 1994

...estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda.

... uma das coisas que aprendi √© que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes √© o pr√≥prio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma ang√ļstia que insatisfeita foi a criadora de minha pr√≥pria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para voc√™ enquanto voc√™ esperava um t√°xi. E desde logo desejando voc√™, esse teu corpo que nem sequer √© bonito, mas √© o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma tamb√©m. Por isso, n√£o faz mal que voc√™ n√£o venha, espararei quanto tempo for preciso.

N√£o entendo. Isso √© t√£o vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender √© sempre limitado. Mas n√£o entender pode n√£o ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando n√£o entendo. N√£o entender, do modo como falo, √© um dom. N√£o entender, mas n√£o como um simples de esp√≠rito. O bom √© ser inteligente e n√£o entender. √Č uma ben√ß√£o estranha, como ter loucura sem ser doida. √Č um desinteresse manso, √© uma do√ßura de burrice. S√≥ que de vez em quando vem a inquieta√ß√£o: quero entender um pouco. N√£o demais: mas pelo menos entender que n√£o entendo.

Porque eu fazia do amor um c√°lculo matem√°tico errado: pensava que, somando as compreens√Ķes, eu amava. N√£o sabia que, somando as incompreens√Ķes √© que se ama verdadeiramente. Porque eu, s√≥ por ter tido carinho, pensei que amar √© f√°cil.

O que importa afinal, viver ou saber que se est√° vivendo?

Como se ela n√£o tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma √°rvore. Seu cora√ß√£o n√£o bateu no peito, o cora√ß√£o batia oco entre o est√īmago e os intestinos.

Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

Eu n√£o sou prom√≠scua. Mas sou caleidosc√≥pica: fascinam-me as minhas muta√ß√Ķes faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.

E se me achar esquisita, respeite também. até eu fui obrigada a me respeitar.

Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada

Sou um coração batendo no mundo

Ter nascido me estragou a sa√ļde

Sinto a falta dele como se me faltasse um dente na frente: excrucitante

...nada jamais fora tão acordado como seu corpo sem transpiração e seus olhos-diamantes, e de vibração parada. E o Deus? Não. Nem mesmo a angustia. O peito vazio, sem contração. Não havia grito.

Não se conta tudo porque o tudo é um oco nada.

E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço.

Fique de vez em quando só, senão será submergido. Até o amor excessivo pode submergir uma pessoa.

Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim.

Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo.

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Pertencer Um amigo meu, m√©dico, assegurou-me que desde o ber√ßo a crian√ßa sente o ambiente, a crian√ßa quer: nela o ser humano, no ber√ßo mesmo, j√° come√ßou. Tenho certeza de que no ber√ßo a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui n√£o importam, eu de algum modo devia estar sentindo que n√£o pertencia a nada e a ningu√©m. Nasci de gra√ßa. Se no ber√ßo experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu cora√ß√£o se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus. Exatamente porque √© t√£o forte em mim a fome de me dar a algo ou a algu√©m, √© que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. S√≥ tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. Com o tempo, sobretudo os √ļltimos anos, perdi o jeito de ser gente. N√£o sei mais como se √©. E uma esp√©cie toda nova de solid√£o de n√£o pertencer come√ßou a me invadir como heras num muro. Se meu desejo mais antigo √© o de pertencer, por que ent√£o nunca fiz parte de clubes ou de associa√ß√Ķes? Porque n√£o √© isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e n√£o posso, √© por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar √†quilo que eu perten√ßo. Mesmo minhas alegrias, como s√£o solit√°rias √†s vezes. E uma alegria solit√°ria pode se tornar pat√©tica. √Č como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas m√£os - e n√£o ter a quem dizer: tome, √© seu, abra-o! N√£o querendo me ver em situa√ß√Ķes pat√©ticas e, por uma esp√©cie de conten√ß√£o, evitando o tom de trag√©dia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos. Pertencer n√£o vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a algu√©m mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha pr√≥pria for√ßa - eu quero pertencer para que minha for√ßa n√£o seja in√ļtil e fortifique uma pessoa ou uma coisa. Quase consigo me visualizar no ber√ßo, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensa√ß√£o de precisar pertencer. Por motivos que nem minha m√£e nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida. No entanto fui preparada para ser dada √† luz de um modo t√£o bonito. Minha m√£e j√° estava doente, e, por uma supersti√ß√£o bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doen√ßa. Ent√£o fui deliberadamente criada: com amor e esperan√ßa. S√≥ que n√£o curei minha m√£e. E sinto at√© hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma miss√£o determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em v√£o e t√™-los tra√≠do na grande esperan√ßa. Mas eu, eu n√£o me perd√īo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha m√£e. Ent√£o, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha m√£e. Eu nem podia confiar a algu√©m essa esp√©cie de solid√£o de n√£o pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha n√£o podia ser conhecido. A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco n√£o pertencendo. E ent√£o eu soube: pertencer √© viver. Experimentei-o com a sede de quem est√° no deserto e bebe s√īfrego os √ļltimos goles de √°gua de um cantil. E depois a sede volta e √© no deserto mesmo que caminho!

Eu te odeio, disse ela para um homem cujo crime √ļnico era o de n√£o am√°-la. Eu te odeio, disse muito apressada. Mas n√£o sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra at√© encontrar a √°gua negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma?

...Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a cada dele, e √©. trata-se de um cavalo preto e lustoso que apesar de inteiramente selvagem - pois nunca morou antes em ningu√©m nem jamais lhe puseram r√©deas nem sela - apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma do√ßura primeira de quem n√£o tem medo: come √†s vezes na minha m√£o. Seu focinho √© √ļmido e fresco. eu beijo o seu focinho. quando eu morrer, o cavalo preto ficar√° sem casa e vai sofrer muito. a menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa n√£o tenha medo daquilo que √© ao mesmo tempo salvagem e suave. aviso que ele n√£o tem nome: basta cham√°-lo e se acerta com seu nome. ou n√£o se acerta, mas, uma vez chamado com do√ßura e autoridade, ele vai. se ele fareja e sente um corpo-casa √© livre, ele trota sem ru√≠dos e ai. aviso tambem que nao se deve temer seu relinchar: a gente se engana e pensa que √© a gente mesma que est√° relinchando de prazer ou de c√≥lera, a gente se assusta com o excesso de do√ßura do que √© isto pela primeira vez. pg 29

√Č curioso como n√£o sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas n√£o posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar n√£o s√≥ n√£o exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.

Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da m√ļsica. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembran√ßa. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma aus√™ncia. E a l√°grima que n√£o se chorou. Tem o imaterial peso da solid√£o no meio de outros.

Teu Segredo Flores envenenadas na jarra. Roxas azuis, encarnadas, atapetam o ar. Que riqueza de hospital. Nunca vi mais belas e mais perigosas. √Č assim ent√£o o teu segredo. Teu segredo √© t√£o parecido contigo que nada me revela al√©m do que j√° sei. E sei t√£o pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu √©s o meu.

Meu Deus, me dê a coragem Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar.

O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão mais inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.

Havia a lev√≠ssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se v√™ que por admira√ß√£o se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antem√£o o ar que estava √† frente, e ter esta sede era a pr√≥pria √°gua deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar mat√©ria peso √† lev√≠ssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, √†s vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede √© a gra√ßa, mas as √°guas s√£o uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da √°gua deles, a boca ficando um pouco mais seca de admira√ß√£o. Como eles admiravam estarem juntos! At√© que tudo se transformou em n√£o. Tudo se transformou em n√£o quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Ent√£o a grande dan√ßa dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e n√£o via, ela n√£o via que ele n√£o vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo s√≥ porque tinham prestado aten√ß√£o, s√≥ porque n√£o estavam bastante distra√≠dos. S√≥ porque, de s√ļbito exigentes e duros, quiseram ter o que j√° tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram ent√£o aprender que, n√£o se estando distra√≠do, o telefone n√£o toca, e √© preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera j√° cortou os fios. Tudo, tudo por n√£o estarem mais distra√≠dos.

Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irrit√°vel e firo facilmente. Tamb√©m sou muito calmo e perd√īo logo. N√£o esque√ßo nunca. Mas h√° poucas coisas de que eu me lembre.

Eu queria escrever luxuoso. Usar palavras que rebrilhaassem molhadas e fossem peregrinas. √Äs vezes solenes em p√ļrpura, √†s vezes abismais esmeraldas, √†s vezes leves na mais fina seda macia

Gosto do modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno v√īo e cai sem gra√ßa no ch√£o.

N√£o era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.

A palavra é o meu domínio sobre o mundo.

Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, Depende de quando e como você me vê passar.

Porque eu fazia do amor um c√°lculo matem√°tico errado: pensava que, somando as compreens√Ķes, eu amava. N√£o sabia que, somando as incompreens√Ķes √© que se ama verdadeiramente

Amar os outros √© a √ļnica salva√ß√£o individual que conhe√ßo: ningu√©m estar√° perdido se der amor e √†s vezes receber amor em troca.

Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse pleno de tudo...

Me deram um nome e me alienaram de mim

Só o que está morto não muda! Repito por pura alegria de viver: A salvação é pelo risco, Sem o qual a vida não vale a pena!!!

Eu sou mais forte do que eu.

Uns cosem pra fora, eu coso pra dentro.

Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser ent√£o

N√£o tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito.

Divertir os outros, um dos modos mais emocionantes de existir.

Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece.

√Č t√£o dif√≠cil falar e dizer coisas que n√£o podem ser ditas. √Č t√£o silencioso. Como traduzir o sil√™ncio do encontro real entre n√≥s dois? Dific√≠limo contar. Olhei pra voc√™ fixamente por instantes. Tais momentos s√£o meu segredo. Houve o que se chama de comunh√£o poerfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade.

√Č que por enquanto a metarmofose de mim em mim mesma n√£o faz sentido. √Č uma metamorfose em que eu perco tudo o que tinha, e o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de p√© diante de um susto. Sou: o que vi. N√£o entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com seus planetas e baratas.

H√° Momentos H√° momentos na vida em que sentimos tanto a falta de algu√©m que o que mais queremos √© tirar esta pessoa de nossos sonhos e abra√ß√°-la. Sonhe com aquilo que voc√™ quiser. Seja o que voc√™ quer ser, porque voc√™ possui apenas uma vida e nela s√≥ se tem uma chance de fazer aquilo que se quer. Tenha felicidade bastante para faz√™-la doce. Dificuldades para faz√™-la forte. Tristeza para faz√™-la humana. E esperan√ßa suficiente para faz√™-la feliz. As pessoas mais felizes n√£o t√™m as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a import√Ęncia das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante √© baseado num passado intensamente vivido. Voc√™ s√≥ ter√° sucesso na vida quando perdoar os erros e as decep√ß√Ķes do passado. A vida √© curta, mas as emo√ß√Ķes que podemos deixar duram uma eternidade. A vida n√£o √© de se brincar porque um belo dia se morre.

...sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crep√ļsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensa√ß√Ķes, faz de conta que a inf√Ęncia era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia n√£o se abrira e faz de conta que que dela n√£o estava em sil√™ncio alv√≠ssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela n√£o estivesse p√°lida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que n√£o precisava de morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da m√£o de Deus,..., faz de conta que vivia e que n√£o estivesse morrendo pois viver afinal n√£o passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela n√£o ficava de bra√ßos ca√≠dos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embara√ßavam e ela n√£o sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era s√°bia bastante para desfazer os n√≥s de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de p√©rolas s√≥ para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos √ļmidos de gratid√£o, faz de conta que tudo o que tinha n√£o era faz de conta, faz de conta que se descontra√≠a o peito e a luz dourad√≠ssima e leve a guiava por uma floresta de a√ßudes mudos e de tranq√ľilas mortalidades, faz de conta que ela n√£o era lunar, faz de conta que ela n√£o estava chorando por dentro...

E √© in√ļtil procurar encurtar caminho e querer come√ßar j√° sabendo que a voz diz pouco, j√° come√ßando por ser despessoal. Pois existe a trajet√≥ria, e a trajet√≥ria n√£o √© apenas um modo de ir. A trajet√≥ria somos n√≥s mesmos. Em mat√©ria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis n√£o √© um descaminho, √© a passagem √ļnica, n√£o se chega sen√£o atrav√©s dela e com ela. A insist√™ncia √© o nosso esfor√ßo, a desist√™ncia √© o pr√™mio. A este s√≥ se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desist√™ncia. A desist√™ncia tem que ser uma escolha. Desistir √© a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir √© o verdadeiro instante humano. E s√≥ esta, √© a gl√≥ria pr√≥pria de minha condi√ß√£o. A desist√™ncia √© uma revela√ß√£o.

Eu já começara a adivinhar que ele me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e √©. Trata-se de um cavalo preto e lustoso que apesar de inteiramente selvagem - pois nunca morou antes em ningu√©m nem jamais lhe puseram r√©deas nem sela - apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma do√ßura primeira de quem n√£o tem medo: come √†s vezes na minha m√£o. Seu focinho √© √ļmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficar√° sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa n√£o tenha medo daquilo que √© ao mesmo tempo salvagem e suave. Aviso que ele n√£o tem nome: basta cham√°-lo e se acerta com seu nome. Ou n√£o se acerta, mas, uma vez chamado com do√ßura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente um corpo-casa √© livre, ele trota sem ru√≠dos e ai. Aviso tambem que nao se deve temer seu relinchar: A gente se engana e pensa que √© a gente mesma que est√° relinchando de prazer ou de c√≥lera, a gente se assusta com o excesso de do√ßura do que √© isto pela primeira vez.

Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim.

Senti que podia. Fora feita para libertar. Libertar era uma palavra imensa, cheia de mistérios e dores.

A poesia dos poetas que sofreram é doce e terna. E a dos outros, dos que de nada foram privados, é ardente, sofredora e rebelde.

Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio.

Vivo no quase, no nunca e no sempre. Quase, quase - e por um triz escapo. ( A Cidade Sitiada)

N√£o sei se quero descansar,por estar realmente cansada ou se quero descansar para desistir

Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem

Para al√©m da orelha existe um som, √† extremidade do olhar um aspecto, √†s pontas dos dedos um objeto - √© para l√° que eu vou. √Ä ponta do l√°pis o tra√ßo. Onde expira um pensamento est√° uma id√©ia, ao derradeiro h√°lito de alegria uma outra alegria, √† ponta da espada a magia - √© para l√° que eu vou. Na ponta dos p√©s o salto. Parece a hist√≥ria de algu√©m que foi e n√£o voltou - √© para l√° que eu vou. Ou n√£o vou? Vou, sim. E volto para ver como est√£o as coisas. Se continuam m√°gicas. Realidade? eu vos espero. E para l√° que eu vou. Na ponta da palavra est√° a palavra. Quero usar a palavra tert√ļlia e n√£o sei aonde e quando. √Ä beira da tert√ļlia est√° a fam√≠lia. √Ä beira da fam√≠lia estou eu. √Ä beira de eu estou mim. √Č para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o qu√™? ver o que existe. Depois de morta √© para a realidade que vou. Por enquanto √© sonho. Sonho fat√≠dico. Mas depois - depois tudo √© real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim √© um eu que anuncio. N√£o sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e algu√©m dir√° com amor meu nome. √Č para o meu pobre nome que vou. E de l√° volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responder√£o. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor √© vermelho. O ci√ļme √© verde. Meus olhos s√£o verdes. Mas s√£o verdes t√£o escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo √© ter os olhos verdes e ningu√©m saber. √Ä extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo. Eu √† beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto. Oh, cachorro, cad√™ tua alma? est√° √† beira de teu corpo? Eu estou √† beira de meu corpo. E fene√ßo lentamente. Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E √† beira do amor estamos n√≥s.

...Estou em plena luta... Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não termos um ao outro... Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. ... Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer pelo menos não fui tolo e assim não ficarmos perplexos antes se apagar a luz... Mas eu escapei disso Lori,, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste e esperarei até você também estar mais pronta.

Alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.

A lucidez perigosa Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes.

Divido-me milhares de vezes em quantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentaria que sou e precários os momentos -só me comprometo com a vida que nasca com o tempo e com ele cresca: só no no tempo a espaco para mim.

Viver em sociedade é um desafio porque às vezes ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser ou do nosso não-ser... Quero dizer com isso que nós temos, no mínimo, duas personalidades: a objetiva, que todos ao nosso redor conhece; e a subjetiva... Em alguns momentos, esta se mostra tão misteriosa que se perguntarmos - Quem somos? Não saberemos dizer ao certo!!! Agora de uma coisa eu tenho certeza: sempre devemos ser autênticos, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser... Aqui reside o eterno conflito da aparência x essência. E você... O que pensa disso? Que desafio, hein? ... Nunca sofra por não ser uma coisa ou por sê-la... (Perto do Coração Selvagem - p.55)

N√£o √© que vivo em eterna muta√ß√£o, com novas adapta√ß√Ķes a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esbo√ßos n√£o acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.

√Ä dura√ß√£o da minha exist√™ncia dou uma significa√ß√£o oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: re√ļno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos rel√≥gios.

Pertencer Mesmo minhas alegrias, como s√£o solit√°rias √†s vezes. E uma alegria solit√°ria pode se tornar pat√©tica. √Č como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas m√£os - e n√£o ter a quem dizer: tome, √© seu, abra-o! N√£o querendo me ver em situa√ß√Ķes pat√©ticas e, por uma esp√©cie de conten√ß√£o, evitando o tom de trag√©dia, ent√£o raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Estreme√ßo de prazer por entre a novidade de usar palavras que formam intenso matagal. Luto por conquistar mais profundamente a minha liberdade de sensa√ß√Ķes e pensamentos, sem nenhum sentido utilit√°rio: sou sozinha, eu e minha liberdade. √Č tamanha a liberdade que pode escandalizar um primitivo, mas sei que n√£o te escandalizas com a plenitude que consigo e que √© sem fronteiras percept√≠veis. Esta minha capacidade de viver o que √© redondo e amplo - cerco-me por plantas carn√≠voras e animais legend√°rios, tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo m√≠tico. Vou adiante de modo intuitivo e sem procurar uma id√©ia: sou org√Ęnica. E n√£o me indago sobre os meus motivos. Mergulho na quase dor de uma intensa alegria ¬Ė e para me enfeitar nascem entre os meus cabelos folhas e ramagens...

Não sei perder minha vida Não sei qual a minha culpa mas, peço perdão. A luz do farol revelou-os tão rapidamente que não puderam ver. Peço perdão por não ser uma estrela ou o marou por não ser alegre mas coisa que se dá. Peço perdão por não saber me dá nem a mim mesma, para me dar desse modo a minha vida se fosse preciso mas, peço de novo perdão não sei perder minha vida.

Ou√ßa: respeite mesmo o que √© ruim em voc√™ - respeite sobretudo o que imagina que √© ruim em voc√™ - n√£o copie uma pessoa ideal, copie voc√™ mesma - √© esse seu √ļnico meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um c√©u, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se √© que uma vida morna n√£o √© ser punida por essa mesma mornid√£o. Pegue para voc√™ o que lhe pertence, e o que lhe pertence √© tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que √© verdadeiramente imoral √© ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que voc√™ me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma.

ISSO √Č MUITA SABEDORIA Quando fazemos tudo para que nos amem e n√£o conseguimos, resta-nos um √ļltimo recurso: n√£o fazer mais nada. Por isso, digo, quando n√£o obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que hav√≠amos solicitado, melhor ser√° desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. N√£o fazer esfor√ßos in√ļteis, pois o amor nasce, ou n√£o, espontaneamente, mas nunca por for√ßa de imposi√ß√£o. √Äs vezes, √© in√ļtil esfor√ßar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos p√©s. Os sentimentos s√£o sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaix√£o ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um s√≥ caminho...o de mais nada fazer.

O PRIMEIRO BEIJO Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ci√ļme. - Est√° bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, s√≥ a verdade: voc√™ nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples: - Sim, j√° beijei antes uma mulher. - Quem era ela? perguntou com dor. Ele tentou contar toscamente, n√£o sabia como dizer. O √īnibus da excurs√£o subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma m√£e. Ficar √†s vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era t√£o bom. A concentra√ß√£o no sentir era dif√≠cil no meio da balb√ļrdia dos companheiros. E mesmo a sede come√ßara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca. E nem sombra de √°gua. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, por√©m, a saliva, e n√£o tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele pr√≥prio, que lhe tomava agora o corpo todo. A brisa fina, antes t√£o boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e √°rida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava. E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos. N√£o sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da √°gua, pressentia-a mais pr√≥xima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando. O instinto animal dentro dele n√£o errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a √°gua sonhada. O √īnibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos. De olhos fechados entreabriu os l√°bios e colou-os ferozmente ao orif√≠cio de onde jorrava a √°gua. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito at√© a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso at√© se saciar. Agora podia abrir os olhos. Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de est√°tua fitando-o e viu que era a est√°tua de uma mulher e que era da boca da mulher que sa√≠a a √°gua. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos l√°bios um contato g√©lido, mais frio do que a √°gua. E soube ent√£o que havia colado sua boca na boca da est√°tua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra. Intuitivamente, confuso na sua inoc√™ncia, sentia intrigado: mas n√£o √© de uma mulher que sai o l√≠quido vivificador, o l√≠quido germinador da vida... Olhou a est√°tua nua. Ele a havia beijado. Sofreu um tremor que n√£o se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para tr√°s ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, at√īnito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tens√£o agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido. Estava de p√©, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de cora√ß√£o batendo fundo, espa√ßado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equil√≠brio fr√°gil. At√© que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo tamb√©m de um orgulho antes jamais sentido: ele... Ele se tornara homem. (In Felicidade Clandestina - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)

E √© in√ļtil procurar encurtar caminhos e querer come√ßar j√° sabendo que a voz diz pouco, j√° come√ßando por ser despessoal. Pois existe a trajet√≥ria, e a trajet√≥ria n√£o √© apenas um modo de ir. A trajet√≥ria somos n√≥s mesmos. Em mat√©ria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis n√£o √© um descaminho, √© a passagem √ļnica, n√£o se chega sen√£o atrav√©s dela e com ela. A insist√™ncia √© o nosso esfor√ßo, a desist√™ncia √© o pr√™mio. A este s√≥ se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desist√™ncia. A desist√™ncia tem que ser uma escolha. Desistir √© a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir √© o verdadeiro instante humano. E s√≥ esta, √© a gl√≥ria pr√≥pria de minha condi√ß√£o. A desist√™ncia √© uma revela√ß√£o.

TUDO √Č O OLHAR N√£o te amo mais Estarei mentindo dizendo que Ainda te quero como sempre quis Tenho certeza que Nada foi em v√£o Sinto dentro de mim que Voc√™ n√£o significa nada N√£o poderia dizer mais que Alimento um grande amor Sinto cada vez mais que J√° te esqueci! E jamais usarei a frase Eu te amo! Sinto, mas tenho que dizer a verdade √Č tarde demais...

Estou atr√°s do que fica atr√°s do pensamento. In√ļtil querer me classificar: eu simplesmente escapulo. G√™nero n√£o me pega mais. Al√©m do mais, a vida √© curta demais para eu ler todo o grosso dicion√°rio a fim de por acaso descobrir a palavra salvadora. Entender √© sempre limitado. As coisas n√£o precisam mais fazer sentido. N√£o quero ter a terr√≠vel limita√ß√£o de quem vive apenas do que √© poss√≠vel fazer sentido. Eu n√£o: quero √© uma verdade inventada. Porque no fundo a gente est√° querendo desabrochar de um modo ou de outro.

Mas o vazio tem o valor e a semelhaça do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é a resposta a meu - a meu mistério.

√Č que o mundo de fora tamb√©m tem o seu ¬Ďdentro¬í, da√≠ a pergunta, da√≠ os equ√≠vocos. O mundo de fora tamb√©m √© √≠ntimo. Quem o trata com cerim√īnia e n√£o o mistura a si mesmo n√£o o vive, e √© quem realmente o considera ¬Ďestranho¬í e ¬Ďde fora¬í. A palavra ¬Ďdicotomia¬í √© uma das mais secas do dicion√°rio.

...Respeite mesmo o que √© ruim em voc√™ - respeite sobretudo o que imagina que √© ruim em voc√™ - n√£o copie uma pessoa ideal, copie voc√™ mesma - √© esse seu √ļnico meio de viver.

Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.

-O que obviamente n√£o presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno v√īo e cai sem gra√ßa no ch√£o.

In√ļtil querer me classificar,eu simplesmente escapulo n√£o deixando. G√™nero n√£o me pega mais.

Só se sente nos ouvidos o próprio coração.... ....Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.

Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser ent√£o.

... Sou como você me vê ... Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, Depende de quando e como você me vê passar ...

Mas h√° a vida que √© para ser intensamente vivida, h√° o amor. Que tem que ser vivido at√© a √ļltima gota. Sem nenhum medo. N√£o mata.

O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo.

Amor ser√° dar de presente ao outro a pr√≥pria solid√£o? Pois √© a √ļltima coisa que se pode dar de si.

Sou como você me vê, posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando, e como você me vê passar.

Perder-se também é caminho.

O que saberás de mim é a sombra da flecha que se fincou no alvo.

Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca. TE AMO...!!!FELIZ...!!! TE AMO... !!!FELIZ...!!!!TE AMO.

Eu sou √† esquerda de quem entra. E estremece em mim o mundo. (...) Sou caleidosc√≥pica: fascinam-me as minhas muta√ß√Ķes faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.Sou um cora√ß√£o batendo no mundo.

Aceitar-me plenamente? √Č uma violenta√ß√£o de minha vida. Cada mudan√ßa, cada projeto novo causa espanto:meu cora√ß√£o est√° espantado. √Č por isso que toda minha palavra tem um cora√ß√£o onde circula sangue (Um sopro de vida)

Sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério. Sou uma só... Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo.

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece...

Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero. Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce dificuldades para fazê-la forte, Tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.

N√£o te amo mais Estarei mentindo dizendo que Ainda te quero como sempre quis Tenho certeza que Nada foi em v√£o Sinto dentro de mim que Voc√™ n√£o significa nada N√£o poderia dizer mais que Alimento um grande amor Sinto cada vez mais que J√° te esqueci! E jamais usarei a frase Eu te amo! Sinto, mas tenho que dizer a verdade √Č tarde demais... (Obs importante: Apesar deste poema j√° estar cadastrado, vale ressaltar que sua leitura √© feita de ordem inversa, ou seja de baixo para cima - ocorre duas interpreta√ß√Ķes distintas conforme o fluxo da leitura)

Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir. (Trecho do conto Os desastres de Sofia, in Felicidade Clandestina)

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.

Me dê a coragem Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu PECADO DE PENSAR

Meu Deus, me dê a coragem Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar.

Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei. Pergunte, sem querer a resposta, como estou perguntando. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo o entendimento.

Eu sou √† esquerda de quem entra. E estremece em mim o mundo. (...) Sou caleidosc√≥pica: fascinam-me as minhas muta√ß√Ķes faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.Sou um cora√ß√£o batendo no mundo.

...Que minha solid√£o me sirva de companhia. que eu tenha a coragem de me enfrentar. que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.

Não sei separar os fatos de mim, e daí a dificuldade de qualquer precisão, quando penso no passado.

In√ļtil querer me classificar,eu simplesmente escapulo n√£o deixando. G√™nero n√£o me pega mais.

Escuta:eu te deixo ser. Deixa-me ser,ent√£o.

A gente escreve como quem ama.

Que medo alegre, o de te esperar.

Porque na pobreza de corpo e espírito eu toco na santidade, eu que quero sentir o sopro do meu além. Para ser mais do que eu, pois tão pouco sou.

Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda.

Suponho que me entender não é uma questão de inteligência, e sim de sentir...

A fei√ļra √© o meu estandarte de guerra. Eu amo o feio com um amor de igual para igual. in √Āgua Viva

Quem sabe de que negras raízes se aliementa a liberdade de um homem!?

Amor ser√° dar de presente a outro a pr√≥pria solid√£o? Pois √© a coisa mais √ļltima que se pode dar de si.

... E descobri que n√£o tenho um dia-a-dia. √Č uma vida-a-vida. E que a vida √© sobrenatural.

O que eu sinto eu n√£o ajo. O que ajo n√£o penso. O que penso n√£o sinto. Do que sei sou ignorante. Do que sinto n√£o ignoro. N√£o me entendo e ajo como se entendesse.

Por que é que o cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga.

Ver a verdade seria diferente de inventar a veradade?

Oh Deus, que faço dessa felicidade ao meu redor que é eterna, eterna, eterna e que passará daqui a um instante. Porque o corpo só nos ensina a ser mortal?

(...) O que obviamente n√£o presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno v√īo e cai sem gra√ßa no ch√£o.

Deitada em minha rede com o livro sobre meu colo em ext√Ęse purriss√≠mo...n√£o sou mais aquela menina com seu livro,mas uma mulher com seu amante..!!

Se uma pessoa perguntar durante meia hora eu, essa pessoa se esquece quem √©. Outras podem enlouquecer. √Č mais seguro n√£o fazer jamais perguntas - porque nunca se atinge o √Ęmago de uma resposta. E porque a resposta traz em si outra pergunta.

Sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério. Sou uma só... Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo.

A Lucidez Perigosa Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes. Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.

A Perfei√ß√£o O que me tranq√ľiliza √© que tudo o que existe, existe com uma precis√£o absoluta. O que for do tamanho de uma cabe√ßa de alfinete n√£o transborda nem uma fra√ß√£o de mil√≠metro al√©m do tamanho de uma cabe√ßa de alfinete. Tudo o que existe √© de uma grande exatid√£o. Pena √© que a maior parte do que existe com essa exatid√£o nos √© tecnicamente invis√≠vel. O bom √© que a verdade chega a n√≥s como um sentido secreto das coisas. N√≥s terminamos adivinhando, confusos, a perfei√ß√£o.

√Č curioso n√£o saber dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas n√£o posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar n√£o s√≥ n√£o exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.

Toda vida é uma missão secreta...

N√£o se pode andar n√ļ nem de corpo nem de esp√≠rito.

Mas quero ter a liberdade de dizer coisas sem nexo como profunda forma de te atingir. Só o errado me atrai, e amo o pecado, a flor do pecado

E quero a desarticulação, só assim sou eu no mundo. Só assim me sinto bem.

Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso.

Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

Acho que sábado é a rosa da semana.

Na verdade, Angela...O que me mata √© o cotidiano. Eu queria s√≥ exce√ß√Ķes.

Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir.

Só trabalho com achados e perdidos.

N√£o tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito.

Voc√™ s√≥ ter√° sucesso na vida quando perdoar os erros e as decep√ß√Ķes do passado.

Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei. Pergunte, sem querer a resposta, como estou perguntando. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo o entendimento.

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas as vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: Quer-se absorve a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

...h√° impossibilidade de ser al√©m do que se √© - no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o del√≠rio, sou mais do que eu, quase normalmente - tenho um corpo e tudo que eu fizer √© continua√ß√£o de meu come√ßo...... a √ļnica verdade √© que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso j√° √© demais...

O que √© um espelho? √Č o √ļnico material inventado que √© natural. Quem olha um espelho, quem consegue v√™-lo sem se ver,quem entende que a sua profundidade consiste em ele ser vazio... esse algu√©m percebeu o seu mist√©rio de coisa.

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece...

Sonhe com o que você quiser. Vá para onde você queira ir. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz.

Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade. Eu estou- apesar de tudo oh apesar de tudo- estou sendo alegre neste instante-já que passa se eu não fixá-lo com palavras [..]

Estreme√ßo de prazer por entre a novidade de usar palavras que formam intenso matagal. Luto por conquistar mais profundamente a minha liberdade de sensa√ß√Ķes e pensamentos, sem nenhum sentido utilit√°rio: sou sozinha, eu e minha liberdade. √Č tamanha a liberdade que pode escandalizar um primitivo, mas sei que n√£o te escandalizas com a plenitude que consigo e que √© sem fronteiras percept√≠veis. Esta minha capacidade de viver o que √© redondo e amplo - cerco-me por plantas carn√≠voras e animais legend√°rios, tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo m√≠tico. Vou adiante de modo intuitivo e sem procurar uma id√©ia: sou org√Ęnica. E n√£o me indago sobre os meus motivos. Mergulho na quase dor de uma intensa alegria #8211; e para me enfeitar nascem entre os meus cabelos folhas e ramagens...

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias

N√£o √© que vivo em eterna muta√ß√£o, com novas adapta√ß√Ķes a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esbo√ßos n√£o acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus. Um sopro de vida

Leia o texto abaixo e depois leia de baixo para cima N√£o te amo mais. Estarei mentindo dizendo que Ainda te quero como sempre quis. Tenho certeza que Nada foi em v√£o. Sinto dentro de mim que Voc√™ n√£o significa nada. N√£o poderia dizer jamais que Alimento um grande amor. Sinto cada vez mais que J√° te esqueci! E jamais usarei a frase EU TE AMO! Sinto, mas tenho que dizer a verdade √Č tarde demais...

Quando eu n√£o sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se in√ļtil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? √Äs vezes d√° certo. Mas muitas vezes fico t√£o pressionada pela frase se eu fosse eu, que a procura do papel se torna secund√°ria, e come√ßo a pensar, diria melhor SENTIR. E n√£o me sinto bem. Experimente: se voc√™ fosse voc√™, como seria e o que faria? Logo de in√≠cio se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto j√° li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos n√£o me cumprimentariam na rua, porque at√© minha fisionomia teria mudado. Como? N√£o sei. Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, n√£o posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que √© meu e confiaria o futuro ao futuro. Se eu fosse eu parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intui√ß√£o de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experi√™ncia do mundo. Bem sei, experimentar√≠amos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a n√£o sentir. Mas tamb√©m ser√≠amos por vezes tomados de um √™xtase de alegria pura e leg√≠tima que mal posso adivinhar. N√£o, acho que j√° estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e tamb√©m senti uma esp√©cie de pudor que se tem diante do que √© grande demais

-O que obviamente n√£o presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno v√īo e cai sem gra√ßa no ch√£o.

N√£o se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

Corro perigo Como toda pessoa que vive E a √ļnica coisa que me espera √Č exatamente o inesperado

O que obviamente n√£o presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno v√īo e cai sem gra√ßa no ch√£o

Sempre conservei uma aspa à esquerda e à direita de mim.

Mas h√° a vida Mas h√° a vida que √© para ser intensamente vivida, h√° o amor. Que tem que ser vivido at√© a √ļltima gota. Sem nenhum medo. N√£o mata.

Parece com momentos que tive contigo,quando te amava,além dos quais não pude ir pois fui ao fundo dos momentos

... Sou como você me vê ... Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, Depende de quando e como você me vê passar ...

A direção é mais importante do que a velocidade.

Sinto-me derrotada pela minha própria corruptalidade e vejo que sou intrissecantemente má.

Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.

Não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.

Às vezes sentava-se na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.

As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre.

J√° entrei contigo em comunica√ß√£o t√£o forte que deixei de existir sendo. Tu tornas-te um eu. √Č t√£o dif√≠cil falar e dizer coisas que nunca podem ser ditas. √Č t√£o silencioso. Como traduzir o sil√™ncio do encontro real, entre n√≥s dois Dific√≠limo contar: olhei pra vc por uns instantes, tais momentos s√£o meu segredo. Houve o que se chama de comunh√£o perfeita..Eu chamo isso de estado agudo de felicidade.

Amor √© quando √© concedido participar um pouco mais. Amor √© a grande desilus√£o de tudo mais. Amor √© finalmente a pobreza. Amor √© n√£o ter inclusive amor. √Č a desilus√£o do que se pensava que era amor. Amor n√£o √© pr√™mio por isso n√£o envaidece.

D√°-me a Tua M√£o D√°-me a tua m√£o: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o n√ļmero um e o n√ļmero dois, de como vi a linha de mist√©rio e fogo, e que √© linha sub-rept√≠cia. Entre duas notas de m√ļsica existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois gr√£os de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espa√ßo, existe um sentir que √© entre o sentir - nos interst√≠cios da mat√©ria primordial est√° a linha de mist√©rio e fogo que √© a respira√ß√£o do mundo, e a respira√ß√£o cont√≠nua do mundo √© aquilo que ouvimos e chamamos de sil√™ncio.

Certamente hoje é grãos de terra. Olha para cima, para o céu, durante todo o tempo. Às vezes chove, ela fica cheia e redonda nos seus grãos. Depois vai secando com o estio e qualquer vento a dispersa. Ela é eterno agora.

Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro...

E como nasci? Por um quase. Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente nasci mulher. E vaidosa. Prefiro que saia um bom retrato meu no jornal do que os elogios.Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo.

Saudades Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida. Quando vejo retratos, quando sinto cheiros, quando escuto uma voz, quando me lembro do passado, eu sinto saudades... Sinto saudades de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem n√£o mais falei ou cruzei... Sinto saudades da minha inf√Ęncia, do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro, do pen√ļltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser... Sinto saudades do presente, que n√£o aproveitei de todo, lembrando do passado e apostando no futuro... Sinto saudades do futuro, que se idealizado, provavelmente n√£o ser√° do jeito que eu penso que vai ser... Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei! De quem disse que viria e nem apareceu; de quem apareceu correndo, sem me conhecer direito, de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer. Sinto saudades dos que se foram e de quem n√£o me despedi direito! Daqueles que n√£o tiveram como me dizer adeus; de gente que passou na cal√ßada contr√°ria da minha vida e que s√≥ enxerguei de vislumbre! Sinto saudades de coisas que tive e de outras que n√£o tive mas quis muito ter! Sinto saudades de coisas que nem sei se existiram. Sinto saudades de coisas s√©rias, de coisas hilariantes, de casos, de experi√™ncias... Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia e que me amava fielmente, como s√≥ os c√£es s√£o capazes de fazer! Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar! Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar, Sinto saudades das coisas que vivi e das que deixei passar, sem curtir na totalidade. Quantas vezes tenho vontade de encontrar n√£o sei o que... n√£o sei onde... para resgatar alguma coisa que nem sei o que √© e nem onde perdi... Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades Em japon√™s, em russo, em italiano, em ingl√™s... mas que minha saudade, por eu ter nascido no Brasil, s√≥ fala portugu√™s, embora, l√° no fundo, possa ser poliglota. Ali√°s, dizem que costuma-se usar sempre a l√≠ngua p√°tria, espontaneamente quando estamos desesperados... para contar dinheiro... fazer amor... declarar sentimentos fortes... seja l√° em que lugar do mundo estejamos. Eu acredito que um simples I miss you ou seja l√° como possamos traduzir saudade em outra l√≠ngua, nunca ter√° a mesma for√ßa e significado da nossa palavrinha. Talvez n√£o exprima corretamente a imensa falta que sentimos de coisas ou pessoas queridas. E √© por isso que eu tenho mais saudades... Porque encontrei uma palavra para usar todas as vezes em que sinto este aperto no peito, meio nost√°lgico, meio gostoso, mas que funciona melhor do que um sinal vital quando se quer falar de vida e de sentimentos. Ela √© a prova inequ√≠voca de que somos sens√≠veis! De que amamos muito o que tivemos e lamentamos as coisas boas que perdemos ao longo da nossa exist√™ncia...

[...]Nada a retinha, nem o medo. Más mesmo que agora se aproximasse a morte, mesmo a vileza, a esperança ou de novo a dor. Parara simplesmente. Estavam cortadas as veias que a ligavam as coisas vividas, reunidas num só bloco longínquo, exigindo uma continuação lógica, más velhas, mortas. Só ela própria sobrevivera, ainda respoirando. E a sua frente um novo campo, ainda sem cor a madrugada emergindo. Atravessar suas brumas para enxerga-lo. Não poderia recuar, não sabia por que recuar. Pg 179 ( Perto do coração selvagem.)

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto n√≥s todas ainda √©ramos achatadas. Como se n√£o bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possu√≠a o que qualquer crian√ßa devoradora de hist√≥rias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E n√≥s menos ainda: at√© para anivers√°rio, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em m√£os um cart√£o-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde mor√°vamos, com suas pontes mais do que vistas. Atr√°s escrevia com letra bordad√≠ssima palavras como data natal√≠cia e saudade. Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingan√ßa, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, n√≥s que √©ramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha √Ęnsia de ler, eu nem notava as humilha√ß√Ķes a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela n√£o lia. At√© que veio para ela o magno dia de come√ßar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possu√≠a As Reina√ß√Ķes de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. At√© o dia seguinte eu me transformei na pr√≥pria esperan√ßa da alegria: eu nao vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui √† sua casa, literalmente correndo. Ela n√£o morava num sobrado como eu, e sim numa casa. N√£o me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para busc√°-lo. Boquiaberta, sa√≠ devagar, mas em breve a esperan√ßa de novo me tomava toda e eu recome√ßava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem ca√≠: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e n√£o ca√≠ nenhuma vez. Mas n√£o ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranq√ľilo e diab√≥lico. No dia seguinte l√° estava eu √† porta de sua casa, com um sorriso e o cora√ß√£o batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda n√£o estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do dia seguintecom ela ia se repetir com meu cora√ß√£o batendo. E assim continuou. Quanto tempo? N√£o sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel n√£o escorresse todo de seu corpo grosso. Eu j√° come√ßara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, √†s vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, √†s vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente √† sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas voc√™ s√≥ veio de manh√£, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que n√£o era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. At√© que um dia, quando eu estava √† porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua m√£e. Ela devia estar estranhando a apari√ß√£o muda e di√°ria daquela menina √† porta de sua casa. Pediu explica√ß√Ķes a n√≥s duas. Houve uma confus√£o silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de n√£o estar entendendo. At√© que essa m√£e boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e voc√™ nem quis ler! E o pior para essa mulher n√£o era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em sil√™ncio: a pot√™ncia de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em p√© √† porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi ent√£o que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: voc√™ vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: E voc√™ fica com o livro por quanto tempo quiser. Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse √© tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na m√£o. Acho que eu n√£o disse nada. Peguei o livro. N√£o, n√£o sa√≠ pulando como sempre. Sa√≠ andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas m√£os, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei at√© chegar em casa, tamb√©m pouco importa. Meu peito estava quente, meu cora√ß√£o pensativo. Chegando em casa, n√£o comecei a ler. Fingia que n√£o o tinha, s√≥ para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer p√£o com manteiga, fingi que n√£o sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu j√° pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balan√ßando-me com o livro aberto no colo, sem toc√°-lo, em √™xtase pur√≠ssimo. N√£o era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante. Felicidade clandestina

Abro o jogo! Só não conto os fatos de minha vida: sou secreta por natureza. Há verdades que nem a Deus eu contei. E nem a mim mesma. Sou um segredo fechado a sete chaves. Por favor me poupem.

¬ďO que me atormenta √© q tudo √© por enquanto, nada √© sempre¬ď.

Por enquanto estou inventando a tua presença...

Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema individualidade de pessoa, mas seremos um só

Oh, não se assuste, às vezes, a gente mata por amor, mas eu juro que um dia a gente esquece, juro

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.

Faz de conta que tudo que ela tinha n√£o era de faz de conta.

a √ļnica verdade √© que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso j√° √© demais....

Fa√ßa com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Fa√ßa com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus bra√ßos o meu pecado de pensar.¬Ē

¬ďAcho que devemos fazer coisa proibida ¬Ė sen√£o sufocamos. Mas sem sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres.¬Ē

E ela n√£o passava de uma mulher... inconstante e borboleta.

Quanto a mim mesma, sempre conservei uma aspa à esquerda e outra à direita de mim.

√Äs vezes me d√° enj√īo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta. E √© s√≥.

Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu n√£o falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia

... existe a quem falte o delicado essencial. (A Hora da Estrela)

A minha √ļnica salva√ß√£o √© a alegria. (√Āgua Viva)

Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma id√©ia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: √†s vezes acontece que agi sob uma intui√ß√£o dessas que n√£o falham, √†s vezes erro completamente, o que prova que n√£o se tratava de intui√ß√£o, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E at√© que ponto posso control√°-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E tamb√©m tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que √© um jogo infantil, do que tantas vezes √© uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda vir√° sob a forma de um impulso. N√£o sou maduro bastante ainda. Ou nunca serei.¬Ē

Tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras; sou irrit√°vel e piro facilmente; tamb√©m sou muito calma e perd√īo logo; n√£o esque√ßo nunca; mas h√° poucas coisas de que eu me lembre; sou paciente, mas profundamente col√©rica, como a maioria dos pacientes; as pessoas nunca me irritam mesmo, certamente porque eu as perd√īo de antem√£o; gosto muito das pessoas por ego√≠smo: √© que elas se parecem no fundo comigo; nunca esque√ßo uma ofensa, o que √© uma verdade, mas como pode ser verdade, se as ofensas saem de minha cabe√ßa como se nunca nela tivessem entrando? Tenho uma paz profunda, somente porque ela √© profunda e n√£o pode ser sequer atingida por mim mesmo; se fosse alcan√ß√°vel por mim, eu n√£o teria um minuto de paz; quanto a minha paz superficial, ela √© uma alus√£o √† verdadeira paz; outra coisa que esqueci √© que h√° outra alus√£o em mim - a do mundo grande e aberto; apesar do meu ar duro, sou cheia de muito amor e √© isso o que certamente me d√° uma grandeza...¬Ē

Para al√©m da orelha existe um som, √† extremidade do olhar um aspecto, √†s pontas dos dedos um objeto - √© para l√° que eu vou. √Ä ponta do l√°pis o tra√ßo. Onde expira um pensamento est√° uma id√©ia, ao derradeiro h√°lito de alegria uma outra alegria, √† ponta da espada a magia - √© para l√° que eu vou. Na ponta dos p√©s o salto. Parece a hist√≥ria de algu√©m que foi e n√£o voltou - √© para l√° que eu vou. Ou n√£o vou? Vou, sim. E volto para ver como est√£o as coisas. Se continuam m√°gicas. Realidade? Eu vos espero. E para l√° que eu vou. Na ponta da palavra est√° a palavra. (...) √Ä beira de eu estou mim. √Č para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o qu√™? Ver o que existe. Depois de morta √© para a realidade que vou. Por enquanto √© sonho. Sonho fat√≠dico. Mas depois - depois tudo √© real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim √© um eu que anuncio. (...) Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor √© vermelho. (...) √Ä extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo. Eu √† beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto. (...) Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E √† beira do amor estamos n√≥s.

Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro...

Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da m√ļsica. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembran√ßa. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma aus√™ncia. E a l√°grima que n√£o se chorou. Tem o imaterial peso da solid√£o no meio de outros.

¬ďAgora vou falar da dolencia das flores para sentir mais a ordem do que existe.Antes te dou com prazer o n√©ctar, suco doce que muitas flores cont√©m e que os insetos buscam com avidez.Pistilo √© o org√£o feminino da flor que geralmente ocupa o centro e cont√©m o rudimento da semente.P√≥len √© p√≥ fecundante produzido nos estames e contido nas anteras.Estame √© o org√£o masculino da flor.√Č composto por estilete e pela antera na parte inferior contornando o pistilo.Fecunda√ß√£o √© a uni√£o de dois elementos de gera√ß√£o - masculino e feminino - da qual resulta o fruto f√©rtil. ¬ďE plantou Jav√© Deus um jardim no √Čden que fica no Oriente e colocou nele o homem que formara¬Ē(Gen.11- Quero pintar uma rosa. Rosa √© flor feminina que se d√° toda e tanto que para ela s√≥ resta alegria de se ter dado.Seu perfume √© mist√©rio doido.Quando profundamente aspirada toca no fundo √≠ntimo do cora√ß√£o e deixa o interior do corpo inteiro perfumado.O modo de ela se abrir em mulher √© bel√≠ssimo.As p√©talas tem gosto bom na boca - √© s√≥ experimentar.Mas a rosa n√£o √© it.√Č ela.As encarnadas s√£o de grande sensualidade.As brancas s√£o a paz do Deus.√Č muito raro encontrar na casa de flores rosas brancas.As amarelas s√£o de um alarme alegre.As cor de rosa s√£o em geral mais carnudas e tem a cor por excel√™ncia.As alaranjadas s√£o produto de enxerto e s√£o sexualmente atraentes. Preste aten√ß√£o e √© um favor: estou convidando voce a mudar-se para um reino novo. J√° o cravo tem uma agressividade que vem de certa irita√ß√£o.S√£o √°speras e arrebitadas as pontas de suas p√©talas.O perfume do cravo √© de algum modo mortal.Os cravos vermelhos berram em violenta beleza. Os brancos lembram o caix√£o de crian√ßa defunta: o cheiro ent√£o se torna pungente e a gente desvia a cabe√ßa para o lado com horror.Como transplantar o cravo para a tela? O girassol √© o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou.N√£o importa se √© pai ou m√£e .N√£o sei. Ser√° o girassol flor feminina ou masculina? Acho que √© masculina. A violeta √© introvertida e sua introspec√ß√£o √© profunda.Dizem que se esconde por mod√©stia.N√£o √©.Esconde-se para poder captar o pr√≥prio segredo.Seu quase-n√£o-perfume √© gl√≥ria abafada mas exige da gente que o busque.N√£o grita nunca seu perume.Violeta diz levezas que n√£o se podem dizer. A sempre-viva √© sempre morta. Sua secura tende √† eternidade. O nome em grego quer dizer: sol de ouro. A margarida √© florzinha alegre.√Č simples e √† tona da pele.S√≥ tem uma camada de p√©talas. O centro √© uma brincadeira infantil.A formosa orqu√≠dea √© exquise e antip√°tica.N√£o √© expont√Ęnea.Requer redoma.Mas √© mulher esplendorosa e isto n√£o se pode negar..Tamb√©m n√£o se pode negar que √© nobre porque √© ep√≠fita.Ep√≠fitas nascem sobre outras plantas sem contudo tirar delas a nutri√ß√£o.Estava mentindo quando disse que era antip√°tica.Adoro orqu√≠deas.J√° nascem artificiais, j√° nascem arte. Tulipa s√≥ √© tulipa na Holanda.Uma √ļnica tulipa simplesmente n√£o √©.Precisa de campo aberto para ser. Flor dos trigais s√≥ d√° no meio do trigo.Na sua humildade tem a ousadia de aparecer em diversas formas e cores.A flor do trigal √© b√≠blica.Nos pres√©pios da Espanha n√£o se separa os ramos de trigo.√Č um pequeno cora√ß√£o batendo. Mas ang√©lica √© perigosa.Tem perfume de capela.Traz √™xtase.Lembra a h√≥stia.Muitos tem vontade de come-la e encher a boca com o intenso cheiro sagrado. O jasmim √© dos namorados.D√° vontade de por retic√™ncias agora.Eles andam de m√£os dadas, balan√ßando os bra√ßos, e se d√£o beijos suaves ao quase som odorante do jardim. Estrel√≠cia √© masculina por excel√™ncia. Tem uma agressividade de amor e de sadio orgulho.Parece ter crista de galo e o seu canto.S√≥ que n√£o espera pela aurora.A violencia de tua beleza. Dama-da-noite tem perfume de lua cheia.√Č fantasmag√≥rica e um pouco assustadora e √© para quem ama o perigo.S√≥ sai de noite com seu cheiro tonteador.Dama-da-noite √© silente. E tamb√©m da esquina deserta e em trevas e dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas. √Č perigos√≠ssima: √© um assobio no escuro, o que ningu√©m aguenta.Mas eu aguento porque amo o perigo.Quanto √† suculenta flor de c√°ctus, √© grande e cheirosa e de cor brilhante.√Č a vingan√ßa sumarenta que faz a planta des√©rtica.√Č o explendor nascendo da esterelidade desp√≥tica. Estou com pregui√ßa de falar da edelvais.√Č que se encontra √† altura de tres mil e quatrocentros metros de altitude.√Č branca e lanosa.Raramente alcan√ß√°vel: √© a aspira√ß√£o. Ger√Ęnio √© flor de canteiro de janela.Encontra-se em S√£o Paulo no bairro do Graja√ļ e na Sui√ßa.Vit√≥ria-r√©gia est√° no Jardim Bot√Ęnico do Rio de Janeiro.Enorme at√© quase dois metros de diametro.Aqu√°ticas, √© de se morrer delas.Elas s√£o o amaz√īnico dinossauro das flores.Espalham grande tranquilidade. A um tempo majestosas e simples.E apesar de viverem no n√≠vel das √°guas elas d√£o sombras.Isto que estou te escrevendo √© em latim:de natura florum.Depois te mostrarei o meu estudo j√° transformado em desenho linear. O cris√Ęntemo √© de alegria profunda.Fala atrav√©s da cor e do despenteado.√Č flor que descabeladamente controla a pr√≥pria selvageria. Acho que vou ter que pedir licen√ßa para morrer.Mas n√£o posso, √© tarde demais.Ouvi o P√°ssaro de Fogo - e afoguei-me inteira. Tenho que interromper porque - eu n√£o disse? eu n√£o disse que um dia ia me acontecer uma coisa? Pois aconteceu agora mesmo.¬Ē Trecho de √°gua viva

A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda.Dizem que se esconde por modéstia.Não é.Esconde-se para poder captar o próprio segredo.Seu quase-não-perfume é glória abafada mas exige da gente que o busque.Não grita nunca seu perume.Violeta diz levezas que não se podem dizer.

Realmente o tom geral devia estar pessimista. O pessimismo passou, mas o bom prop√≥sito n√£o: farei o poss√≠vel para n√£o amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. √Äs vezes o amor que se d√° pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tend√™ncia geral para exagerar, e resolvi tentar n√£o exigir dos outros sen√£o o m√≠nimo. √Č uma forma de paz... Tamb√©m √© bom porque em geral se pode ajudar muito mais as pessoas quando n√£o se est√° cega pelo amor.

Sobretudo um dia vir√° em que todo meu movimento ser√° cria√ß√£o, nascimento, eu romperei todos os n√£os que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada h√° a temer, que tudo o que eu for ser√° sempre onde haja uma mulher com meu princ√≠pio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantar√£o poderosas, √°gua pura submergindo a d√ļvida, a consci√™ncia, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar ser√£o palavras n√£o pensadas e lentas, n√£o levemente sentidas, n√£o cheias de vontade de humanidade, n√£o o passado corroendo o futuro! O que eu disser soar√° fatal e inteiro! (Perto do Cora√ß√£o Selvagem)

Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. (A Lucidez Perigosa)

... a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio. (Dá-me a tua mão)

Laranja na mesa. Bendita a árvore que te pariu. (Amor à Terra)

... Quero escrever no√ß√Ķes sem o uso abusivo da palavra. (Quero escrever o borr√£o vermelho de sangue)

Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.

E, antes de aprender a ser livre, eu ag√ľentava ¬Ė s√≥ para n√£o ser livre.

No fundo ela n√£o passar√° de uma caixinha de m√ļsica meio desafinada.

Simplesmente eu sou eu. E voc√™ √© voc√™. √Č vasto, vai durar. Por enquanto tu olhas para mim e me amas. N√£o: tu olhas para ti e te amas. √Č o que est√° certo.

Porque, às vezes, acordar tem lá suas muitas desvantagens.

E quando acaricio a cabeça do meu cão, sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique.

As √°rvores estavam carregadas, o mundo era t√£o rico que apodercia!

... A nossa vida √© truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a uni√£o que √© o cord√£o umbilical. E quantos morrem com sangue. √Č preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A trucul√™ncia. √Č amor tamb√©m. (Nossa trucul√™ncia)

Restos do Carnaval N√£o, n√£o deste √ļltimo carnaval. Mas n√£o sei por que este me transportou para a minha inf√Ęncia e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoa√ßavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um v√©u cobrindo a cabe√ßa ia √† igreja, atravessando a rua t√£o extremamente vazia que se segue ao carnaval. At√© que viesse o outro ano. E quando a festa j√° ia se aproximando, como explicar a agita√ß√£o que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de bot√£o que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e pra√ßas do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu. No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensa√ß√£o deixavam-me ficar at√© umas 11 horas da noite √† porta do p√© de escada do sobrado onde mor√°vamos, olhando √°vida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava ent√£o e economizava-as com avareza para durarem os tr√™s dias: um lan√ßa-perfume e um saco de confete. Ah, est√° se tornando dif√≠cil escrever. Porque sinto como ficarei de cora√ß√£o escuro ao constatar que, mesmo me agregando t√£o pouco √† alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada j√° me tornava uma menina feliz. E as m√°scaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necess√°rio porque vinha de encontro √† minha mais profunda suspeita de que o rosto humano tamb√©m fosse uma esp√©cie de m√°scara. √Ä porta do meu p√© de escada, se um mascarado falava comigo, eu de s√ļbito entrava no contato indispens√°vel com o meu mundo interior, que n√£o era feito s√≥ de duendes e pr√≠ncipes encantados, mas de pessoas com o seu mist√©rio. At√© meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim. N√£o me fantasiavam: no meio das preocupa√ß√Ķes com minha m√£e doente, ningu√©m em casa tinha cabe√ßa para carnaval de crian√ßa. Mas eu pedia a uma de minhas irm√£s para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha ent√£o a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante tr√™s dias por ano. Nesses tr√™s dias, ainda, minha irm√£ acedia ao meu sonho intenso de ser uma mo√ßa - eu mal podia esperar pela sa√≠da de uma inf√Ęncia vulner√°vel - e pintava minha boca de batom bem forte, passando tamb√©m ruge nas minhas faces. Ent√£o eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice. Mas houve um carnaval diferente dos outros. T√£o milagroso que eu n√£o conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que j√° aprendera a pedir pouco. √Č que a m√£e de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com os quais, suponho, pretendia imitar as p√©talas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco √† fantasia tomando forma e se criando. Embora de p√©talas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira. Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a m√£e de minha amiga - talvez atendendo a meu mudo apelo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, j√° que sobrara papel - resolveu fazer para mim tamb√©m uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que n√£o eu mesma. At√© os preparativos j√° me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira t√£o ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calcul√°vamos tudo, embaixo da fantasia usar√≠amos combina√ß√£o, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estar√≠amos de algum modo vestidas - √†id√©ia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combina√ß√£o na rua, morr√≠amos previamente de vergonha - mas ah! Deus nos ajudaria! n√£o choveria! Quando ao fato de minha fantasia s√≥ existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola. Mas por que exatamente aquele carnaval, o √ļnico de fantasia, teve que ser t√£o melanc√≥lico? De manh√£ cedo no domingo eu j√° estava de cabelos enrolados para que at√© de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos n√£o passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram tr√™s horas da tarde: com cuidado para n√£o rasgar o papel, eu me vesti de rosa. Muitas coisas que me aconteceram t√£o piores que estas, eu j√° perdoei. No entanto essa n√£o posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino √© irracional? √Č impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge - minha m√£e de s√ļbito piorou muito de sa√ļde, um alvoro√ßo repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um rem√©dio na farm√°cia. Fui correndo vestida de rosa - mas o rosto ainda nu n√£o tinha a m√°scara de mo√ßa que cobriria minha t√£o exposta vida infantil - fui correndo, correndo, perplexa, at√īnita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava. Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irm√£ me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas hist√≥rias que eu havia lido, sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; n√£o era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci at√© a rua e ali de p√© eu n√£o era uma flor, era um palha√ßo pensativo de l√°bios encarnados. Na minha fome de sentir √™xtase, √†s vezes come√ßava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha m√£e e de novo eu morria. S√≥ horas depois √© que veio a salva√ß√£o. E se depressa agarrei-me a ela √© porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos j√° lisos de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu ent√£o, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim algu√©m me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa. in Felicidade Clandestina - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998

As Crian√ßas Chatas N√£o posso. N√£o posso pensar na cena que visualizei e que √© real. O filho que est√° de noite com dor de fome e diz para a m√£e: estou com fome, mam√£e. Ela responde com do√ßura: dorme. Ele diz: mas estou com fome. Ela insiste: durma. Ele diz: n√£o posso, estou com fome. Ela repete exasperada: durma. Ele insiste. Ela grita com dor: durma, seu chato! Os dois ficam em sil√™ncio no escuro, im√≥veis. Ser√° que ele est√° dormindo? - pensa ela toda acordada. E ele est√° amedrontado demais para se queixar. Na noite negra os dois est√£o despertos. At√© que, de dor e cansa√ßo, ambos cochilam, no ninho da resigna√ß√£o. E eu n√£o ag√ľento a resigna√ß√£o Ah, como devoro com fome e prazer a revolta. (19 de agosto de 1967)

Ainda Sem Resposta Não mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura. O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através de literatura que poderá talvez se manifestar.

Mistérios de Um Sono Estou dormindo. E embora pareça contradição, suavemente de repente o prazer de estar dormindo me acorda num sobressalto também suave. Estou acordada e ainda sinto o gosto daquela zona rural onde subsolarmente eu espalhava de minhas raízes os tentáculos de um sonho. (28 de setembro de 1968)

A Virgem de Todas as Mulheres Toda mulher, ao saber que está grávida, leva a mão à garganta: ela sabe que dará à luz um ser que seguirá forçosamente o caminho de Cristo, caindo na sua via muitas vezes sob o peso da cruz. Não há como escapar. (21 de dezembro de 1968)

- Ela √© t√£o livre que um dia ser√° presa. - Presa por qu√™? - Por excesso de liberdade. - Mas essa liberdade √© inocente? - √Č. At√© mesmo ing√™nua. - Ent√£o por que a pris√£o? - Porque a liberdade ofende.

Reflex√Ķes H√° momentos na vida em que sentimos tanto a falta de algu√©m¬Ö que o que mais queremos √© tirar esta pessoa de nossos sonhos e abra√ßa-la¬Ö Sonhe com aquilo que voc√™ quiser¬Ö Seja o que voc√™ quer ser¬Ö Porque voc√™ possui apenas uma vida E nela s√≥ temos uma chance de fazer aquilo que queremos. Tenha felicidade bastante para faze-la doce, dificuldades para faze-la forte, tristeza para faze-la humana. E esperan√ßa suficiente para faze-la feliz. As pessoas mais felizes n√£o tem as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram¬Ö Para aqueles que buscam e tentam sempre¬Ö E para aqueles que reconhecem a import√Ęncia das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante √© baseado num passado intensamente vivido. Voc√™ s√≥ ter√° sucesso na vida quando perdoar os erros e as decep√ß√Ķes do passado. A vida √© curta, mas as emo√ß√Ķes que podemos deixar¬Ö ¬Öduram uma eternidade¬Ö

Como se eu procurasse n√£o aproveitar a vida imediatamente, mas s√≥ a mais profunda, o que me d√° dois modos de ser: em vida, observo muito, sou ativa nas observa√ß√Ķes, tenho o senso do rid√≠culo, do bom humor, da ironia, e tomo um partido. Escrevendo, tenho observa√ß√Ķes passivas, t√£o interiores que se escrevem ao mesmo tempo em que s√£o sentidas quase sem o que se chama de processo. √Č por isso que no escrever eu n√£o escolho, n√£o posso me multiplicar em mil, me sinto fatal a despeito de mim

O SEGREDO Há uma palavra que pertence a um reino que me deixa muda de horror. Não espantes o nosso mundo, não empurres com a palavra incauta o nosso barco para sempre ao mar. Temo que depois da palavra tocada fiquemos puros demais. Que faríamos de nossa vida pura? Deixa o céu à esperança apenas, com os dedos trêmulos cerro os teus lábios, não a digas. Há tanto tempo eu de medo a escondo que esqueci que a desconheço, e dela fiz o meu segredo mortal.

Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da m√ļsica. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembran√ßa. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma aus√™ncia. E a l√°grima que n√£o se chorou. Tem o imaterial peso da solid√£o no meio de outros.

Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intoler√°vel para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.

E eis que depois de uma tarde de ¬ďquem sou eu¬Ē e de acordar √† uma da madrugada ainda em desespero ¬Ė eis que √†s tr√™s horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulmina√ß√£o. Simplesmente eu sou eu. E voc√™ √© voc√™. √Č vasto, vai durar.

Sou um dos fracos? Fraca que foi tomada por ritmo incessante e doido? Se eu fosse s√≥lida e forte nem ao menos teria ouvido o ritmo? N√£o encontro resposta: sou. √Č isto apenas o que me vem da vida. Mas sou o qu√™? a resposta √© apenas: sou o qu√™. Embora √†s vezes grite: n√£o quero mais ser eu!! Mas eu me grudo a mim e inextricavelmente forma-se uma tessitura de vida.

Agora preciso de tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: Por amor.

J√° que ela n√£o era uma pessoa triste, procurou continuar como se nada tiv√©sse perdido. Ela n√£o sentiu desespero. Tamb√©m o que √© que ela podia fazer? Pois ela era cr√īnica. Tristeza era luxo.

O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo!

Quem muito agrada, desagrada.

Sou feliz na hora errada. Infeliz quando todos dan√ßam. Me disseram que os aleijados se rejubilam assim como me disseram que os cegos se alegram. √Č que os infelizes se compensam. in Um Sopro de Vida

Tenho vontade de escrever e não consigo (...) O que escrevo está sem entrelinha? Se assim for, estou perdida. Há um livro em cada um de nós. in Um Sopro de Vida

Perder-se é um achar perigoso.

- Que √© que eu fa√ßo? √Č de noite e estou viva. Estar viva esta me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro.

Todos os dias, quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra amor...

Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

E ser√° in√ļtil esfor√ßar-se para esquecer - tudo o que um dia se misturou carregar√° consigo part√≠culas do outro. Talvez venha o arrependimento, o recome√ßo, as cores voltem a brilhar como antes - mas n√£o se pode contar com isso. N√£o se pode contar com nada. O √ļnico caminho vi√°vel √© viver e correr o sagrado risco do acaso. E substituir o destino pela probabilidade.

Perdi alguma coisa q me era essencial, e q j√° √Ī me √© mais.N√£o me √© necessaria. assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna q at√© ent√£o me impossibilitava de andar mas q fazia de mim um trip√© est√°vel. Essa terceira perna eu perdi.E voltei a ser uma pessoa q nunca fui . Voltei a ter o q nunca tive apenas as duas pernas. Sei q somente com as duas pernas √© q posso caminhar.Mas a aus√™ncia in√ļtil da terceira me faz falta e me assusta, era ela q fazia de mim uma coisa encont√°vel por mim mesma, e sem sequer precisar me procura.

O sonho Sonhe com aquilo que voc√™ quer ser, porque voc√™ possui apenas uma vida e nela s√≥ se tem uma chance de fazer aquilo que quer. Tenha felicidade bastante para faz√™-la doce. Dificuldades para faz√™-la forte. Tristeza para faz√™-la humana. E esperan√ßa suficiente para faz√™-la feliz. As pessoas mais felizes n√£o tem as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a import√Ęncia das pessoas que passaram por suas vidas.

...√Č curioso como n√£o sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas n√£o posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar n√£o s√≥ n√£o exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo... Sou como voc√™ me v√™. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, Depende de quando e como voc√™ me v√™ passar. N√£o me d√™em f√≥rmulas certas, por que eu n√£o espero acertar sempre. N√£o me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu cora√ß√£o. N√£o me fa√ßam ser quem n√£o sou. N√£o me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente. N√£o sei amar pela metade. N√£o sei viver de mentira. N√£o sei voar de p√©s no ch√£o. Sou sempre eu mesma, mas com certeza n√£o serei a mesma pra sempre

(...) farei o poss√≠vel para n√£o amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. √Äs vezes o amor que se d√° pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tend√™ncia geral para exagerar, e resolvi tentar n√£o exigir dos outros sen√£o o m√≠nimo. √Č uma forma de paz...

De repente as coisas não precisam mais fazer sentido. Satisfaço-me em ser. Tu és? Tenho certeza que sim. O não sentido das coisas me faz ter um sorriso de complacência. De certo tudo deve estar sendo o que é. in Um Sopro de Vida

Tenho medo de escrever. √Č t√£o perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que est√° oculto - e o mundo n√£o est√° √† tona, est√° oculto em suas ra√≠zes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio √© que existo intuitivamente. Mas √© um vazio extremamente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras - quais? Talvez as diga. Escrever √© uma pedra lan√ßada no fundo do po√ßo. in Um Sopro de Vida

Escrever existe por si mesmo? N√£o. √Č apenas o reflexo de uma coisa que pergunta. Eu trabalho com o inesperado. Escrevo como escrevo sem saber como e por qu√™ - √© por fatalidade de voz. O meu timbre sou eu. Escrever √© uma indaga√ß√£o. √Č assim : ? in Um Sopro de Vida

Todo mundo que aprendeu a ler e escrever tem uma certa vontade de escrever. √Č leg√≠timo: todo o ser tem algo a dizer. Mas √© preciso mais do que a vontade para escrever. √āngela diz, como milhares de pessoas dizem (e com raz√£o): minha vida √© um verdadeiro romance, se eu escrevesse contando ningu√©m acreditaria. E √© verdade. A vida de cada pessoa √© pass√≠vel de um aprofundamento doloroso e a vida de cada pessoa √© inacredit√°vel. O que devem fazer essas pessoas? O que √āngela faz: escrever sem nenhum compromisso. √Äs vezes uma s√≥ linha basta para salvar o pr√≥prio cora√ß√£o. in Um Sopro de Vida

Cada novo livro é uma viagem. Só que é uma viagem de olhos vendados em mares nunca dantes revelados - a mordaça nos olhos, o terror da escuridão é total. Quando sinto uma inspiração, morro de medo porque sei que de novo vou viajar e sozinho num mundo que me repele. in Um Sopro de Vida.

Eu tenho que ser minha amiga, sen√£o n√£o ag√ľento a solid√£o. Quando estou sozinha procuro n√£o pensar porque tenho medo de de repente pensar uma coisa nova demais para mim mesma. Falar alto sozinha e para o qu√™ √© dirigir-se ao mundo, √© criar uma voz potente que consegue - consegue o qu√™? in Um Sopro de Vida

Eu também não sei não pensar. Acontece sem esforço. Só é difícil quando procuro obter essa escuridão silenciosa. Quando estou distraído, caio na sombra e no oco e no doce macio nada-de-mim. in Um Sopro de Vida.

Viver é meu código e meu enigma. E quando eu morrer serei para os outros um código e um enigma. Despenhadeiros. Eu não sabia que o perigo é o que torna preciosa a vida. A morte é o perigo constante da vida.

Ser feliz √© uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem. Tenho coragem mas com um pouco de medo. Pessoa feliz √© quem aceitou a morte. Quando estou feliz demais, sinto uma ang√ļstia amorda√ßante: assusto-me. Sou t√£o medrosa. Tenho medo de estar viva porque quem tem vida um dia morre. E o mundo me violenta. in Um Sopro de Vida

H√° momentos na vida em que sentimos tanto a falta de algu√©m que o que mais queremos √© tirar esta pessoa de nossos sonhos e abra√ß√°-la. Sonhe com aquilo que voc√™ quiser. Seja o que voc√™ quer ser, porque voc√™ possui apenas uma vida e nela s√≥ se tem uma chance de fazer aquilo que se quer. Tenha felicidade bastante para faz√™-la doce. Dificuldades para faz√™-la forte. Tristeza para faz√™-la humana. E esperan√ßa suficiente para faz√™-la feliz. As pessoas mais felizes n√£o t√™m as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a import√Ęncia das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante √© baseado num passado intensamente vivido. Voc√™ s√≥ ter√° sucesso na vida quando perdoar os erros e as decep√ß√Ķes do passado. A vida √© curta, mas as emo√ß√Ķes que podemos deixar duram uma eternidade. A vida n√£o √© de se brincar porque um belo dia se morre.

Só a necessidade que eu tenho me justifica. Que seria de mim se eu não precisasse? Que seria de meu corpo se não houvesse o aviso da fome? Que seria de mim se não houvesse o futuro? Que seria de mim se eu não precisasse de Deus? In:Esboço para um possível retrato

Não sei o que fazer do que vivi,tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu,pelo fato de não a saber como viver,vivi uma outra?!

Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo ja me aconteceu,é a minha maior aventura,essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la

Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão

Enquanto escrever e falar vou ter que fingir que alguém está segunrando a minha mão

A verdade n√£o faz sentido,a grandeza do mundo me acolhe

Eu antes vivia de um mundo humanizado,mas o puramente vivo derrubou a moralidade que eu tinha. √Č qye um mundo todo vivo tem a for√ßa de um Inferno

Fotografia é o retrato de um concavo,de uma falta,de uma ausencia

Dá-me a tua mão desconhecida,que a vida está me doendo,e não sei como falar - a realidade é delicada demais,só a realidade é delicada,minha irrealidade e minha imaginação são mais pesadas

A garantia √ļnica √© que eu nasci. Tu √©s uma forma de ser eu, e eu uma forma de te ser: Eis os limites de minha possibilidade.

Mas h√° a vida que h√° para ser vivida, h√° o amor. H√° o amor. Que √© para ser vivido at√© a √ļltima gota. Sem medo. N√£o mata.

¬ďSou t√£o misteriosa que n√£o me entendo.¬Ē

Eu medito sem palavras e sobre o nada.¬Ē

¬ďA minha vida a mais verdadeira √© irreconhec√≠vel, extremamente interior, e n√£o h√° uma palavra que a signifique¬Ē

O mundo me parece uma coisa vasta demais e sem síntese possível

Pensar é um ato. Sentir é um fato.

Se tenho que ser um objeto, que seja um objeto que grita.¬Ē

A possíveis leitores: Este livro é como um livro qualquer.Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já fomrada. Aquelas que sabem que a aproximação,do que quer que seja,se faz gradualmente e penosamente - atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar.Aquelas pessoas que,só elas,entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim,por exemplo,o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil. mas chama-se alegria.

A verdade n√£o me faz sentido! √Č por isso que a temia e a temo.Desamparada,eu te entrego tudo - para que fa√ßas disso uma coisa alegre.Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu n√£o falar eu me perderei,e por me perder,eu te perderia.

E é só o que posso a dizer a meu respeito?! Ser sincera?!Relativamente sou.Não minto para formar verdades falsas.Mas usei demais as verdades como pretexto pra mentir.Eu poderia relatar a mim mesma o que me lisonjeasse,e também fazer o realto da sordidez.Mas tenho que tomar cuidado de não confundir defeitos com verdades

O leve prazer geral - que parece ter sido o teom em que vivo ou vivia - talvez viesse de que o mundo não era eu nem meu:eu podia usufruí-lo.Assim como também aos homens eu não os havia feito meus,e podia então admirá-los e sinceramente amá-los,como se ama sem egoismos,como se ama uma idéia.Não sendo meus,eu nunca os torturava.

Ali estava eu, a menina esperta demais, e eis que tudo o que em mim n√£o prestava servia a Deus e aos homens. Tudo o que em mim n√£o prestava era o meu tesouro. (Desastres de Sofia) in A Legi√£o Estrangeira.

O que sou ent√£o? Sou uma pessoa que tem um cora√ß√£o que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu p√īr em palavras um mundo inintelig√≠vel e um mundo impalp√°vel. Sobretudo uma pessoa cujo cora√ß√£o bate de alegria lev√≠ssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.¬Ē

Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade. Eu estou - apesar de tudo, oh, apesar de tudo -, estou sendo alegre neste instante-já que passa se eu não fixá-lo com palavras. Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta.

A Solu√ß√£o: Chamava-se Almira e engordara demais. Alice era a sua maior amiga. Pelo menos era o que dizia a todos com afli√ß√£o, querendo compensar com a pr√≥pria veem√™ncia a falta de amizade que a outra lhe dedicava. Alice era pensativa e sorria sem ouvi-la, continuando a batera m√°quina. √Ä medida que a amizade de Alice n√£o existia, a amizade de Almira mais crescia. Alice era de rosto oval e aveludado. O nariz de Almira brilhava sempre. Havia no rosto de Almira uma avidez que nunca lhe ocorrera disfar√ßar: a mesma que tinha por comida, seu contato mais direto com o mundo. Por que Alice tolerava Almira, ningu√©m entendia. Ambas eram datil√≥grafas e colegas, o que n√£o explicava. Ambas lanchavam juntas, o que n√£o explicava. Sa√≠am do escrit√≥rio √† mesma hora e esperavam condu√ß√£o na mesma fila. Almira sempre pajeando Alice. Esta, distante e sonhadora, deixando-se adorar. Alice era pequena e delicada. Almira tinha o rosto muito largo, amarelado e brilhante: com ela o batom n√£o durava nos l√°bios, ela era das que comem o batom sem querer. Gostei tanto do programa da R√°dio Minist√©rio da Educa√ß√£o, dizia Almira procurando de algum modo agradar. Mas Alice recebia tudo como se lhe fosse devido, inclusive a √≥pera do Minist√©rio da Educa√ß√£o. S√≥ a natureza de Almira era delicada. Com todo aquele corpanzil, podia perder uma noite de sono por ter dito uma palavra menos bem dita. E um peda√ßo de chocolate podia de repente ficar-lhe amargo na boca ao pensamento de que fora injusta. O que nunca lhe faltava era chocolate na bolsa, e sustos pelo que pudesse ter feito. N√£o por bondade. Eram talvez nervos frouxos num corpo frouxo.Na manh√£ do dia em que aconteceu, Almira saiu para o trabalho correndo, ainda mastigando um peda√ßo de p√£o. Quando chegou ao escrit√≥rio, olhou para a mesa de Alice e n√£o a viu. Uma hora depois esta aparecia de olhos vermelhos. N√£o quis explicar nem respondeu √†s perguntas nervosas de Almira. Almira quase chorava sobre a m√°quina. Afinal, na hora do almo√ßo, implorou a Alice que aceitasse almo√ßarem juntas, ela pagaria. Foi exatamente durante o almo√ßo que se deu o fato. Almira continuava a querer saber por que Alice viera atrasada e de olhos vermelhos. Abatida, Alice mal respondia. Almira comia com avidez e insistia com os olhos cheios de l√°grimas. ¬ó Sua gorda! disse Alice de repente, branca de raiva. Voc√™ n√£o pode me deixarem paz?!Almira engasgou-se com a comida, quis falar, come√ßou a gaguejar. Dos l√°bios macios de Alice haviam sa√≠do palavras que n√£o conseguiam descer com a comida pela garganta de Almira G. de Almeida. ¬ó Voc√™ √© uma chata e uma intrometida, rebentou de novo Alice. Quer saber o que houve, n√£o √©? Pois vou lhe contar, sua chata: √© que Zequinha foi embora para Porto Alegre e n√£o vai mais voltar! Agora est√° contente, sua gorda? Na verdade Almira parecia ter engordado mais nos √ļltimos momentos, e com comida ainda parada na boca. Foi ent√£o que Almira come√ßou a despertar. E, como se fosse uma magra, pegou o garfo e enfiou-o no pesco√ßo de Alice. O restaurante, ao que se disse no jornal, levantou-se como uma s√≥ pessoa. Mas a gorda, mesmo depois de feito o gesto, continuou sentada olhando para o ch√£o, sem ao menos olhar o sangue da outra. Alice foi ao Pronto-Socorro, de onde saiu com curativos e os olhos ainda arregalados de espanto. Almira foi presa em flagrante. Algumas pessoas observadoras disseram que naquela amizade bem que havia dente-de-coelho. Outras, amigas da fam√≠lia, contaram que a av√≥ de Almira, dona Altamiranda, fora mulher muito esquisita. Ningu√©m se lembrou de que os elefantes, de acordo com os estudiosos do assunto, s√£o criaturas extremamente sens√≠veis, mesmo nas grossas patas. Na pris√£o Almira comportou-se com docilidade e alegria, talvez melanc√≥lica, mas alegria mesmo. Fazia gra√ßas para as companheiras. Finalmente tinha companheiras. Ficou encarregada da roupa suja, e dava-se muito bem com as guardi√£s, que vez por outra lhe arranjavam uma barra de chocolate. Exatamente como para um elefante no circo.

N√£o √© a toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei arduamente o meu! E como hoje busco com sofreguid√£o e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, j√° que n√£o ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido. O caminho, com letra mai√ļscula, hoje me agarro ferozmente √† procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as √°rvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, isso n√£o encontrei. Mas sei de uma coisa; meu caminho n√£o sou eu, √© o outro, s√£o os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro, estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.

Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, Depende de quando e como você me vê passar...

Aliás - descubro eu agora - eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria.

Onde aprender a odiar para n√£o morrer de amor?

Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir - esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade

Pecado O pecado me atrai, o que é proibido me fascina!

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.Quando essa não-palavra - a entrelinha - morde a isca, alguma coisa se escreveu.

Já que sou, o jeito é ser.

Fico às vezes reduzida ao essencial, quer dizer, só meu coração bate.

A hora de viver é um ininterrupto lento rangido de portas que se abrem continuamente de par em par.

Sou sempre eu mesma, mas com certeza n√£o serei a mesma pra sempre.

Quem não é um acaso na vida?

Eu vivo à espera de inspiração com uma avidez que não dá descanso. Cheguei mesmo à conclusão de que escrever é a coisa que mais desejo no mundo, mesmo mais que amor.

Sou cada pedaço infernal de mim.

Oh chega de decep√ß√Ķes, estou t√£o machucada, me doem a nuca, a boca, os tornozelos, fui chicoteada nos rins. Um sopro de vida

O que me mata √© o cotidiano. Eu queria s√≥ exce√ß√Ķes.

Pelas plantas dos pés subia um estremecimento de medo, o sussurro de que a terra poderia aprofundar-se. E de dentro erguiam-se certas borboletas batendo asas por todo o corpo.

E eis que de repente eles param e mudos, graves, espantados se olham nos olhos: é que eles sabiam que um dia iriam amar. Um Sopro de Vida

Eu antes era uma mulher que sabia distinguir as ciosas quando as via. Mas agora cometi o erro grave de pensar. Um Sopro de Vida

Apesar de sagaz, n√£o compreendo realmente o que est√° me acontecendo. Um Sopro de Vida

¬ďAs pessoas mais felizes n√£o t√™m as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que buscam e tentam sempre, e para aqueles que reconhecem a import√Ęncia das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante √© baseado num passado intensamente vivido. Voc√™ s√≥ ter√° sucesso na vida quando perdoar os erros e as decep√ß√Ķes do passado. A vida √© curta, mas as emo√ß√Ķes que podemos deixar duram uma eternidade. Sonhe com aquilo que voc√™ quiser. Seja o que voc√™ quer ser, porque voc√™ possui apenas uma vida e nela s√≥ se tem uma chance de fazer aquilo que se quer. Tenha felicidade bastante para faz√™-la doce. Dificuldades para faz√™-la forte. Tristeza para faz√™-la humana. E esperan√ßa suficiente para faz√™-la feliz.¬Ē

Pois que dedico esta coisa ai ao antigo Schumann e a sua doce Clara que s√£o hoje ossos, ai de n√≥s. Dedico-me √† cor rubra muito escarlate como o meu sangue de homem em plena idade e portanto dedico-me a meu sangue. Dedico-me sobretudo aos gnomos, an√Ķes, s√≠lfides e ninfas que me habitam a vida. Dedico-me √† saudade de minha antiga pobreza, quando tudo era mais s√≥brio e digno e eu nunca havia comido lagosta. Dedico-me √† tempestade de Beethoven. A vibra√ß√£o das cores neutras de Bach. A Chopin que me amolece os ossos. A stravinsky que me espantou e com quem voei em fogo. √ā morte e transfigura√ß√£o, em que Richard Strauss me revela um destino? Sobretudo, dedico-me √†s vesperas de hoje e a hoje, ao trasnparente v√©u de Debussy, a Marlos Nobre, a Prokofiev,a Carl Orf, a Sch√∂nngberg, aos dodecaf√īnicos, aos gritos rascantes dos eletronicos - a tonas esses que em mim atigiram zonas assutadoramente inesperadas, todos esses profetas do presente e que a mim me vaticinaram a mim mesmo a ponte de eu neste instante explodir em : eu. Esse eu que √© v√≥s pois n√£o aguento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de p√©, t√£o tonto que sou, eu enviesado, enfim que √© que se h√° de fazer sen√£o meditar para cair naquele vazio pleno que s√≥ se atinge com a medita√ß√£o. Meditar n√£o precisa de ter resultados: a medita√ß√£o pode ter como fim apenas ela mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que me atrapalha a vida √© escrever. E - e n√£o esquecer que a estrutura do √°tomo n√£o √© vista mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que n√£o vi. E v√≥s tamb√©m. N√£o se pode dar uam prova da existencia do que √© mais verdadeiro, o jeito √© acreditar. Acreditar chorando. Esta hist√≥ria contece en estado de emergencia e calamidade publica. Trata-se de um livro inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta esta que espero que algu√©m no mundo me d√™. V√≥s? √Č umas hit√≥ria em tecnicolor para ter algum luxo, por Deus, que eu tamb√©m preciso. Am√©m para n√≥s todos.

Minha verdade espantada √© que eu sempre estive s√≥ de ti e n√£o sabia. Agora sei: sou s√≥. Eu e minha liberdade que n√£o sei usar. Grande responsabilidade da solid√£o. Quem n√£o √© perdido n√£o conhece a liberdade e n√£o a ama. Quanto a mim, assumo a minha solid√£o. Que √°s vezes se extasia como diante de fogos de artif√≠cio. Sou s√≥ e tenho que viver uma certa gl√≥ria √≠ntima que na solid√£o pode se tornar dor. E a dor, sil√™ncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver. in √Āgua Viva

D√°-me a tua m√£o D√°-me a tua m√£o: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o n√ļmero um e o n√ļmero dois, de como vi a linha de mist√©rio e fogo, e que √© linha sub-rept√≠cia. Entre duas notas de m√ļsica existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois gr√£os de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espa√ßo, existe um sentir que √© entre o sentir - nos interst√≠cios da mat√©ria primordial est√° a linha de mist√©rio e fogo que √© a respira√ß√£o do mundo, e a respira√ß√£o cont√≠nua do mundo √© aquilo que ouvimos e chamamos de sil√™ncio.

Jardins e jardins entremeados de acordes musicais. Iridescência ensanguentada. Vejo meu rosto através da chuva. Rebuliço estruído do vento agudo que varre a casa como se ainda estivesse oca de móveis e de pessoas. Está chovendo. Sinto a boa chuvarada de verão. Tenho uma cabana também - às vezes não ficarei no palácio, mergulharei na cabana. Sentindo o cheiro do mato. E fruindo da solidão. Um sopro de vida

Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde est√° eu? Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim -enfim, mas que medo - de mim mesma.

Procuro o sopro da palavra que d√° vida aos sussurros. Um Sopro de Vida

... fica sempre a certeza de que se dormiu e se sonhou. Um Sopro de Vida

Entre as marteladas eu ouço o silêncio. Um Sopro de Vida

Cuide-se como se você fosse de ouro, ponha-se você mesmo de vez em quando numa redoma e poupe-se.

Mas chegar√° o instante em que me dar√°s a m√£o, n√£o mais por solid√£o, mas como eu agora: por amor.

Passei a minha vida tentando corrigir os erros que cometi na minha √Ęnsia de acertar. Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. Sou uma culpada inocente.

Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebradiça.

Não tenho medo nem das chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas. Pois eu também sou o escuro da noite.

Eu disse a uma amiga: ¬ó A vida sempre superexigiu de mim. Ela disse: ¬ó Mas lembre-se de que voc√™ tamb√©m superexige da vida. Sim.¬Ē

Ando de um lado para outro, dentro de mim. Estou bastante acostumada a estar só, mesmo junto dos outros.

A felicidade aparece para aqueles que reconhecem a import√Ęncia das pessoas que passam em nossa vida.

E só to triste hoje por que to cansada. No geral sou alegre.

Ouve-me, ouve meu silêncio.

Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.

A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente.

Outro sinal de se estar em caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.

Minha consciência é inconsciente de si mesma, por isso eu me obedeço cegamente.

Não se preocupe em entender. Viver é o melhor entendimento.

Dar a mão a alguém foi o que eu sempre esperei da alegria.

As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre.

Sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério. Sou uma só... Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo.

Comecei uma listinha de sentimentos dos quais n√£o sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem n√£o gosto - como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente n√£o gosta mais, essa m√°goa e esse rancor - como se chama? Estar ocupada - e de repente parar por ter sido tomada por uma s√ļbita desocupa√ß√£o desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?

Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la. Enquanto escrevo (...) vou ter que fingir que alguém está segurando a minha mão.

Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da m√ļsica. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembran√ßa. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma aus√™ncia. E a l√°grima que n√£o se chorou. Tem o imaterial peso da solid√£o no meio de outros.

Tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras; sou irrit√°vel e piro facilmente; tamb√©m sou muito calma e perd√īo logo; n√£o esque√ßo nunca; mas h√° poucas coisas de que eu me lembre; sou paciente, mas profundamente col√©rica, como a maioria dos pacientes; as pessoas nunca me irritam mesmo, certamente porque eu as perd√īo de antem√£o; gosto muito das pessoas por ego√≠smo: √© que elas se parecem no fundo comigo; nunca esque√ßo uma ofensa, o que √© uma verdade, mas como pode ser verdade, se as ofensas saem de minha cabe√ßa como se nunca nela tivessem entrando? Tenho uma paz profunda, somente porque ela √© profunda e n√£o pode ser sequer atingida por mim mesmo; se fosse alcan√ß√°vel por mim, eu n√£o teria um minuto de paz; quanto a minha paz superficial, ela √© uma alus√£o √† verdadeira paz; outra coisa que esqueci √© que h√° outra alus√£o em mim - a do mundo grande e aberto; apesar do meu ar duro, sou cheia de muito amor e √© isso o que certamente me d√° uma grandeza...¬Ē

Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.

...Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena !...

Eu sou uma atriz para mim. Eu finjo que sou uma determinada pessoa mas na realidade n√£o sou nada.

Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?

Mas lembrar-se com saudade é como se despedir de novo.

Só se sente nos ouvidos o próprio coração.... ....Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.

Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso...

Deus vinde a mim e não tenho alegria e minha vida é escura como a noite sem estrelas e Deus, por que não existes dentro de mim? Por que me fizeste separada de ti?

E tudo era muito para um coração de repente enfraquecido que só suportava o menos, só podia querer o pouco aos poucos.

Eu sou mansa mas minha função de viver é feroz.

Pensar é um ato. Sentir é um fato.

A vida é curta demais para eu ler todo o grosso dicionário a fim de por acaso descobrir a palavra salvadora.

Mas n√£o h√° paix√£o sofrida em dor e amor a que n√£o se siga uma aleluia. (in: √Āgua Viva)

Eu que detesto domingo por ser oco. (in: √Āgua Viva)

Estou cansada. Meu cansa√ßo vem muito porque sou pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo. (in: √Āgua Viva)

Voc√™ h√° de me perguntar por que tomo conta do mundo. √Č que nasci incumbida. (in: √Āgua Viva)

Penso agora que terei que pedir licen√ßa para morrer um pouco. Com licen√ßa - sim? N√£o demoro.Obrigada. (in: √Āgua Viva)

Quando penso no que j√° vivi me parece que fui deixando meus corpos pelo caminho (in: √Āgua Viva)

Eu me dou melhor comigo mesma quando estou infeliz: h√° um encontro. Quando me sinto feliz, parece-me que sou outra. Embora outra da mesma. Outra estranhamente alegre, esfuziante, levemente infeliz √© mais tranq√ľilo. Tenho tanta vontade de ser corriqueira e um pouco vulgar e dizer: a esperan√ßa √© a √ļltima que morre.

Sou as minhas atitudes, os meus sentimentos, as minhas idéias... O que realmente faz valer a pena estar vivo, não há filmadora ou máquina fotográfica que registre... Surpresas, gargalhadas, lágrimas, enfim, o que eu sinto, quem eu sou, você só vai perceber quando olhar nos meus olhos, ou melhor, além deles...

N√£o pense que a pessoa tem tanta for√ßa assim a ponto de levar qualquer esp√©cie de vida e continuar a mesma. At√© cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edif√≠cio inteiro... H√° certos momentos em que o primeiro dever a realizar √© em rela√ß√£o a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Voc√™ j√° viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu... Para me adaptar ao que era inadapt√°vel, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilh√Ķes - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei tamb√©m a minha for√ßa. Ou√ßa: respeite mesmo o que √© ruim em voc√™, sobretudo o que imagina que √© ruim em voc√™ - n√£o copie uma pessoa ideal, copie voc√™ mesma - √© esse seu √ļnico meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um c√©u, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se √© que uma vida morna n√£o √© ser punida por essa mesma mornid√£o. Pegue para voc√™ o que lhe pertence, e o que lhe pertence √© tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que √© verdadeiramente imoral √© ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que voc√™ me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma¬Ē

Me entristeceu um pouco você não gostar do título O Lustre. Exatamente pelo que você não gostou, pela pobreza dele, é que eu gosto. Nunca consegui mesmo convencer você de que eu sou pobre... Infelizmente, quanto mais pobre, com mais enfeites me enfeito. No dia em que eu conseguir uma forma tão pobre como eu o sou por dentro, em vez de carta, você receberá uma caixinha cheia de pó de Clarice. Eu escrevo simples. Eu não enfeito.

Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi.Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi -na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.

¬ďEscrevo neste instante com algum pr√©vio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa t√£o exterior e expl√≠cita. De onde no entanto at√© sangue arfante de t√£o vivo de vida poder√° quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de gel√©ia tr√™mula. Ser√° essa hist√≥ria um dia o meu co√°gulo? Que sei eu. Se h√° veracidade nela ¬Ė e √© claro que a hist√≥ria √© verdadeira embora inventada ¬Ė , que cada um a reconhe√ßa em si mesmo porque todos n√≥s somos um e quem n√£o tem pobreza de dinheiro tem pobreza de esp√≠rito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro ¬Ė existe a quem falte o delicado essencial.¬Ē

Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: Ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, O amor é tão inerente quanto a própria carência, E nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.

Antes o sofrimento legítimo do que o prazer forçado.

E talvez só o pensamento me salvasse, tenho medo da paixão. in A Paixão Segundo GH. Pág 15

Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido.

Tulipa s√≥ √© tulipa na Holanda. Uma √ļnica tulipa simplesmente n√£o √©. Precisa de campo aberto para ser.

Para vermos o azul, olhamos para o c√©u. A Terra √© azul para quem a olha do c√©u. Azul ser√° uma cor em si, ou uma quest√£o de dist√Ęncia? Ou uma quest√£o de grande nostalgia? O inalcan√ß√°vel √© sempre azul.

Faze com que ele sinta que amar não é morrer, que a ewntrega de si mesmo não significa a morte

Sou fraca diante da beleza do que existe e do que vai existir

E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa que eles precisam.

Nada do que eu já fiz me agrada. E o que eu fiz com amor, estraçalhou-se. Nem amar eu sabia, nem amar eu sabia.

O prop√≥sito do teatro √© fazer o gesto recuperar o seu sentido, a palavra, o seu tom insubstitu√≠vel, permitir que o sil√™ncio, como na boa m√ļsica seja tamb√©m ouvido, e que o cen√°rio n√£o se limite ao decorativo e nem mesmo √† moldura apenas - mas que todos esses elementos, aproximados de sua pureza teatral espec√≠fica, formem a estrutura indivis√≠vel de um drama.

Eu queria escrever um livro. Mas onde estão as palavras? esgotaram-se os significados. Como surdos e mudos comunicamo-nos com as mãos. Eu queria que me dessem licença para eu escrever ao som harpejado e agreste a sucata da palavra. E prescindir de ser discursivo. Assim: poluição. Escrevo ou não escrevo? in UM SOPRO DE VIDA

Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler será por conta própria e auto-risco. Eu não faço literatura: eu apenas vivo ao correr do tempo. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever. Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim. in UM SOPRO DE VIDA

(...) e vou definitivamente ao encontro de um mundo que est√° dentro de mim, eu que escrevo para me livrar da carga dif√≠cil de uma pessoa ser ela mesma. Em cada palavra pulsa um cora√ß√£o. Escrever √© tal procura de √≠ntima veracidade de vida. Vida que me perturba e deixa o meu pr√≥prio cora√ß√£o tr√™mulo sofrendo a incalcul√°vel, dor que parece ser necess√°ria ao meu amadurecimento ¬óamadurecimento? At√© agora vivi sem ele! √Č. Mas parece que chegou o instante de aceitar em cheio a misteriosa vida dos que um dia v√£o morrer. Tenho que come√ßar por aceitar-me e n√£o sentir o horror punitivo de cada vez que eu caio, pois quando eu caio a ra√ßa humana em mim tamb√©m cai. Aceitar-me plenamente? √© uma violenta√ß√£o de minha vida. Cada mudan√ßa, cada projeto novo causa espanto: meu cora√ß√£o est√° espantado. √Č por isso que toda a minha palavra tem um cora√ß√£o onde circula sangue. Tudo o que aqui escrevo √© forjado no meu sil√™ncio e na penumbra. Vejo pouco, ou√ßo quase nada. Mergulho enfim em mim at√© o nascedouro do esp√≠rito que me habita. Minha nascente √© obscura. Estou escrevendo porque n√£o sei o que fazer de mim. Quer dizer: n√£o sei o que fazer com meu esp√≠rito. O corpo informa muito. Mas eu desconhe√ßo as leis do esp√≠rito: ele vagueia. Meu pensamento, com a enuncia√ß√£o das palavras mentalmente brotando, sem depois eu falar ou escrever ¬ó esse meu pensamento de palavras √© precedido por uma instant√Ęnea vis√£o, sem palavras, do pensamento ¬ó palavra que se seguir√°, quase imediatamente ¬ó diferen√ßa espacial de menos de um mil√≠metro. in UM SOPRO DE VIDA

Eu quero a verdade que s√≥ me √© dada atrav√©s do seu oposto, de sua inverdade. E n√£o ag√ľento o cotidiano. Deve ser por isso que escrevo. Minha vida √© um √ļnico dia. E √© assim que o passado me √© presente e futuro. Tudo numa s√≥ vertigem. E a do√ßura √© tanta que faz insuport√°vel c√≥cega na alma. Viver √© m√°gico e inteiramente inexplic√°vel. Eu compreendo melhor a morte. Ser cotidiano √© um v√≠cio. O que √© que eu sou? sou um pensamento. Tenho em mim o sopro? tenho? mas quem √© esse que tem? quem √© que fala por mim? tenho um corpo e um esp√≠rito? eu sou um eu? √Č exatamente isto, voc√™ √© um eu, responde-me o mundo terrivelmente. E fico horrorizado. Deus n√£o deve ser pensado jamais sen√£o Ele foge ou eu fujo. Deus deve ser ignorado e sentido. Ent√£o Ele age. Pergunto- me: por que Deus pede tanto que seja amado por n√≥s? resposta poss√≠vel: porque assim n√≥s amamos a n√≥s mesmos e em nos amando, n√≥s nos perdoamos. E como precisamos de perd√£o. Porque a pr√≥pria vida j√° vem mesclada ao erro. in UM SOPRO DE VIDA

O resultado disso tudo é que vou ter que criar um personagem — mais ou menos como fazem os novelistas, e através da criação dele para conhecer. Porque eu sozinho não consigo: a solidão, a mesma que existe em cada um, me faz inventar. E haverá outro modo de salvar-se? senão o de criar as próprias realidades? Tenho força para isso como todo o mundo — é ou não é verdade que nós terminamos por criar uma frágil e doida realidade que é a civilização? essa civilização apenas guiada pelo sonho. Cada invenção minha soa-me como uma prece leiga — tal é a intensidade de sentir, escrevo para aprender. in UM SOPRO DE VIDA

Este ao que suponho ser√° um livro feito aparentemente por destro√ßos de livro. Mas na verdade trata-se de retratar r√°pidos vislumbres meus e r√°pidos vislumbres de meu personagem √āngela. Eu poderia pegar cada vislumbre e dissertar durante p√°ginas sobre ele. Mas acontece que no vislumbre √© √†s vezes que est√° a ess√™ncia da coisa. Cada anota√ß√£o tanto no meu di√°rio como no di√°rio que eu fiz √āngela escrever, levo um pequeno susto. Cada anota√ß√£o √© escrita no presente. O instante j√° √© feito de fragmentos. N√£o quero dar um falso futuro a cada vislumbre de um instante. Tudo se passa exatamente na hora em que est√° sendo escrito ou lido. Este trecho aqui foi na verdade escrito em rela√ß√£o √† sua forma b√°sica depois de ter relido o livro porque no decorrer dele eu n√£o tinha bem clara a no√ß√£o do caminho a tomar. No entanto, sem dar maiores raz√Ķes l√≥gicas, eu me aferrava exatamente em manter o aspecto fragment√°rio tanto em √āngela quanto em mim. Minha vida √© feita de fragmentos e assim acontece com √āngela. A minha pr√≥pria vida tem enredo verdadeiro. Seria a hist√≥ria da casca de uma √°rvore e n√£o da √°rvore. Um amontoado de fatos em que s√≥ a sensa√ß√£o √© que explicaria. Vejo que, sem querer, o que escrevo e √āngela escreve s√£o trechos por assim dizer soltos, embora dentro de um contexto de... √Č assim que desta vez me ocorre o livro. E, como eu respeito o que vem de mim para mim, assim mesmo √© que eu escrevo. in UM SOPRO DE VIDA

O que est√° escrito aqui, meu ou de √āngela, s√£o restos de uma demoli√ß√£o de alma, s√£o cortes laterais de uma realidade que se me foge continuamente. Esses fragmentos de livro querem dizer que eu trabalho em ru√≠nas. Eu sei que este livro n√£o √© f√°cil, mas √© f√°cil apenas para aqueles que acreditam no mist√©rio. Ao escrev√™-lo n√£o me conhe√ßo, eu me esque√ßo de mim. Eu que apare√ßo neste livro n√£o sou eu. N√£o √© autobiogr√°fico, voc√™s n√£o sabem nada de mim. Nunca te disse e nunca te direi quem sou. Eu sou v√≥s mesmos. Tirei deste livro apenas o que me interessava ¬ó deixei de lado minha hist√≥ria e a hist√≥ria de √āngela. O que me importa s√£o instant√Ęneos fotogr√°ficos das sensa√ß√Ķes ¬ó pensadas, e n√£o a pose im√≥vel dos que esperam que eu diga: olhe o passarinho! Pois n√£o sou fot√≥grafo de rua. J√° li este livro at√© o fim e acrescento alguma not√≠cia neste come√ßo. Quer dizer que o fim, que n√£o deve ser lido antes, se emenda num c√≠rculo ao come√ßo, cobra que engole o pr√≥prio rabo. E, ao ter lido o livro* cortei muito mais que a metade, s√≥ deixei o que me provoca e inspira para a vida: estrela acesa ao entardecer. N√£o ler o que escrevo como se fosse um leitor. A menos que esse leitor trabalhasse, ele tamb√©m, nos solil√≥quios do escuro irracional. Se este livro vier jamais a sair, que dele se afastem os profanos. Pois escrever √© coisa sagrada onde os infi√©is n√£o t√™m entrada. Estar fazendo de prop√≥sito um livro bem ruim para afastar os profanos que querem gostar. Mas um pequeno grupo ver√° que esse gostar √© superficial e entrar√£o adentro do que verdadeiramente escrevo, e que n√£o √© ruim nem √© bom. in UM SOPRO DE VIDA

O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto. in Um Sopro de Vida

N√£o sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de ser prisioneira? in A Paix√£o segundo GH p√°g 13

- Faço o possível para escrever por acaso. Eu quero que a frase aconteça. Não sei expressar-me por palavras. O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio. Expressar-me por meio de palavras é um desafio. Mas não correspondo à altura do desafio. Saem pobres palavras.

Estou dentro dos grandes sonhos da noite: pois o agora-j√° √© de noite. E canto a passagem do tempo: sou ainda a rainha dos medas e dos persas e sou tamb√©m a minha lenta evolu√ß√£o que se lan√ßa como uma ponte levadi√ßa num futuro cujas n√©voas leitosas j√° respiro hoje. Minha aura √© mist√©rio de vida. Eu me ultrapasso abdicando de mim e ent√£o sou o mundo: sigo a voz do mundo, eu mesma de s√ļbito com voz √ļnica.

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.

Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo? E porque também não tenho uma palavra a dizer.

Não gosto do que acabo de escrever - mas sou obrigada a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço.

Sou como voc√™ me v√™...posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,depende de quando e como voc√™ me v√™ passar...suponho que me entender n√£o √© uma quest√£o de intelig√™ncia e sim de sentir, de entrar em contato...tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras, sou irrit√°vel e firo facilmente. Tamb√©m sou muito calma e perd√īo logo. N√£o esque√ßo nunca. Mas h√° poucas coisas de que eu me lembre...Tenho felicidade o bastante para ser doce,dificuldades para ser forte,tristeza para ser humana e esperan√ßa suficiente para ser feliz. N√£o me d√™em f√≥rmulas certas, por que eu n√£o espero acertar sempre. N√£o me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu cora√ß√£o. N√£o me fa√ßam ser quem n√£o sou. N√£o me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente. N√£o sei amar pela metade. N√£o sei viver de mentira. N√£o sei voar de p√©s no ch√£o. Sou sempre eu mesma, mas com certeza n√£o serei a mesma pra sempre...Sou uma filha da natureza:quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso j√° faz parte de um todo, de um mist√©rio. Sou uma s√≥... Sou um ser...a √ļnica verdade √© que vivo. Sinceramente, eu vivo.

Que eu não esqueça que a subida mais escarpada e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria.

Meu deus, só agora me lembrei que a gente morre. mas - mas eu também?! não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. sim.

Mas arrisco, vivo arriscando.

Eu sou o antes, eu sou o quase, eu sou o nunca. E tudo isso ganhei ao deixar de te amar.

Eternidade: pois tudo o que é nunca começou.

Escrevo-te porque n√£o me entendo.

Minha essência é incosciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço.

Para onde vou? A resposta é: vou.

Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.

Desculpem eu ser eu. Quero ficar só! grita a alma do tímido que só se liberta na solidão. Contraditoriamente quer o quente aconchego das pessoas.

Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém, provavelmente a minha própria vida.

Viver me deixa t√£o impressionada, viver me tira o sono. in A Paix√£o Segundo GH. 177

O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu. in A Paixão Segundo GH. 176

O ar tinha gosto de s√°bado. E de s√ļbito os dois eram raros, a raridade no ar. Eles se sentiam raros, n√£o fazendo parte das mil pessoas que andavam pelas ruas. Os dois √†s vezes eram coniventes, tinham uma vida secreta porque ningu√©m os compreenderia. E mesmo porque os raros s√£o perseguidos pelo povo que n√£o tolera a insultante ofensa dos que se diferenciavam.

Abro o jogo! Só não conto os fatos de minha vida: sou secreta por natureza. Há verdades que nem a Deus eu contei. E nem a mim mesma. Sou um segredo fechado a sete chaves. Por favor me poupem.

Sou os brinquedos que brinquei, as g√≠rias que usei, os nervosos e felicidades que j√° passei. Sou minha praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, sou os amores que vivi, as conversas s√©rias que tive com meu pai: Eu sou o que me faz lembrar!!! Sou a saudade que sinto, sou um sonho desfeito ao acaso, sou a inf√Ęncia que vivi, sou a dor de n√£o ter dado certo, sou o sorriso por tudo que conquistei, sou a emo√ß√£o de um trecho de livro, da cena de filme que me arrancou l√°grimas: Eu sou o que me faz chorar!!! Sou a raiva de n√£o ter alcan√ßado, sou a impot√™ncia diante das injusti√ßas que n√£o posso mudar, sou o desprezo pelo que os outros mentem, sou o desapontamento com o governo, o √≥dio que isso tudo d√°. Sou o que eu remo, sou o que eu n√£o desisto, sou o que eu luto, sou a indigna√ß√£o com o lixo jogado do carro, a ard√™ncia da revolta ao ver um animal abandonado: Eu sou o que me corr√≥i!!! Eu sou o que eu luto, o que consigo gerar atrav√©s de minhas verdades, sou os direitos que tenho e os deveres a que me obrigo, sou a estrada por onde corro, sou o que ensino e, sobretudo, o que aprendo: Eu sou o que eu pleiteio!!! Eu n√£o sou da forma como me visto, n√£o sou da forma como me comporto, n√£o sou o que eu como, muito menos o que eu bebo. N√£o sou o que aparento ser: [b]EU SOU O QUE NINGU√ČM V√ä!!!

Sonhe com aquilo que voc√™ quiser. Seja o que voc√™ quer ser, porque voc√™ possui apenas uma vida e nela s√≥ se tem uma chance de fazer aquilo que quer. Tenha felicidade bastante para faz√™-la doce. Dificuldades para faz√™-la forte. Tristeza para faz√™-la humana. E esperan√ßa suficiente para faz√™-la feliz. As pessoas mais felizes n√£o t√™m as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a import√Ęncia das pessoas que passam por suas vidas.

Quando o amor √© grande demais torna-se in√ļtil: j√° n√£o √© mais aplic√°vel, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma crian√ßa ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos √© extremamente burguesa.

----------------estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a algu√©m o que vivi e n√£o sei a quem, mas n√£o quero ficar com o que vivi. N√£o sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganiza√ß√£o profunda. N√£o confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de n√£o a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganiza√ß√£o, e teria a seguran√ßa de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organiza√ß√£o anterior. A isso prefiro chamar desorganiza√ß√£o pois n√£o quero me confirmar no que vivi - na confirma√ß√£o de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que n√£o tenho capacidade para outro. Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque n√£o saberei onde engastar meu novo modo de ser - se eu for adiante nas minhas vis√Ķes fragment√°rias, o mundo inteiro ter√° que se transformar para eu caber nele. Perdi alguma coisa que me era essencial, e que j√° n√£o me √© mais. N√£o me √© necess√°ria, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que at√© ent√£o me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um trip√© est√°vel. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas √© que posso caminhar. Mas a aus√™ncia in√ļtil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontr√°vel por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar. IN A PAIX√ÉO SEGUNDO GH P√ĀG 11 E 12

Estou desorganizada porque perdi o que n√£o precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia √© o que de mais novo j√° me aconteceu, √© a minha maior aventura, essa minha covardia √© um campo t√£o amplo que s√≥ a grande coragem me leva a aceit√°-la -, na minha nova covardia, que √© como acordar de manh√£ na casa de um estrangeiro, n√£o sei se terei coragem de simplesmente ir. [b] √Č dif√≠cil perder-se. √Č t√£o dif√≠cil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. [/b] At√© agora achar-me era j√° ter uma ideia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esfor√ßo de constru√ß√£o que era viver. A id√©ia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no ch√£o. Mas e agora? estarei mais livre? N√£o. Sei que ainda n√£o estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar - e que por seguran√ßa chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de sa√≠da. Por que n√£o tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque n√£o sei para onde d√° essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o qu√™. Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. [b] Mas tenho medo do que √© novo e tenho medo de viver o que n√£o entendo quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, n√£o sei me entregar √† desorienta√ß√£o. [/b] Como √© que se explica que o meu maior medo seja exatamente em rela√ß√£o: a ser? e no entanto n√£o h√° outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como √© que se explica que eu n√£o tolere ver, s√≥ porque a vida n√£o √© o que eu pensava e sim outra como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que √© que ver √© uma tal desorganiza√ß√£o? E uma desilus√£o. Mas desilus√£o de qu√™? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organiza√ß√£o apenas constru√≠da? Talvez desilus√£o seja o medo de n√£o pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele est√° muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes n√£o me era bom. Mas era desse n√£o-bom que eu havia organizado o melhor: a esperan√ßa. De meu pr√≥prio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora √© que meu novo modo n√£o fa√ßa sentido? Mas por que n√£o me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade. IN A PAIX√ÉO SEGUNDO GH P√ĀG 12 E 13

Perder- se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende. E eu quero ser presa. N√£o sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava t√£o habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa. √Č? Tamb√©m , tamb√©m. Fico t√£o assustada quando percebo que durante horas perdi minha forma√ß√£o humana. N√£o sei se terei uma outra para substituir a perdida. IN A PAIX√ÉO SEGUNDO GH P√ĀG 13 E 14

√Č dif√≠cil compreender e amar o que √© espont√Ęneo e franciscano. Entender o dif√≠cil n√£o √© vantagem, mas amar o que √© f√°cil de se amar √© uma grande subida na escala humana. Quantas mentiras sou obrigada a dar. Mas comigo mesma √© que eu queria n√£o ser obrigada a mentir. Sen√£o, o que me resta?

Eu estava t√£o maior que j√° n√£o me via mais. T√£o grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mas percept√≠vel nas minhas mais √ļltimas montanhas e nos meus mais remotos rios: a atualidade silmut√Ęnea n√£o me assustava mais, e na mais √ļltima extremidade de mim eu podia enfim sorrir sem nem ao menos sorrir. Enfim eu me estendia para al√©m de minha sensibilidade. O mundo independia de mim - esta era a confian√ßa a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e n√£o estou entendendo o que estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer sen√£o timidamente assim: a vida se me √©. A vida se me √©, e eu n√£o entendo o que digo. E ent√£o adoro - - - - - - in A Paix√£o Segundo GH. p√°g 179

Talvez eu agora soubesse que eu mesma jamais estaria à altura da vida, mas que minha vida estava à altura da vida. Eu não alcançaria jamais a minha raiz, mas minha raiz existia. in A Paixão Segundo GH. pág 178

Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu inv√≥lucro, e sem limite eu era. Por n√£o ser, eu era. At√© o fim daquilo que eu n√£o era, eu era. O que n√£o sou eu, eu sou. Tudo estar√° em mim, se eu n√£o for; pois eu √© apenas um dos espasmos instat√Ęneos do mundo. Minha vida n√£o tem sentido apenas humano, √© muito maior - √© t√£o maior que, em rela√ß√£o ao humano, n√£o tem sentido. in A Paix√£o Segundo GH. p√°g 178

Quando se realiza o viver, pergunta-se: mas era só isto? E a resposta é: não é só isto, é exatamente isto. in A Paixão Segundo GH. pág 173

Minha orgia na verdade vinha de meu puritanismo: o prazer me ofendia, e da ofensa eu fazia prazer maior. in A Paix√£o Segundo GH. p√°g 157

...na exigência de vida tudo é lícito, mesmo o artificial, e o artificial é às vezes o grande sacrifício que se faz para se ter o essencial. in A Paixão Segundo GH. pág 152

O mistério do destino humano é que somos fatais, mas temos a liberdade de cumprir ou não o nosso fatal: de nós depende realizarmos o nosso destino fatal. in A Paixão Segundo GH. pág 124.

Esquenta-me com a tua adivinhação de mim, compreende-me porque eu não estou me compreendendo. Estou somente amando a barata. E é um amor infernal. GH. 115

e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio. in A paixão segundo GH pág 98

Ser √© al√©m do humano. Ser homem n√£o d√° certo, ser homem tem sido constrangimento. O desconhecido nos aguarda, mas sinto que esse desconhecido √© uma totaliza√ß√£o e ser√° a verdadeira humaniza√ß√£o pela qual ansiamos. Estou falando da morte? n√£o, da vida. N√£o √© um estado de felicidade, √© um estado de contato. Ah, n√£o penses que tudo isso me nauseia, acho inclusive t√£o chato que me torma impaciente. √Č que se parece com o para√≠so, onde nem sequer posso imaginar o que eu faria, pois s√≥ posso me imaginar pensando e sentindo, dois atributos de se ser, e n√£o consigo me imaginar apenas sendo, e prescindindo do resto. Apenas ser - isso me daria uma falta enorme do que fazer. in A Paix√£o Segundo GH. p√°g 172

O que estou sentindo agora √© uma alegria. Atrav√©s da barata viva estou entendendo que tamb√©m eu sou o que √© vivo. Ser vivo √© um est√°gio muito alto, √© alguma coisa que s√≥ agora alcancei. √Č um tal alto equil√≠brio inst√°vel que sei que n√£o vou poder ficar sabendo desse equil√≠brio por muito tempo - a gra√ßa da paix√£o √© curta. in A Paix√£o Segundo GH. p√°g 171

Agora preciso de tua m√£o, n√£o para que eu n√£o tenha medo, mas para que tu n√£o tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso ser√°, no come√ßo, a tua grande solid√£o. Mas chegar√° o instante em que me dar√°s a m√£o, n√£o mais por solid√£o, mas como eu agora: por amor. Como eu, n√£o ter√°s medo de agregar-te √† extrema do√ßura en√©rgica do Deus. Solid√£o √© ter apenas o destino humano. E a solid√£o √© n√£o precisar. N√£o precisar deixa um homem muito s√≥, todo s√≥. Ah, n√£o precisar n√£o isola a pessoa, a coisa precisa da coisa: basta ver o pinto andando pra ver que seu destino ser√° aquilo que a car√™ncia fizer dele, seu destino √© juntar-se como gotas de merc√ļrio, ele tenha em si pr√≥prio uma exist√™ncia toda completa e redonda. Ah, meu amor, n√£o tenhas medo da car√™ncia: ela √© o nosso maior destino. O amor √© t√£o mais fatal do que eu havia pensado, o amor √© t√£o inerente quanto a pr√≥pria car√™ncia, e n√≥s somos garantidos por uma necessidade que se renovar√° continuamente. O amor j√° est√°, est√° sempre. Falta apenas o golpe da gra√ßa - que se chama paix√£o. in A Paix√£o Segundo GH. p√°g 170

A fé - é saber que se pode ir e comer o milagre. A fome, esta é que é em si mesma a fé - e ter necessidade é a minha garantia de que sempre me será dado. A necessidade é o meu guia. in A Paixão Segundo GH. pág 157

Não quero a meia-luz, não quero a cara bem feita, não quero o expressivo. Quero o inexpressivo. Quero o inumano dentro da pessoa; não, não é perigoso, pois de qualquer modo a pessoa é humana, não é preciso lutar por isso: querer ser humano me soa bonito demais. in A Paixão Segundo GH. pág 157

Ultrapassar a dor é a pior crueldade. E eu tenho medo disso, eu que sou extremamente moral. Mas agora sei que tenho de ter uma coragem muito maior: a de ter uma outra moral, tão isenta que eu mesma não a entenda e que me assuste. in A Paixão Segundo GH. pág 155

O grande vazio em mim será o meu lugar de existir; minha pobreza extrema será uma grande vontade. Tenho que me violentar até não ter nada, e precisar de tudo; quando eu precisar, então eu terei, porque sei que é de justiça dar mais a quem pede mais, minha exigência é o meu tamanho, meu vazio é a minha medida. in A Paixão Segundo GH. pág 152

Para termos, falta-nos apenas precisar. Precisar é sempre o momento supremo. Assim como a mais arriscada alegria entre um homem e uma mulher vem quando a grandeza de precisar é tanta que se sente em agonia e espanto: sem ti eu não poderia viver. A revelação do amor é uma revelação de carência - bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o dilacerante reino da vida. Se abandono a esperança, estou celebrando a minha carência, e esta é a maior gravidade do viver. in A Paixão Segundo GH. pág 152/153

E nós sabemos Deus. E o que precisamos Dele, extraímos. (Não sei o que chamo de Deus, mas assim pode ser chamado). Se só sabemos muito pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos Dele o que fatalmente nos basta, só temos de Deus o que cabe em nós. (A nostalgia não é do Deus que nos falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta de nossa grandeza impossível - minha atualidade inalcançável é o meu paraíso perdido). in A Paixão Segundo GH. pág 150

Quanto mais precisarmos, mais Deus existe. Quanto mais pudermos, mais Deus teremos. Ele deixa. (Ele não nasceu para nós, nem nós nascemos para Ele, nós e Ele somos ao mesmo tempo). Ele está ininterruptamente ocupado em ser, assim como todas as coisas estão sendo, mas Ele não impede que a gente se junte a Ele e, com Ele, fique ocupado em ser, numa intertroca tão fluida e constante - como a de viver. Ele, por exemplo, Ele nos usa totalmente porque não há nada em cada um de nós de que Ele, cuja necessidade é absolutamente infinita, não precise. Ele nos usa, e não impede que a gente faça uso Dele. O minério que está na terra não é responsável por não ser usado. Na vida e na morte tudo é lícito, viver é sempre uma questão de vida-e-morte. in A Paixão Segundo GH. pág 150/151 in A Paixão Segundo GH. pág 151

Ah, ent√£o era por isso que eu sempre havia tido uma esp√©cie de amor pelo t√©dio. E um √≥dio cont√≠nuo dele. Porque o t√©dio √© insosso e se parece com a coisa mesmo. E eu n√£o fora grande bastante: s√≥ os grandes amam a monotonia. Mas o t√©dio - o t√©dio fora a √ļnica forma como eu pudera sentir o atonal. E eu s√≥ n√£o soubera que gostava do t√©dio porque sofria dele. Mas em mat√©ria de viver, o sofrimento n√£o √© medida de vida: o sofrimento √© subproduto fatal e, por mais agudo √© negligenci√°vel. in A Paix√£o Segundo GH. p√°g 141 in A Paix√£o Segundo GH. p√°g 141

Eu fora obrigada a entrar no deserto para saber com horror que o deserto √© vivo, para saber que uma barata √© a vida. Havia recuado at√© saber que em mim a vida mais profunda √© antes do humano - e para isso eu tivera a coragem diab√≥lica de largar os sentimentos. Eu tivera que n√£o dar valor humano √† vida para poder entender a largueza, muito mais que humana, do Deus. Havia eu pedido a coisa mais perigosa e proibida? arriscando a minha alma, teria eu ousadamente exigido ver Deus? E agora eu estava como diante Dele e n√£o entendia - estava inutilmente de p√© diante Dele, e era de novo diante do nada. A mim, como a todo o mundo, me fora dado tudo, mas eu quisera mais: quisera saber desse tudo. E vendera a minha alma para saber. Mas agora eu entendia que n√£o a vendera ao dem√īnio, mas muito mais perigosamente: a Deus. Que me deixara ver. Pois Ele sabia que eu n√£o saberia ver o que visse: a explica√ß√£o de um enigma √© a repeti√ß√£o do enigma. O que √Čs? e a resposta √©: √Čs. O que existes? e a resposta √©: o que existes. Eu tinha a capacidade da pergunta, mas n√£o a de ouvir a resposta. in A Paix√£o Segundo GH. p√°g 134

Mas era como uma pessoa que, tendo nascido cega e não tendo ninguém a seu lado que tivesse tido visão, essa pessoa não pudesse sequer formular uma pergunta sobre a visão: ela não saberia que existia ver. Mas, como na verdade existia a visão, mesmo que essa pessoa em si mesma não a soubesse e nem tivesse ouvido falar, essa pessoa estaria parada, inquieta, atenta, sem saber perguntar sobre o que não sabia que existe - ela sentiria falta do que deveria ser seu. in A Paixão Segundo GH. pág 135

Mas de mim depende eu vir livremente a ser o que fatalmente sou. Sou dona de minha fatalidade e, se eu decidir n√£o cumpri-la, ficarei fora de minha natureza especificamente viva. Mas se eu cumprir meu n√ļcleo neutro e vivo, ent√£o, dentro de minha esp√©cie, estarei sendo especificamente humana. in A Paix√£o Segundo GH.

Toda a parte mais inating√≠vel de minha alma e que n√£o me pertence - √© aquela que toca na minha fronteira com o que j√° n√£o √© eu, e √† qual me dou. Toda a minha √Ęnsia tem sido esta proximidade inultrapass√°vel e excessivamente pr√≥xima. Sou mais aquilo que em mim n√£o √©. E eis que a m√£o que eu segurava me abandonou. N√£o, n√£o. Eu √© que larguei a m√£o porque agora tenho que ir sozinha. Se eu conseguir voltar do reino da vida tornarei a pegar a tua m√£o, e a beijarei grata porque ela me esperou, e esperou que meu caminho passasse, e que eu voltasse magra, faminta e humilde: com fome apenas do pouco, com fome apenas do menos. In A Paix√£o Segundo GH. P√ĀG 123

A barata e eu somos infernalmente livres porque a nossa mat√©ria viva √© maior que n√≥s, somos infernalmente livres porque minha pr√≥pria vida √© t√£o pouco cab√≠vel dentro de meu corpo que n√£o consigo us√°-la. Minha vida √© mais usada pela terra do que por mim, sou t√£o maior do que aquilo que eu chamava de ¬ďeu¬Ē que, somente tendo a vida do mundo, eu me teria. in A Paix√£o Segundo GH. p√°g 122/3

√Č que, quando am√°vamos, eu n√£o sabia que o amor estava acontecendo muito mais exatamente quando n√£o havia o que cham√°vamos de amor. O neutro do amor, era isso o que n√≥s viv√≠amos e desprez√°vamos. in A Paix√£o Segundo GH. p√°g 118

Estou tentando te dizer de como cheguei ao neutro e ao inexpressivo de mim. Não sei se estou entendendo o que falo, estou sentindo - e receio muito o sentir, pois sentir é apenas um dos estilos de ser. in A paixão Segundo GH. pág 100

Entre duas notas de m√ļsica existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois gr√£os de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espa√ßo, existe um sentir que √© entre o sentir - nos interst√≠cios da mat√©ria primordial est√° a linha de mist√©rio e fogo que √© a respira√ß√£o do mundo, e a respira√ß√£o cont√≠nua do mundo √© aquilo que ouvimos e chamamos de sil√™ncio. gh 98

Numa experiência pela qual peço perdão a mim mesma, eu estava saindo do meu mundo e entrando no mundo. gh 63

A vida, meu amor, √© uma grande sedu√ß√£o onde tudo o que existe se seduz. Aquele quarto que estava deserto e por isso primariamente vivo. Eu chegara ao nada, e o nada era vivo e √ļmido. GH 61

Para falar a verdade, nunca estive tão bem. Por quê? Não quero saber por quê.

Meus dias são um só clímax: vivo à beira.

E Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado: - Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?

Sempre tenho a estranha sensa√ß√£o, embora tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que este dia ainda continua o mesmo, como um rel√≥gio engui√ßado preso no mesmo momento ¬Ė aquele.

O destino de uma mulher é ser mulher.

(...) e não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi.

Eu que simbolicamente morro várias vezes só para experimentar a ressurreição…

E solidão é não precisar. Não precisar deixa um homem muito só, todo só.

E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos s√£o de um n√°ufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo t√£o antigo quanto o ser humano.

Pensando bem: quem não é um acaso na vida?

Todo o caso de loucura é porque alguma coisa voltou. Os possessos, eles não são possuídos pelo que vem, mas pelo que volta.

O tédio é de uma felicidade primária demais! E é por isso que me é intolerável o paraíso.

Como um gato de dorso arrepiado, arrepio-me diante de mim

E assim como a primavera, eu me deixei cortar para vir mais forte...

- Sei, √© ruim segurar minha m√£o. √Č ruim ficar sem ar nessa mina desabada para onde eu te trouxe sem piedade por ti, mas por piedade por mim. Mas juro que te tirarei ainda vivo daqui - nem que eu minta, nem que eu minta o que meus olhos viram. Eu te salvarei deste terror onde, por enquanto, eu te preciso. Que piedade agora por ti, a quem me agarrei. Deste-me inocentemente a m√£o, e porque eu a segurava √© que tive coragem de me afundar. Mas n√£o procures entender-me, faze-me apenas companhia. Sei que tua m√£o me largaria, se soubesse. Como te compensar? Pelo menos tamb√©m usa-me, usa me pelo menos como t√ļnel escuro - e quando atravessares minha escurid√£o te encontrar√°s do outro lado contigo. N√£o te encontrar√°s comigo talvez, n√£o sei se atravessarei, mas contigo. A paix√£o segundo GH p√°g 98/99

Escuta, diante da barata viva, a pior descoberta foi a de que o mundo não é humano, e de que não somos humanos. Não, não te assustes! certamente o que me havia salvo até aquele momento da vida sentimentizada de que eu vivia, é que o inumano é o melhor nosso, é a coisa, a parte coisa da gente. Só por isso é que, como pessoa falsa, eu não havia até então soçobrado sob a construção sentimentária e utilitária: meus sentimentos humanos eram utilitários, mas eu não tinha soçobrado porque a parte coisa, matéria do Deus, era forte demais e esperava para me reivindicar. pág 69 GH

- V√™, meu amor, v√™ como por medo j√° estou organizando, v√™ como ainda n√£o consigo mexer nesses elementos prim√°rios do laborat√≥rio sem logo querer organizar a esperan√ßa. √Č que por enquanto a metamorfose de mim em mim mesma n√£o faz nenhum sentido. √Č uma metamorfose em que perco tudo o que eu tinha, e o que eu tinha era eu - s√≥ tenho o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de p√© diante de um susto. Sou: o que vi. N√£o entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com os seus planetas e baratas. Eu, que antes vivera de palavras de caridade ou orgulho ou de qualquer coisa. Mas que abismo entre a palavra e o que ela tentava, que abismo entre a palavra amor e o amor que n√£o tem sequer sentido humano - porque - porque amor √© a mat√©ria viva. Amor √© a mat√©ria viva? GH 67

Mas se eu gritasse uma só vez que fosse, talvez nunca mais pudesse parar. Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável. Se eu der o grito de alarme de estar viva, em mudez e dureza me arrastarão pois arrastam os que saem para fora do mundo possível, o ser excepcional é arrastado, o ser gritante. GH pág 63

Mas como me reviver? Se n√£o tenho uma palavra natural a dizer. Terei que fazer a palavra como se fosse criar o que me aconteceu? Vou criar o que me aconteceu. S√≥ porque viver n√£o √© relat√°vel. Viver n√£o √© viv√≠vel. Terei que criar sobre a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir n√£o. Criar n√£o √© imagina√ß√£o, √© correr o grande risco de se ter a realidade. Entender √© uma cria√ß√£o, meu √ļnico modo. Precisarei com esfor√ßo traduzir sinais de tel√©grafo - traduzir o desconhecido para uma l√≠ngua que desconhe√ßo, e sem sequer entender para que valem os sinais. Falarei nessa linguagem son√Ęmbula que se eu estivesse acordada n√£o seria linguagem. At√© criar a verdade do que me aconteceu. Ah, ser√° mais um grafismo que uma escrita, pois tento mais uma reprodu√ß√£o do que uma express√£o. Cada vez preciso menos me exprimir. Tamb√©m isto perdi? N√£o, mesmo quando eu fazia esculturas eu j√° tentava apenas reproduzir, e apenas com as m√£os. in A paix√£o segundo GH p√°g 21

N√£o tenho uma palavra a dizer. Por que n√£o me calo, ent√£o? Mas se eu n√£o for√ßar a palavra a mudez me engolfar√° para sempre em ondas. A palavra e a forma ser√£o a t√°bua onde boiarei sobre vagalh√Ķes de mudez. E se estou adiando come√ßar √© tamb√©m porque n√£o tenho guia. O relato de outros viajantes poucos fatos me oferecem a respeito da viagem: todas as informa√ß√Ķes s√£o terrivelmente incompletas. Sinto que uma primeira liberdade est√° pouco a pouco me tomando... Pois nunca at√© hoje temi t√£o pouco a falta de bom-gosto: escrevi ¬ďvagalh√Ķes de mudez¬Ē, o que antes eu n√£o diria porque sempre respeitei a beleza e a sua modera√ß√£o intr√≠nseca. Disse ¬ďvagalh√Ķes de mudez¬Ē, meu cora√ß√£o se inclina humilde, e eu aceito. Terei enfim perdido todo um sistema de bom Mas ser√° este o meu ganho √ļnico? Quanto eu devia ter vivido presa para sentir-me agora mais livre somente por n√£o recear mais a falta de est√©tica... Ainda n√£o pressinto o que mais terei ganho. Aos poucos, quem sabe, irei percebendo. Por enquanto o primeiro prazer t√≠mido que estou tendo √© o de constatar que perdi o medo do feio. E essa perda √© de uma tal bondade. √Č uma do√ßura. A paix√£o segundo gh p√°g 20/21

Ou estarei apenas adiando o come√ßar a falar? por que n√£o digo nada e apenas ganho tempo? Por medo. √Č preciso coragem para me aventurar numa tentativa de concretiza√ß√£o do que sinto. √Č como se eu tivesse uma moeda e n√£o soubesse em que pa√≠s ela vale. Ser√° preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar √† enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que acrescentar: n√£o √© isso, n√£o √© isso! Mas √© preciso tamb√©m n√£o ter medo do rid√≠culo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo tamb√©m do rid√≠culo: √© que h√° tamb√©m o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo? E porque n√£o tenho uma palavra a dizer. p√°g 19/20

Mas √© que a verdade nunca me fez sentido. A verdade n√£o me faz sentido! √Č por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo - para que fa√ßas disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu n√£o falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia. A verdade n√£o faz sentido, a grandeza do mundo me encolhe. Aquilo que provavelmente pedi e finalmente tive, veio, no entanto me deixar carente como uma crian√ßa que anda sozinha pela terra. T√£o carente que s√≥ o amor de todo o universo por mim poderia me consolar e me cumular, s√≥ um tal amor que a pr√≥pria c√©lula-ovo das coisas vibrasse com o que estou chamando de um amor. Daquilo a que na verdade apenas chamo mas sem saber-lhe o nome. GH 19

¬ďNo fundo sou sozinha. H√° verdades que nem a Deus eu contei. E nem a mim mesma. Sou um segredo fechado a sete chaves. Por favor me poupe. Estou t√£o s√≥. Eu e meus rituais. O telefone n√£o toca. D√≥i. Mas √© Deus que me poupa.¬Ē

Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha... Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas...

Eu sou uma pergunta

... Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca.

Escrevo como se estivesse dormindo e sonhando: as frases desconexas como no sonho. √Č dif√≠cil ,estando acordado, sonhar livremente nos meus remotos mist√©rios.

Mais que um instante, quero o seu fluxo.¬Ē

...se em um instante se nasce, e se morre em um instante, um instante é bastante para a vida inteira. In: A maçã no escuro

Vou tomar um banho antes de sair e perfumar-me com um perfume que é segredo meu. Só digo uma coisa dele: é agreste e um pouco áspero, com doçura escondida.

Para não se traírem eles ignoravam que hoje era ontem e haveria amanhã.

Coragem e covardia s√£o um jogo que se joga a cada instante.

o pré-amor, que é tão mais feliz que amor. In: A Paixão Segundo G.H.

Devo dizer que ela era doida por soldado? Poi era. Quando via um, pensava com estremecimento de prazer: ser√° que ele vai me matar?

E a doçura é tanta que faz insuportável cócega na alma. Viver é mágico e inteiramente inexplicável.

A criação não é uma compreensão, é um novo mistério.

¬ďEstou muito pr√≥xima, de um modo geral. √Č bom e n√£o √© bom. √Č que sinto falta de um sil√™ncio. Eu era sil√™nciosa. E agora me comunico, mesmo sem falar. Mas falta uma coisa. Eu vou t√™-la. √Č uma esp√©cie de liberdade, sem pedir licen√ßa a ningu√©m.¬Ē

E foi t√£o corpo que foi puro esp√≠rito. A loucura √© vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente. Bem atr√°s do pensamento tenho um fundo musical Escuta: Eu te deixo ser, deixa-me ser ent√£o Sabe o que eu quero de verdade?! Jamais perder a sensibilidade, mesmo que √†s vezes ela arranhe um pouco a alma. Porque sem ela n√£o poderia sentir a mim mesma... Amanheci em c√≥lera. N√£o, n√£o, o mundo n√£o me agrada. A maioria das pessoas est√£o mortas e n√£o sabem, ou est√£o vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de n√≥s quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir d√° remorso. E n√£o mentir √© um dom que o mundo n√£o merece... Fiquei com vontade de chorar mas felizmente n√£o chorei, porque quando choro fico t√£o consolada... Por enquanto, estou inventando a tua presen√ßa. Minha saudade anda assim espalhada, apertada, sufocada em pequenos espa√ßos geogr√°ficos onde peda√ßos do meu cora√ß√£o residem Pois logo a mim, t√£o cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu cora√ß√£o a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com m√£o dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu n√£o te doa demais, meu amor, j√° que tenho que te doer, eu sou o lobo inevit√°vel pois a vida me foi dada. Para que te servem essas m√£os que ardem e prendem? Para ficarmos de m√£os dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e olharam intimidados as pr√≥prias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir. Como se visse algu√©m beber √°gua e descobrisse que tinha sede. Sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inunda√ß√Ķes.

Hj √© domingo de manh√£. Neste domingo de sol e de j√ļpiter estou sozinha em casa. Dobrei-me de repente em dois e para frente como em profunda dor de parto- e vi que a menina em mim morria. Nunca esquecerei esse domingo sangrento. Para cicatrizar levara tempo. E eis-me aqui dura e silenciosa e her√≥ica. Sem menina dentro de mim. Todas as vidas s√£o vidas her√≥icas.

est√° fazendo um dia de sol. A praia estava cheia de vento bom e de uma liberdade. E eu estava s√≥. Sem precisar de ningu√©m . √ą dif√≠cil pq preciso repartir contigo oq sinto . O mar calmo. Mas a espreita e em suspeita. Como se tal calma n√£o pudesse durar. Algo est√° sempre por acontecer. O imprevisto improvisado e fatal me fascina. J√° entrei contigo em comunica√ß√£o t√£o forte que deixei de existir sendo. VS tornou-se um eu. √Č t√£o dif√≠cil falar e dizer coisas que n√£o podem ser ditas. √Č t√£o silencioso. Como traduzir o silencio do encontro real entre n√≥s dois? Dific√≠limo contar: olhei para VS fixamente por uns instantes. Tais momentos s√£o meu segredo. Ouve o q se chama de comunh√£o perfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade.

As pessoas mais felizes, não tem as melhores coisas... Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos... Pense nisso! O que você tem, todo mundo pode ter, Mas o que você é... Ninguém pode ser

Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. In: A Paixão Segundo G.H

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima a qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda. In: A Descoberta do Mundo

Desconfortável. Não me sinto bem. Não sei o que é que há. Mas alguma coisa está errada e dá mal-estar. Mas no entanto estou sendo franca e meu jogo é limpo. Abro o jogo. Só não conto os fatos de minha vida: sou secreta por natureza.

Quando fazemos tudo para que nos amem e n√£o conseguimos, resta-nos um √ļltimo recurso: n√£o fazer mais nada. Por isso, digo, quando n√£o obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que hav√≠amos solicitado, melhor ser√° desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. N√£o fazer esfor√ßos in√ļteis, pois o amor nasce, ou n√£o, espontaneamente, mas nunca por for√ßa de imposi√ß√£o. √Äs vezes, √© in√ļtil esfor√ßar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos p√©s. Os sentimentos s√£o sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaix√£o ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um s√≥ caminho...o de mais nada fazer

H√° registros √≠ntimos (Escrevo por n√£o ter nada a fazer no mundo: sobrei...) e observa√ß√Ķes de pertin√™ncia social (Nascera inteiramente raqu√≠tica, heran√ßa do sert√£o, (...). Essa mo√ßa n√£o sabia que ela era assim como um cachorro n√£o sabe que √© cachorro, (...) nem se dava conta de que vivia numa sociedade t√©cnica onde ela era um parafuso dispens√°vel). O sofrimento √© sempre um encontro consigo mesmo: sofrer amadurece) com indica√ß√Ķes nuas e cruas (Depois que ele desapareceu, eu, para n√£o sofrer, me divertia amando mulher. O carinho de mulher √© muito bom mesmo, eu at√© aconselho porque voc√™ √© delicada demais para suportar a brutalidade dos homens e se voc√™ conseguir uma mulher vai ver como √© gostoso, entre mulheres o carinho √© mais fino)

SIL√äNCIO √Č t√£o vasto o sil√™ncio da noite na montanha. √Č t√£o despovoado. Tenta-se em v√£o trabalhar para n√£o ouvi-lo, pensar depressa para disfar√ß√°-lo. Ou inventar um programa, fr√°gil ponto que mal nos liga ao subitamente improv√°vel dia de amanh√£. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Sil√™ncio t√£o grande que o desespero tem pudor. Montanhas t√£o altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabe√ßa se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda medita√ß√£o do sil√™ncio. Desse sil√™ncio sem lembran√ßas de palavras. Se √©s morte, como te alcan√ßar. √Č um sil√™ncio que n√£o dorme: √© insone: im√≥vel mas insone; e sem fantasmas. √Č terr√≠vel - sem nenhum fantasma. In√ļtil querer povo√°-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele √© vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento √© ira, ira √© a vida. Ou neve. Que √© muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crian√ßas riem, os passos rangem e marcam. H√° uma continuidade que √© a vida. Mas este sil√™ncio n√£o deixa provas. N√£o se pode falar do sil√™ncio como se fala da neve. N√£o se pode dizer a ningu√©m como se diria da neve: sentiu o sil√™ncio desta noite? Quem ouviu n√£o diz. A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende l√Ęmpadas com o cansa√ßo que tanto justifica o dia. As crian√ßas de Berna adormecem, fecham-se as √ļltimas portas. As ruas brilham nas pedras do ch√£o e brilham j√° vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes. Mas este primeiro sil√™ncio ainda n√£o √© o sil√™ncio. Que se espere, pois as folhas das √°rvores ainda se ajeitar√£o melhor, algum passo tardio talvez se ou√ßa com esperan√ßa pelas escadas. Mas h√° um momento em que do corpo descansado se ergue o esp√≠rito atento, e da terra a lua alta. Ent√£o ele, o sil√™ncio, aparece. O cora√ß√£o bate ao reconhec√™-lo. Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas √© in√ļtil esquivar-se: h√° o sil√™ncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, √© apenas fuga. Pois se no come√ßo o sil√™ncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu sil√™ncio. Quantas horas se perdem na escurid√£o supondo que o sil√™ncio te julga - como esperamos em v√£o por ser julgados pelo Deus. Surgem as justifica√ß√Ķes, tr√°gicas justifica√ß√Ķes forjadas, humildes desculpas at√© a indignidade. T√£o suave √© para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se √© um ser humano humilhado de nascen√ßa. At√© que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele √© o sil√™ncio. Pode-se tentar engan√°-lo tamb√©m. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no ch√£o. Mas, horror - o livro cai dentro do sil√™ncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um p√°ssaro enlouquecido cantasse? Esperan√ßa in√ļtil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o sil√™ncio. Ent√£o, se h√° coragem, n√£o se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, n√≥s os √ļnicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que n√£o se espere o resto da escurid√£o diante dele, s√≥ ele pr√≥prio. Ser√° como se estiv√©ssemos num navio t√£o descomunalmente enorme que ignor√°ssemos estar num navio. E este singrasse t√£o largamente que ignor√°ssemos estar indo. Mais do que isso um homem n√£o pode. Viver na orla da morte e das estrelas √© vibra√ß√£o mais tensa do que as veias podem suportar. N√£o h√° sequer um filho de astro e de mulher como intermedi√°rio piedoso. O cora√ß√£o tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. S√≥ se sente nos ouvidos o pr√≥prio cora√ß√£o. Quando este se apresenta todo nu, nem √© comunica√ß√£o, √© submiss√£o. Pois n√≥s n√£o fomos feitos sen√£o para o pequeno sil√™ncio. Se n√£o h√° coragem, que n√£o se entre. Que se espere o resto da escurid√£o diante do sil√™ncio, s√≥ os p√©s molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de n√≥s. Que se espere. Um insol√ļvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que n√£o se v√™em na escurid√£o. Que se espere. N√£o o fim do sil√™ncio mas o aux√≠lio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora. Depois nunca mais se esquece. In√ļtil at√© fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhec√™-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmag√≥rica e outra. Depois de uma palavra dita. √Äs vezes no pr√≥prio cora√ß√£o da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele √© fantasma.

√Č curioso como n√£o sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas n√£o posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar n√£o s√≥ n√£o exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.

O mundo já caiu, só me resta dançar sobre os destroços.

Ela se afasta fazendo uma trancinha nos cabelos escorridos. Nunca nunca nunca sim sim, canta baixinho. Aprendeu a trançar um dia desses. In: Coração Selvagem.

Por que ela estava tão ardente e leve, como o ar que vem do fogão que se destampa? In: Coração Selvagem

Se eu me visse na terra lá das estrelas ficaria só de mim. In: Coração Selvagem

O que te falo, nunca é o que te falo, e sim outra coisa.

¬ďPorque estar vivo, verdadeiramente vivo, √© horr√≠vel¬Ē

Quando estou sozinha procuro n√£o pensar porque tenho medo de de repente pensar uma coisa nova demais para mim mesma

De repente as coisas n√£o precisam mais fazer sentido

O não sentido das coisas me faz ter um sorriso de complacência. De certo tudo deve estar sendo o que é

E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério. Sou uma só... Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo.

Ela preferia mil vezes que estivesse chovendo,porque seria muito mais facil dormir sem medo do escuro.

Porque eu fazia do amor um c√°lculo matem√°tico errado: pensava que, somando as compreens√Ķes, eu amava. N√£o sabia que, somando as incompreens√Ķes √© que se ama verdadeiramente. Porque eu, s√≥ por ter tido carinho, pensei que amar √© f√°cil.

Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela, só tenho uma chance de fazer o que quero. Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la forte, tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos

Porque a melhor frase, sempre ainda a mais jovem, era: a bondade me d√° √Ęnsias de vomitar. A bondade era morna e leve, cheirava a carne crua guardada h√° muito tempo. Sem apodrecer inteiramente apesar de tudo. Refrescavam-na de quando em quando, botavam um pouco de tempero, o suficiente para conserv√°-la um peda√ßo de carne morna e quieta.

Tudo o que mais valia exatamente ela não podia contar. Só falava tolices com as pessoas. Quando dizia a Rute, por exemplo, alguns segredos, ficava depois com raiva de Rute. O melhor era mesmo calar. In: Coração Selvagem.

Onde a maldade era fria e intensa como um banho de gelo. Como se visse algu√©m beber √°gua e descobrisse que tinha sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inunda√ß√Ķes. Talvez apenas alguns goles...

Não acusar-me. Buscar a base do egoísmo: tudo o que não sou não pode me interessar, há impossibilidade de ser além do que se é — no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o delírio, sou mais do que eu quase normalmente —; tenho um corpo e tudo o que eu fizer é continuação de meu começo; se a civilização dos Maias não me interessa é porque nada tenho dentro de mim que se possa unir aos seus baixos relevos; aceito tudo o que vem de mim porque não tenho conhecimento das causas e é possível que esteja pisando no vital sem saber; é essa a minha maior humildade, adivinhava ela.

O pior √© que ela poderia riscar tudo o que pensara. Seus pensamentos eram, depois de erguidos, est√°tuas no jardim e ela passava pelo jardim olhando e seguindo o seu caminho. Estava alegre nesse dia, bonita tamb√©m. Um pouco de febre tamb√©m. Por que esse romantismo: um pouco de febre? Mas a verdade √© que tenho mesmo: olhos brilhantes, essa for√ßa e essa fraqueza, batidas desordenadas do cora√ß√£o. Quando a brisa leve, a brisa de ver√£o, batia no seu corpo, todo ele estremecia de frio e calor. E ent√£o ela pensava muito rapidamente, sem poder parar de inventar. √Č porque estou muito nova ainda e sempre que me tocam ou n√£o me tocam, sinto ¬ó refletia.

Olho por essa janela e a √ļnica verdade, a verdade que eu n√£o poderia dizer √†quele homem, abordando-o, sem que ele fugisse de mim, a √ļnica verdade √© que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso j√° √© demais. Lembro-me de um estudo crom√°tico de Bach e perco a intelig√™ncia. Ele √© frio e puro como gelo, no entanto pode-se dormir sobre ele. Perco a consci√™ncia, mas n√£o importa, encontro a maior serenidade na alucina√ß√£o. √Č curioso como n√£o sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas n√£o posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar n√£o s√≥ n√£o exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir n√£o √© o que eu sinto mas o que eu digo. Sinto quem sou e a impress√£o est√° alojada na parte alta do c√©rebro, nos l√°bios ¬ó na l√≠ngua principalmente ¬ó, na superf√≠cie dos bra√ßos e tamb√©m correndo dentro, bem dentro do meu corpo, mas onde, onde mesmo, eu n√£o sei dizer. O gosto √© cinzento, um pouco avermelhado, nos peda√ßos velhos um pouco azulado, e move-se como gelatina, vagarosamente. √Äs vezes torna-se agudo e me fere, chocando-se comigo .

Nada escapa √† perfei√ß√£o das coisas, √© essa a hist√≥ria de tudo. Mas isso n√£o explica por que eu me emociono quando Ot√°vio tosse e p√Ķe a m√£o no peito, assim. Ou sen√£o quando fuma, e a cinza cai no seu bigode, sem que ele note. Ah, piedade √© o que sinto ent√£o. Piedade √© a minha forma de amor. De √≥dio e de comunica√ß√£o. √Č o que me sustenta contra o mundo, assim como algu√©m vive pelo desejo, outro pelo medo. Piedade das coisas que acontecem sem que eu saiba. In: Cora√ß√£o Selvagem.

Mas estou cansada, apesar de minha alegria de hoje, alegria que não se sabe de onde vem, como a da manhãzinha de verão. Estou cansada, agora agudamente! Vamos chorar juntos, baixinho. Por ter sofrido e continuar tão docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada. Mas agora já é desejo de poesia, isso eu confesso, Deus. Durmamos de mãos dadas. O mundo rola e em alguma parte há coisas que não conheço. Durmamos sobre Deus e o mistério, nave quieta e frágil flutuando sobre o mar, eis o sono. In: Coração Selvagem.

Havia um mal-estar no vag√£o. Como se fizesse calor demais. A mo√ßa inquieta. Os homens em alerta. Meu Deus, pensou a mo√ßa, o que √© que eles querem de mim? N√£o tinha resposta. E ainda por cima era virgem. Por que, mas por que pensara na pr√≥pria virgindade? Os homens come√ßam a falar numa l√≠ngua incompreens√≠vel, que Cidinha logo reconhece como a l√≠ngua do p. Mas ela tem de fazer de conta que n√£o entende, porque eles est√£o dizendo que t√£o logo o trem entre num t√ļnel v√£o estupr√°-la. Me socorre, Virgem Maria! me socorre! me socorre!, ela pede em pensamento, enquanto os homens tagarelam naquela l√≠ngua infantil. Eles podem mat√°-la, dizem, se ela resolver resistir. Acendendo um cigarro para ganhar algum tempo, a inspira√ß√£o a ilumina: Se eu me fingir de prostituta, eles desistem, n√£o gostam de vagabunda.

Era fina, enviesada ¬ó sabe como, n√£o √©? ¬ó, cheia de poder. T√£o r√°pida e √°spera nas conclus√Ķes, t√£o independente e amarga que da primeira vez em que falamos chamei-a de bruta! Imagine... Ela riu, depois ficou s√©ria. Naquele tempo eu me punha a imaginar o que ela faria de noite. Porque parecia imposs√≠vel que ela dormisse. In: Cora√ß√£o Selvagem

D√°-me a Tua M√£o D√°-me a tua m√£o: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o n√ļmero um e o n√ļmero dois, de como vi a linha de mist√©rio e fogo, e que √© linha sub-rept√≠cia. Entre duas notas de m√ļsica existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois gr√£os de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espa√ßo, existe um sentir que √© entre o sentir - nos interst√≠cios da mat√©ria primordial est√° a linha de mist√©rio e fogo que √© a respira√ß√£o do mundo, e a respira√ß√£o cont√≠nua do mundo √© aquilo que ouvimos e chamamos de sil√™ncio.

Entendi então que, de qualquer modo, viver é uma grande bondade para com os outros. Basta viver, e por si mesmo isto resulta na grande bondade. Quem vive totalmente está vivendo para os outros, quem vive a própria largueza está fazendo uma dádiva, mesmo que sua vida se passe dentro da incomunicabilidade de uma cela. Viver é dádiva tão grande que milhares de pessoas se beneficiam com cada vida vivida. (A Paixão Segundo G.H)

Ela passaria a noite a rezar,a olhar para o céu escuro, a velar por alguem. Perto do Coração Selvagem

Chorou livremente como se esta fosse a solução.

que faço dessa lucidez?Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano,- já me aconteceu antes

D√°-me a tua m√£o:Vou agora te contar como entrei no inexpressivo,que sempre foi a minha busca cega e secreta.

Saudade do teu grande abraço. Perto do Coração Selvagem

E o mundo a me exigir decis√Ķes para as quais n√£o estou preparada. Decis√Ķes n√£o s√≥ a respeito de provocar o nascimento de fatos mas tamb√©m decis√Ķes sobre a melhor forma de se ser.

Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?

Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si em si mesma.

Os fatos s√£o sonoros mas entre os fatos h√° um sussurro. √Č o sussurro que me impressiona.

A gargalhada er aterrorizadora porque acontecia no passado e só a imaginação maléfica a trazia para o presente, saudade do que poderia ter sido e não foi.

Minha alegria também vem de minha mais profunda tristeza e que tristeza era uma alegria falhada.

Sabe o que eu quero de verdade?! Jamais perder a sensibilidade, mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma. Porque sem ela não poderia sentir a mim mesma...

Esboço para um possível retrato

Vou continuar, é exatamente da minha natureza nunca me sentir ridícula, eu me aventuro sempre, entro em todos os palcos

... Nunca sofra por não ser uma coisa ou por sê-la...

Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu n√£o falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.

Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso.

Sou composta por urgências minhas alegrias são intensas minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos. Eu caminho, desequilibrada, em cima de uma linha tênue entre a lucidez e a loucura. De ter amigos eu gosto porque preciso de ajuda pra sentir, embora quem se relacione comigo saiba que é por conta-própria e auto-risco. O que tenho de mais obscuro, é o que me ilumina. E a minha lucidez é que é perigosa ... Se eu pudesse me resumir, diria que sou irremediável! .

Perdi alguma coisa que era essencial e j√° que n√£o me √© mais . N√£o me √© necess√°ria , assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que at√© ent√£o me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um trip√© est√°vel . Essa terceira perna eu perdi . E voltei a ser uma pessoa que nunca fui . Voltei a ter o que nunca tive .. apenas as duas pernas . Sei que somente com duas pernas √© que posso caminhar . Mas a aus√™ncia in√ļtil da terceira me faz falta e me assusta , era ela que fazia parte de mim , uma coisa encontr√°vel por mim mesma , e sem querer precisar me procurar.

...Agora preciso de tua m√£o, n√£o para que eu n√£o tenha medo, mas para que tu n√£o tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso ser√°, no come√ßo, a tua grande solid√£o. Mas chegar√° o instante em que me dar√°s a m√£o, n√£o mais por solid√£o, mas como eu agora: por amor. Como eu, n√£o ter√°s medo de agregar-te √† extrema do√ßura en√©rgica do Deus. Solid√£o √© ter apenas o destino humano. E solid√£o √© n√£o precisar. N√£o precisar deixa um homem muito s√≥, todo s√≥. Ah, precisar n√£o isola a pessoa, a coisa precisa da coisa: basta ver o pinto andando para ver que seu destino ser√° aquilo que a car√™ncia fizer dele, seu destino √© juntar-se como gotas de merc√ļrio a outras gotas de merc√ļrio, mesmo que, como cada gota de merc√ļrio, ele tenha em si pr√≥prio uma exist√™ncia toda completa e redonda. Ah, meu amor, n√£o tenhas medo da car√™ncia: ela √© o nosso destino maior. O amor √© t√£o mais fatal do que eu havia pensado, o amor √© t√£o inerente quanto a pr√≥pria car√™ncia, e n√≥s somos garantidos por uma necessidade que se renovar√° continuamente. O amor j√° est√°, est√° sempre. Falta apenas o golpe da gra√ßa - que se chama paix√£o.

Quando fazemos tudo para que nos amem e n√£o conseguimos, resta-nos um √ļltimo recurso: n√£o fazer mais nada. Por isso, digo, quando n√£o obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que hav√≠amos solicitado, melhor ser√° desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. N√£o fazer esfor√ßos in√ļteis, pois o amor nasce, ou n√£o, espontaneamente, mas nunca por for√ßa de imposi√ß√£o. √Äs vezes, √© in√ļtil esfor√ßar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos p√©s. Os sentimentos s√£o sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaix√£o ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um s√≥ caminho...o de mais nada fazer.

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que voc√™ n√£o conhece como eu mergulhei. N√£o se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento. At√© cortar os pr√≥prios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual √© o defeito que sustenta nosso edif√≠cio inteiro. Minha for√ßa est√° na solid√£o. N√£o tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu tamb√©m sou o escuro da noite. N√£o sei amar pela metade. N√£o sei viver de mentira. N√£o sei voar de p√©s no ch√£o. Sou sempre eu mesma, mas com certeza n√£o serei a mesma pra sempre. Mas tenho medo do que √© novo e tenho medo de viver o que n√£o entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, n√£o sei me entregar √† desorienta√ß√£o. Depende de quando e como voc√™ me v√™ passar. Suponho que me entender n√£o √© uma quest√£o de intelig√™ncia e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou n√£o toca. Quando se ama n√£o √© preciso entender o que se passa l√° fora, pois tudo passa a acontecer dentro de n√≥s. Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam. Com todo perd√£o da palavra, eu sou um mist√©rio para mim. Eu n√£o sou t√£o triste assim, √© que hoje eu estou cansada Porque h√° o direito ao grito. ent√£o eu grito. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e n√£o me alcan√ßo. Sinto a falta dele como se me faltasse um dente na frente: excrucitante a √ļnica verdade √© que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso j√° √© demais.... N√£o sei se quero descansar,por estar realmente cansada ou se quero descansar para desistir Fique de vez em quando s√≥, sen√£o ser√° submergido. At√© o amor excessivo pode submergir uma pessoa. Fa√ßa com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse pleno de tudo... Divertir os outros, um dos modos mais emocionantes de existir. N√£o se conta tudo porque o tudo √© um oco nada. ¬ďO que me atormenta √© q tudo √© por enquanto, nada √© sempre¬ď. Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu n√£o falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia H√° momentos na vida em que sentimos tanto a falta de algu√©m que o que mais queremos √© tirar essa pessoa de nossos sonhos e abra√ß√°-la. E ela n√£o passava de uma mulher... inconstante e borboleta. Amor ser√° dar de presente ao outro a pr√≥pria solid√£o? Pois √© a √ļltima coisa que se pode dar de si. Simplesmente eu sou eu. E voc√™ √© voc√™. √Č vasto, vai durar. Por enquanto tu olhas para mim e me amas. N√£o: tu olhas para ti e te amas. √Č o que est√° certo. Todos os dias, quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra amor... Porque, √†s vezes, acordar tem l√° suas muitas desvantagens. Onde aprender a odiar para n√£o morrer de amor? E, antes de aprender a ser livre, eu ag√ľentava ¬Ė s√≥ para n√£o ser livre. Cuide-se como se voc√™ fosse de ouro, ponha-se voc√™ mesmo de vez em quando numa redoma e poupe-se. Estou bastante acostumada a estar s√≥, mesmo junto dos outros. - Que √© que eu fa√ßo? √Č de noite e estou viva. Estar viva esta me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro. ... E descobri que n√£o tenho um dia-a-dia. √Č uma vida-a-vida. E que a vida √© sobrenatural. Quem muito agrada, desagrada. Se tenho que ser um objeto, que seja um objeto que grita.¬Ē Que seria de mim se eu n√£o precisasse de Deus? Oh chega de decep√ß√Ķes, estou t√£o machucada, me doem a nuca, a boca, os tornozelos, fui chicoteada nos rins. Abandone-se, tente tudo suavemente, esque√ßa completamente o que aconteceu e tudo voltar√° com naturalidade Nada foi em v√£o. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de n√≥s quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir d√° remorso. E n√£o mentir √© um dom que o mundo n√£o merece... eu quero pertencer para que minha for√ßa n√£o seja in√ļtil e fortifique uma pessoa ou uma coisa Pe√ßo perd√£o por n√£o ser uma estrela ou o marou por n√£o ser alegre mas coisa que se E sei t√£o pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu √©s o meu. quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um s√≥ caminho...o de mais nada fazer.

Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu

A insistência é o nosso esforço, a desistência é o nosso prêmio. A este só se chega quando experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só está é a glória própria de minha condição. A desistência é uma revelação.

Quero escrever o borr√£o vermelho de sangue com as gotas e co√°gulos pingando de dentro para dentro. Quero escrever amarelo-ouro com raios de translucidez. Que n√£o me entendam pouco-se-me-d√°. Nada tenho a perder. Jogo tudo na viol√™ncia que sempre me povoou, o grito √°spero e agudo e prolongado, o grito que eu, por falso respeito humano, n√£o dei. Mas aqui vai o meu berro me rasgando as profundas entranhas de onde brota o estertor ambicionado. Quero abarcar o mundo com o terremoto causado pelo grito. O cl√≠max de minha vida ser√° a morte. Quero escrever no√ß√Ķes sem o uso abusivo da palavra. S√≥ me resta ficar nua: nada tenho mais a perder.

Que é que eu faço, é de noite e eu estou viva. Estar viva está me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro

N√£o h√° d√ļvida: Pensar me irrita e antes de eu come√ßar a pensar eu sabia muito bem o que eu sabia

...tudo o que não sou não pode me interessar, há a impossibilidade de ser além do que se é... (Perto do Coração Selvagem)

Ser livre é seguir-se afinal. (Perto do Coração Selvagem)

Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?

O que é que se consegue quando se fica feliz? (Perto do Coração Selvagem)

A visão consiste em surpreender o símbolo das coisas nas próprias coisas.

Ele, a que eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação da minha pobreza.

Erguia-se para uma nova manhã, docemente viva. E sua felicidade era pura como o reflexo do sol na água. Trecho do livro Perto do coração selvagem)

Me perco, me procuro e me acho. E quando necessário, enlouqueço e deixo rolar.

Ser um ser permissível a si mesmo é a glória de existir.

Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando.

A vida é igual em toda a parte e o que é necessário é a gente ser a gente.

Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira.

Oh, Deus, eu que fa√ßo concorr√™ncia a mim mesma. Me detesto. Felizmente os outros gostam de mim. √Č uma tranq√ľilidade. Um sopro de vida.

Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.

N√£o tenho tempo para mais nada. Ser feliz me consome muito

E eis que de repente agora vi que n√£o sou pura

Tenho tendência ao excessivo

O que me mata √© o cotidiano. Eu s√≥ queria exce√ß√Ķes.

Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia

Amanheci em c√≥lera. N√£o, n√£o, o mundo n√£o me agrada. A maioria das pessoas est√£o mortas e n√£o sabem, ou est√£o vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de n√≥s quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir d√° remorso. E n√£o mentir √© um dom que o mundo n√£o merece (...). E morre-se sem ao menos uma explica√ß√£o. E o pior ¬Ė vive-se, sem ao menos uma explica√ß√£o (...). E ter a obriga√ß√£o de ser o que se chama de apresent√°vel me irrita. Por que n√£o posso andar em trapos (...)?

... uma das coisas que aprendi √© que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes √© o pr√≥prio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma ang√ļstia que insatisfeita foi a criadora de minha pr√≥pria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para voc√™ enquanto voc√™ esperava um t√°xi. E desde logo desejando voc√™, esse teu corpo que nem sequer √© bonito, mas √© o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma tamb√©m. Por isso, n√£o faz mal que voc√™ n√£o venha, espararei quanto tempo for preciso.

E eu te amo era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé. Ah, e a falta de sede. Calor com sede seria suportável. Mas ah, a falta de sede. Não havia senão faltas e ausências. E nem ao menos a vontade. Só farpas sem pontas salientes por onde serem pinçadas e extirpadas.

E eu impávida finjo que não tenho dono. Pontas de cigarro apagadas eu recebo. Um dia vou pegar fogo. De noite fico sozinha no escuro, vazia, pousada num canto do chão. Meu silên­cio fede. Ai de mim, que sou o receptáculo da morte das coisas.

Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.

Eu n√£o lembrara em dizer que sem o medo j√° havia o mundo.

N√£o entendo, apenas sinto. Tenho medo de um dia entender e deixar de sentir.

Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos

Porque eu sozinho n√£o consigo: a solid√£o, a mesma que existe em cada um, me faz inventar.

Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio por isso não envaidece.

Amor √© quando √© concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque amor √© a grande desilus√£o de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilus√Ķes.

Fique de vez em quando sozinho, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.

Passei a minha vida tentando corrigir os erros que cometi na minha √Ęnsia de acertar. Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. Sou uma culpada inocente.

Quem ama a solid√£o n√£o ama a liberdade.

Nunca sofra por não ser uma coisa ou por sê-la (Perto do Coração Selvagem)

E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão.

Melhor assim. N√£o quero mais depender de ningu√©m. Quero √© o Dan√ļbio Azul. E n√£o Valsa Triste de Sibellius, se √© que √© assim que se escreve o seu nome.

Não telefono para mais ninguém. Quem quiser que me procure. E vou me fazer de rogada. Agora acabou-se a brincadeira.

N√£o quero ter a terr√≠vel limita√ß√£o de quem vive apenas do que √© poss√≠vel fazer sentido. Eu n√£o: quero √© uma verdade inventada. Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que voc√™ n√£o conhece, como eu mergulhei. Pergunte, sem querer a resposta, como estou perguntando. N√£o se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo o entendimento. Escrevo porque encontro nisso um prazer que n√£o consigo traduzir. N√£o sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, √†s vezes chorando... Eu escrevo sem esperan√ßa de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. N√£o altera em nada... Porque no fundo a gente n√£o est√° querendo alterar as coisas. A gente est√° querendo desabrochar de um modo ou de outro... At√© cortar os pr√≥prios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual √© o defeito que sustenta nosso edif√≠cio inteiro. Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da m√ļsica. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembran√ßa. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma aus√™ncia. E a l√°grima que n√£o se chorou. Tem o imaterial peso da solid√£o no meio de outros. Eu sou √† esquerda de quem entra. E estremece em mim o mundo. (...) Sou caleidosc√≥pica: fascinam-me as minhas muta√ß√Ķes faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.Sou um cora√ß√£o batendo no mundo. Aceitar-me plenamente? √Č uma violenta√ß√£o de minha vida. Cada mudan√ßa, cada projeto novo causa espanto:meu cora√ß√£o est√° espantado. √Č por isso que toda minha palavra tem um cora√ß√£o onde circula sangue (Um sopro de vida) ...Respeite mesmo o que √© ruim em voc√™ - respeite sobretudo o que imagina que √© ruim em voc√™ - n√£o copie uma pessoa ideal, copie voc√™ mesma - √© esse seu √ļnico meio de viver. ...Pegue para voc√™ o que lhe pertence, e o que lhe pertence √© tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que √© verdadeiramente imoral √© ter desistido de si mesma. A harmonia secreta da desarmonia. Quero n√£o o que est√° feito mas o que tortuosamente ainda se faz. ...Que minha solid√£o me sirva de companhia. que eu tenha a coragem de me enfrentar. que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. ...h√° impossibilidade de ser al√©m do que se √© - no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o del√≠rio, sou mais do que eu, quase normalmente - tenho um corpo e tudo que eu fizer √© continua√ß√£o de meu come√ßo...... a √ļnica verdade √© que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso j√° √© demais.... E se me achar esquisita, respeite tamb√©m. at√© eu fui obrigada a me respeitar. Saudade √© um pouco como fome. S√≥ passa quando se come a presen√ßa. Mas as vezes a saudade √© t√£o profunda que a presen√ßa √© pouco: Quer-se absorve a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unifica√ß√£o inteira √© um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida. √Č quase imposs√≠vel evitar excesso de amor que o bobo provoca. √Č que s√≥ o bobo √© capaz de excesso de amor. E s√≥ o amor faz o bobo. (Das Vantagens de Ser Bobo) Chegando em casa n√£o comecei a ler. Fingia que n√£o o tinha, s√≥ para depois ter o susto de o ter. N√£o era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante. ... Se uma pessoa perguntar durante meia hora eu, essa pessoa se esquece quem √©. Outras podem enlouquecer. √Č mais seguro n√£o fazer jamais perguntas - porque nunca se atinge o √Ęmago de uma resposta. E porque a resposta traz em si outra pergunta. Que ningu√©m se engane: s√≥ se consegue a simplicidade atrav√©s de muito trabalho. N√£o se pode falar de sil√™ncio como se fala de neve. N√£o se pode dizer a ningu√©m como se diria da neve: Sentiu o sil√™ncio deta noite? Quem ouviu n√£o diz. Suponho que me entender n√£o √© uma quest√£o de intelig√™ncia e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou n√£o toca. O que √© um espelho? √© o √ļnico material inventado que √© natural. Quem olha um espelho, quem consegue v√™-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade consiste em ele ser vazio ......esse algu√©m percebeu o seu mist√©rio de coisa. Sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso j√° faz parte de um todo, de um mist√©rio. Sou uma s√≥... Sou um ser. E deixo que voc√™ seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. D√≥i s√≥ no come√ßo. N√£o sei separar os fatos de mim, e da√≠ a dificuldade de qualquer precis√£o, quando penso no passado. Estava permanentemente ocupada em querer e n√£o querer ser o que eu era, n√£o me decidia por qual de mim, toda √© que nao podia ser; ter nascido era cheio de erros a corrigir. S√≥ tinha tempo de crescer. O que eu fazia para todos os lados, com uma falta de gra√ßa que mais parecia o resultado de um erro de c√°lculo. Na minha pressa eu crescia sem saber pra onde. Pois logo a mim, t√£o cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu cora√ß√£o a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com m√£o dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu n√£o te doa demais, meu amor, j√° que tenho que te doer, eu sou o lobo inevit√°vel pois a vida me foi dada. Para que te servem essas m√£os que ardem e prendem? Para ficarmos de m√£os dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e olharam intimidados as pr√≥prias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir. Mas nem sempre √© necess√°rio tornar-se forte. Temos que respeiar nossas fraquezas. Ent√£o, s√£o l√°grimas suaves, de uma tristeza leg√≠tima √† qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos l√°bios sente-se aquele gosto pouco salgado, produto de nossa DOR mais profunda. Amanheci em c√≥lera. N√£o, n√£o, o mundo n√£o me agrada. A maioria das pessoas est√£o mortas e n√£o sabem, ou est√£o vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de n√≥s quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir d√° remorso. E n√£o mentir √© um dom que o mundo n√£o merece... In√ļtil querer me classificar,eu simplesmente escapulo n√£o deixando. G√™nero n√£o me pega mais. Escrever √© procurar entender, √© procurar reproduzir o irreproduz√≠vel, √© sentir at√© o √ļltimo fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. T√£o secreta √© a verdadeira vida, que nem a mim, que morro dela, me pode ser confiada a senha, morro sem saber de qu√™. E o segredo √© tal que, somente se a miss√£o chegar a se cumprir √© que, por um relance, percebo que nasci incumbida - toda vida √© uma miss√£o secreta. S√≥ se sente nos ouvidos o pr√≥prio cora√ß√£o.... ....Pois n√≥s n√£o fomos feitos sen√£o para o pequeno sil√™ncio. Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela s√≥ tenho uma chance de fazer o que quero. Tenho felicidade o bastante para faz√™-la doce dificuldades para faz√™-la forte, Tristeza para faz√™-la humana e esperan√ßa suficiente para faz√™-la feliz. As pessoas mais felizes n√£o tem as melhores coisas elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos H√° um sil√™ncio dentro de mim. E esse sil√™ncio tem sido a fonte de minhas palavras. N√£o posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros √© a √ļnica salva√ß√£o individual que conhe√ßo : ningu√©m estar√° perdido se der amor e √†s vezes receber amor em troca. Escuta:eu te deixo ser. Deixa-me ser,ent√£o. Tenho v√°rias caras. Uma √© quase bonita, outra √© quase feia. Sou um o qu√™? Um quase tudo. Tudo tem que ser bem de leve para eu n√£o me assustar e n√£o assustar os que amo. Pedem-me pouco, pedem-me quase nada. O terr√≠vel √© que eu tenho muito para dar e tenho que engolir esse muito e ainda por cima dizer com delicadeza : obrigada por receberem de mim um pouquinho de mim. Os espertos ganham dos outros , em compensa√ß√£o os bobos ganham a vida. Fico com medo. Mas o cora√ß√£o bate. O amor inexplic√°vel faz o cora√ß√£o bater mais depressa. A garantia √ļnica √© que eu nasci. Tu √©s uma forma de ser eu, e eu uma forma de te ser: Eis os limites de minha possibilidade. Sou como vc me v√™ Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando, e como vc me v√™ passar !

Eu sou uma pergunta de certo. Uma pergunta que não deseja ser respondida. Que também não se contenta com as respostas porque acha tudo um tanto quanto relativo. Meus braços são por demais pequenos para o mundo que eu quero abraçar. E meu coração é por demais tortuoso para não causar espanto. Quero tudo! Agora!

N√£o me prendo a nada que me defina. sou companhia, mas posso ser solid√£o. tranq√ľilidade e inconst√Ęncia, pedra e cora√ß√£o. Sou abra√ßos, sorrisos, √Ęnimo, bom humor, sarcasmo, pregui√ßa e sono. M√ļsica alta e sil√™ncio. Serei o que voc√™ quiser, mas s√≥ quando eu quiser. N√£o me limito, n√£o sou cruel comigo! Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que n√£o quer valer¬Ö Suponho que me entender n√£o √© uma quest√£o de intelig√™ncia e sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca, ou n√£o toca.

Eu sou um ser totalmente passional.Sou movida pela emoção, pela paixão...tenho meus desatinos...Detesto coisas mais ou menos...Não sei conviver com pessoas mais ou menos...Não sei amar mais ou menos...Não me entrego de forma mais ou menos...Se você procura alguém coerente, sensata,politicamente correta, racional,cheia de moralismo... ESQUEÇA-ME!

√Č dif√≠cil perdoar? Mas quem disse que √© f√°cil se arrepender? Se voc√™ sente algo, diga... √Č dif√≠cil se abrir? Mas quem disse que √© f√°cil encontrar algu√©m que queira escutar? Se algu√©m reclama de voc√™, ou√ßa... √Č dif√≠cil ouvir certas coisas? Mas quem disse que √© f√°cil ouvir voc√™? Se algu√©m te ama, ame-o... √Č dif√≠cil entregar-se? Mas quem disse que √© f√°cil ser feliz? Nem tudo √© f√°cil na vida...Mas, com certeza, nada √© imposs√≠vel Precisamos acreditar, ter f√© e lutar para que n√£o apenas sonhemos, Mas tamb√©m tornemos todos esses desejos, realidade!!!

Não me provoque, tenho armas escondidas... Não me engane, posso não resistir... Não grite, tenho péssimo hábito de revidar... Não me magoe, meu coração já tem muitas mágoas... Não me deixe ir, posso não mais voltar... Não me deixe só, tenho medo da escuridão... Não tente me contrariar, tenho palavras que machucam... Não me decepcione, nem sempre consigo perdoar... Não espere me perder, para sentir minha falta...

(...) √āngela √© doida. Mas tem uma l√≥gica matem√°tica na sua doidice aparente. E se diverte muito a escandalosa. Agu√ßa-se demais e depois n√£o sabe o que fazer de si. Que se dane. Entre o sim e o n√£o s√≥ h√° um caminho. Escolher. √āngela escolheu sim. Ela √© t√£o livre que um dia ser√° presa. Presa por qu√™? Por excesso de liberdade. Mas essa liberdade √© inocente? √Č. At√© mesmo ing√™nua. Ent√£o por que a pris√£o? Porque a liberdade ofende. (...)

Sendo este um jornal por excel√™ncia, e por excel√™ncia dos precisa-se e dos oferece-se, vou p√īr um an√ļncio em negrito: precisa-se de algu√©m homem ou mulher, que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta est√° t√£o contente que n√£o pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a pr√≥pria alegria. √Č urgente pois a alegria dessa pessoa √© fugaz como estrelas cadentes, que at√© parece que s√≥ se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite √© muito perigosa e nenhuma ajuda √© possivel e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao an√ļncio s√≥ tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. N√£o faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se d√° √© t√£o grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se tamb√©m que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se tamb√©m uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. D√°-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. Ps.: N√£o se precisa de pr√°tica. E se pede desculpa por estar num an√ļncio a dilacerar os outros. Mas juro que h√° em meu rosto s√©rio uma alegria at√© mesmo divina para dar.

Viver em sociedade é um desafio porque às vezes ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser ou do nosso não-ser... Quero dizer com isso que nós temos, no mínimo, duas personalidades: a objetiva, que todos ao nosso redor conhece; e a subjetiva... Em alguns momentos, esta se mostra tão misteriosa que se perguntarmos - Quem somos? Não saberemos dizer ao certo. ...sempre devemos ser autênticos, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser... Aqui reside o eterno conflito da aparência x essência.

E sou rancorosa. Um dia um casal me convidou para almo√ßar no domingo. E no s√°bado de tarde, assim, √† √ļltima hora, me avisaram que o almo√ßo n√£o podia ser porque tinham que almo√ßar com um homem estrangeiro muito importante. Por que n√£o me convidaram tamb√©m? por que me deixaram sozinha no domingo? Ent√£o me vinguei. N√£o sou boazinha. N√£o os procurei mais. E n√£o aceitarei mais convite deles. P√£o p√£o, queijo queijo.

E coca-cola. Como disse Cl√°udio Brito, tenho mania de coca-cola e de caf√©. Meu cachorro est√° co√ßando a orelha e com tanto gosto que chega a gemer. Sou m√£e dele. E preciso de dinheiro. Mas que o Dan√ļbio Azul √© lindo, √© mesmo.

O perigo de meditar é o de,sem querer,começar a pensar e pensar já não é meditar,pensar guia para um objetivo.

Mas j√° que se h√° de escrever, que ao menos n√£o se esmaguem com palavras as entrelinhas. O melhor ainda n√£o foi escrito. O melhor est√° nas entrelinhas

N√£o se compreende m√ļsica. Ouve-se. Ou√ßa-me com teu corpo inteiro.

Quando me amei de verdade,compreendi que em qualquer circunst√Ęncia,eu estava no lugar certo,na hora certa,no momento exato.E ent√£o,pude relaxar.Hoje eu sei que isso tem nome:Auto-estima.

S√≥ poderia haver um encontro de seus mist√©rios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognosc√≠veis feita com a confian√ßa com que se entregariam duas compreens√Ķes.

J√° que se h√° de escrever, que pelo menos n√£o se esmaguem com palavras as entrelinhas. O melhor ainda n√£o foi escrito. O melhor est√° nas entrelinhas.

Fui até onde pude, mas como é que não compreendi que aquilo que não alcanço em mim já são os outros?

As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.

Naturalmente eu sou irritável, naturalmente meu humor não é brilhante, mas de modo geral sou alegre.

Eu sou uma chama acesa! E rebrilho e rebrilho toda essa escurid√£o. In: A Bela e a Fera

As almas fracas como você são facilmente levadas a qualquer loucura com um olhar apenas por almas fortes como a minha.

Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intoler√°vel para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.

Eu e minha liberdade que n√£o sei usar

Nada posso fazer: parece que h√° em mim um lado infantil que n√£o cresce jamais.

Há muito aceitei o destino espaventado que é o meu. Obrigada. Muito obrigada, meu senhor. Vou embora: vou ao que é meu. Meu coração está gélido que nem barulhinho de gelo em copo de uísque

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento. Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos.

O pior de mentir √© que cria falsa verdade. (N√£o, n√£o √© t√£o √≥bvio como parece, n√£o √© tru√≠smo; sei que estou dizendo uma coisa e que apenas n√£o sei diz√™-la do modo certo, ali√°s, o que me irrita √© que tudo tem de ser do modo certo, imposi√ß√£o muito limitadora.) O que √© mesmo que eu estava tentando pensar? Talvez isso: se a mentira fosse apenas a nega√ß√£o da verdade, ent√£o este seria um dos modos (negativos) de dizer a verdade. Mas a mentira pior √© a mentira criadora. (N√£o h√° d√ļvida: pensar me irrita, pois antes de come√ßar a pensar eu sabia muito bem o que eu sabia).

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece...

¬ďMas olhe para todos ao seu redor e veja o q temos feito de n√≥s e a isso considerado vit√≥ria de cada dia. N√£o temos amado, acima de todas as coisas. N√£o temos aceito o que n√£o se entende porque n√£o queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguran√ßas por n√£o nos termos um ao outro. N√£o temos nenhuma alegria que j√° n√£o tenha sido catalogada. Temos constru√≠do catedrais, e ficando do lado de fora pois as catedrais que n√≥s mesmos constru√≠mos, tememos que sejam armadilhas. N√£o nos temos entregue a n√≥s mesmos, pois isso seria o come√ßo de uma vida larga e n√≥s a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de n√≥s que por amor diga: tens medo.Temos organizado associa√ß√Ķes e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salva√ß√£o para n√£o nos envergonharmos de ser inocentes. N√£o temos usado a palavra amor para n√£o termos de reconhecer sua contextura de √≥dio, de amor, de ci√ļme e de tantos outros contradit√≥rios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida poss√≠vel. Muitos de n√≥s fazem arte por n√£o saber como √© a outra coisa. Temos disfar√ßado com falso amor a nossa indiferen√ßa, sabendo que nossa indiferen√ßa √© ang√ļstia disfar√ßada. Temos disfar√ßado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no q realmente importa. Falar no que realmente importa √© considerado uma gafe. N√£o temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. N√£o temos sido puros e ing√™nuos para n√£o rirmos de n√≥s mesmos e para que no fim do dia possamos dizer ¬ďpelo menos n√£o fui tolo¬Ē e assim n√£o ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em p√ļblico do que n√£o sorrir√≠amos quando fic√°ssemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vit√≥ria nossa de cada dia. Mas eu escapei disso...¬Ē

Fico com medo. Mas o cora√ß√£o bate.O amor inexplic√°vel faz o cora√ß√£o bater mais depressa. A garantia √ļnica √© que eu nasci. Tu √©s uma forma de ser eu, e eu uma forma de te ser: Eis os limites de minha possibilidade.

Mas estou j√° cansada de minhas hesita√ß√Ķes, que j√° me trouxeram bastante aborrecimento. Tenho sempre que me lembrar que tudo que consegui na vida foi √† custa de ousadias, embora pequenas. Quando a gente cai nessa atmosfera de indecis√£o, se sente perdida. In: Minhas queridas.

Cada pessoa é um mundo. Cada pessoa tem sua própria chave e a dos outros nada resolve, só se olha para o mundo alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que sobre nada e que nos é vital, o mal de muitos é consolo, mas não é solução. In: A Bela e a Fera

Eu ponhei cada coisa em seu lugar. √Č isso mesmo: ponhei. Porque pus parece de ferida feia e marrom na perna de mendigo e a gente se sente t√£o culpada por causa da ferida com pus do mendigo e o mendigo somos n√≥s, os degredados.

Tenho em mim, objeto que sou, um toque de santidade enigmática. Sinto-a em certos momentos vazios e faço milagres em mim mesma: o milagre do transitorial mudar de repente, a um leve toque em mim, a mudar de repente de sentimento e pensamentos, e o milagre de ver tudo claríssimo e oco: vejo a luminosidade sem tema, sem história, sem fatos. Faço grande esforço para não ter o pior dos sentimentos: o de que nada vale nada. E até o prazer é desimportante.

E todos os dias ficarei t√£o alegre que incomodarei os outros, o que pouco me importa, j√° que eu tantas vezes sou incomodada pela alegria superficial e digestiva dos outros.

Como, pois, inaugura agora em mim o pensamento? E talvez só o pensamento me salvasse, tenho medo da paixão.

Sou abra√ßos, sorrisos, √Ęnimo, bom humor, sarcasmo, pregui√ßa e [agora] sono.

Minhas idéias são inventadas e eu não me responsabilizo por elas.

Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. Sou uma culpada inocente.

Minha coragem foi a de um son√Ęmbulo, que simplesmente vai...

Escrevo muito simples e muito nu. Por isso fere.

Mas h√° o h√°bito e o h√°bito anestesia.

Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: porque ela poderia se habituar à felicidade.

Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada.

Faz de conta que a vida dela n√£o era um faz de conta.

Quem não é perdido não conhece a liberdade e não ama.

EU te amo geometricamente e ponto zero no horizonte formando tri√Ęngulo contigo. O resultado √© um perfume de rosas maceradas.

Vivo sem explica√ß√£o poss√≠vel. Eu que n√£o tenho sin√īnimo.

Quando eu digo te amo, estou me amando em você. in: Um sopro de vida.

Ê egoísta e cobiçosa. Não larga as pessoas em parte por amor, em parte por não saber romper.

Porque se olhares em mim ver√°s .. n√£o sou t√£o m√° quanto pensas; apenas n√£o sou t√£o corajosa como imaginas .. pare√ßo forte mais no fundo sou fraca fera por√©m sou bela as vezes chata mais no meu √≠ntimo h√° sentimentos diversos pare√ßo metida por√©m se olhares em meu semblante com seu cora√ß√£o ver√°s apenas humildade calma sempre .. posso at√© parecer solit√°ria .. √© que realmente tenho poucos amigos ..a diferen√ßa √© que os poucos que tenho n√£o valem metade de um seu .. pense nisso depois me julgue lembre-se que se me julga pela apar√™ncia ..sou apenas o reflexo de sua ign√īrancia!

Cada pessoa é um mundo. Cada pessoa tem sua própria chave e a dos outros nada resolve, só se olha para o mundo alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que sobre nada e que nos é vital, o mal de muitos é consolo, mas não é solução.

Escrever √© procurar entender, √© procurar reproduzir o irreproduz√≠vel, √© sentir at√© o √ļltimo fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever √© tamb√©m aben√ßoar uma vida que n√£o foi aben√ßoada.

Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfar√ßado. E ter apenas a pr√≥pria vida √© [...] um sacrif√≠cio. Como aqueles que, no convento, varrem o ch√£o e lavam a roupa, servindo sem a gl√≥ria de fun√ß√£o maior, meu trabalho √© o de viver os meus prazeres e as minhas dores. √Č necess√°rio que eu tenha a mod√©stia de viver...

Eu não quero você para nada, seu mão-fria. Vou por aí procurar mão quente, e mando você para a puta que te pariu meu grande amor, há um hiato perturbador entre nós dois — por isso é que tenho em mente para preencher esse hiato e tenho um amante para favorecer você e te salvar do vazio e oco hiato sem fundo que é o vácuo. O que escrevo agora não é para ninguém: é diretamente para o próprio escrever, esse escrever consome o escrever.

Tem toda a iluminação feérica — e ao mesmo tempo que se habitua lenta e muda e majestosa e delicadíssima e fatal — em ser mulher — é modesta demais para sê-lo, é fugaz demais para ser definida. Ela me contou que na rua dirigiu-se a um guarda — e explicou que assim fez porque ele devia saber das coisas e ainda por cima estava armado, o que infunde respeito a ela. Falou assim para o guarda: o senhor pode me informar, por obséquio, quando começa a primavera?

Que instabilidade. Me muero. Vivo no futuro da ventania. Por que é que tudo se diz: fica para a semana que vem? Eu estou aqui, aqui à espera. Vivo agora e o resto que vá para a puta que o pariu. E meu cachorro que não fez nada. Só é. Eu também sou: é. Eu de bandeira esfarrapada.

Então sonhei um sonho tão bom: sonhei assim: na vida nós somos artistas de uma peça de teatro absurdo escrita por um Deus absurdo. Nós somos todos os participantes desse teatro: na verdade nunca morreremos quando acontece a morte. Só morremos como artistas. Isso seria a eternidade?

Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, m...as com certeza não serei a mesma pra sempre.

Se era inteligente, n√£o sabia. Ser ou n√£o inteligente dependia da instabilidade dos outros.

A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens.

E apesar da hostilidade entre ambos se tornar gradativamente mais intensa, como m√£os que est√£o perto e n√£o se d√£o, eles n√£o podiam se impedir de se procurar.

Ele precisava dela com fome para n√£o esquecer que eram feitos da mesma carne.

O que eu desejo, ainda n√£o tem nome...

A vida √© curta, mas as emo√ß√Ķes que podemos deixar duram uma eternidade.

Como fazer se n√£o te enterneces com meus defeitos,/ enquanto eu amei os teus

Observo em mim mesma as mudanças de estação: eu claramente mudo com elas.

Para compreender a minha não-inteligência, o meu sentimento, fui obrigada a me tornar inteligente.

Só agora eu percebia que antes vivera dentro de um cubo.

O que terminei sendo, e t√£o cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente sente e usa a palavra que o exprima. √Č pouco, √© muito pouco.

Suponho que este tipo de sensibilidade, uma que não só se comove como por assim dizer pensa sem ser com a cabeça, suponho que seja um dom.

Não fossem os caminhos de emoção a que leva o pensamento, pensar já teria sido catalogado como um dos modos de se divertir.

Entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem.

Nada mais tenho com a validez das coisas. Estou liberta ou perdida. A vida é mortal.

O que uma pessoa diz a outra? Fora como vai? Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras?

A pior cegueira é a dos que não sabem que estão cegos.

O futuro é meu enquanto eu viver.

S√≥ porque √© dif√≠cil compreender e amar o que √© espont√Ęneo e franciscano. Entender o dif√≠cil n√£o √© vantagem, mas amar o que √© f√°cil √© uma grande subida na escala humana.

A verdade é o resíduo final de todas as coisas e no meu inconsciente está a verdade que é a mesma do mundo.

Ang√ļstia pode ser n√£o ter esperan√ßa na esperan√ßa. Ou conformar-se sem se resignar. Ou n√£o se confessar nem a si pr√≥prio. Ou n√£o ser o que realmente se √©, e nunca se √©. Ang√ļstia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser tamb√©m n√£o ter coragem de ter ang√ļstia - e a fuga √© outra ang√ļstia. Mas a ang√ļstia faz parte: o que √© vivo, por ser vivo, se contrai. Esse mesmo rapaz perguntou-me: voc√™ n√£o acha que h√° um vazio sinistro em tudo? H√° sim. Enquanto se espera que o cora√ß√£o entenda.

¬ďMeu receio era de que, por impaci√™ncia com a lentid√£o que tenho em me compreender, eu estivesse apressando antes da hora um sentido. Cada vez acho tudo uma quest√£o de paci√™ncia, de amor criando paci√™ncia, de paci√™ncia criando amor. Esta paci√™ncia eu tive: a de suportar, sem nem ao menos o consolo de uma promessa de realiza√ß√£o, o grande inc√īmodo da desordem. Mas tamb√©m √© verdade que a ordem constrange.

Comecei a mentir por precaução, e ninguém me avisou do perigo de ser tão precavida; porque depois nunca mais a mentira descolou de mim. E tanto menti que comecei a mentir até minha própria mentira. E isso - já atordoada eu sentia - isso era dizer a verdade. Até que decaí tanto que a mentira eu a dizia crua, simples, curta: eu dizia a verdade bruta.

Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência. Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo.

Outro sinal de se estar em caminho certo √© o de n√£o ficar aflita por n√£o entender; a atitude deve ser: n√£o se perde por esperar, n√£o se perde por n√£o entender. Ent√£o comecei uma listinha de sentimentos dos quais n√£o sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem n√£o gosto - como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente n√£o gosta mais, essa m√°goa e esse rancor - como se chama? Estar ocupada - e de repente parar por ter sido tomada por uma s√ļbita desocupa√ß√£o desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?

Tenho medo de revelar de quanto eu preciso e de como sou pobre.

Escrevendo pelo menos eu pertencia a mim mesma.

Perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova da solidão de não pertencer começou a me invadir como heras num muro.

E então eu soube: pertencer é viver.

Posso de repente entender e n√£o sentir.

Parece que √†s vezes sou espont√Ęnea demais e isso me torna engra√ßada.

Que importa o sentido? O sentido sou eu.

Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é o outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro então estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.

O mundo não sabe que é criativo.

Simplesmente descobir de s√ļbito que pensar n√£o √© natural.

Tudo o que não sei é que constitui a minha verdade.

A vida é mais longa do que a fazemos. Cada instante conta.

A satisfação que nosso trabalho nos proporciona é sinal de que soubemos escolhê-lo.

O mais difícil é não fazer nada: ficar sem fazer nada é a nudez final.

Estou habituada a n√£o considerar perigoso pensar. Penso e n√£o me impressiono.

Pertencer n√£o vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a algu√©m mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha pr√≥pria for√ßa - eu quero pertencer para que minha for√ßa n√£o seja in√ļtil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

E uma alegria solit√°ria pode se tornar t√£o pat√©tica. √Č como ficar com um presente todo embrulhado e n√£o ter a quem dizer: tome, √© seu, abra-o! N√£o querendo me ver em situa√ß√Ķes pat√©ticas e, por uma esp√©cie de conten√ß√£o, evitando o tom de trag√©dia, ent√£o raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Eu às vezes tenho a sensação de que estou procurando às cegas uma coisa; eu quero continuar, eu me sinto obrigada a continuar. Sinto até uma certa coragem de fazê-lo. O meu temor é de que seja tudo muito novo para mim, que eu talvez possa encontrar o que não quero. Essa coragem eu teria, mas o preço é muito alto, o preço é muito caro, e eu estou cansada. Sempre paguei e de repente não quero mais. Sinto que tenho que ir para um lado ou para outro. Estou viciada nessa extrema intensidade.

Humildade como técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não tão grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, e, com todo o atraso que o erro dá à vida, faz perder muito tempo.

Alguns, bem sei, j√° at√© me disseram, me acham perigosa, Mas tamb√©m sou inocente. Sei, e talvez s√≥ eu e alguns saibam, que se tenho perigo tenho tamb√©m uma pureza. E ela s√≥ √© perigosa para quem tem perigo dentro de si. √Äs vezes a raiz do que √© ruim √© uma pureza que n√£o p√īde ser.

E nela se aloja um eu. Um corpo separado os outros, e aisso se chama de eu? √Č estranho ter um corpo onde se alojar, um corpo onde sangue molhado corre sem parar, onde a boca sabe cantar, e os olhos tantas vezes devem ter chorado. Ela √© um eu.

Ent√£o isso era a felicidade. De in√≠cio se sentiu vazia. Depois os olhos ficaram √ļmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. E o que se faz quando se fica feliz? Que fa√ßo da felicidade? Que fa√ßo dessa paz estranha e aguda que j√° est√° come√ßando a me doer como uma ang√ļstia e como um grande sil√™ncio? A quem dou minha felicidade que j√° est√° come√ßando a me rasgar um pouco e me assusta.

A impaciência enorme não é em relação à coisa propriamente dita, mas à paciência monstruosa que se tem. Como se dissesse: não suporto um minuto mais ser tão paciente, essa paciência de relojoeiro me enerva etc.: é uma impaciente paciência.

√Č bom. Sobretudo porque a mulher sabe que est√° sendo bom para ele: √© depois de grandes jornadas e de grandes lutas que ele enfim compreende que precisa se ajoelhar diante da mulher. E, depois, √© bom porque a cabe√ßa do homem fica perto dos joelhos da mulher e perto de suas m√£os, no seu colo, que √© sua parte mais quente. E ela pode fazer o seu melhor gesto: nas m√£os, que ficam a um tempo fremenets e firmes, pegar aquela cabe√ßa cansada que √© fruto entre seu e dela.

Eu pe√ßo a Deus tudo o que eu quero e preciso. √Č o que me cabe. Ser ou n√£o ser atendida - isso n√£o cabe a mim, isso j√° √© mat√©ria-m√°gica que se me d√° ou se retrai. Obstinada, eu rezo. Eu n√£o tenho o poder. Tenho a prece.

Mas de algum modo as pessoas s√£o eternas.

O segredo destas flores fechadas é que exatamente no primeiro dia de primavera elas se abrem se dão ao mundo.

Sinto que viver é inevitável.

Precisava ser apenas - terra. E quanto a esta, todos a têm sob os pés. Era tão estranho sentir-se viver sobre uma coisa viva.

Meu espírito é tecido pela terra mais fina.

Eu me pefumo para intensificar o que sou. Por isso n√£o posso usar perfumes que me contrariem. Perfumar-se √© uma sabedoria instintiva. √Č bom perfumar-se em segredo.

√Č assim ent√£o o teu segredo. Teu segredo √© t√£o parecido comigo que nada me revela al√©m do que j√° sei. E sei t√£o pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu √©s o meu.

A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável.

Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia. O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo.

Quando de noite ele me chamar para a atração do inferno, irei. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Só os cães ladram pressentindo o sobrenatural.

Sem uma palavra, mas teu prazer entende o meu.

Eu te amo - disse ela com ódio ao homem cujo crime impunível que cometera era o de não querê-la.

Sabe o que eu quero de verdade? Jamais perder a sensibilidade, mesmo que às vezes ela arranhe um pouco.

Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão.

Não perguntavam por mim, mas deram por minha falta. Na trama da minha ausência, inventaram tela falsa.

N√£o h√° pessoas que costuram para fora? Eu costuro para dentro.

Quero escrever no√ß√Ķes sem o uso abusivo da palavra. S√≥ me resta ficar nua: nada tenho mais a perder.

Borboleta é pétala que voa.

Um pouco de aventura liberta a alma cativa do algoz cotidiano.

Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente - como em dores de parto - e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim.

√Č determinismo, sim. Mas seguindo o pr√≥prio determinismo √© que se √© livre. Pris√£o seria seguir um destino que n√£o fosse o meu pr√≥prio. H√° uma grande liberdade em se ter um destino. Este √© o nosso livre-arb√≠trio.

Est√° fazendo um dia lindo de outono. A praia estava cheia de um vento bom, de uma liberdade. E eu estava s√≥. E naqueles momentos n√£o precisava de ningu√©m. Preciso aprender a n√£o precisar de ningu√©m. √Č dif√≠cil, porque preciso repartir com algu√©m o que sinto. O mar estava calmo. Eu tamb√©m. Mas √† espreita, em suspeita. Como se essa calma n√£o pudesse durar. Algo est√° sempre por acontecer. O imprevisto me fascina.

Eu pe√ßo a Deus tudo o que eu quero e preciso. √Č o que me cabe. Ser ou n√£o ser atendida - isso n√£o cabe a mim, isso j√° √© mat√©ria-m√°gica que se d√° ou se retrai. Obstinada, eu rezo. Eu n√£o tenho o poder. Tenho a prece.

E √© tamb√©m porque sempre fui de brigar muito, meu modo √© brigando. √Č porque sempre tento chegar pelo meu modo. √Č porque ainda n√£o sei ceder. √Č porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e n√£o o que √©. √Č porque ainda n√£o sou eu mesma, e ent√£o o castigo √© amar um mundo que n√£o √© ele. √Č tamb√©m porque eu me ofendo √† toa. √Č porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa.

Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela - e é claro que a história é verdadeira embora inventada - que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro - existe a quem falte o delicado essencial.

Preciso ser livre - n√£o ag√ľento a escravid√£o do amor grande, o amor n√£o me prende tanto.

Tania, por favor, ensine a Marcia aquela frase assim: o .......... n√£o vale nada. In: Minhas Queridas.

N√£o me deixe ir, posso n√£o mais voltar.

Dá uma vontade de não ser, exatamente quando se é com toda força.

Adoro ouvir coisas que d√£o a medida de minha ignor√Ęncia.

A esperança é este instante

O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido

Já chamei pessoas próximas de amigo e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.

Achei gra√ßa na hist√≥ria de seu cont√≠nuo dar meu nome √† filha... Que tola ¬ďhero√≠na¬Ē eu sou! Enfim, o que vale √© que √© um nome normal. In: Minhas Queridas.

Só não me agradaram as notícias de que vocês duas não aproveitaram bem as férias. Detesto pessoas que se parecem comigo... In: Minhas Queridas

O mundo todo é ligeiramente chato, parece. O que importa na vida é estar junto de quem se gosta.

Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente.

Gastar a vida é usá-la ou não usá-la?

Vez por outra ia para a Zona Sul e ficava olhando as vitrines faiscantes de j√≥ias e roupas acetinadas - s√≥ para se mortificar um pouco. √Č que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco √© um encontro.

Agora me lembrei de uma coisa engraçada. Um amigo nosso em Argel achou a moça do restaurante muito bonitinha e perguntou-lhe se queria ir ao cinema com ele. Ela respondeu um pouco ofendida e muito digna: Pas moi, je suis vierge! (Não dá, sou virgem) Não é tão engraçado? Ele disse que teve vontade de responder: C’est pas ma faute...(Não é minha culpa) In: Minhas Queridas

O pequeno êxtase da palavra fluir junto do pensamento e do sentimento: nessa hora como é bom ser uma pessoa. Eu me encontro nos outros. Tudo o que dá certo é normal. O estranho é a luta que se é obrigado a travar para obter o que simplesmente seria o normal.

Sei que eu mesma n√£o presto. Mas eu te digo: eu nasci para n√£o me submeter; e se houver essa palavra, para submeter os outros. N√£o sei porque nasceu em mim desde sempre a id√©ia profunda de que sem ser a √ļnica nada √© poss√≠vel. Talvez minha forma de amor seja nunca amar sen√£o as pessoas de quem eu nada queira esperar e ser amada.

Amar nunca impediu que por dentro eu chorasse l√°grimas de sangue. Nem impediu separa√ß√Ķes mortais. [...] O mundo falhou para mim, eu falhei para o mundo. Portanto n√£o quero mais amar. O que me resta? Viver automaticamente at√© que a morte natural chegue. Mas sei que n√£o posso viver automaticamente: preciso de amparo e √© do amparo do amor.

...levo uma vida di√°ria vazia e agitada. Passo o tempo todo pensando ¬Ė n√£o raciocinando, n√£o meditando ¬Ė mas pensando, pensando sem parar. E aprendendo, n√£o sei o que, mas aprendendo. E com a alma mais sossegada (n√£o estou totalmente certa). Sempre quis ¬ďjogar alto¬Ē, mas parece que estou aprendendo que o jogo alto est√° numa vida di√°ria pequena, em que uma pessoa se arrisca muito mais profundamente, com amea√ßas maiores. Com tudo isso, parece que estou perdendo um sentimento de grandeza que n√£o veio nunca de livros nem de influ√™ncia de pessoas, uma coisa muito minha e que desde pequena deu a tudo, aos meus olhos, uma verdade que n√£o vejo mais com tanta freq√ľ√™ncia. Disso tudo, restam nervos muito sens√≠veis e uma predisposi√ß√£o a ficar calada. Mas aceito tanto agora. Nem sempre pacificamente, mas a atitude √© de aceitar.

N√£o me prendo a nada que me defina! Sou companhia, mas posso ser solid√£o... tranq√ľilidade e inconst√Ęncia, pedra e cora√ß√£o. Sou abra√ßos, sorrisos, √Ęnimo, bom humor, sarcasmo, pregui√ßa e sono. M√ļsica alta e sil√™ncio! Serei o que voc√™ quiser, mas s√≥ quando eu quiser. N√£o me limito, n√£o sou cruel comigo! Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que n√£o quer valer. Suponho que me entender n√£o √© uma quest√£o de intelig√™ncia e sim de sentir, de entrar em contato.. ou toca, ou n√£o toca!

N√£o pense que a pessoa tem tanta for√ßa assim a ponto de levar qualquer esp√©cie de vida e continuar a mesma. At√© cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edif√≠cio inteiro...h√° certos momentos em que o primeiro dever a realizar √© em rela√ß√£o a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Voc√™ j√° viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu...Para me adaptar ao que era inadapt√°vel, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilh√Ķes - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei tamb√©m a minha for√ßa. Ou√ßa: respeite mesmo o que √© ruim em voc√™ - respeite sobretudo o que imagina que √© ruim em voc√™ - n√£o copie uma pessoa ideal, copie voc√™ mesma - √© esse seu √ļnico meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um c√©u, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se √© que uma vida morna n√£o √© ser punida por essa mesma mornid√£o. Pegue para voc√™ o que lhe pertence, e o que lhe pertence √© tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que √© verdadeiramente imoral √© ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que voc√™ me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma.

Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe a casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo. √Č absolutamente indispens√°vel que eu seja uma ocupada e uma distra√≠da. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Fa√ßo parte da ma√ßonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de proteg√™-lo. Somos os que se abst√™m de destruir, e nisso se consomem. N√≥s, agentes disfar√ßados e distribu√≠dos pelas fun√ß√Ķes menos reveladoras, n√≥s √†s vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, h√° um jeito de dar a m√£o, n√≥s nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E ent√£o, n√£o √© necess√°rio o disfarce: embora n√£o se fale, tamb√©m n√£o se mente, embora n√£o se diga a verdade, tamb√©m n√£o √© necess√°rio dissimular. Amor √© quando √© concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor √© a grande desilus√£o de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilus√Ķes. H√° os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecer√° a vida pessoal. √Č o contr√°rio: amor √© finalmente a pobreza. Amor √© n√£o ter. Inclusive amor √© a desilus√£o do que se pensava que era amor. E n√£o √© pr√™mio, por isso n√£o envaidece, amor n√£o √© pr√™mio, √© uma condi√ß√£o concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso n√£o faz do amor uma exce√ß√£o honrosa; ele √© exatamente concedido aos maus agentes, √†queles que atrapalhariam tudo se n√£o lhes fosse permitido adivinhar vagamente.

A esperan√ßa tamb√©m n√£o tem n√ļmero. Perder uma coisa √© inef√°vel: nunca sei onde as coloquei. Ser √© de um provis√≥rio impalp√°vel. Juro que preciso de solu√ß√Ķes. N√£o posso ficar assim completamente no ar.

Lutei toda a minha vida contra a tend√™ncia ao devaneio, sempre sem jamais deixar que ele me levasse at√© as √ļltimas √°guas. Mas o esfor√ßo de nadar contra a doce corrente tira parte de minha for√ßa vital. E, se lutando contra o devaneio, ganho no dom√≠nio da a√ß√£o, perco interiormente uma coisa muito suave de se ser e que nada substitui. Mas um dia hei de ir, sem me importar para onde o ir me levar√°.

A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe. Há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda. Agora está sendo neste próprio instante. Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!

Que simplicidade. Nunca pensei que o mundo e eu cheg√°ssemos a esse ponto de trigo.

Quando vejo num caminh√£o uma placa dizendo: Inflam√°vel - me encho de gl√≥ria. (#9829;)In: Um sopro de vida (Pulsa√ß√Ķes), p√°g. 83

Sou inquieta e áspera e desesperançada. Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo. Meu esforço: trazer agora o futuro para já.

No fundo de tudo h√° a Aleluia.

Este instante é. Você que me lê é.

Mas enquanto eu tiver a mim, não estarei só.

Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.

Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando.

Fico tão assustada quando percebo que durante horas perdi minha formação humana. Não sei se terei uma outra para substituir a perdida.

E sem dar uma forma, nada me existe.

* Em mim qualquer começo de pensamento esbarra logo com a testa. *

Agora eu conhe√ßo esse grande susto de estar viva, tendo como √ļnico amparo exatamente o desamparo de estar viva. De estar viva - senti - terei que fazer o meu motivo e tema. Com delicada curiosidade, atenta √† fome e √† pr√≥pria aten√ß√£o, passei ent√£o a comer delicadamente viva os peda√ßos de p√£o.

Estou um pouco desnorteada como se um cora√ß√£o me tivesse sido tirado, e em lugar dele estivesse agora a s√ļbita aus√™ncia, uma aus√™ncia quase palp√°vel do que era antes um √≥rg√£o banhado da escurid√£o diurna da dor. N√£o estou sentindo nada. Mas √© o contr√°rio de um torpor. √Č um modo mais leve e mais silencioso de existir. Mas estou tamb√©m inquieta. Eu estava organizada para me consolar da ang√ļstia e da dor. Mas como √© que me consolo dessa simples e tranquila alegria? √Č que n√£o estou habituada a n√£o precisar de consolo.

Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Assim como a chuva não é grata por não ser uma pedra. Ela é uma chuva. Talvez seja isso que se poderia chamar de estar vivo. Não mais que isto, mas isto: vivo. E apenas vivo é uma alegria mansa.

A verdade do mundo √© impalp√°vel. In√ļtil querer: s√≥ vem quando quer e espontaneamente. Habituar-se √† felicidade seria um perigo. Ficar√≠amos mais ego√≠stas, porque as pessoas felizes o s√£o, menos sens√≠veis √† dor humana, n√£o sentir√≠amos a necessidade de procurar ajudar os que precisam - tudo por termos a gra√ßa e a compensa√ß√£o e o resumo da vida.

Pedem-me pouco, pedem-me quase nada. O terrível é que eu tenho muito para dar e tenho que engolir esse muito e ainda por cima dizer com delicadeza : obrigada por receberem de mim um pouquinho de mim.

------ estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.

Se eu me confiar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque n√£o saberei onde engasgar meu novo modo de ser - se eu for adiante nas minhas vis√Ķes fragment√°rias, o mundo inteiro ter√° que se transformar paraeu caber nele.

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que j√° n√£o √© mais. N√£o me √© necess√°ria, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que at√© ent√£o me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um trip√© est√°vel. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas. Sei que somente com duas pernas √© que posso caminhar. Mas a aus√™ncia in√ļtil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontr√°vel por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

Como é que se explica que o seu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o seu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? Como se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra - como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?

Mas √© que tamb√©m n√£o sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E - e se a realidade √© mesmo que nada existiu?! quem sabe nada aconteceu? S√≥ posso compreender o que acontece mas s√≥ acontece o que eu compreendo - que sei do resto? o resto nada existiu. Quem sabe nada existiu! Quem sabe me aconteceu apenas uma lenta e grande dissolu√ß√£o? E que minha luta contra essa desintegra√ß√£o est√° sendo esta: a de tentar agora dar-lhe uam forma? Uma vis√£o contorna o caos, uma forma d√° constru√ß√£o √† subst√Ęncia amorfa - a vis√£o de uma carne em peda√ßos e distribu√≠-los pelos dias e pelas fomes - ent√£o ela n√£o ser√° mais a perdi√ß√£o e a loucura: ser√° de novo a vida humanizada.

¬ Cedo fui obrigada a reconhecer, sem lamentar, os esbarros de minha pouca inteligênciam, e eu desdizia caminho. Sabia que estava fadada a pensar pouco, raciocinar me restringia dentro de minha pele. Como pois inaugurar agora em mim o pensamento? e talvez só o pensamento me salvasse, tenho medo da paixão. ¬

Já que tenho de salvar o dia de amanhã, já que tenho que ter uma forma porque não sinto força de ficar desorganizada, já que fatalmente precisarei enquadrar a monstruosa carne infinita e cortá-la em pedaços assimiláveis pelo tamanho de minha boca e pelo tamanho da visão de meus olhos, já que fatalmente sucumbirei à necessidade de forma que vem de meu pavor de ficar indelimitada - então que pelo menos eu tenha a coragem de deixar que essa forma se forme sozinha como uma crosta que por si mesma amadurece, a nebulosa de fogo que se esfria na terra. E que eu tenha a grande coragem de resistir à tentação de inventar uma forma.

...a mesma mansa loucura que até ontem era o meu modo sadio de caber num sistema. Terei que ter a coragem de usar um coração desprotegido e de ir falando para o nada e para o ninguém? assim como uma criança pensa para o nada. E correr o risco de ser esmagada pelo acaso.

Pela primeira vez eu sinto que me esquecimento está enfim ao nível do mundo.

Para que eu continue humana meu sacrifício será o de esquecer? Agora saberei reconhecer na face comum de algumas pessoas que - que elas esqueceram. E nem sabem mais que esqueceram o que esqueceram.

Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria.

Não estou à altura de imaginar uma pessoa inteira porque não sou uma pessoa inteira.

O horror será a minha responsibilidade até que se complete a metamorfose e que o horror se transforme em claridade.

Mas √© que a verdade nunca me fez sentido. A verdade n√£o me faz sentido! √ą por isso que eu a temia e a temo.

Quem não sabe o que é jamais chegará a saber. Há coisas que não se aprendem.

Minha tend√™ncia a indagar e a significar j√° √© em si uma ang√ļstia.

O verão está instalado no meu coração.

Recuso-me a ser um fato consumado. Por enquanto sobrenado na preguiça.

O óbvio é muito importante: garante certa veracidade.

O pouco que sei não dá para compreender a vida, então a explicação está no que desconheço e que tenho a esperança de poder vir a conhecer um pouco mais.

N√£o compreendo o que vi. E nem mesmo sei se vi, j√° que meus olhos terminaram n√£o se diferenciando da coisa vista. S√≥ por inesperado tremor de linhas, s√≥ por uma anomalia na continuidade ininterrrupta de minha civiliza√ß√£o, √© que por um √†timo experimentei a vivificadora morte. A fina morte que me fez manusear o proibido tecido da vida. √ą proibido dizer o nome da vida. E eu quase disse. Quase n√£o me pude desembara√ßar de seu tecido, o que seria a destrui√ß√£o dentro de mim de minha √©poca.

e nem ao menos quero que me seja explicado aquilo que para ser explicado teria que sair de si mesmo. Não quero que me seja explicado o que de novo precisaria da validação humana para ser interpretado.

Vida e morte foram minhas, e eu fui monstruosa. Minha coragem foi a de um son√Ęmbulo que simplesmente vai. Durante as horas de perdi√ß√£o tive a coragem de n√£o compor nem organizar. E sobretudo a de n√£o prever. At√© ent√£o eu n√£o tivera a coragem de me deixar guiar pelo que n√£o conhe√ßo e em dire√ß√£o ao que eu n√£o conhe√ßo: minhas previs√Ķes condicionavam de antem√£o o que eu veria. N√£o eram as antevis√Ķes da vis√£o: j√° tinham o tamanho de meus cuidados. Minhas previs√Ķes me fechavam o mundo.

At√© que por horas desisti. E, por Deus tive o que eu n√£o gostaria. N√£o foi ao longo de um vale fluvial que andei - eu sempre pensara que encontrar seria f√©rtil e √ļmido como vales fluviais. N√£o contava que fosse esse grande desencontro.

Eu vi. Sei que vi porque n√£o dei ao que vi o meu sentido. Sei que vi - porque n√£o entendo. Sei que vi - porque para nada serve o que vi. Escuta, vou ter que falar porque n√£o sei o que fazer de ter vivido. Pior ainda: n√£o quero o que vi. O que vi arrebenta a minha vida di√°ria. Desculpa eu te dar isto, eu bem queria ter visto coisa melhor. Toma o que vi, livra-me de minha in√ļtil vis√£o, e de meu pecado in√ļtil.

Muitas vezes antes de adormecer - nessa pequena luta por não perder a consciência e entrar no mundo maior - muitas vezes, antes de ter a coragem de ir para a grandeza do sono, finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono. E quando mesmo assim não tenho coragem, então eu sonho.

Não a claridade que nasce de um desejo de beleza e moralismo, como antes mesmo sem saber eu me propunha;mas a claridade natural do que existe, e é essa claridade natural o que me aterroriza. Embora eu sabia que o horror - o horror sou diante das coisas.

Por enquanto estou inventando a tua presen√ßa, como um dia tambem n√£o saberei me arriscar a morrer sozinha, morrer √© do maior risco, n√£o saberei passar para a morte e p√īr o primeiro p√© na primeira aus√™ncia de mim - tamb√©m nessa hora √ļltima e t√£o primeira inventarei a tua presen√ßa desconhecida e contigo come√ßarei a morrer at√© poder aprender sozinha a n√£o existir, e ent√£o eu te libertarei. Por enquanto eu te prendo, e tua vida desconhecida e quente est√° sendo a minha √ļnica √≠ntima organiza√ß√£o, eu que sem a tua m√£o me sentiria agora solta no tamanho enorme que descobri.

Lembrei-me de ti, quando beijara teu rosto de homem, devagar, devagar beijara, e quando chegara o momento de beijar teus olhos - lembrei-me de que ent√£o eu havia sentido o sal na minha boca, e qual o sal de l√°grimas nos teus olhos era o meu amor por ti. Mas, o que mais me havia ligado em susto de amor, fora, no fundo do fundo do sal, tua subst√Ęncia insossa e inocente e infantil: ao meu beijo tua vida mais profundamente ins√≠pida me era dada, e beijar teu rosto era insosso e ocupado trabalho paciente de amor, era mulher tecendo um homem, assim como me havias tecido, neutro artesanato de vida.

Eu venho de uma longa saudade. Eu, a quem elogiam e adoram. Mas ningu√©m quer nada comigo. Meu f√īlego de sete gatos amedronta os que poderiam vir. Com exce√ß√£o de uns poucos, todos t√™m medo de mim como se eu mordesse.

A gradual escurid√£o me amedronta um pouco, bicho que sou e que toma cautela. Escurid√£o? medo e espanto. O dia morrendo em noite √© um grande mist√©rio da Natureza. Em mim ela brota de meu √Ęmago qual semente que rompe a terra.

Viver √© coisa muito s√©ria. √Č sem brincadeira nenhuma. Nestes momentos de agora mesmo estou vivendo t√£o leve que mal pouso na p√°gina, e ningu√©m me pega porque dou um jeito de escorregar. Tive que aprender.

O que se chama de essência está em alguma parte do ser. Ah, o que desconheço me ultrapassa. A verdade ultrapassa-me com tanta paciência e doçura. Ao ultrapassar-se, sai-se de si e se cai no outro. O outro é sempre muito importante.

Nosso inconsciente é infinito.

Sei o que √© absoluto porque existo e sou relativa. Minha ignor√Ęncia √© realmente a minha esperan√ßa: n√£o sei adjetivar. Olhando para o c√©u fico tonta de mim mesma.

Por pura sede de vida melhor estamos sempre à espera do extraordinário que talvez nos salve de uma vida contida.

Deus, o que nos prometei em troca de morrer? Pois o céu e o inferno nós já os conhecemos - cada um de nós em segredo quase de sonho já viveu um pouco do próprio apocalipse. E a própria morte.

Mas eu quero visitas, dizia, elas me distraem da dor terrível.

Parece-me que eu vagamente sentia que, enquanto sofresse fisicamente de um modo t√£o insuport√°vel, isso seria a prova de estar vivendo ao m√°ximo.

Esse primeiro calor ainda fresco traz: tudo. Apenas isso, e indiviso: tudo. E tudo é muito para um coração de repente enfraquecido que só suporta o menos, só pode querer o pouco e aos poucos.

E dizer que nunca, nunca dei isto que estou sentindo a ninguem e a nada. Dei a mim mesma?

Quero tudo pois nada é bom demais para a minha morte que é a minha vida tão eterna que hoje mesmo ela já existe e já é.

Coragem e covardia s√£o um jogo que se joga a cada instante. Assusta a vis√£o talvez irremedi√°vel e que talvez seja a da liberdade.

Tenho me convivido muito ultimamente e descobri com surpresa que sou suportável, às vezes até agradável de ser. Bem. Nem sempre.

Eu também queria escrever, e seriam duas ou três linhas, sobre quando uma dor física passa. De como o corpo agradecido, ainda arfando, vê a que ponto a alma é também corpo.

Aliás, verdadeiramente, escrever não é quase sempre pintar com palavras?

O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna.

Mas o pior √© o s√ļbito cansa√ßo de tudo. Parece uma fartura, parece que j√° se teve tudo e que n√£o se quer mais nada.

A raiva é a minha revolta mais profunda de ser gente? Ser gente me cansa. Há dias que vivo da raiva de viver.

Como é bom o instante de precisar que antecede o instante de se ter.

Morri de muitas mortes e mantê-las-ei em segredo até que a morte do meu corpo venha, e alguém, adivinhando, diga: esta, esta viveu.

E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.

Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

Então quando se está morta se conserva a consciência? Em menos de dois segundos pode-se viver uma vida e uma morte e uma vida de novo. A viver desse modo, prefiro à morte. Sou uma feroz entre os ferozes seres humanos.

Desabrocho em coragem, embora na vida diária continue tímida. Aliás sou tímida em determinados momentos, pois fora destes tenho apenas o recato que também faz parte de mim. Sou uma ousada-emcabulada: depois da grande ousadia é que me encabulo. - Você conhece os seus maiores defeitos? Os maiores não conto porque eu mesma me ofendo. Mas posso falar naqueles que mais prejudicam a minha vida. Por exemplo, a grande fome de tudo, de onde decorre uma impaciência insuportável que também me prejudica.

Olhando a extrema beleza dos pássaros amarelos calculo o que seria se eu perdesse totalmente o medo. O conforto da prisão burguesa tantas vezes me bate no rosto. E, antes de aprender a ser livre, tudo eu aguentava - só para não ser livre.

Minha autocrítica a certas coisas que escrevo, por exemplo, não importa no caso se boas ou más: mas falta a elas chegar àquele ponto em que a dor se mistura à profunda alegria e a alegria chega a ser dolorosa - pois esse ponto é o aguilhão da vida.

Meu receio era de que, por impaci√™ncia com a lentid√£o que tenho em me compreender, eu estivesse apressando antes da hora um sentido.[...]Cada vez acho tudo uma quest√£o de paci√™ncia, de amor criando paci√™ncia, de paci√™ncia criando amor.[...]Esta paci√™ncia eu tive: a de suportar, sem nem ao menos o consolo de uma promessa de realiza√ß√£o, o grande inc√īmodo da desordem. Mas tamb√©m √© verdade que a ordem constrange.

E eu n√£o ag√ľento a resigna√ß√£o. Ah, como devoro com fome e prazer a revolta.

Os calados só dizem o que precisam.

Nada te posso garantir - eu sou a √ļnica prova de mim.

Frases que lhe saíam fáceis e incolores, mas que em mim se cravavam rápidas e agudas, para sempre.

O que me interessa sobretudo é sentir, acumular desejos [...]. A realização me abre, me deixa vazia e saciada.

Somos livres, e este é o inferno.

Levantei-me. O tiro de misericórdia. Porque estou cansada de me defender. Sou inocente. Até ingênua porque me entrego sem garantias.

Por enquanto há diálogo contigo. Depois será monólogo. Depois o silêncio. Sei que haverá uma ordem.

E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração.

Quanto a mim também me distancio de mim.

E tenho, vos asseguro, tudo o mais que faz de mim uma mulher às vezes viva, às vezes objeto.

Refugio-me nas rosas, nas palavras. Pobre consolação. Estou inflacionada. Não valho nada.

Redondo sem início e sem fim, eu sou o ponto antes do zero e do ponto final. Do zero ao infinito vou caminhando sem parar.

Preciso de paciência porque sou vários caminhos, inclusive o fatal beco-sem-saída.

Sou uma árvore que arde com duro prazer. Só uma doçura me possui: a conivência com o mundo.

Mas não sou completa, não. Completa lembra realizada. Realizada é acabada.

O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.

Faz de conta que ela nao estava chorando por dentro, pois agora, mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado.