Nós nascemos assim, nisso: Nos hospitais que são tão caros, que são baratos para morrer; num país onde as cadeias estão cheias e os hospícios estão fechados; num lugar onde as massas elevam idiotas em heróis ricos.

Sobre o Autor

Charles Bukowski

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão, mas que viveu e morreu nos Estados Unidos. Autor de diversas obras, é um dos escritores mais conhecidos nos EUA.

Mais frases de Charles Bukowski

Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora?

Essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura.

Nunca me senti s√≥. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar.¬Ē

Não, eu não odeio as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto.

Defini√ß√£o de bom bairro: lugar onde a gente n√£o tem condi√ß√Ķes econ√īmicas para morar.

Se você vai tentar, vá até o fim caso contrário, nem comece

A vida me fode, n√£o nos damos bem. Tenho que com√™-la pelas beiradas, n√£o tudo de uma vez s√≥. √Č como engolir baldes de merda.

Me sinto bem em n√£o participar de nada. Me alegra n√£o estar apaixonado e n√£o estar de bem com o mundo. Gosto de me sentir estranho a tudo...

Se vai tentar siga em frente. Sen√£o, nem come√ße! Isso pode significar perder namoradas esposas, fam√≠lia, trabalho...e talvez a cabe√ßa. Pode significar ficar sem comer por dias, Pode significar congelar em um parque, Pode significar cadeia, Pode significar ca√ßoadas, desola√ß√£o... A desola√ß√£o √© o presente O resto √© uma prova de sua paci√™ncia, do quanto realmente quis fazer E farei, apesar do menosprezo E ser√° melhor que qualquer coisa que possa imaginar. Se vai tentar, V√° em frente. N√£o h√° outro sentimento como este Ficar√° sozinho com os Deuses E as noites ser√£o quentes Levar√° a vida com um sorriso perfeito √Č a √ļnica coisa que vale a pena.

O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.

há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado duro para ele, e digo, fica aí dentro, não vou deixar ninguém ver-te. há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu despejo whisky para cima dele e inalo fumo de cigarros e as putas e os empregados de bar e os funcionários da mercearia nunca saberão que ele se encontra lá dentro. há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado duro para ele, e digo, fica escondido, queres arruinar-me? queres foder-me o meu trabalho? queres arruinar as minhas vendas de livros na Europa? há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite por vezes quando todos estão a dormir. digo-lhe, eu sei que estás aí, por isso não estejas triste. depois, coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo e dormimos juntos assim com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e tu?

Mulheres: gostava das cores de suas roupas; do jeito delas andarem; da crueldade de certas caras. Vez por outra, via um rosto de beleza quase pura, total e completamente feminina. Elas levavam vantagem sobre a gente: planejavam melhor as coisas, eram mais organizadas. Enquanto os homens viam futebol, tomavam cerveja ou jogavam boliche, elas, as mulheres, pensavam na gente, concentradas, estudiosas, decididas: a nos aceitar, a nos descartar, a nos trocar, a nos matar ou simplesmente a nos abandonar. No fim das contas, pouco importava; seja l√° o que decidissem, a gente acabava mesmo na solid√£o e na loucura.

Às dez horas subi para o pequeno-almoço. Encontrei-me com Pete e Selma. Selma estava esplêndida. O que se pode fazer para arranjar uma Selma? Os cães acabam sempre com cães. Selma serviu-nos o pequenoalmoço. Ela era bela e pertencia a um homem, a um professor da faculdade. Não era muito justo. Os sedutores bem educados. A educação era o novo deus, e os homens educados os novos senhores do mundo.

Sentia-me contente por não estar apaixonado, por não estar contente com o mundo. Gosto de estar em desacordo com tudo. As pessoas apaixonadas tornam-se muitas vezes susceptíveis, perigosas. Perdem o sentido da realidade. Perdem o sentido de humor. Tornam-se nervosas,psicóticas, chatas. Tornam-se, mesmo, assassinas.

Tudo o que era mau atraía-me: gostava de beber, era preguiçoso, não defendia nenhum deus, nenhuma, opinião política, nenhuma ideia, nenhum ideal. Eu estava instalado no vazio, na inexistência, e aceitava isso. Tudo isso fazia de mim uma pessoa desinteressante. Mas eu não queria ser interessante, era muito difícil.

√Č este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia dum copo. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom,bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconte√ßa qualquer coisa.

O amor √© uma esp√©cie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que √© conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando h√° dez mil outras no mundo que voc√™ amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.¬Ē

A dor √© uma coisa estranha. Um gato que mata um p√°ssaro, um acidente de autom√≥vel, um inc√™ndio... A dor chega, BANG, e eis que ela te atinge. √Č real. E aos olhos de qualquer pessoa pareces um est√ļpido. Como se te tornasses, de repente, num idiota. E n√£o h√° cura para isso, a menos que encontres algu√©m que compreenda realmente o que sentes e te saiba ajudar...

E minhas pr√≥prias coisas eram t√£o m√°s e tristes, como o dia em que nasci. A √ļnica diferen√ßa era que agora eu podia beber de vez em quando, apesar de nunca ser o suficiente. A bebida era a √ļnica coisa que n√£o deixava o homem ficar se sentindo atordoado e in√ļtil o tempo todo. Tudo mais te pinicando, te ferindo, despeda√ßando. E nada era interessante, nada. As pessoas eram limitadas e cuidadosas, todas iguais. E eu teria que viver com esses putos pelo resto de minha vida, pensava. Deus, eles todos tinham cus, e √≥rg√£os sexuais e suas bocas e seus sovacos. Eles cagavam e tagarelavam e eram t√£o inertes quanto bosta de cavalo. As garotas pareciam boas √† distancia, o sol provocando transpar√™ncias em seus vestidos, refletido em seus cabelos. Mas chegue perto e escute o que elas tem na cabe√ßa sendo vomitado pelas suas bocas. Voc√™ ficava com vontade de cavar um buraco sobre um morro e ficar escondido com uma metralhadora. Certamente eu nunca seria capaz de ser feliz, de me casar, nunca poderia ter filhos. Mas que diabo, eu nem conseguia um emprego de lavador de pratos. Talvez eu pudesse ser um ladr√£o de bancos. Alguma porra. Alguma coisa flamejante, com fogo. Voc√™ s√≥ tinha direito a uma tentativa. Por que ser um limpador de vidra√ßas?

Por que h√° t√£o poucas pessoas interessantes? Em milh√Ķes, por que n√£o h√° algumas? Devemos continuar a viver com esta esp√©cie ins√≠pida e tediosa? O problema √© que tenho de continuar a me relacionar com eles. Isto √©, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar este computador, se eu quiser dar descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir a minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgra√ßados para as menores necessidades, mesmo que eles me causem horror. E horror √© uma gentileza.

As pessoas que resolviam as coisas em geral tinham muita persistência e um pouco de sorte. Se a gente persistisse o bastante, a sorte em geral chegava. Mas a maioria das pessoas não podia esperar a sorte, por isso desistia.

Esperamos e esperamos. Todos nós. Não saberia o analista que a espera é uma das coisas que faziam as pessoas ficarem loucas? Esperavam para viver, esperavam para morrer. Esperavam para comprar papel higiênico. Esperavam na fila para pegar dinheiro. E, se não tinham dinheiro, precisavam esperar em filas mais longas. A gente tinha de esperar para dormir e esperar para acordar. Tinha de esperar para se casar e para se divorciar. Esperar para comer e esperar para comer de novo. A gente tinha de esperar na sala de espera do analista com um monte de doidos, e começava a pensar se não estava doido também.

Cheguei numa fase da minha vida que vejo que a √ļnica coisa que fiz at√© agora foi fugir, fugir de mim mesmo, do meu nada, e agora n√£o tenho mais para onde ir, nem sei o que vou fazer, fui p√©ssimo em tudo.

Das 5 irm√£s, Cass era a mais mo√ßa e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mesti√ßa de √≠ndia, de corpo flex√≠vel, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: fogar√©u vivo ambulante. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam ao andar. Sempre muito animada ou ent√£o deprimida, com Cass n√£o havia esse neg√≥cio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opini√£o de ap√°ticos. Para os homens, parecia apenas uma m√°quina de fazer sexo e n√£o se importavam se ela era maluca ou n√£o. Passava a vida a dan√ßar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exce√ß√Ķes, na hora ag√° sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na m√£o. in A Cr√īnica do Amor Louco

confiss√£o √† espera da morte como um gato que saltar√° sobre a cama sinto terrivelmente por minha esposa ela ver√° este corpo duro e branco vai sacudi-lo uma vez, depois quem sabe outra: Hank! Hank n√£o responder√°. n√£o √© minha morte o que me preocupa, √© minha mulher abandonada com este monte de nada. quero no entando que ela saiba que todas as noites dormindo ao seu lado que mesmo as discuss√Ķes in√ļteis sempre foram espl√™ndidas e que as palavras dif√≠ceis que sempre temi dizer podem agora ser ditas: eu te amo.

They thought I had guts but they had it all wrong. I was only frightened of more important things.

Advogados, m√©dicos, bombeiros mec√Ęnicos, eles √© que ficavam com a grana toda. Escritores? Os escritores morriam de fome. Os escritores se suicidavam. Os escritores enloqueciam.

Literatura é que nem mulher: quando não presta, nem vale a pena perder tempo.

Gostava mais quando conseguia imaginar grandeza nos outros, mesmo que nem sempre houvesse.

Acompanho ele com os olhos. Desce a escada. Um pouco gordo. Mas nele n√£o compromete. Poder. Excesso de poder. Est√° radiante e b√™bado. Vai dar um rabino do rabo. Gosto muito dele. De repente some, desaparece de vista e eu sento pra escrever isto. Cinza de cigarro espalhada pela m√°quina toda. S√≥ pra voc√™ saber como √© que √© e o que vem depois. Do lado da m√°quina tem dois sapatinhos brancos de boneca, cada um com pouco mais de um cent√≠metro. Minha filha, Marina, deixou aqui. Anda l√° pelo Arizona, n√£o sei bem onde, a estas horas, com a m√£e revolucion√°ria. √Č julho de 1968 e bato √† m√°quina, enquanto espero que a porta seja arrombada por dois sujeitos de cara esverdeada com olhos da cor de gelatina mofada, a m√£o fria em cima das metralhadoras. Tomara que n√£o venham. Foi uma noite bonita. E s√≥ algumas perdizes solit√°rias ser√£o capazes de se lembrar do barulho dos dados rolando no ch√£o e da maneira das paredes sorrirem. At√© amanh√£.

Andava com mania de suic√≠dio e com crises de depress√£o aguda; n√£o suportava ajuntamentos perto de mim e, acima de tudo, n√£o tolerava entrar em fila comprida pra esperar seja l√° o que fosse. E √© nisso que toda a sociedade est√° se transformando: em longas filas √† espera de alguma coisa. Tentei me matar com g√°s e n√£o consegui. Mas tinha outro problema. Levantar da cama. Sempre tive √≥dio disso. Vivia afirmando: as duas maiores inven√ß√Ķes da humanidade foram a cama e a bomba at√īmica; n√£o saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo. Acharam que estava louco. Brincadeira de crian√ßa, √© s√≥ disso que essa gente entende: brincadeira de crian√ßa - passam da placenta pro t√ļmulo sem nem se abalar com este horror que √© a vida. Sim, eu odiava ter que me levantar da cama de manh√£. Significava que a vida ia recome√ßar e depois que se passa a noite inteira dormindo cria-se uma esp√©cie de intimidade especial que fica muito mais dific√≠l de abrir m√£o. Sempre fui solit√°rio. Voc√™ vai me desculpar, creio que n√£o regulo bem da cabe√ßa, mas a verdade √© que, se n√£o fosse por uma que outra trepadinha legal, n√£o me faria a m√≠nima diferen√ßa se todas as pessoas do mundo morressem. √Č, eu sei que isso n√£o √© uma atitude simp√°tica. Mas ficaria todo refestelado aqui dentro do meu caracol. Afinal de contas, foram essas pessoas que me tornaram infeliz.

Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante, dava muito trabalho. Eu queria mesmo um espaço sossegado, e obscuro pra viver a minha solidão; por outro lado, de porre, eu abria o berreiro, pirava, queria tudo, e não conseguia nada.

Que sentimentalismo barato. Mas o rosto dela, de Tina, parecia mais de 10 mil filmes de felicidade. Nunca havia visto coisa igual. Teve que se munir de uma coura√ßa de ferro e apertar o est√īmago, os pulm√Ķes e os olhos pra n√£o chorar.

..sabia que tinha alguma coisa fora do lugar em mim. Eu era uma soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus, idéias, ideais, nem me preocupava com política. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não-ser. E aceitava isso

A Love Poem todas as mulheres todos os beijos as diferentes formas que amam e falam e carecem. suas orelhas todas elas t√™m orelhas e gargantas e vestidos e sapatos e autom√≥veis e ex- maridos. na maioria das vezes as mulheres s√£o muito quentes elas me lembram torrada com a manteiga derretida nela. est√° estampado no olhar: elas foram tomadas elas foram enganadas. eu nunca sei o que fazer por elas. sou um bom cozinheiro um bom ouvinte mas nunca aprendi a dan√ßar ¬ó eu estava ocupado com coisas maiores. mas eu apreciei suas variadas camas fumando cigarros olhando para o teto. n√£o fui nocivo nem desleal. apenas um aprendiz. eu sei que todas t√™m p√©s e descal√ßas elas andam pelo piso enquanto eu olho suas modestas bundas no escuro. sei que gostam de mim, algumas at√© me amam mas eu amo muito poucas. algumas me d√£o laranjas e vitaminas; outras falam mansamente da inf√Ęncia e pais e paisagens; algumas s√£o quase loucas mas nenhuma delas deixa de fazer sentido; algumas amam bem, outras nem tanto; as melhores no sexo nem sempre s√£o as melhores em outras coisas; cada uma tem seus limites como eu tenho limites e n√≥s aprendemos cada qual rapidamente. todas as mulheres todas as mulheres todos os quartos os tapetes as fotos as cortinas, √© algo como uma igreja raramente se ouve uma risada. essas orelhas esses bra√ßos esses cotovelos esses olhos olhando, o afeto e a car√™ncia eu tenho ag√ľentado eu tenho ag√ľentado.

Somos finos como papel. Existimos por acaso entre as porcentagens, temporariamente. E esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. E não há nada que se possa fazer sobre isso. Você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. Você pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. Talvez pensemos demais. Sinta mais, pense menos.

Ca√≠ em meu pat√©tico per√≠odo de desligamento. Muitas vezes, diante de seres humanos bons e maus igualmente, meus sentidos simplesmente se desligam, se cansam, eu desisto. Sou educado. Balan√ßo a cabe√ßa. Finjo entender, porque n√£o quero magoar ningu√©m. Este √© o √ļnico ponto fraco que tem me levado √† maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma esp√©cie de pasta espiritual. Deixa pra l√°. Meu c√©rebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles s√£o broncos demais para perceber que n√£o estou mais ali.

Freq√ľentemente, os melhores momentos na vida s√£o quando a gente n√£o est√° fazendo nada, s√≥ ruminando. Quer dizer, a gente pensa que todo mundo √© sem sentido, a√≠ v√™ que n√£o pode ser t√£o sem sentido assim se a gente percebe que √© sem sentido, e essa consci√™ncia da falta de sentido j√° √© quase um pouco de sentido. Sabe como √©? Um otimismo pessimista.

Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim. H√° o mundo continuando a fazer o que faz. E eu n√£o estou l√°. Muito estranho. Penso no caminh√£o do lixo passando e levando o lixo e eu n√£o estou l√°. Ou o jornal jogado no jardim e eu n√£o estou l√° para peg√°-lo. Imposs√≠vel. E pior, algum tempo depois de estar morto, vou ser verdadeiramente descoberto. E todos aqueles que tinham medo de mim ou me odiavam v√£o subitamente me aceitar. Minhas palavras v√£o estar em todos os lugares. V√£o se formar clubes e sociedades. Ser√° nojento. Ser√° feito um filme sobre a minha vida. Me far√£o muito mais corajoso e talentoso do que sou. Muito mais. Ser√° suficiente para fazer os deuses vomitarem. A ra√ßa humana exagera em tudo: seus her√≥is, seus inimigos, sua import√Ęncia.

Beber √© algo emocional. Faz com que voc√™ saia da rotina do dia-a-dia, impede que tudo seja igual. Arranca voc√™ pra fora do seu corpo e de sua mente e joga contra a parede. Eu tenho a impress√£o de que beber √© uma forma de suic√≠dio onde voc√™ √© permitido voltar √† vida e come√ßar tudo de novo no dia seguinte. √Č como se matar e renascer. Acho que eu j√° vivi cerca de dez ou quinze mil vidas.

H√° bastante deslealdade, √≥dio, viol√™ncia, absurdo no ser humano comum para suprir qualquer ex√©rcito em qualquer dia. E o melhor no assassinato s√£o aqueles que pregam contra ele. E o melhor no √≥dio s√£o aqueles que pregam amor, e o melhor na guerra, s√£o aqueles que pregam a paz. Aqueles que pregam Deus precisam de Deus, aqueles que pregam paz n√£o t√™m paz, aqueles que pregam amor n√£o t√™m amor. Cuidado com os pregadores, cuidado com os sabedores. Cuidado com aqueles que est√£o sempre lendo livros. Cuidado com aqueles que detestam pobreza ou que s√£o orgulhosos dela. Cuidado com aqueles que elogiam f√°cil, porque eles precisam de elogios de volta. Cuidado com aqueles que censuram f√°cil, eles t√™m medo daquilo que n√£o conhecem. Cuidado com aqueles que procuram constantes multid√Ķes, eles n√£o s√£o nada sozinhos. Cuidado com o homem comum, com a mulher comum, cuidado com o amor deles. O amor deles √© comum, procura o comum, mas h√° genialidade em seu √≥dio, h√° bastante genialidade em seu √≥dio para matar voc√™, para matar qualquer um. Sem esperar solid√£o, sem entender solid√£o eles tentar√£o destruir qualquer coisa que seja diferente deles mesmos.

Eu era um solit√°rio por natureza, que se contentava em viver com uma mulher, em comer com ela, dormir com ela e sair √† rua com ela. N√£o queria conversas, nem passear, a n√£o ser para ir √†s corridas de cavalos ou √†s lutas de boxe. N√£o gostava de TV, e achava est√ļpido gastar dinheiro para ir numa sala de cinema com outras pessoas e partilhar as suas emo√ß√Ķes. As festas me deixavam doente. Detestava as falsas apar√™ncias, os jogos sujos, os namoricos, os b√™bados amadores e os chatos. [...] Como solit√°rio, eu n√£o suportava invas√Ķes. Isto n√£o tinha nada a ver com ci√ļmes, simplesmente n√£o gostava de pessoas, multid√Ķes, onde quer que fosse, exceto nas minhas leituras. As pessoas diminu√≠am-me e deixavam-me sem ar. [...] Eu n√£o gostava de Nova Iorque, n√£o gostava de Hollywood, n√£o gostava de Rock, n√£o gostava de nada. Talvez tivesse medo... os maiores homens s√£o os mais solit√°rios.

H√° alguma coisa em mim que n√£o consigo controlar. Nunca dirijo meu carro por cima de uma ponte sem pensar em suic√≠dio. Quero dizer, n√£o fico pensando nisso. Mas passa pela minha cabe√ßa: SUIC√ćDIO. Como uma luz que pisca. No escuro. Alguma coisa que faz voc√™ continuar. Saca? De outra forma, seria apenas loucura. E n√£o √© engra√ßado, colega. E cada vez que escrevo um bom poema, √© mais uma muleta que me fazer seguir em frente. N√£o sei quanto √†s outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manh√£, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora? A vida me fode, n√£o nos damos bem. Tenho que com√™-la pelas beiradas, n√£o tudo de uma vez s√≥. √Č como engolir baldes de merda. N√£o me supreende que os hosp√≠cios e as cadeias estejam cheios e que as ruas estejam cheias. Gosto de olhar os meus gatos. Eles me alcamam. Eles me fazem sentir bem. Mas n√£o me coloque em uma sala cheia de humanos. Nunca fa√ßa isso comigo. Especialmente numa festa. N√£o fa√ßa isso.

Eu n√£o aguento isto, voc√™ n√£o aguenta isto e n√≥s n√£o vamos compreender isto ent√£o n√£o aposte nisto ou nem mesmo pense nisto simplesmente levante-se da cama a cada manh√£ lave-se barbeie-se vista-se saia de casa e aceite isto porque fora isso tudo o que resta √© suic√≠dio e loucura ent√£o voc√™ simplesmente n√£o pode ter muitas expectativas voc√™ n√£o pode nem ter expectativas ent√£o o que voc√™ faz √© trabalhar a partir de uma modesta remunera√ß√£o m√≠nima como quando voc√™ sai fique contente que seu carro possivelmente esteja l√° e se est√° ... fique contente pelos pneus n√£o estarem furados ent√£o voc√™ entra e se ele d√° a partida ... voc√™ d√° a partida. e este √© o filme mais desgra√ßado que voc√™ j√° viu porque voc√™ est√° nele... cach√™ baixo e 4 bilh√Ķes de cr√≠ticos e o per√≠odo mais longo de exibi√ß√£o que voc√™ j√° desejou √© um dia.

A tua vida √© a tua vida N√£o a deixes ser dividida em submiss√£o fria. Est√° atento H√° outros caminhos, H√° uma luz algures. Pode n√£o ser muita luz mas vence a escurid√£o. Est√° atento. Os deuses oferecer-te-√£o hip√≥teses. Conhece-las. Agarra-las. N√£o podes vencer a morte mas podes vencer a morte em vida, √†s vezes. E quanto mais o aprendes a faz√™-lo, mais luz haver√°. A tua vida √© a tua vida. Memoriza-o enquanto a tens. √Čs magn√≠fico. Os deuses esperam por se deliciarem em ti.

Como qualquer um pode lhe dizer, n√£o sou um homem muito bom. N√£o sei que palavra usar para me definir. Sempre admirei o vil√£o, o fora-da-lei, o filho-da-puta. N√£o gosto dos garotos bem barbeados com gravatas e bons empregos. Gosto dos homens desesperados, homens com dentes rotos e mentes arruinadas e caminhos perdidos. S√£o os que me interessam. Sempre cheios de supresas e explos√Ķes. Tamb√©m gosto de mulheres vis, cadelas b√™badas que n√£o param de reclamar, que usam meias-cal√ßas grandes demais e maquiagens borradas. Estou mais interessado em pervertidos do que em santos. Posso relaxar com os imprest√°veis, porque sou um imprest√°vel. N√£o gosto de leis, morais, religi√Ķes, regras. N√£o gosto de ser moldado pela sociedade.

Acho que estou acostumado a me sentar num quartinho e fazer com que as palavras tenham algum sentido. J√° vejo o suficiente da humanidade nos hip√≥dromos, nos supermercados, nos postos de gasolina, nas estradas, nos caf√©s etc. N√£o se pode evitar. Mas tenho vontade de me dar um chute na bunda quando vou a festas, mesmo que a bebida seja de gra√ßa. Nunca funciona comigo. J√° tenho argila suficiente para brincar. As pessoas me esvaziam. Preciso sair para me reabastecer. Sou o que √© melhor para mim, sentado aqui atirado, fumando um baseadinho e vendo as palavras brilharem na tela. Raramente encontro uma pessoa rara ou interessante. √Č mais que pertubador, √© um choque constante. Est√° me tornando um maldito mal-humorado. Qualquer um pode ser um maldito mal-humorado, e a maioria √©.

N√£o h√° nada a lamentar sobre a morte, assim como n√£o h√° nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que √© terr√≠vel n√£o √© a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou n√£o levam at√© a sua morte. N√£o reverenciam suas pr√≥prias vidas, mijam em suas vidas. As pessoas as cagam. Idiotas fodidos. Concentram-se demais em foder, cinema, dinheiro, fam√≠lia, foder. Suas mentes est√£o cheias de algod√£o. Engolem Deus sem pensar, engolem o pa√≠s sem pensar. Esquecem logo como pensar, deixam que os outros pensem por elas. Seus c√©rebros est√£o entupidos de algod√£o. S√£o feios, falam feio, caminham feio. Toque para elas a maior m√ļsica de todos os tempos e elas n√£o conseguem ouv√≠-la. A maioria das mortes das pessoas √© uma empulha√ß√£o. N√£o sobra nada para morrer.

Nunca pedi para ser do jeito que sou Nunca quis que minha vida fosse assim mas suponho que n√£o h√° motivo para se queixar Para quem √© que eu vou me queixar? Eu quero uma forma vazada que guie as lam√ļrias do mundo quero um peru grande e gordo todos os dias do ano e n√£o somente no dia de A√ß√£o de Gra√ßas quero paz, a paz desses vampiros esquisitos que n√£o querem me deixar sozinho eu quero a morte tanto quanto quero a vida A √ļnica diferen√ßa entre elas √© que a morte √© muito f√°cil e eu sempre tenho uma para que n√£o haja discord√Ęncia quero me levantar, algum dia, antes do meio-dia quero bater punheta at√© me entediar quero ver o deserto, em seguran√ßa, de dentro do meu carro com ar condicionado. Eu vou querer uma outra dose!

Tenho problemas com o rosto humano. Acho muito dif√≠cil olhar para ele. Encontro a soma total da vida de cada pessoa escrita nele e √© uma vis√£o terr√≠vel. Quando se v√™m milhares de rostos em um s√≥ dia, √© cansativo dos p√©s √† cabe√ßa. E por todas as entranhas. √Č por isso que admiro os bilheteiros do hip√≥dromo. E a maioria √© bem legal. Acho que os anos que passaram lidando com a humanidade lhes deram uma certa vis√£o. Por exemplo, sabem que a maior parte da ra√ßa humana √© uma grande merda. Eu poderia ficar em casa. Poderia trancar a porta e brincar com tintas ou qualquer coisa assim. Mas, de alguma forma, tenho que sair, e ter a certeza que toda a humanidade √© uma grande merda. Como se fosse mudar...

Esse é o problema com a bebida, pensava, enquanto enchia o corpo. Se acontece uma coisa boa, você bebe pra comemorar; se não acontece nada, você bebe pra que aconteça alguma coisa.

Estávamos todos juntos nisso. Todos juntos num grande vaso cheio de merda. Não havia escapatória. Todos desceríamos juntos com a descarga.

Existem coisas piores que estar sozinho mas geralmente leva decadas para entender isso e quase sempre quando você entende é tarde demais. E não há nada pior que tarde demais.

Mas as encrencas e a dor √© que mant√™m a gente vivo. Um trabalho de tempo integral. E √°s vezes nem dormindo d√° para descansar. No meu √ļltimo sono, eu me via embaixo de um elefante, n√£o podia me mexer e ele soltava um dos maiores cagalh√Ķes que eu j√° vira, j√° ia cair, e a√≠ meu gato, Hamburger, passou por cima da minha cabe√ßa e eu acordei. Se a gente contar esse sonho a um psiquiatra, ele vai tirar uma conclus√£o horr√≠vel. Pois se a gente lhe paga os tubos, ele vai dar um jeito para que a gente se sinta mal. Vai dizer √° gente que o cagalh√£o √© um p√™nis, e que a gente est√° assustado ou que deseja aquilo, alguma merda deste tipo. O que ele quer dizer √© que ele est√° assustado, ou que ele deseja o p√™nis. √Č s√≥ um sonho sobre um grande cagalh√£o de elefante, nada mais. √Ās vezes as coisas s√£o apenas o que parecem ser, sem nada demais. O melhor int√©rprete de um sonho √© o pr√≥prio sonhador. Guarde o seu dinheiro no bolso. Ou aposte num bom cavalo.

Esperamos e esperamos. Todos nós. Não saberia o analista que a espera é uma das coisas que faziam as pessoas ficar loucas? Esperavam para viver, esperavam para morrer. Esperavam para comprar papel higiênico. Esperavam na fila para pegar dinheiro. E se não tinham dinheiro, precisavam esperar em filas mais longas. A gente tinha de esperar para dormir, e esperar para acordar. Tinha de esperar para se casar, e para se divorciar. Esperar pela chuva e esperar pelo sol. Esperar para comer e esperar para comer de novo. A gente tinha de esperar na sala de espera do analista com um monte de doidos, e começava a pensar se não estava ficando doido também.

Essas coisas, você sabe. Parece que não consigo entrar em nada. Tudo travado. Todas as cartas tomadas. Eu não me ligo em política nem religião, nem seja lá o que for. Realmente não sei o que está acontecendo por aí. Não tenho TV, não leio jornais, nada disso. Não sei quem está certo ou errado, se é que isso existe.

Me sentia insatisfeito e, francamente, meio com medo de tudo. Não estava indo a lugar nenhum, nem o resto do mundo. Estávamos todos rolando por aí, á espera da morte, e enquanto isso fazendo coisinhas para encher o tempo. Alguns nem faziam coisinhas. Eram vegetais. Eu era um deles. Não sei que tipo de vegetal. Me sentia um nabo. Acendi um charuto, traguei, e fiquei fingindo saber que diabos acontecia.

Gosto da forma com que os fil√≥sofos destroem conceitos e as teorias que os precederam. Isso tem acontecido h√° s√©culos. N√£o, n√£o √© assim, dizem. √Č desse jeito. Isto continua sem parar e parece l√≥gica, esta continuidade. O principal problema √© que os fil√≥sofos devem humanizar sua linguagem, torn√°-la mais acess√≠vel, ent√£o os pensamentos se iluminam mais, ficam mais interessantes. Acho que est√£o aprendendo a fazer isso. A simplicidade √© essencial.

O mundo inteiro é um saco de merdas se rasgando. Não posso salvá-lo. Sei que nos movemos em direção à miragem, nossas vidas são desperdiçadas, como as de todo mundo. Eu sei que nove décimos de mim já morreram, mas eu guardo o décimo restante como uma arma.

Revolu√ß√£o soa muito rom√Ęntico, voc√™s sabem, mas n√£o √©. √Č sangue, culh√£o e loucura; √© menininhos mortos que ficam no caminho, menininhos que n√£o entendem porra nenhuma do que est√° acontecendo. √Č a sua puta, a sua mulher rasgada na barriga por uma baioneta e depois estuprada no c√ļ enquanto voc√™ olha. √Č homens torturando homens que costumavam rir com as historinhas do Mickey Mouse . Antes de voc√™ entrar nesta coisa, decida onde est√° seu esp√≠rito e onde ele estar√° quando a coisa tiver terminado. Eu n√£o acredito que nenhum homem tem o direito de tirar a vida de outro homem. Mas talvez mere√ßa um pouco de reflex√£o antes. √Č claro, a porra √© que eles t√™m tirado as nossas vidas sem disparar um tiro.

Gosto de olhar os meus gatos, eles me acalmam. Eles me fazem sentir bem. Você sabia que os gatos dormem 20 das 24 horas do dia? Não se admira que tenham melhor aparência do que eu. Na minha próxima vida, quero ser um gato. Dormir 20 horas por dia e esperar ser alimentado. Sentar por aí lambendo meu cu. Os humanos são desgraçados demais, irados demais, obcecados demais.

Um dia, dir√£o: Bukowski est√° morto, e da√≠ serei verdadeiramente descoberto e pendurado em fedorentos e brilhantes postes de luz. E da√≠? A imortalidade √© uma est√ļpida inven√ß√£o dos vivos. N√£o estou competindo com ningu√©m, n√£o tenho ilus√Ķes com a imortalidade, n√£o estou nem a√≠ pra ela. √Č a a√ß√£o enquanto voc√™ est√° vivo. Os partidores se abrindo na luz do sol, os cavalos mergulhando na luz, todos os j√≥queis, bravos e pequenos diabos em sua seda brilhante, indo fundo, fazendo acontecer. A gl√≥ria √© o movimento e a aud√°cia. Que a morte se foda. √Č hoje o que importa. √Č hoje e hoje. Sim.

Eu podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria alguma lugar para me esconder. Um lugar onde ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava como me deixava enojado. Pensar em ser um advogado, um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisa simples, participar de piqueniques em famílias, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalhador, Dia das Mães...afinal, é pra isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, voltar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.

Eu n√£o tinha interesses. Eu n√£o tinha interesse por nada. N√£o fazia a min√≠ma id√©ia de como iria escapar. Os outros, ao menos, tinham algum gosto pela vida. Pareciam entender algo que me era inacess√≠vel. Talvez eu fosse retardado. Era poss√≠vel. Freq√ľentemente me sentia inferior. Queria apenas encontrar um jeito de me afastar de todo mundo. Mas n√£o havia lugar para ir. Suic√≠dio? Jesus Cristo, apenas mais trabalho. Sentia que o ideal era poder dormir por uns cinco anos, mas isso eles n√£o permitiriam.

√Čramos como √©ramos, e n√£o quer√≠amos ser nada al√©m disso. Todos v√≠nhamos de fam√≠lias v√≠timas da depress√£o e a maioria entre n√≥s era mal alimentada, embora tiv√©ssemos crescido a ponto de nos tornar grandes e fortes. Em grande parte, creio eu, receb√≠amos pouco amor de nossas fam√≠lias e n√£o ped√≠amos amor ou gentileza a quem quer que fosse. √Čramos uma piada, mas as pessoas tomavam cuidado para n√£o rir na nossa cara. Era como se tiv√©ssemos crescido r√°pido demais e estiv√©ssemos de saco cheio de ser crian√ßas. N√£o t√≠nhamos qualquer respeito pelos mais velhos. √Čramos como tigres com sarna.

A verdade √© que somos umas monstruosidades. Se pud√©ssemos nos ver de verdade, saber√≠amos como somos rid√≠culos com nossos intestinos retorcidos pelos quais deslizam lentamente as fezes... enquanto nos olhamos nos olhos e dizemos: Te amo. Fazemos e produzimos uma por√ß√£o de porcarias, mas n√£o peidamos perto de uma pessoa. Tudo tem um fio c√īmico.

N√£o suportava ajuntamentos perto de mim, e, acima de tudo, n√£o tolerava entrar em fila comprida para esperar seja l√° o que fosse. E √© nisto que toda a sociedade est√° se transformando: em longas filas √† espera de alguma coisa. Tentei me matar com g√°s e n√£o consegui. Mas tinha outro problema. Levantar da cama. Sempre tive √≥dio disso. Vivia afirmando: ¬ďas duas maiores inven√ß√Ķes da humanidade foram a cama e a bomba at√īmica. N√£o saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo. Acharam que estava louco. Brincadeira de crian√ßa, √© s√≥ disso que essa gente entende: brincadeira de crian√ßa ¬Ė passam da placenta pro t√ļmulo sem nem se abalar com esse horror que √© a vida.

Sempre nos pedem para compreender o ponto de vista do pr√≥ximo n√£o importa qu√£o antiquado tolo ou obn√≥xio. Pedem para enxergar com bondade todos os seus erros, suas vidas desperdi√ßadas, principalmente se eles s√£o velhos. Mas envelhecer √© tudo que n√≥s fazemos. Eles envelheceram mal porque viveram fora de foco, eles se recusaram a entender. N√£o √© culpa deles? √Č culpa de quem? Minha? Me pedem para esconder deles meu ponto de vista por medo de seus medos. envelhecer n√£o √© crime mas a vergonha de uma vida deliberadamente desperdi√ßada entre tantas vidas deliberadamente desperdi√ßadas √©.

A carne cobre os ossos e colocam uma mente ali dentro e algumas vezes uma alma. E as mulheres quebram vasos contra as paredes e os homens bebem demais e ninguém encontra o par ideal mas seguem na procura rastejando para dentro e para fora dos leitos. A carne cobre os ossos e a carne busca muito mais do que mera carne. De fato, não há qualquer chance: estamos todos presos a um destino singular. Ninguém nunca encontra o par ideal. As lixeiras da cidade se completam, os ferros-velhos se completam, os hospícios se completam, as sepulturas se completam, nada mais se completa.

Sentia-me frustrado, tudo me derrotava. Eu come√ßava a ficar deprimido. Minha vida n√£o estava indo para lugar algum. Precisava de alguma coisa, o brilho das luzes, glamour, alguma porra. Me sentia esquisito. Como se nada tivesse import√Ęncia. O jogo me cansava. Eu perdera a garra. A exist√™ncia n√£o era apenas absurda, era simplesmente trabalho pesado. Pense em quantas vezes a gente veste as roupas de baixo em toda a vida. Era surpreendente, era repugnante, era est√ļpido.

Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de pique-niques em família, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães..., afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.

A gan√Ęncia humana n√£o d√° tr√©guas e desconhece limites. A sociedade americana considera o dinheiro um assunto muito mais s√©rio que a pr√≥pria morte, o que torna dific√≠limo conseguir alguma coisa a troco de nada. N√£o se ganha nada de gra√ßa neste mundo. Os comunistas que se danem. Na Am√©rica quando surge algo bom, os ricos metem a m√£o e tiram de circula√ß√£o at√© estragar ou mudar e s√≥ ent√£o deixam a gente tira uma casquinha. Mas aqui estou eu, malhando e pichando a Am√©rica por ter corrido comigo. Um lugar onde sempre procuraram acabar com meu couro, cavar minha sepultura.

O enterro de meu pai. Lembro que atravessamos a rua e entramos na casa mortuária. Alguém dizia que meu pai tinha sido um bom homem. Me deu vontade de contar a eles o outro lado. Que ele era um homem ignorante. Cruel. Patriótico. Com fome de dinheiro. Mentiroso. Covarde. Um impostor. Minha mãe só estava há um mês debaixo do chão e ele já estava chupando os peitos e dividindo o papel higiênico com outra mulher. Depois alguém cantou. Nós desfilamos diante do caixão. Talvez eu cuspa nele, pensei.

A história da melancolia inclui todos nós. Eu escrevo em lençóis sujos enquanto olho para paredes azuis e nada. Eu já me acostumei tanto com a melancolia que eu a recebo como uma velha amiga. E agora eu terei 15 minutos de aflição pela ruiva perdida, eu digo aos deuses. Eu faço isso e me sinto bastante mal bastante tristeentão eu levanto LIMPO apesar de que nada está resolvido. Isso é o que eu ganho por chutar a religião na bunda. eu deveria ter chutado a ruiva na bunda onde o cérebro e o pão e a manteiga dela estão... mas, não, eu me senti triste por tudo. A ruiva perdida foi apenas outro rompimento em uma vida de perdas... Eu ouço a bateria no rádio agora e sorrio. Há alguma coisa errada comigo além da melancolia...

Algumas pessoas falam que eu tenho problemas com bebidas. Meu √ļnico problema √© estar s√≥brio. Eu me considero um b√™bado socialista mais do que um bebedor social. √Äs vezes, a √ļnica felicidade √© a bebedeira √†s vezes, nada mais importa. Eu continuo me perguntando porque me preocupo quando ningu√©m mais se importa.

Quando era jovem, eu vivia deprimido. Mas, agora, o suic√≠dio n√£o era mais uma sa√≠da pra mim. √Č o que parecia. Na minha idade, j√° n√£o sobrava muito que matar.

√Č, eu sou o her√≥i, o mito. Sou o n√£o mimado, o que n√£o se vendeu. Minhas cartas s√£o vendidas por 250 d√≥lares l√° no leste. E eu n√£o consigo comprar um saco de peidos.

A diferença entre a Arte e a Vida é que a Arte é mais suportável.

- Querida, vamos trepar? - Não quero. - De certa forma, eu também não queria. Aliás, foi por isso que perguntei.

Bem, todos morrem um dia, é simples matemática. Nada de novo. A espera é que é um problema.

Um intelectual é um homem que diz uma coisa simples de uma maneira difícil; um artista é um homem que diz uma coisa difícil de uma maneira simples.

De algum modo, sentia que estava ficando meio maluco. Mas sempre me sentia assim. De qualquer forma, a insanidade é relativa. Quem estabelece a norma?

Se o homem pode fazer apenas uma pessoa feliz durante toda uma vida, ent√£o sua vida foi justificada.

SOU UM ALCOLATRA QUE VIROU ESCRITOR, PRA PODER FICAR NA CAMA AT√Č O MEIO-DIA.

Estranho: Volta e meia deixar de foder é melhor que foder. Apesar de que posso estar enganado. Em geral dizem que estou.

E logo vai amanhecer. Os trabalhadores vão se levantar e vão procurar por mim no estaleiro, e dirão: ele tá bêbado de novo.

Vai ser o inferno, mas sou dur√£o, e existe maneira melhor de se sacrificar do que pela felicidade de outra pessoa?

O indivíduo bem equilibrado é insano.

Nunca fui elegante. Minhas camisas eram todas desbotadas, encolhidas, surradas, e já tinham cinco ou seis anos. Minhas calças, a mesma coisa. Detestava as grandes lojas, detestava os vendedores, eles se faziam de superiores, pareciam conhecer o sentido da vida, tinham uma segurança que me faltava. Meus sapatos eram sempre velhos e estropiados, e eu detestava lojas de sapatos também. Nunca comprava nada de novo, a menos que as minhas coisas já estivessem completamente inutilizadas - automóveis inclusive. Não era questão de economia; é que eu não era tolerava ser um comprador na dependência dos vendedores, aqueles caras tão altivos e superiores. Além disso, eu perdia tempo, um tempo em que eu podia muito bem estar de papo pro ar, bebendo.

Fiquei pensando como eram dif√≠ceis as separa√ß√Ķes. Mas, era s√≥ mesmo rompendo com uma mulher que se podia encontrar outra. Eu precisava degustar as mulheres pra conhec√™-las bem, pra entrar no √Ęmago delas. Homem nenhum precisava de mulher pra se sentir real de verdade, mas era bem legal conhecer algumas. Da√≠, quando o caso ia mal, o sujeito conhecia pra valer o que era a solid√£o e a loucura, e assim ficava sabendo o que o esperava quando seu pr√≥prio fim chegasse...

Afinal de contas, eu tinha feito tudo que me havia proposto na vida. Dera os passos certos. Não dormia na rua. Claro, havia um bocado de gente boa dormindo nas ruas. Não eram idiotas, apenas não se encaixavam na maquinaria necessária no momento. E essas necessidades viviam mudando. Era uma luta desigual, e se a gente dormia na própria cama já era uma vitória contra as forças. Eu tivera sorte, mas alguns dos passos que dera não os dera inteiramente sem pensar. Em geral, porém, era um mundo horrível, e eu muitas vezes me sentia triste pelos outros. Bem, ao diabo com isso. Peguei a vodca e tomei um trago.

N√£o me preocupo com a morte ou n√£o tenho pena de morrer. Parece uma tarefa desgra√ßada. Quando? Na pr√≥xima quarta-feira √° noite? Ou quando estiver dormindo? Ou por causa da pr√≥xima terr√≠vel ressaca? Acidente de tr√Ęnsito? √Č uma carga, uma coisa que deve ser feita. E vou morrer sem acreditar em Deus. Isso vai ser bom, posso enfrent√°-la de cabe√ßa em p√©. √Č uma coisa que voc√™ tem que fazer, como cal√ßar os sapatos de manh√£.

Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado duro para ele, e digo, fica aí dentro, não vou deixar ninguém ver-te. Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite por vezes quando todos estão a dormir. digo-lhe, eu sei que estás aí, por isso não estejas triste. Depois, coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo e dormimos juntos assim com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e tu?

Voc√™ tem mais √© que comer muita mulher, mulheres bonitas. E escrever uns poemas de amor decentes. N√£o se preocupe com a idade ou...com os novos talentos, apenas beba mais cerveja. Mais e mais cerveja. Veja o futebol uma vez por semana, escolhe o time que ganha, se poss√≠vel. Aprender a ganhar √© foda, qualquer porc√£o pode ser um bom perdedor. E n√£o se esque√ßa de Brahms, de Bach e do teu trago. N√£o fa√ßa muito exerc√≠cio, durma at√© o meio-dia. Evite cart√Ķes de cr√©dito ou pagar qualquer coisa no dia. Lembre-se: n√£o existe um cu nesse mundo que vale mais do que cem pila. E se voc√™ tiver a capacidade de amar, ame primeiro a si mesmo. Mas sempre tenha na cabe√ßa a possibilidade de derrota total, mesmo que a raz√£o dessa derrota seja certa ou errada. Um gostinho de morte cedo n√£o √© necessariamente uma coisa ruim. Fique longe de bares, igrejas, museus. Fa√ßa como a aranha: seja paciente. O tempo √© a cruz de todo mundo mais derrota, trai√ß√£o, solid√£o. Toda essa sujeira, fique com a cerveja. Cerveja √© sangue cont√≠nuo, um amor cont√≠nuo. Pegue uma boa caneta e um papel, enquanto o mundo acontece, fora da tua janela, risca nele, risca nele com for√ßa. Como se fosse uma luta de pesos pesados, fa√ßa como o touro no seu primeiro ataque. E lembre-se dos velh√Ķes que lutaram t√£o bem. Hemingway, Dostoievski...se voc√™ acha que eles n√£o enlouqueceram em quartos min√ļsculos, como o que voc√™ ta fazendo agora, sem mulheres, sem comida, sem...sem esperan√ßa. Beba mais cerveja, ainda da tempo. E se n√£o der, t√° tudo bem.

...QUANDO JA SE EST√Ā QUASE SEM ALMA E SE TEM CONSCI√äNCIA DISSO, √Č PORQUE AINDA SE EXISTE. Depois sentava e coNtemplava o mar. Numa hora dessas, torna-se dificil acreditar numa s√©rie de coisas, como, por exemplo, que houvesse pa√≠s como a China e os EUA, ou um lugar como o vietn√£, ou que ja tivesse sido crian√ßa. N√£o, pensando bem n√£o era t√£o inacreditavel assim; a inf√£ncia tinha sido um horror, imposs√≠vel esquecer isso. E a vida de adulto: todos os empregos, as mulheres, de repente nenhuma, e agora desempregado. Sem ter o que fazer, aos 60 anos. Liquidado. Sem nada. Com um dolar e 20 cents no bolso, o aluguel, pago de antem√£o por uma semana. O oceano...recapitulou as mulheres na lembran√ßa. Algumas haviam sido boas pra ele, outras n√£o passavam de megeras, interesseiras, meio loucas e tremendamente brutais. Quartos, camas, casas, natais, empregos, cantorias, hospitais, apatia, dias e noites de pura monotonia, sem sentido nenhum, sem chance alguma.

Corpo flex√≠vel, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso com os olhos: um fogar√©u vivo ambulante. Espirito impaciente para romper o molde, incapaz de ret√™-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balancavam ao andar. Sempre muito animada ou ent√£o deprimida. Segundo alguns, era louca. Opini√£o de ap√°ticos que jamais poderiam compreend√™-la. E passava a vida a dancar, a namorar e a beijar. Mas, salvo a raras exce√ß√Ķes, na hora H sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na m√£o. A mentalidade √© que simplesmente destoava das demais: nada tinha de pr√°tica. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelevel na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza, s√≥ servia para real√ß√°-la.

¬ī A dor √© estranha. Um gato matando um passarinho, um acidente de carro, um inc√™ndio... A dor chega, BANG, e a√≠ est√° ela, instalada em voc√™. √Č real. Aos olhos dos outros, parece que voc√™ est√° de bobeira. Um idiota, de repente. N√£o h√° cura pra dor, a menos que voc√™ conhe√ßa algu√©m capaz de entender seus sentimentos e saiba como ajudar. ¬ī

Sentia-me contente por não estar apaixonado (…) As pessoas apaixonadas tornam-se muitas vezes susceptíveis, perigosas. Perdem o sentido da realidade. Perdem o sentido de humor. Tornam-se nervosas, psicóticas, chatas. Tornam-se, mesmo, assassinas.

The Laughing Heart Sua vida é a sua vida. Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão. Esteja atento. Existem outros caminhos. E em algum lugar, ainda existe luz. Pode não ser muita luz, mas ela vence a escuridão. Esteja atento. Os deuses vão lhe oferecer oportunidades. Conheça-as. Agarre- as. Você não pode vencer a morte, mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes. E quanto mais você aprender a fazer isso, mais luz vai existir. Sua vida é a sua vida. Conheça-a enquanto ela ainda é sua. Você é maravilhoso, os deuses esperam para se deliciar em você.

Se voc√™ for tentar, tente de verdade. Caso contr√°rio nem comece. Isso pode significar perder tudo. E talvez at√© sua cabe√ßa. Isso pode significar n√£o comer nada por tr√™s ou quatro dias. Isso pode significar congelar num banco de pra√ßa. Isso pode significar esc√°rnio, isolamento. Isolamento √© uma d√°diva. Todo o resto √© teste da sua resist√™ncia. De quanto voc√™ realmente quer fazer isso. E voc√™ vai fazer isso, enfrentando rejei√ß√Ķes das piores esp√©cies. E isso ser√° melhor do que qualquer coisa que voc√™ j√° imaginou. Se voc√™ for tentar, tente de verdade. N√£o h√° outro sentimento melhor que isso. Voc√™ estar√° sozinho com os deuses. E as noites v√£o arder em chamas. Voc√™ levar√° sua vida direto para a risada perfeita. Esta √© a √ļnica briga boa que existe.

Quanto mais o tempo passa, menos eu significo pras pessoas e menos elas significam pra mim.

Ser são é fácil, mas pra ser bêbado tem que ter talento.

o relógio estava funcionando, velho despertador, deus o abençoe, quantas vezes olhei para ele às 7 e meia da manhã, manhãs de ressaca, e disse, foda-se o trabalho? FODA-SE O TRABALHO!

O problema com o mundo √© que as pessoas inteligentes est√£o cheias de d√ļvidas, enquanto os est√ļpidos est√£o cheios de confian√ßa.

Quando a gente acha que chegou no fundo do poço, sempre descobre que pode ir ainda mais fundo. Que escrotidão.

Eu continuo me perguntando porque me preocupo quando ninguém mais se importa.

N√£o h√° nada que ensine mais do que se reorganizar depois do fracasso e seguir em frente.

O amor é pros que aguentam a sobrecarga psíquica.

Sempre haverá alguma coisa para arruinar nossas vidas. Tudo depende do quê, ou de quem nos encontra antes... Nós estamos sempre maduros e prontos para sermos levados.

Posso viver sem a grande maioria das pessoas. Elas n√£o me completam, me esvaziam.

Nunca espere demais, da sorte ou dos outros, no fim não há quem não decepcione você.

Meu √ļnico problema √© estar s√≥brio.

A vida pode ser boa em certos momentos, mas, às vezes, isso depende de nós.

Tem sempre alguém para estragar o dia da gente, senão a vida.

√Č que nem mulher que n√£o presta. N√£o adianta voltar. N√£o d√° nem pra olhar para ela.

Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.

Minha ambição é prejudicado pela preguiça.

Se você está perdendo sua alma e você sabe disso, então você ainda tem uma alma a perder.

Eu gostava do lugar, tinha grandes árvores que davam sombra, e desde que algumas pessoas haviam me dito que eu era feio, sempre preferia a sombra ao sol, a escuridão à luz.

Os melhores geralmente morrem por suas próprias mãos apenas para escapar e aqueles que ficam pra trás nunca conseguem compreender por que alguem iria querer escapar deles.

O mundo inteiro é um saco de merda se rasgando. Não posso salvá-lo.

Humanidade/bondade, nunca existiu nada disso desde o inicio.

Sim, eu odiava ter que me levantar da cama de manhã. Significava que a vida ia recomeçar e depois de se passar a noite inteira a dormir cria-se uma espécie de intimidade especial que fica muito mais dificíl de largar. Sempre fui solitário. Desculpe-me, creio que não regulo bem da cabeça, mas a verdade é que, se não fosse por uma ou outra fodidela, não me faria a mínima diferença se todas as pessoas do mundo morressem. Eu sei que não é uma atitude simpática. Mas ficaria todo refestelado aqui dentro do meu caracol. Afinal de contas, foram as pessoas que me tornaram infeliz.

O trabalho estava me dando nos nervos. Seis anos, e não tinha um centavo no banco. Era assim que pegavam a gente - só davam o bastante para a gente se manter vivo, mas nunca para acabar se escapando.

Gosto da forma com que os fil√≥sofos destroem conceitos e as teorias que os precederam. Isso tem acontecido h√° s√©culos. N√£o √© assim, dizem. √Č desse jeito. Isto continua sem parar e parece l√≥gica, esta continuidade. O principal problema √© que os fil√≥sofos devem humanizar sua linguagem, torn√°-la mais acess√≠vel, ent√£o os pensamentos se iluminam mais e ficam mais interessantes. Acho que est√£o aprendendo a fazer isso. A simplicidade √© essencial.

Não, eu não odeio as pessoas. Só me sinto melhor quando elas não estão por perto.

Os grandes homens s√£o sempre os mais solit√°rios.

√Č poss√≠vel amar o ser humano caso voc√™ n√£o o conhe√ßa t√£o bem.

√Ās vezes voc√™ acha bondade no meio do inferno.

Saber que não tinha coragem de fazer o que era necessário, me fez sentir horrível.

(...) era isso que eles queriam: Mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas, seria f√°cil pra mim assim.

Sem ambição, sem talento, sem sorte. O que me mantinha fora da sarjeta era pura sorte, e a sorte jamais durava.

Minha √ļnica ambi√ß√£o √© n√£o ser nada, me parece a coisa mais sensata.

De alguma forma, nunca consegui me ajustar na sociedade. N√£o gosto da humanidade. N√£o tenho o menor desejo de me ajustar, nenhum senso de lealdade, nenhum objetivo de fato.

Não é morrer que é ruim, é estar perdido que é ruim.

Estar sozinho nunca me pareceu certo. Às vezes me senti bem, mas isso nunca me pareceu certo.

O problema do mundo de hoje √© que as pessoas inteligentes est√£o cheias de d√ļvidas, e as pessoas idiotas est√£o cheias de certezas...

Me sinto bem em n√£o participar de nada. Me alegra n√£o estar apaixonado e n√£o estar de bem com o mundo. Gosto de me sentir estranho a tudo...

Há coisas piores do que estar só, mas costuma levar décadas até que o percebamos. E, frequentemente, quando o conseguimos, é demasiado tarde. E nada pior do que ser demasiado tarde.

Costumo levar coisas para ler, para que eu n√£o tenha de olhar para as pessoas.

Cuidado com o homem vulgar. A mulher vulgar. Cuidado com o amor deles.

N√£o quero trocar ideias - ou almas.

Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la.

Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a sua morte.

.. Talvez pensemos demais. Sinta mais, pense menos.

Somos finos como papel. Existimos por acaso entre as percentagens, temporariamente. E esta é a melhor parte, o fator temporal. E não há nada que se possa fazer sobre isso. Você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. Você pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. Talvez pensemos demais. Sinta mais, pense menos.

Essas coisas, você sabe. Parece que não consigo entrar em nada. Tudo travado. Todas as cartas tomadas. Eu não me ligo em política nem religião, nem seja lá o que for. Realmente não sei o que está acontecendo por aí. Não tenho TV, não leio jornais, nada disso. Não sei quem está certo ou errado, se é que isso existe.

Contudo, todos nós precisamos de fuga. As horas são longas e têm de ser preenchidas de algum modo até nossa morte. E simplesmente não há muita glória e sensação para ajudar. Tudo logo se torna chato e mortal. Acordamos pela manhã, jogamos o pé para fora da cama, colocamo-los no chão e pensamos ah, merda, e agora?

√Äs vezes, me sinto como se estiv√©ssemos todos presos num filme. Sabemos nossas falas, onde caminhar, como atuar, s√≥ que n√£o h√° uma c√Ęmera. No entanto, n√£o conseguimos sair do filme. E √© um filme ruim.

O que eu odeio é que algum dia tudo se reduzirá a nada, os amores, os poemas. Acabaremos recheados de terra como um taco barato. Que coisa mais triste, tudo é tão triste - a gente passa a vida inteira feito bobo pra depois morrer que nem besta.

Posso relaxar com os imprest√°veis, porque sou um imprest√°vel. N√£o gosto de leis, morais, religi√Ķes, regras. N√£o gosto de ser moldado pela sociedade.

A maior parte do mundo estava doida. E a parte que n√£o era doida era furiosa. E a parte que n√£o era doida nem furiosa era apenas idiota.

As pessoas eram limitadas e cuidadosas, todas iguais. E eu teria que viver com esses putos pelo resto de minha vida, pensava.

Não liguei a televisão. Descobri que quando a gente está mal essa filha da puta só faz a gente se sentir pior.

Acho que a gente devia encher a cara hoje, depois a gente fala mal dos in√ļteis que se acham super importantes.

Não era meu dia. Não era minha semana. Não era meu mês. Não era meu ano. Não era a porra da minha vida.

-A Bíblia diz: Amai ao próximo. - Isso poderia significar algo como: Deixe-o em paz.

O Inferno s√£o as pessoas.

Raramente encontro uma pessoa rara ou interessante. √Č mais que perturbador, √© um choque constante.

Tudo é inverossímil enquanto não acontece pela primeira vez. Quem há de acreditar em coisas que ainda estão por vir?

As pessoas engolem Deus sem pensar, engolem o país sem pensar. Esquecem logo como pensar, deixam que os outros pensem por elas.

J√° fui alfinetado, lancetado, √©, inclusive bombardeado¬Ö com tanta frequ√™ncia que simplesmente n√£o ag√ľento mais; n√£o conseguiria enfrentar outro fogo cerrado.

N√£o estou minimamente interessado em perguntar como v√£o suas almas. Suponho que era o que eu deveria fazer.

Os verdadeiros valentes vencem a sua imaginação e fazem o que devem fazer.

Acho que viver com mulheres loucas faz bem para a espinha.

E se por acaso a religi√£o n√£o contivesse em si verdade nenhuma, os tolos que nela acreditavam seriam ent√£o, duplamente idiotas

A poesia abre os olhos,cala a boca e estremece a alma...

¬ďN√£o gostava de nada. Vai ver eu estava com medo. √Č isso: eu tinha medo. Eu queria ficar sozinho num quarto com a janela fechada. Fiquei curtindo essa ideia. Eu era um trambolho. Eu era um lun√°tico.¬Ē

Sentamos e esperamos pelo sol e tudo o que viria pela frente. Eu não gostava do mundo, mas em tempos precavidos e tranquilos, dava até quase para compreendê-lo.

Talvez a mis√©ria tenha chegado. N√£o se pode viver da pr√≥pria alma. N√£o se pode pagar o aluguel com a alma. Experimente fazer isso um dia. √Č o in√≠cio do Decl√≠nio e a Queda do Ocidente, como Splenger dizia. Todo mundo √© t√£o ganancioso e decadente, a decomposi√ß√£o realmente come√ßou. Eles matam gente aos milh√Ķes nas guerras e d√£o medalhas por isso. Metade das pessoas deste mundo vai morrer de fome enquanto a gente fica por a√≠ sentado vendo TV.

Sabia que tinha alguma coisa fora do lugar em mim. Eu era a soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus, idéias e nem me preocupava com política. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não-ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante, dava muito trabalho.

As garotas pareciam legais a certa dist√Ęncia, o sol resplandecendo em seus vestidos, em seus cabelos. Mas v√° se aproximar e ouvir seus pensamentos escorrendo boca afora, voc√™ vai sentir vontade de cavar um buraco ao sop√© de uma colina e se entrincheirar com uma metralhadora.

Sou apenas um bloco de pedra para mim mesmo. Quero ficar dentro desse bloco, sem ser perturbado. Foi assim desde o começo. Resisti a meus pais, resisti à escola e depois resisti a tornar-me um cidadão decente. O que quer que eu fosse, fui desde o começo. Não queria que ninguém mexesse com isso. E ainda não quero.

Nós nascemos assim, nisso: Nos hospitais que são tão caros, que são baratos para morrer; num país onde as cadeias estão cheias e os hospícios estão fechados; num lugar onde as massas elevam idiotas em heróis ricos.

[...] isto n√£o √© um poema. Poemas s√£o um t√©dio, eles te fazem dormir. Estas palavras te arrastam para uma nova loucura. Voc√™ foi aben√ßoado, voc√™ foi atirado num lugar que cega de tanta luz. O elefante sonha com voc√™ agora. A curva do espa√ßo se curva e ri. Voc√™ j√° pode morrer agora. Voc√™ j√° pode morrer do jeito que as pessoas deveriam morrer: espl√™ndidas, vitoriosas, ouvindo a m√ļsica, sendo a m√ļsica, rugindo, rugindo, rugindo.

Estou sozinho afinal sem estar sozinho.

Sou um alcoólatra que virou escritor para poder ficar na cama até meio-dia.

Nove décimos de mim já morreram, mas eu guardo o décimo restante como uma arma.

Mas divertimento e perigo dificilmente passam margarina na torrada ou alimentam o gato. Você desiste da torrada e acaba comendo o gato.

Às vezes a gente pensa que está num asilo de loucos. E de certa forma está.

...Quando uma vai Outra vem Pior do que sua antecessora...