Sobre o Autor

Cecília Meireles

Cecília Meireles foi uma poetisa e jornalista, e é considerada umas das maiores escritoras brasileiras.

Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência a vossa! Todo o sentido da vida principia à vossa porta; o mel do amor cristaliza seu perfume em vossa rosa; sois o sonho e sois a audácia, calúnia, fúria, derrota...”

Também é ser, deixar de ser assim (...) Eu deixo aroma até em meus espinhos ao longe o vento vai falando em mim E por perder-me é que me vão lembrando É por desfolhar-me que não tenho fim.

Se você errou Se você errou, peça desculpas... É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender? Se você sente algo diga... É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar alguém que queira escutar? Se alguém reclama de você, ouça... É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você? Se alguém te ama, ame-o... É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz? Nem tudo é fácil na vida... Mas, com certeza, nada é impossível...

Tudo é vivo e tudo fala ao nosso redor, embora com vida e voz que não são humanas, mas que podemos aprender a escutar, porque muitas vezes essa linguagem secreta ajuda a esclarecer o nosso próprio mistério.

ASSIM MORO em meu sonho: como um peixe no mar. O que sou é o que vejo. Vejo e sou meu olhar. Água é o meu próprio corpo, simplesmente mais denso. E meu corpo é minha alma, e o que sinto é o que penso. Assim vou no meu sonho. Se outra fui, se perdeu. É o mundo que me envolve? Ou sou contorno seu? Não é noite nem dia, não é morte nem vida: é viagem noutro mapa, sem volta nem partida. Ó céu da liberdade, por onde o coração já nem sofre, sabendo que bateu sempre em vão.

I ASSIM aos poucos vai sendo levada a tua Amiga, a tua Amada! E assim de longe ouvirás a cantiga da tua Amada, da tua Amiga. Abrem-se os olhos - e é de sombra a estrada para chegar-se à Amiga, à Amada! Fechem-se os olhos - e eis a estrada antiga a que levaria à Amada, à Amiga. (Se me encontrares novamente, nada te faça esquecer a Amiga, a Amada! Se te encontrar, pode ser que eu consiga ser para sempre a Amada Amiga. II E assim aos poucos vai sendo levada a tua Amiga, a tua Amada! E talvez apenas uma estrelinha siga a tua Amada, a tua Amiga. Para muito longe vai sendo levada, desfigurada e transfigurada. Sem que ela mesma já não consiga dizer que era a tua profunda Amiga. Sem que possa ouvir o que tua alma brade que era a tua Amiga e que era a tua Amada. Ah! do que disse nada mais se diga. Vai-se a tua Amada - vai-se a tua Amiga! Ah! do que era tanto, não resta mais nada... Mas houve essa Amiga! mas houve essa Amada!

E minha alma, sem luz nem tenda, passa errante, na noite má, à procura de quem me entenda e de quem me consolará...

Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar, nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento de transitoriedade de tudo é mesmo o fundamento da minha personalidade.

A minha infância de menina sozinha de-me duas coisas que parecem negativas, e, foram sempre positivas para mim:silêncio e solidão.

Não sejas o de hoje. Não suspires por ontens. Não queiras ser o amanhã. Faz-te sem limites no tempo.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Para me refazer volto ao meu estado de fresca realidade, mal existo e se existo é com delicado cuidado.

Eu? Bebo o horizonte!

Também é ser, deixar de ser assim.

O vento é sempre o mesmo, mas sua resposta é diferente em cada folha. Somente a árvore seca fica imóvel entre borboletas e pássaros

Viajo sozinha com o meu coração Não ando perdida, mas desencontrada Levo o meu rumo na minha mão

Liberdade, essa que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.

Ainda que sendo tarde e em vão, / perguntarei por que motivo / tudo quando eu quis de mais vivo / tinha por cima escrito: Não

Tenho fases,como a lua Fases de andar escondida, Fases de vir para a rua...

Hoje me dei conta de que as pessoas vivem a esperar por algo E quando surge uma oportunidade Se dizem confusas e despreparadas Sentem que não merecem Que o tempo certo ainda não chegou E a vida passa E os momentos se acumulam como papéis sobre uma mesa Estamos nos preparando para qualquer coisa Mas ainda não aprendemos a viver A arriscar por aquilo que queremos A sentir aquilo que sonhamos E assim adiamos nossas vidas por tempo indeterminado Até que a vida se encarregue de decidir por nós mesmos E percebemos o quanto perdemos E o tanto que poderíamos ter evitado Como somos tolos em nossos pensamentos limitados Em nossas emoções contidas Em nossas ações determinadas O ser humano se prende em si mesmo Por medo e desconfiança Vive como coisa Num mundo de coisas O tempo esperado é o agora Sua consciência lhe direciona Seus sentidos lhe alertam E suas emoções não mais são desprezadas Antes que tudo acabe É preciso fazer iniciar Mesmo com dor e sofrimento Antes arriscar do que apenas sonhar.

No mistério do sem-fim Publicado em Cecilia Meireles às 14/04/2009 por kavorka No mistério do sem-fim equilibra-se um planeta. E, no planeta, um jardim, e, no jardim, um canteiro; no canteiro uma violeta, e, sobre ela, o dia inteiro, entre o planeta e o sem-fim, a asa de uma borboleta

Mulher ao espelho Hoje que seja esta ou aquela, pouco me importa. Quero apenas parecer bela, pois, seja qual for, estou morta. Já fui loura, já fui morena, já fui Margarida e Beatriz. Já fui Maria e Madalena. Só não pude ser como quis. Que mal faz, esta cor fingida do meu cabelo, e do meu rosto, se tudo é tinta: o mundo, a vida, o contentamento, o desgosto? Por fora, serei como queira a moda, que me vai matando. Que me levem pele e caveira ao nada, não me importa quando. Mas quem viu, tão dilacerados, olhos, braços e sonhos seu se morreu pelos seus pecados, falará com Deus. Falará, coberta de luzes, do alto penteado ao rubro artelho. Porque uns expiram sobre cruzes, outros, buscando-se no espelho.

Sugestão Sede assim — qualquer coisa serena, isenta, fiel. Flor que se cumpre, sem pergunta. Onda que se esforça, por exercício desinteressado. Lua que envolve igualmente os noivos abraçados e os soldados já frios. Também como este ar da noite: sussurrante de silêncios, cheio de nascimentos e pétalas. Igual à pedra detida, sustentando seu demorado destino. E à nuvem, leve e bela, vivendo de nunca chegar a ser. À cigarra, queimando-se em música, ao camelo que mastiga sua longa solidão, ao pássaro que procura o fim do mundo, ao boi que vai com inocência para a morte. Sede assim qualquer coisa serena, isenta, fiel. Não como o resto dos homens.

Como se morre de velhice ou de acidente ou de doença, morro, Senhor, de indiferença. Da indiferença deste mundo onde o que se sente e se pensa não tem eco, na ausência imensa. Na ausência, areia movediça onde se escreve igual sentença para o que é vencido e o que vença. Salva-me, Senhor, do horizonte sem estímulo ou recompensa onde o amor equivale à ofensa. De boca amarga e de alma triste sinto a minha própria presença num céu de loucura suspensa. (Já não se morre de velhice nem de acidente nem de doença, mas, Senhor, só de indiferença.)

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,que estão diante de cada janela,uns dizem que essas coisas não existem,outros que só existem diante das minhas janelas, e outros finalmente, que é preciso aprender a olhar,para poder vê-las assim...

Meu Sonho (Cecília Meireles) Parei as águas do meu sonho para teu rosto se mirar. Mas só a sombra dos meus olhos ficou por cima, a procurar... Os pássaros da madrugada não têm coragem de cantar, vendo o meu sonho interminável e a esperança do meu olhar. Procurei-te em vão pela terra, perto do céu, por sobre o mar. Se não chegas nem pelo sonho, por que insisto em te imaginar? Quando vierem fechar meus olhos, talvez não se deixem fechar. Talvez pensem que o tempo volta, e que vens, se o tempo voltar.

Gargalhada Homem vulgar! Homem de coração mesquinho! Eu te quero ensinar a arte sublime de rir. Dobra essa orelha grosseira, e escuta o ritmo e o som da minha gargalhada: Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Não vês? É preciso jogar por escadas de mármores baixelas de ouro. Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais, vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas, destruir as lâmpadas, abater cúpulas, e atirar para longe os pandeiros e as liras... O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada. Mas é preciso ter baixelas de ouro, compreendes? — e colares, e espelhos, e espadas e estátuas. E as lâmpadas, Deus do céu! E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trêmulas... Escuta bem: Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Só de três lugares nasceu até hoje essa música heróica: do céu que venta, do mar que dança, e de mim.

Herança Eu vim de infinitos caminhos, e os meus sonhos choveram lúcido pranto pelo chão. Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos, essa vida, que era tão viva, tão fecunda, porque vinha de um coração? E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos, do pranto que caiu dos meus olhos passados, que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?

Leveza Leve é o pássaro: e a sua sombra voante, mais leve. E a cascata aérea de sua garaganta, mais leve. E o que se lembra, ouvindo-se deslizar seu canto, mais leve. E o desejo rápido desse mais antigo instante, mais leve. E a fuga invisível do amargo passante, mais leve.