Ai, palavras, ai, palavras, que estranha pot√™ncia a vossa! Todo o sentido da vida principia √† vossa porta; o mel do amor cristaliza seu perfume em vossa rosa; sois o sonho e sois a aud√°cia, cal√ļnia, f√ļria, derrota...¬Ē

Sobre o Autor

Cecília Meireles

Cecília Meireles foi uma poetisa e jornalista, e é considerada umas das maiores escritoras brasileiras.

Mais frases de Cecília Meireles

Aprendi com as Primaveras a me deixar cortar para poder voltar sempre inteira.

Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.

Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.

H√° pessoas que nos falam e nem as escutamos, h√° pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam mas h√° pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre.

Tenho fases, como a Lua; fases de ser sozinha, fases de ser só sua.

N√£o seja o de hoje. N√£o suspires por ontens.... N√£o queiras ser o de amanh√£. Faze-te sem limites no tempo.

Nunca ninguém viu ninguém que o amor pusesse tão triste. Essa tristeza não viste, e eu sei que ela se vê bem...

No misterio do sem-fim equilibra-se um planeta. E no planeta um jardim e no jardim um canteiro no canteiro uma violeta e sobre ela o dia inteiro entre o planeta e o sem-fim a asa de uma borboleta.

E minha alma, sem luz nem tenda, passa errante, na noite má, à procura de quem me entenda e de quem me consolará...

Retrato Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: Em que espelho ficou perdida a minha face?

Serenata Permita que eu feche os meus olhos, pois é muito longe e tão tarde! Pensei que era apenas demora, e cantando pus-me a esperar-te. Permita que agora emudeça: que me conforme em ser sozinha. Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina. Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo

CANÇÃO DE OUTONO Perdoa-me, folha seca, não posso cuidar de ti. Vim para amar neste mundo, e até do amor me perdi. De que serviu tecer flores pelas areias do chão, se havia gente dormindo sobre o própro coração? E não pude levantá-la! Choro pelo que não fiz. E pela minha fraqueza é que sou triste e infeliz. Perdoa-me, folha seca! Meus olhos sem força estão velando e rogando áqueles que não se levantarão... Tu és a folha de outono voante pelo jardim. Deixo-te a minha saudade - a melhor parte de mim. Certa de que tudo é vão. Que tudo é menos que o vento, menos que as folhas do chão...

PERGUNTO-TE ONDE SE ACHA A MINHA VIDA Pergunto-te onde se acha a minha vida. Em que dia fui eu. Que hora existiu formada de uma verdade minha bem possuída Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada. E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida por esperanças hereditárias? E de cada pergunta minha vai nascendo a sombra imensa que envolve a posição dos olhos de quem pensa. Já não sei mais a diferença de ti, de mim, da coisa perguntada, do silêncio da coisa irrespondida.

SONETO ANTIGO Responder a perguntas não respondo. Perguntas impossíveis não pergunto. Só do que sei de mim aos outros conto: de mim, atravessada pelo mundo. Toda a minha experiência, o meu estudo, sou eu mesma que, em solidão paciente, recolho do que em mim observo e escuto muda lição, que ninguém mais entende. O que sou vale mais do que o meu canto. Apenas em linguagem vou dizendo caminhos invisíveis por onde ando. Tudo é secreto e de remoto exemplo. Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo. E todos somos pura flor de vento.

N√ÉO: J√Ā N√ÉO FALO DE TI N√£o: j√° n√£o falo de ti, j√° n√£o sei de saudades. Feche-se o cora√ß√£o como um livro, cheio de imagens, de palavras adormecidas, em altas prateleiras, at√© que o p√≥ desfa√ßa o pobre desespero sem for√ßa, que um dia, pode ser, parece t√£o terr√≠vel. A aranha dorme em sua teia, l√° fora, entre a roseira e o muro. Resplandecem os azulejos- e tudo quanto posso ver. O resto √© imaginado, e n√£o coincide, e √© temer√°rio cismar. Talvez se as p√°lpebras pudessem inventar outros sonhos, n√£o de vida... Ah! rompem-se na noite ardentes violas, pelo ar e pelo frio subitamente ro√ßadas. Por onde pascer√£o, nestes c√©us inviol√°veis, nossas perguntas com suas crinas de s√©culos arrastando-se... N√£o s√≥ de amor a noite transborda mas de terr√≠veis crueldades, loucuras, de homic√≠dios mais verdadeiros. Os homens de sangue est√£o nas esquinas resfolegando, e os homens da lei sonolentos movem letras sobre imensos pap√©is que eles mesmos n√£o entendem... Ah! que rosto amar√≠amos ver inclinar-se na a√©rea varanda? Nem os santos podem mais nada. Talvez os anjos abstratos da √°lgebra e da geometria.

PANORAMA AL√ČM N√£o sei que tempo faz, nem se √© noite ou se √© dia. N√£o sinto onde √© que estou, nem se estou. N√£o sei de nada. Nem de √≥dio, nem amor. T√©dio? Melancolia. -Exist√™ncia parada. Exist√™ncia acabada. Nem se pode saber do que outrora existia. A cegueira no olhar. Toda a noite calada no ouvido. Presa a voz. Gesto v√£o. Boca fria. A alma, um deserto branco: -o luar triste na geada... Sil√™ncio. Eternidade. Infinito. Segredo. Onde, as almas irm√£s? Onde, Deus? Que degredo! Ningu√©m.... O ermo atr√°s do ermo: - √© a paisagem daqui. Tudo opaco... E sem luz... E sem treva... O ar absorto... Tudo em paz... Tudo s√≥... Tudo irreal... Tudo morto... Por que foi que eu morri? Quando foi que eu morri?

TUMULTO Tempestade... O desgrenhamento das ramagens... O choro vão da água triste, do longo vento, vem morrer-me no coração. A água triste cai como um sonho, sonho velho que se esqueceu... ( Quando virás, ó meu tristonho Poeta, ó doce troveiro meu!...) E minha alma, sem luz nem tenda, passa errante, na noite má,` à procura de quem me entenda e de quem me consolará...

Epigrama n. 2 √Čs prec√°ria e veloz, Felicidade. Custas a vir e, quando vens, n√£o te demoras. Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo, e, para te medir, se inventaram as horas. Felicidade, √©s coisa estranha e dolorosa: Fizeste para sempre a vida ficar triste: Porque um dia se v√™ que as horas todas passam, e um tempo despovoado e profundo, persiste.

Não digas onde acaba o dia. Onde começa a noite. Não fales palavras vãs. As palavras do mundo. Não digas onde começa a Terra, Onde termina o céu Não digas até onde és tu. Não digas desde onde és Deus. Não fales palavras vãs. Desfaze-te da vaidade triste de falar. Pensa,completamente silencioso, Até a glória de ficar silencioso, Sem pensar.

Nem tudo √© f√°cil √Č dif√≠cil fazer algu√©m feliz, assim como √© f√°cil fazer triste. √Č dif√≠cil dizer eu te amo, assim como √© f√°cil n√£o dizer nada √Č dif√≠cil valorizar um amor, assim como √© f√°cil perd√™-lo para sempre. √Č dif√≠cil agradecer pelo dia de hoje, assim como √© f√°cil viver mais um dia. √Č dif√≠cil enxergar o que a vida traz de bom, assim como √© f√°cil fechar os olhos e atravessar a rua. √Č dif√≠cil se convencer de que se √© feliz, assim como √© f√°cil achar que sempre falta algo. √Č dif√≠cil fazer algu√©m sorrir, assim como √© f√°cil fazer chorar. √Č dif√≠cil colocar-se no lugar de algu√©m, assim como √© f√°cil olhar para o pr√≥prio umbigo. Se voc√™ errou, pe√ßa desculpas... √Č dif√≠cil pedir perd√£o? Mas quem disse que √© f√°cil ser perdoado? Se algu√©m errou com voc√™, perdoa-o... √Č dif√≠cil perdoar? Mas quem disse que √© f√°cil se arrepender? Se voc√™ sente algo, diga... √Č dif√≠cil se abrir? Mas quem disse que √© f√°cil encontrar algu√©m que queira escutar? Se algu√©m reclama de voc√™, ou√ßa... √Č dif√≠cil ouvir certas coisas? Mas quem disse que √© f√°cil ouvir voc√™? Se algu√©m te ama, ame-o... √Č dif√≠cil entregar-se? Mas quem disse que √© f√°cil ser feliz? Nem tudo √© f√°cil na vida...Mas, com certeza, nada √© imposs√≠vel Precisamos acreditar, ter f√© e lutar para que n√£o apenas sonhemos, Mas tamb√©m tornemos todos esses desejos, realidade!!!

Despedida Por mim, e por v√≥s, e por mais aquilo que est√° onde as outras coisas nunca est√£o, deixo o mar bravo e o c√©u tranq√ľilo: quero solid√£o. Meu caminho √© sem marcos nem paisagens. E como o conheces? - me perguntar√£o. - Por n√£o ter palavras, por n√£o ter imagens. Nenhum inimigo e nenhum irm√£o. Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada. Viajo sozinha com o meu cora√ß√£o. N√£o ando perdida, mas desencontrada. Levo o meu rumo na minha m√£o. A mem√≥ria voou da minha fronte. Voou meu amor, minha imagina√ß√£o... Talvez eu morra antes do horizonte. Mem√≥ria, amor e o resto onde estar√£o? Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra. (Beijo-te, corpo meu, todo desilus√£o! Estandarte triste de uma estranha guerra...) Quero solid√£o.

Sou entre flor e nuvem, estrela e mar. Por que havemos de ser unicamente humanos, limitados em chorar? N√£o encontro caminhos f√°ceis de andar. Meu rosto v√°rio desorienta as firmes pedras que n√£o sabem de √°gua e de ar.

Canção do Sonho Acabado Já tive a rosa do amor - rubra rosa, sem pudor. Cobicei, cheirei, colhi. Mas ela despetalou E outra igual, nunca mais vi. Já vivi mil aventuras, Me embriaguei de alegria! Mas os risos da ventura, No limiar da loucura, Se tornaram fantasia... Já almejei felicidade, Mãos dadas, fraternidade, Um ideal sem fronteiras - utopia! Voou ligeira, Nas asas da liberdade. Desejei viver. Demais! Segurar a juventude, Prender o tempo na mão, Plantar o lírio da paz! Mas nem mesmo isto eu pude: Tentei, porém nada fiz... Muito, da vida, eu já quis. Já quis... mas não quero mais...

Motivo Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: — mais nada.

Morro do que há no mundo: do que vi, do que ouvi. Morro do que vivi. Morro comigo, apenas: com lembranças amadas, porém desesperadas. Morro cheia de assombro por não sentir em mim nem princípio nem fim. Morro: e a circunferência fica, em redor, fechada. Dentro sou tudo e nada.

Faze-te sem limites no tempo.

Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve...

Pus-me a cantar minha pena Com uma palavra tão doce De maneira tão serena Que até Deus pensou Que fosse felicidade e não pena

Tenho fases como a Lua Fases de ser sozinha Fases de ser só sua

Tenho fases, como a lua Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha.

Quando penso em você, fecho os olhos de saudade.

N√£o sejas o de hoje. N√£o suspires por ontens... n√£o queiras ser o de amnh√£. Faze-te sem limites no tempo. V√™ a tua vida em todas as origens. Em todas as exist√™ncias. Em todas as mortes. E sabes que ser√°s assim para sempre. N√£o queiras marcar a tua passagem. Ela prossegue: √Č a passagem que se continua. √Č a tua eternidade. √Čs tu. Cec√≠lia Meireles

√Č preciso n√£o esquecer nada: nem a torneira aberta nem o fogo aceso, nem o sorriso para os infelizes nem a ora√ß√£o de cada instante. √Č preciso n√£o esquecer de ver a nova borboleta nem o c√©u de sempre. O que √© preciso √© esquecer o nosso rosto, o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. O que √© preciso esquecer √© o dia carregado de atos, a id√©ia de recompensa e de gl√≥ria. O que √© preciso √© ser como se j√° n√£o f√īssemos, vigiados pelos pr√≥prios olhos severos conosco, pois o resto n√£o nos pertence.

LUA ADVERSA Tenho fases, como a lua Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha. Fases que vão e vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso. E roda a melancolia seu interminável fuso! Não me encontro com ninguém (tenho fases como a lua...) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu...

Renova-te. Renasce em ti mesmo. Multiplica os teus olhos, para verem mais. Multiplica-se os teus bra√ßos para semeares tudo. Destr√≥i os olhos que tiverem visto. Cria outros, para as vis√Ķes novas. Destr√≥i os bra√ßos que tiverem semeado, Para se esquecerem de colher. S√™ sempre o mesmo. Sempre outro. Mas sempre alto. Sempre longe. E dentro de tudo.

Eu canto porque o instante existe E a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: Sou poeta. Irmã das coisas fugidias, Não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias No vento Se desmorono ou se edifico, Se permaneço, ou me desfaço, - não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa rimada. E um dia sei que estarei muda: - mais nada.

Nunca eu tivera querido Dizer palavra tão louca Bateu-me um vento na boca E depois no teu ouvido Levou somente a palavra Deixou ficar o sentido O sentido está guardado No rosto com que te miro Nesse perdido suspiro Que te segue alucinado No meu sorriso suspenso Como um beijo malogrado Nunca ninguém viu ninguém Que o amor pusesse tão triste Esta tristeza não viste E eu sei que ela se vê bem Só se aquele mesmo vento Fechou teus olhos também

A arte de ser feliz Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma √©poca de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manh√£s vinha um pobre com um balde, e, em sil√™ncio, ia atirando com a m√£o umas gotas de √°gua sobre as plantas. N√£o era uma rega: era uma esp√©cie de aspers√£o ritual, para que o jardim n√£o morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de √°gua que ca√≠am de seus dedos magros e meu cora√ß√£o ficava completamente feliz. √Äs vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crian√ßas que v√£o para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. √Ās vezes, um galo canta. √Äs vezes, um avi√£o passa. Tudo est√° certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que est√£o diante de cada janela, uns dizem que essas coisas n√£o existem, outros que s√≥ existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que √© preciso aprender a olhar, para poder v√™-las assim.

Aceita√ß√£o √Č mais f√°cil pousar o ouvido nas nuvens e sentir passar as estrelas do que prend√™-lo √† terra e alcan√ßar o rumor dos teus passos. √Č mais f√°cil, tamb√©m, debru√ßar os olhos nos oceanos e assistir, l√° no fundo, ao nascimento mundo das formas, que desejar que apare√ßas, criando com teu simples gesto o sinal de uma eterna esperan√ßa N√£o me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar, nem tu. Desenrolei de dentro do tempo a minha can√ß√£o: n√£o tenho inveja √†s cigarras: tamb√©m vou morrer de cantar.

Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; - depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a cor que escorre de meus dedos colore as areias desertas. O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio... Chorarei quanto for preciso, para fazer com que o mar cresça, e o meu navio chegue ao fundo e o meu sonho desapareça. Depois, tudo estará perfeito; praia lisa, águas ordenadas, meus olhos secos como pedras e as minhas duas mãos quebradas.

O Menino Azul O menino quer um burrinho para passear. Um burrinho manso, que n√£o corra nem pule, mas que saiba conversar. O menino quer um burrinho que saiba dizer o nome dos rios, das montanhas, das flores, ¬ó de tudo o que aparecer. O menino quer um burrinho que saiba inventar hist√≥rias bonitas com pessoas e bichos e com barquinhos no mar. E os dois sair√£o pelo mundo que √© como um jardim apenas mais largo e talvez mais comprido e que n√£o tenha fim. (Quem souber de um burrinho desses, pode escrever para a Ruas das Casas, N√ļmero das Portas, ao Menino Azul que n√£o sabe ler.)

Tu tens um medo: Acabar. N√£o v√™s que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na d√ļvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na d√ļvida. No desejo. Que √©s sempre outro. Que √©s sempre o mesmo. Que morrer√°s por idades imensas. At√© n√£o teres medo de morrer. E ent√£o ser√°s eterno.

No mistério do sem-fim equilibra-se um planeta. E, no planeta, um jardim, e, no jardim, um canteiro; no canteiro uma violeta, e, sobre ela, o dia inteiro, entre o planeta e o sem-fim, a asa de uma borboleta

Motivo Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: — mais nada.

Assovio Ninguém abra a sua porta para ver que aconteceu: saímos de braço dado, a noite escura mais eu. Ela não sabe o meu rumo, eu não lhe pergunto o seu: não posso perder mais nada, se o que houve já se perdeu. Vou pelo braço da noite, levando tudo que é meu: - a dor que os homens me deram, e a canção que Deus me deu.

√Čs prec√°ria e veloz, Felicidade. Custas a vir e, quando vens, n√£o te demoras. Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo, e, para te medir, se inventaram as horas. Felicidade, √©s coisa estranha e dolorosa: Fizeste para sempre a vida ficar triste: Porque um dia se v√™ que as horas todas passam, e um tempo despovoado e profundo, persiste.

Lua adversa Tenho fases, como a lua Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha Fases que vão e que vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso. E roda a melancolia seu interminável fuso! Não me encontro com ninguém (tenho fases, como a lua...) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu...

Tenho fases, como a lua Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha Fases que vão e que vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso. E roda a melancolia seu interminável fuso! Não me encontro com ninguém (tenho fases, como a lua...) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu...

O choro vem perto dos olhos para que a dor transborde e caia. O choro vem quase chorando, como a onda que toca na praia. Descem dos céus ordens augustas e o mar leva a onda para o centro. O choro foge sem vestígios, mas deixando náufragos dentro!

Nem tudo √© f√°cil √Č dif√≠cil fazer algu√©m feliz, assim como √© f√°cil fazer triste. √Č dif√≠cil dizer eu te amo, assim como √© f√°cil n√£o dizer nada √Č dif√≠cil valorizar um amor, assim como √© f√°cil perd√™-lo para sempre. √Č dif√≠cil agradecer pelo dia de hoje, assim como √© f√°cil viver mais um dia. √Č dif√≠cil enxergar o que a vida traz de bom, assim como √© f√°cil fechar os olhos e atravessar a rua. √Č dif√≠cil se convencer de que se √© feliz, assim como √© f√°cil achar que sempre falta algo. √Č dif√≠cil fazer algu√©m sorrir, assim como √© f√°cil fazer chorar. √Č dif√≠cil colocar-se no lugar de algu√©m, assim como √© f√°cil olhar para o pr√≥prio umbigo. Se voc√™ errou, pe√ßa desculpas... √Č dif√≠cil pedir perd√£o? Mas quem disse que √© f√°cil ser perdoado? Se algu√©m errou com voc√™, perdoa-o... √Č dif√≠cil perdoar? Mas quem disse que √© f√°cil se arrepender? Se voc√™ sente algo, diga... √Č dif√≠cil se abrir? Mas quem disse que √© f√°cil encontrar algu√©m que queira escutar? Se algu√©m reclama de voc√™, ou√ßa... √Č dif√≠cil ouvir certas coisas? Mas quem disse que √© f√°cil ouvir voc√™? Se algu√©m te ama, ame-o... √Č dif√≠cil entregar-se? Mas quem disse que √© f√°cil ser feliz? Nem tudo √© f√°cil na vida...Mas, com certeza, nada √© imposs√≠vel Precisamos acreditar, ter f√© e lutar para que n√£o apenas sonhemos, Mas tamb√©m tornemos todos esses desejos, realidade!!! Leve, O Amor, Ao Meu Amigo, Vento...!!! Te Amo...!!! At√© Amanh√£...Te Amo...!!! At√© Amanh√£...Te Amo...!!!

Adestrei-me com o vento e minha festa é a tempestade.

De longe te hei de amar- da tranquila dist√Ęncia em que o amor √© saudade e o desejo, const√Ęncia.

Aprendi com a primavera a me deixar cortar. E a voltar sempre inteira.

Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.

Quanto mais me despedaço, mais fico inteira e serena.

Eu canto, porque o instante existe e a minha vida est√° completa.

O vento do meu espírito soprou sobre a vida. E tudo o que era efêmero se desfez. e só ficastes tu que és eterno.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos, ao longe, o vento vai falando de mim.

Dizem que n√£o foi atilho Nem punhal atravessado Mas veneno que lhe deram na comida misturado E chegaram os doutores E deixaram declarado Que o morto n√£o se matara Mas que fora assassinado.

H√° pessoas que nos falam e nem as escutamos; H√° pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam. Mas h√° pessoas que, simplesmente, aparecem em nossa vida... E que marcam para sempre...

Tudo em ti era uma ausência que se demorava: Uma despedida pronta a cumprir-se.

Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; - depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar... (Canção)

... E por perder-me é que vão me lembrando, por desfolhar-me é que não tenho fim.

¬ó Em que espelho ficou perdida a minha face? (Retrato)

Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina. Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo.

... E tudo que era efêmero se desfez. E ficaste só tu, que é eterno.

Em mim, não vejo começo nem Fim

Canção No desequilíbrio dos mares, as proas giram sozinhas... Numa das naves que afundaram é que certamente tu vinhas. Eu te esperei todos os séculos sem desespero e sem desgosto, e morri de infinitas mortes guardando sempre o mesmo rosto Quando as ondas te carregaram meu olhos, entre águas e areias, cegaram como os das estátuas, a tudo quanto existe alheias. Minhas mãos pararam sobre o ar e endureceram junto ao vento, e perderam a cor que tinham e a lembrança do movimento. E o sorriso que eu te levava desprendeu-se e caiu de mim: e só talvez ele ainda viva dentro destas águas sem fim.

Reinven√ß√£o A vida s√≥ √© poss√≠vel reinventada. Anda o sol pelas campinas e passeia a m√£o dourada pelas √°guas, pelas folhas. . . Ah! Tudo bolhas que v√™m de fundas piscinas de ilusionismo... ¬Ė mais nada. Mas a vida, a vida, a vida, a vida s√≥ √© poss√≠vel reinventada. Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus bra√ßos. Projeto-me por espa√ßos cheios da tua Figura. Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura. N√£o te encontro, n√£o te alcan√ßa... S√≥ - no tempo equilibrada, desprendo-me do balan√ßo que al√©m do tempo me leva. S√≥ - na trevas fico: recebida e dada. Porque a vida, a vida, a vida, a vida s√≥ √© poss√≠vel reinventada.

MOTIVO Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, - não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: - mais nada.

Timidez Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve... - mas só esse eu não farei. Uma palavra caída das montanhas dos instantes desmancha todos os mares e une as terras distantes... - palavras que não direi. Para que tu me adivinhes, entre os ventos taciturnos, apago meus pensamentos, ponhos vestidos noturnos, - que amargamente inventei. E, enquanto não me descobres, os mundos vão nevegando nos ares certos do tempo até não se sabe quando... - e um dia me acabarei.

Nem tudo √© f√°cil √Č dif√≠cil fazer algu√©m feliz, assim como √© f√°cil fazer triste. √Č dif√≠cil dizer eu te amo, assim como √© f√°cil n√£o dizer nada √Č dif√≠cil valorizar um amor, assim como √© f√°cil perd√™-lo para sempre. √Č dif√≠cil agradecer pelo dia de hoje, assim como √© f√°cil viver mais um dia. √Č dif√≠cil enxergar o que a vida traz de bom, assim como √© f√°cil fechar os olhos e atravessar a rua. √Č dif√≠cil se convencer de que se √© feliz, assim como √© f√°cil achar que sempre falta algo. √Č dif√≠cil fazer algu√©m sorrir, assim como √© f√°cil fazer chorar. √Č dif√≠cil colocar-se no lugar de algu√©m, assim como √© f√°cil olhar para o pr√≥prio umbigo. Se voc√™ errou, pe√ßa desculpas... √Č dif√≠cil pedir perd√£o? Mas quem disse que √© f√°cil ser perdoado? Se algu√©m errou com voc√™, perdoa-o... √Č dif√≠cil perdoar? Mas quem disse que √© f√°cil se arrepender? Se voc√™ sente algo, diga... √Č dif√≠cil se abrir? Mas quem disse que √© f√°cil encontrar algu√©m que queira escutar? Se algu√©m reclama de voc√™, ou√ßa... √Č dif√≠cil ouvir certas coisas? Mas quem disse que √© f√°cil ouvir voc√™? Se algu√©m te ama, ame-o... √Č dif√≠cil entregar-se? Mas quem disse que √© f√°cil ser feliz? Nem tudo √© f√°cil na vida...Mas, com certeza, nada √© imposs√≠vel Precisamos acreditar, ter f√© e lutar para que n√£o apenas sonhemos, Mas tamb√©m tornemos todos esses desejos, realidade!!!

O Amor... √Č dif√≠cil para os indecisos. √Č assustador para os medrosos. Avassalador para os apaixonados! Mas, os vencedores no amor s√£o os fortes. Os que sabem o que querem e querem o que t√™m! Sonhar um sonho a dois, e nunca desistir da busca de ser feliz, √© para poucos!!

... Um poeta é sempre irmão do vento e da água: deixa seu ritmo por onde passa. ... Se eu nem sei onde estou, como posso esperar que algum ouvido me escute? ... Ah! Se eu nem sei quem sou, como posso esperar que venha alguém gostar de mim? (Discurso)

Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Tentei, porém nada fiz... Muito, da vida, eu já quis. Já quis... mas não quero mais...

A terra t√£o rica e ¬Ė √≥ almas inertes! ¬Ė o povo t√£o pobre... Ningu√©m que proteste! (...)

A maior pena que eu tenho, punhal de prata, não é de me ver morrendo, mas de saber quem me mata.

Chorarei quando for preciso... Depois, tudo estar√° perfeito... Meus olhos secos como pedra.

Se em um instante se nasce e um instante se morre,um instante é o bastante pra vida inteira

Liberdade de voar num horizonte qualquer, liberdade de pousar onde o coração quiser.

H√° pessoas que nos falam e nem as escutamos, h√° pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam, mas h√° pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre.

Minhas m√£os ainda est√£o molhadas do azul das ondas entreabertas e a cor que escorre dos meus dedos, colore as areias desertas...

¬ďToda vez que um justo grita, um carrasco vem calar. Quem n√£o presta fica vivo, quem √© bom, mandam matar.¬Ē

Eu canto porque o instante existe e a minha vida est√° completa.N√£o sou alegre nem sou triste:sou poeta

Ningu√©m venha me dar vida, que estou morrendo de amor, que estou feliz de morrer, que n√£o tenho mal nem dor, que estou de sonho ferido, que n√£o me quero curar, que estou deixando de ser, e n√£o quero me encontrar, que estou dentro de um navio, que sei que vai naufragar, j√° n√£o falo e ainda sorrio, porque est√° perto de mim o dono verde do mar que busquei desde o come√ßo, e estava apenas no fim. Cora√ß√Ķes, por que chorais? Preparai meu arremesso para as algas e os corais. Fim ditoso, hora feliz: guardai meu amor sem pre√ßo, que s√≥ quis quem n√£o me quis.

De Longe Te Hei-de Amar De longe te hei-de amar - da tranquila dist√Ęncia em que o amor √© saudade e o desejo, const√Ęncia. Do divino lugar onde o bem da exist√™ncia √© ser eternidade e parecer aus√™ncia. Quem precisa explicar o momento e a fragr√Ęncia da Rosa, que persuade sem nenhuma arrog√Ęncia? E, no fundo do mar, a Estrela, sem viol√™ncia, cumpre a sua verdade, alheia √† transpar√™ncia.

O que amamos está sempre longe de nós: e longe mesmo do que amamos - que não sabe de onde vem, aonde vai nosso impulso de amor. O que amamos está como a flor na semente, entendido com medo e inquietude, talvez só para em nossa morte estar durando sempre. Como as ervas do chão, como as ondas do mar, os acasos se vão cumprindo e vão cessando. Mas, sem acaso, o amor límpido e exato jaz. Não necessita nada o que em si tudo ordena: cuja tristeza unicamente pode ser o equívoco do tempo, os jogos da cegueira com setas negras na escuridão.

Personagem Teu nome é quase indiferente e nem teu rosto mais me inquieta. A arte de amar é exactamente a de se ser poeta. Para pensar em ti, me basta o próprio amor que por ti sinto: és a ideia, serena e casta, nutrida do enigma do instinto. O lugar da tua presença é um deserto, entre variedades: mas nesse deserto é que pensa o olhar de todas as saudades. Meus sonhos viajam rumos tristes e, no seu profundo universo, tu, sem forma e sem nome, existes, silêncio, obscuro, disperso. Teu corpo, e teu rosto, e teu nome, teu coração, tua existência, tudo - o espaço evita e consome: e eu só conheço a tua ausência. Eu só conheço o que não vejo. E, nesse abismo do meu sonho, alheia a todo outro desejo, me decomponho e recomponho.

De que s√£o feitos os dias? - De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembran√ßas. Entre m√°goas sombrias, moment√Ęneos lampejos: vagas felicidades, inatuais esperan√ßas. De loucuras, de crimes, de pecados, de gl√≥rias - do medo que encadeia todas essas mudan√ßas. Dentro deles vivemos, dentro deles choramos, em duros desenlaces e em sinistras alian√ßas...

Leveza Leve é o pássaro: e a sua sombra voante, mais leve. E a cascata aérea de sua garaganta, mais leve. E o que se lembra, ouvindo-se deslizar seu canto, mais leve. E o desejo rápido desse mais antigo instante, mais leve. E a fuga invisível do amargo passante, mais leve.

Heran√ßa Eu vim de infinitos caminhos, e os meus sonhos choveram l√ļcido pranto pelo ch√£o. Quando √© que frutifica, nos caminhos infinitos, essa vida, que era t√£o viva, t√£o fecunda, porque vinha de um cora√ß√£o? E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos, do pranto que caiu dos meus olhos passados, que experi√™ncia, ou consolo, ou pr√™mio alcan√ßar√£o?

Gargalhada Homem vulgar! Homem de cora√ß√£o mesquinho! Eu te quero ensinar a arte sublime de rir. Dobra essa orelha grosseira, e escuta o ritmo e o som da minha gargalhada: Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! N√£o v√™s? √Č preciso jogar por escadas de m√°rmores baixelas de ouro. Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais, vergar a l√Ęmina das espadas e despeda√ßar est√°tuas, destruir as l√Ęmpadas, abater c√ļpulas, e atirar para longe os pandeiros e as liras... O riso magn√≠fico √© um trecho dessa m√ļsica desvairada. Mas √© preciso ter baixelas de ouro, compreendes? ¬ó e colares, e espelhos, e espadas e est√°tuas. E as l√Ęmpadas, Deus do c√©u! E os pandeiros √°geis e as liras sonoras e tr√™mulas... Escuta bem: Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! S√≥ de tr√™s lugares nasceu at√© hoje essa m√ļsica her√≥ica: do c√©u que venta, do mar que dan√ßa, e de mim.

Meu Sonho (Cecília Meireles) Parei as águas do meu sonho para teu rosto se mirar. Mas só a sombra dos meus olhos ficou por cima, a procurar... Os pássaros da madrugada não têm coragem de cantar, vendo o meu sonho interminável e a esperança do meu olhar. Procurei-te em vão pela terra, perto do céu, por sobre o mar. Se não chegas nem pelo sonho, por que insisto em te imaginar? Quando vierem fechar meus olhos, talvez não se deixem fechar. Talvez pensem que o tempo volta, e que vens, se o tempo voltar.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,que estão diante de cada janela,uns dizem que essas coisas não existem,outros que só existem diante das minhas janelas, e outros finalmente, que é preciso aprender a olhar,para poder vê-las assim...

Como se morre de velhice ou de acidente ou de doença, morro, Senhor, de indiferença. Da indiferença deste mundo onde o que se sente e se pensa não tem eco, na ausência imensa. Na ausência, areia movediça onde se escreve igual sentença para o que é vencido e o que vença. Salva-me, Senhor, do horizonte sem estímulo ou recompensa onde o amor equivale à ofensa. De boca amarga e de alma triste sinto a minha própria presença num céu de loucura suspensa. (Já não se morre de velhice nem de acidente nem de doença, mas, Senhor, só de indiferença.)

Sugest√£o Sede assim ¬ó qualquer coisa serena, isenta, fiel. Flor que se cumpre, sem pergunta. Onda que se esfor√ßa, por exerc√≠cio desinteressado. Lua que envolve igualmente os noivos abra√ßados e os soldados j√° frios. Tamb√©m como este ar da noite: sussurrante de sil√™ncios, cheio de nascimentos e p√©talas. Igual √† pedra detida, sustentando seu demorado destino. E √† nuvem, leve e bela, vivendo de nunca chegar a ser. √Ä cigarra, queimando-se em m√ļsica, ao camelo que mastiga sua longa solid√£o, ao p√°ssaro que procura o fim do mundo, ao boi que vai com inoc√™ncia para a morte. Sede assim qualquer coisa serena, isenta, fiel. N√£o como o resto dos homens.

Mulher ao espelho Hoje que seja esta ou aquela, pouco me importa. Quero apenas parecer bela, pois, seja qual for, estou morta. Já fui loura, já fui morena, já fui Margarida e Beatriz. Já fui Maria e Madalena. Só não pude ser como quis. Que mal faz, esta cor fingida do meu cabelo, e do meu rosto, se tudo é tinta: o mundo, a vida, o contentamento, o desgosto? Por fora, serei como queira a moda, que me vai matando. Que me levem pele e caveira ao nada, não me importa quando. Mas quem viu, tão dilacerados, olhos, braços e sonhos seu se morreu pelos seus pecados, falará com Deus. Falará, coberta de luzes, do alto penteado ao rubro artelho. Porque uns expiram sobre cruzes, outros, buscando-se no espelho.

No mistério do sem-fim Publicado em Cecilia Meireles às 14/04/2009 por kavorka No mistério do sem-fim equilibra-se um planeta. E, no planeta, um jardim, e, no jardim, um canteiro; no canteiro uma violeta, e, sobre ela, o dia inteiro, entre o planeta e o sem-fim, a asa de uma borboleta

Hoje me dei conta de que as pessoas vivem a esperar por algo E quando surge uma oportunidade Se dizem confusas e despreparadas Sentem que n√£o merecem Que o tempo certo ainda n√£o chegou E a vida passa E os momentos se acumulam como pap√©is sobre uma mesa Estamos nos preparando para qualquer coisa Mas ainda n√£o aprendemos a viver A arriscar por aquilo que queremos A sentir aquilo que sonhamos E assim adiamos nossas vidas por tempo indeterminado At√© que a vida se encarregue de decidir por n√≥s mesmos E percebemos o quanto perdemos E o tanto que poder√≠amos ter evitado Como somos tolos em nossos pensamentos limitados Em nossas emo√ß√Ķes contidas Em nossas a√ß√Ķes determinadas O ser humano se prende em si mesmo Por medo e desconfian√ßa Vive como coisa Num mundo de coisas O tempo esperado √© o agora Sua consci√™ncia lhe direciona Seus sentidos lhe alertam E suas emo√ß√Ķes n√£o mais s√£o desprezadas Antes que tudo acabe √Č preciso fazer iniciar Mesmo com dor e sofrimento Antes arriscar do que apenas sonhar.

Tenho fases,como a lua Fases de andar escondida, Fases de vir para a rua...

Ainda que sendo tarde e em v√£o, / perguntarei por que motivo / tudo quando eu quis de mais vivo / tinha por cima escrito: N√£o

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.

Liberdade, essa que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.

Viajo sozinha com o meu coração Não ando perdida, mas desencontrada Levo o meu rumo na minha mão

O vento é sempre o mesmo, mas sua resposta é diferente em cada folha. Somente a árvore seca fica imóvel entre borboletas e pássaros

Também é ser, deixar de ser assim.

Eu? Bebo o horizonte!

Para me refazer volto ao meu estado de fresca realidade, mal existo e se existo é com delicado cuidado.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

N√£o sejas o de hoje. N√£o suspires por ontens. N√£o queiras ser o amanh√£. Faz-te sem limites no tempo.

A minha inf√Ęncia de menina sozinha de-me duas coisas que parecem negativas, e, foram sempre positivas para mim:sil√™ncio e solid√£o.

Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar, nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento de transitoriedade de tudo é mesmo o fundamento da minha personalidade.

E minha alma, sem luz nem tenda, passa errante, na noite má, à procura de quem me entenda e de quem me consolará...

I ASSIM aos poucos vai sendo levada a tua Amiga, a tua Amada! E assim de longe ouvirás a cantiga da tua Amada, da tua Amiga. Abrem-se os olhos - e é de sombra a estrada para chegar-se à Amiga, à Amada! Fechem-se os olhos - e eis a estrada antiga a que levaria à Amada, à Amiga. (Se me encontrares novamente, nada te faça esquecer a Amiga, a Amada! Se te encontrar, pode ser que eu consiga ser para sempre a Amada Amiga. II E assim aos poucos vai sendo levada a tua Amiga, a tua Amada! E talvez apenas uma estrelinha siga a tua Amada, a tua Amiga. Para muito longe vai sendo levada, desfigurada e transfigurada. Sem que ela mesma já não consiga dizer que era a tua profunda Amiga. Sem que possa ouvir o que tua alma brade que era a tua Amiga e que era a tua Amada. Ah! do que disse nada mais se diga. Vai-se a tua Amada - vai-se a tua Amiga! Ah! do que era tanto, não resta mais nada... Mas houve essa Amiga! mas houve essa Amada!

ASSIM MORO em meu sonho: como um peixe no mar. O que sou √© o que vejo. Vejo e sou meu olhar. √Āgua √© o meu pr√≥prio corpo, simplesmente mais denso. E meu corpo √© minha alma, e o que sinto √© o que penso. Assim vou no meu sonho. Se outra fui, se perdeu. √Č o mundo que me envolve? Ou sou contorno seu? N√£o √© noite nem dia, n√£o √© morte nem vida: √© viagem noutro mapa, sem volta nem partida. √ď c√©u da liberdade, por onde o cora√ß√£o j√° nem sofre, sabendo que bateu sempre em v√£o.

Tudo é vivo e tudo fala ao nosso redor, embora com vida e voz que não são humanas, mas que podemos aprender a escutar, porque muitas vezes essa linguagem secreta ajuda a esclarecer o nosso próprio mistério.

Se voc√™ errou Se voc√™ errou, pe√ßa desculpas... √Č dif√≠cil perdoar? Mas quem disse que √© f√°cil se arrepender? Se voc√™ sente algo diga... √Č dif√≠cil se abrir? Mas quem disse que √© f√°cil encontrar algu√©m que queira escutar? Se algu√©m reclama de voc√™, ou√ßa... √Č dif√≠cil ouvir certas coisas? Mas quem disse que √© f√°cil ouvir voc√™? Se algu√©m te ama, ame-o... √Č dif√≠cil entregar-se? Mas quem disse que √© f√°cil ser feliz? Nem tudo √© f√°cil na vida... Mas, com certeza, nada √© imposs√≠vel...

Tamb√©m √© ser, deixar de ser assim (...) Eu deixo aroma at√© em meus espinhos ao longe o vento vai falando em mim E por perder-me √© que me v√£o lembrando √Č por desfolhar-me que n√£o tenho fim.

Ai, palavras, ai, palavras, que estranha pot√™ncia a vossa! Todo o sentido da vida principia √† vossa porta; o mel do amor cristaliza seu perfume em vossa rosa; sois o sonho e sois a aud√°cia, cal√ļnia, f√ļria, derrota...¬Ē

Primeiro Motivo da Rosa Vejo-te em seda e nácar, e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera, toda a Beleza em lágrimas por ser bela e ser frágil. Meus olhos te ofereço: espelho para face que terás, no meu verso, quando, depois que passes, jamais ninguém te esqueça. Então, de seda e nácar, toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero o rosto meu, nas lágrimas do teu orvalho... E frágil.

No√ß√Ķes Entre mim e mim, h√° vastid√Ķes bastantes para a navega√ß√£o dos meus desejos afligidos. Descem pela √°gua minhas naves revestidas de espelhos. Cada l√Ęmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge. Mas, nesta aventura do sonho exposto √† correnteza, s√≥ recolho o gosto infinito das respostas que n√£o se encontram. Virei-me sobre a minha pr√≥pria experi√™ncia, e contemplei-a. Minha virtude era esta err√Ęncia por mares contradit√≥rios, e este abandono para al√©m da felicidade e da beleza. √ď meu Deus, isto √© minha alma: qualquer coisa que flutua sobre este corpo ef√™mero e prec√°rio, como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e in√ļmera...

Renova-te. Renasce em ti mesmo. Multiplica os teus olhos, para verem mais. Multiplica os teus bra√ßos para semeares tudo. Destr√≥i os olhos que tiverem visto. Cria outros, para as vis√Ķes novas. Destr√≥i os bra√ßos que tiverem semeado, para se esquecerem de colher. S√™ sempre o mesmo. Sempre outro. Mas sempre alto. Sempre longe. E dentro de tudo.

A bailarina Esta menina t√£o pequenina quer ser bailarina. N√£o conhece nem d√≥ nem r√© mas sabe ficar na ponta do p√©. N√£o conhece nem mi nem f√° Mas inclina o corpo para c√° e para l√° N√£o conhece nem l√° nem si, mas fecha os olhos e sorri. Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar e n√£o fica tonta nem sai do lugar. P√Ķe no cabelo uma estrela e um v√©u e diz que caiu do c√©u. Esta menina t√£o pequenina quer ser bailarina. Mas depois esquece todas as dan√ßas, e tamb√©m quer dormir como as outras crian√ßas.

Perdoa-me, folha seca, não posso cuidar de ti. Vim para amar neste mundo, e até do amor me perdi. (...) Tu és a folha de outono voante pelo jardim. Deixo-te a minha saudade - a melhor parte de mim.

Desfaze-te da vaidade triste de falar. Pensa,completamente silencioso, Até a glória de ficar silencioso, Sem pensar.

E é nisto que se resume o sofrimento: cai a flor, — e deixa o perfume no vento!

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa: Fizeste para sempre a vida ficar triste: Porque um dia se vê que as horas todas passam, e um tempo despovoado e profundo, persiste.

Tão liso está meu coração, tão lisos, meus pensamentos, que as lágrimas rolarão, e os contentamentos.

Quem nasceu mesmo moreno, moreno de vocação gosta de mar e sereno, de estrela e de violão. Pode até gostar de alguém Mas nunca deixa a solidão.

Nunca tive os olhos tão claros e o sorriso em tanta loucura. Sinto-me toda igual às árvores: solítária, perfeita e pura

Tenho fases como a lua: fases de andar escondida, fases de andar na rua

Aprendi com as primaveras a me deixar cortar e voltar inteira.

Eu não dei por esta mudança Tão simples, tão certa, tão fácil. Em que espelho Ficou perdida A minha face?

Quem falou de primavera sem ter visto seu sorriso, falou sem saber o que era.

Encostei-me a ti, sabendo que eras somente onda. Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti. Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino, frágil, Fiquei sem poder chorar quando caí.

Eu n√£o tinha este rosto de hoje assim calmo,assim triste magro nem esses olhos tao vazios.

Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.

Os que sabem o que querem e querem o que têm! Sonhar um sonho a dois,e nunca desistir da busca de ser feliz, é para poucos!

Desenho Tra√ßa a reta e a curva, a quebrada e a sinuosa Tudo √© preciso. De tudo viver√°s. Cuida com exatid√£o da perpendicular e das paralelas perfeitas. Com apurado rigor. Sem esquadro, sem n√≠vel, sem fio de prumo, tra√ßar√°s perspectivas, projetar√°s estruturas. N√ļmero, ritmo, dist√Ęncia, dimens√£o. Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua mem√≥ria. Construir√°s os labirintos impermanentes que sucessivamente habitar√°s. Todos os dias estar√°s refazendo o teu desenho. N√£o te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida. E nem para o teu sepulcro ter√°s a medida certa. Somos sempre um pouco menos do que pens√°vamos. Raramente, um pouco mais.

Tentativa Andei pelo mundo no meio dos homens. uns compravam jóias, uns compravam pão. Não houve mercado nem mercadoria que seduzisse a minha vaga mão. Calado, Calado, me dia, Calado. por onde se encontra minha sedução. Alguns sorririam, muitos soluçaram, uns, porque tiveram, outros porque não. Calado, Calado, eu, que não quis nada, por que ando com pena do meu coração? Se não vou ser Santa, Calado, Calado, os sonhos de todos por que não me dão? Calado, Calado, perderam meus dias? ou gastei-os todos, só por distração? Não sou dos que levam: sou coisa levada ... E nem sei daqueles que me levarão... Calado, me diga se devo ir-me embora, para que outro mundo e em que embarcação!

Nem tudo √© f√°cil √Č dif√≠cil fazer algu√©m feliz, assim como √© f√°cil fazer triste. √Č dif√≠cil dizer eu te amo, assim como √© f√°cil n√£o dizer nada √Č dif√≠cil valorizar um amor, assim como √© f√°cil perd√™-lo para sempre. √Č dif√≠cil agradecer pelo dia de hoje, assim como √© f√°cil viver mais um dia. √Č dif√≠cil enxergar o que a vida traz de bom, assim como √© f√°cil fechar os olhos e atravessar a rua. √Č dif√≠cil se convencer de que se √© feliz, assim como √© f√°cil achar que sempre falta algo. √Č dif√≠cil fazer algu√©m sorrir, assim como √© f√°cil fazer chorar. √Č dif√≠cil colocar-se no lugar de algu√©m, assim como √© f√°cil olhar para o pr√≥prio umbigo.

Mundo Engra√ßado O mundo est√° cheio de coisas engra√ßadas; quem se quiser distrair n√£o precisa ir √† Pas√°rgada do Bandeira, nem √† minha Ilha do Nanja; n√£o precisa sair de sua cidade, talvez nem da sua rua, nem da sua pessoa! (Somos engra√ßad√≠ssimos, tamb√©m, com tantas d√ļvidas, aud√°cias, temores, ignor√Ęncia, convic√ß√Ķes...) Abre-se um jornal ¬Ė e tudo √© engra√ßado, mesmo o que parece triste. Cada fato, cada racioc√≠nio, cada opini√£o nos faria sorrir por muitas horas, se ainda tiv√©ssemos horas dispon√≠veis. H√° os mentirosos, por exemplo. E pode haver coisa mais engra√ßada que o mentiroso? Ele diz isto e aquilo, com a maior seriedade; fala-nos de seus planos; de seus amigos (poderosos, influentes, ricos); queixa-se de algumas persegui√ß√Ķes (que ali√°s, profundamente despreza); √†s vezes conta-nos que foi roubado em algum quadro c√©lebre ou numa pedra preciosa, oferecida √† sua bisav√≥ pelo Primeiro Ministro da Cochinchina. O mentiroso conhece as maiores personalidades do Mundo ¬Ė trata-as at√© por tu! Seus amores s√£o a coisa mais po√©tica do s√©culo. Suas futuras viagens prometem ser as mais sensacionais, depois dessas banalidades de UIisses e Simbad... Certamente escrever√° o seu di√°rio, mas n√£o o publicar√° jamais, porque √© preciso um papel que n√£o existe, um editor que ainda n√£o nasceu e um leitor que ter√° de sofrer v√°rias encarna√ß√Ķes para ser digno de o entender. Em geral os mentirosos s√£o muito agrad√°veis, desde que n√£o se tome como verdade nada do que dizem. E esse √© o inconveniente: √†s vezes, leva-se algum tempo para se fazer a identifica√ß√£o. Uma vez feita, por√©m, que maravilha! ¬Ė √© s√≥ deix√°-los falar. √Č como um sonho, uma hist√≥ria de aventuras, um filme colorido. H√° tamb√©m os posudos. Os posudos ainda s√£o mais engra√ßados que os mentirosos e geralmente acumulam as fun√ß√Ķes. O que os torna mais engra√ßados √© serem t√£o solenes. Os posudos funcion√°rios s√£o deslumbrantes! Como se sentam √† sua mesa! Como consertam os √≥culos! Que coisas dizem! As coisas que dizem s√£o poemas √©picos com a fita posta ao contr√°rio. N√£o se entende nada ¬Ė mas que diapas√£o! Que delicadas barafundas! Que sons! Que ritmos! Seus discursos e as palmas que os acompanham conseguem realizar o prod√≠gio de serem a coisa mais c√īmica da terra pronunciada no tom mais s√©rio, mais grave, mais tr√°gico ¬Ė de modo que o ouvinte, que rebenta de rir por dentro, sofre uma atrapalha√ß√£o emocional e consegue manter-se est√°tico, paralisado, equivocado. Os posudos, por√©m, s√£o menos agrad√°veis que os simples mentirosos. Os mentirosos t√™m um jeito fr√≠volo, como se andassem acompanhados de um criado que anunciasse: N√£o creiam em nada do que o meu amo diz! Mas os posudos levam um s√©q√ľito de criados, todos posudos tamb√©m, que recolhem nas sacolas, grandes e pequenas gorjetas, porque uma das qualidades do posudo √© andar sempre com muito dinheiro ¬Ė que n√£o √© seu!

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,que estão diante de cada janela,uns dizem que essas coisas não existem,outros que só existem diante das minhas janelas, e outros finalmente, que é preciso aprender a olhar,para poder vê-las assim...

CANTEIROS Quando penso em você fecho os olhos de saudade Tenho tido muita coisa, menos a felicidade Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento Pode ser até manhã, cedo claro feito dia mas nada do que me dizem me faz sentir alegria Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza E deixemos de coisa, cuidemos da vida, Pois se não chega a morte ou coisa parecida E nos arrasta moço, sem ter visto a vida.

Não faças de ti Um sonho a se realizar. Vai. Sem caminho marcado. Tu é o de todos os caminhos. Sê apenas uma presença. Invisível presença silenciosa. Todas as coisas esperam a luz, sem dizerem que a esperam. Sem saberem que existe. Todas as coisas esperarão por ti, Sem te falarem. Sem lhes falares.

Frase de Realiza√ß√£o de um Sonho Encontrados 730 frases e pensamentos: frase realiza√ß√£o sonho Tenho em mim todos os sonhos do mundo Fernando Pessoa Adicionar √† minha cole√ß√£oNa cole√ß√£o de 925 pessoas Mais Informa√ß√£oSonhar √© acordar-se para dentro. M√°rio Quintana Adicionar √† minha cole√ß√£oNa cole√ß√£o de 430 pessoas Mais Informa√ß√£oSonha e ser√°s livre de esp√≠rito... luta e ser√°s livre na vida. Che Guevara Adicionar √† minha cole√ß√£oNa cole√ß√£o de 242 pessoas Mais Informa√ß√£oN√≥s somos do tecido de que s√£o feitos os sonhos. William Shakespeare Adicionar √† minha cole√ß√£oNa cole√ß√£o de 162 pessoas Mais Informa√ß√£oO futuro pertence √†queles que acreditam na beleza de seus sonhos. Elleanor Roosevelt Adicionar √† minha cole√ß√£oNa cole√ß√£o de 140 pessoas Mais Informa√ß√£oNunca se afaste de seus sonhos. Porque se eles forem, voc√™ continuara vivendo, mas ter√° deixado de existir. mark Twain Adicionar √† minha cole√ß√£oNa cole√ß√£o de 98 pessoas Mais Informa√ß√£oSe podemos sonhar, tamb√©m podemos tornar nossos sonhos realidade. Walt Disney Adicionar √† minha cole√ß√£oNa cole√ß√£o de 96 pessoas Mais Informa√ß√£oGosto daquele que sonha o imposs√≠vel. Johann Goethe Adicionar √† minha cole√ß√£oNa cole√ß√£o de 67 pessoas Mais Informa√ß√£oFica estabelecida a possibilidade de sonhar coisas imposs√≠veis e de caminhar livremente em dire√ß√£o aos sonhos. Luciano Luppi Adicionar √† minha cole√ß√£oNa cole√ß√£o de 16 pessoas Mais Informa√ß√£oAs Vezes constru√≠mos sonhos em cima de grandes pessoas... O tempo passa... e descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torn√°-los reais! Bob Marley Adicionar √† minha cole√ß√£oNa cole√ß√£o de 4202 pessoas Mais Informa√ß√£oO Amor... √Č dif√≠cil para os indecisos. √Č assustador para os medrosos. Avassalador para os apaixonados! Mas, os vencedores no amor s√£o os fortes. Os que sabem o que querem e querem o que t√™m! Sonhar um sonho a dois, e nunca desistir da busca de ser feliz, √© para poucos!!

Quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

COMPRAS DE NATAL São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.

Epigrama Narciso,foste caluniado pelos homens, por teres deixado cair, uma tarde, na água incolor, a desfeita grinalda do teu sorriso. Narciso, eu sei que não sorrias para o teu vulto, dentro da onda: sorrias para a onda, apenas, que enlouquecera, e que sonhava gerar no ritmo do seu corpo, ermo e indeciso, a estátua de cristal que, sobre a tarde, a contemplava, florindo-a para sempre, com o seu efêmero sorriso...

...Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda...

N√£o sou alegre nem sou triste: sou poeta.

SONHOS DE MENINA A flor com que a menina sonha esta no sonho? ou na fronha? A lua com que a menina sonha é o lindo do sonho ou a lua da fronha?

Penso que sendo o céu redondo, um dia nos encontraremos...

Se n√£o chegas nem pelo sonho, por que insisto em te imaginar?

Permite que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo.

Sonhar um sonho a dois, e nunca desistir da busca de ser feliz... é para pouco!

Não queiras ter pátria, não dividas a terra,não arranques pedaços ao mar. Nasce bem alto, que todas as coisas serão tuas...

Eu quero a mem√≥ria acesa depois da ang√ļstia apagada.

Chorei pelas gentes perdidas de loucura e orgulho. Depois por minhas vis√Ķes, por meus gestos. E, finalmente, por n√≥s dois.

Minha primeira lágrima caiu de dentro dos meus olhos. Tive medo de a enxugar : para não saberes que havia caído.

Somos um ou dois? As vezes nenhum. E em seguida tantos!

Navego pela memória sem margens.

Meu coração tombou na vida, tal qual uma estrela ferida pela flecha de um caçador.

Se voc√™ errou, pe√ßa desculpas... √Č dif√≠cil pedir perd√£o? Mas quem disse que √© f√°cil ser perdoado?

N√£o vou deixar a porta entre aberta. Vou escancara-la ou fecha-la de vez. Porque pelos v√£os, brechas e fendas...passam semiventos, meias verdades e muita insensatez.

Hoje desaprendo o que tinha aprendido até ontem e que amanhã recomeçarei a aprender

H√° pessoas que nos falam e nem as escutamos, h√° pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam, mas h√° pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre.

H√° um arco-√≠ris ligando o que sonha e o que entende ¬Ė e por essa fr√°gil ponte circula um mundo maravilhoso e terr√≠vel, que os n√£o iniciados apenas de longe percebem, mas de cuja grandeza se v√™em separados por muralhas estranhas, que tanto afastam como atraem.

Essas e outras mortes ocorridas na fam√≠lia me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a morte que docemente aprendi essas rela√ß√Ķes entre o Ef√™mero e o Eterno. Em toda vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A no√ß√£o ou sentimento da transitoriedade de tudo √© o fundamento da minha personalidade.

Provação. Agora eu entendo o que é provação. Provação: significa que a vida está me provando. Mas provação: significa também que estou provando. E provar pode se transformar numa sede cada vez mais insaciável.

No √ļltimo andar √© mais bonito: do √ļltimo andar se v√™ o mar. √Č l√° que eu quero morar. O √ļltimo andar √© muito longe: custa-se muito a chegar. Mas √© l√° que eu quero morar. Todo o c√©u fica a noite inteira sobre o √ļltimo andar √Č l√° que eu quero morar. Quando faz lua no terra√ßo fica todo o luar. √Č l√° que eu quero morar. Os passarinhos l√° se escondem para ningu√©m os maltratar: no √ļltimo andar. De l√° se avista o mundo inteiro: tudo parece perto, no ar. √Č l√° que eu quero morar: no √ļltimo andar.

Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: Em que espelho ficou perdida a minha face?

O pensamento é triste; o amor insuficiente; e eu quero sempre mais do quem nos milagres. Deixo que a terra me sustente: guardo o resto para mais tarde. Deus não fala comigo- e eu sei que me conhece. A antigos ventos dei as lágrimas que tinha. A estrela sobe, a estrela desce... - espero a minha própria vinda. (navego pela memória sem margens. alguém conta a minha história e alguém mata os personagens.)

TIMIDEZ Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve... - mas só esse eu não farei. Uma palavra caída das montanhas dos instantes desmancha todos os mares e une as terras mais distantes... - palavra que não direi. Para que tu me adivinhes, entre os ventos taciturnos, apago meus pensamentos, ponho vestidos noturnos, - que amargamente inventei. E, enquanto não me descobres, os mundos vão navegando nos ares certos do tempo, até não se sabe quando... e um dia me acabarei.

Não faças de ti um sonho a realizar.Vai. Sem caminho marcado. Tu és o de todos os caminhos.

O que está perdido na vida Vive atráves da essência do seu ser Que é sustentado pelo poeta Na memória e no verso

No mistério do sem-fim Equilibra-se um planeta E, no jardim, um canteiro No canteiro, uma violeta E, sobre ela, o dia inteiro A asa de uma borboleta

De tanto olhar para longe, não vejo o que passa perto, meu peito é puro deserto. Subo monte, desço monte. Eu ando sozinha ao longo da noite. Mas a estrela é minha.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa: Fizeste para sempre a vida ficar triste: Porque um dia se vê que as horas todas passam,e um tempo despovoado e profundo, persiste.

Se volto sobre o meu passo, √© j√° dist√Ęncia perdida. Meu cora√ß√£o, coisa de a√ßo, come√ßa a achar um cansa√ßo esta procura de espa√ßo para o desenho da vida. in Antologia Po√©tica

Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.

√Č dif√≠cil fazer algu√©m sorrir,assim como √© f√°cil fazer chorar.

Pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças.

Permita que eu que me conforme em ser sozinha.

Se as respostas foram dadas e você não faz parte da solução, então é porque o problema é você!

¬ďAcima de n√≥s, em redor de n√≥s as palavras voam e √†s vezes pousam.¬Ē

...Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda...

Canção Não te fies do tempo nem da eternidade, que as nuvens me puxam pelos vestidos que os ventos me arrastam contra o meu desejo! Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã morro e não te vejo! Não demores tão longe, em lugar tão secreto, nácar de silêncio que o mar comprime, o lábio, limite do instante absoluto! Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã eu morro e não te escuto! Aparece-me agora, que ainda reconheço a anêmona aberta na tua face e em redor dos muros o vento inimigo... Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã eu morro e não te digo...

Nem tudo √© f√°cil √Č dif√≠cil fazer algu√©m feliz, assim como √© f√°cil fazer triste. √Č dif√≠cil dizer eu te amo, assim como √© f√°cil n√£o dizer nada √Č dif√≠cil valorizar um amor, assim como √© f√°cil perd√™-lo para sempre. √Č dif√≠cil agradecer pelo dia de hoje, assim como √© f√°cil viver mais um dia. √Č dif√≠cil enxergar o que a vida traz de bom, assim como √© f√°cil fechar os olhos e atravessar a rua. √Č dif√≠cil se convencer de que se √© feliz, assim como √© f√°cil achar que sempre falta algo. √Č dif√≠cil fazer algu√©m sorrir, assim como √© f√°cil fazer chorar. √Č dif√≠cil colocar-se no lugar de algu√©m, assim como √© f√°cil olhar para o pr√≥prio umbigo. Se voc√™ errou, pe√ßa desculpas... √Č dif√≠cil pedir perd√£o? Mas quem disse que √© f√°cil ser perdoado? Se algu√©m errou com voc√™, perdoa-o... √Č dif√≠cil perdoar? Mas quem disse que √© f√°cil se arrepender? Se voc√™ sente algo, diga... √Č dif√≠cil se abrir? Mas quem disse que √© f√°cil encontrar algu√©m que queira escutar? Se algu√©m reclama de voc√™, ou√ßa... √Č dif√≠cil ouvir certas coisas? Mas quem disse que √© f√°cil ouvir voc√™? Se algu√©m te ama, ame-o... √Č dif√≠cil entregar-se? Mas quem disse que √© f√°cil ser feliz? Nem tudo √© f√°cil na vida...Mas, com certeza, nada √© imposs√≠vel Precisamos acreditar, ter f√© e lutar para que n√£o apenas sonhemos, Mas tamb√©m tornemos todos esses desejos, realidade!!!

CAN√áAO EXC√äNTRICA Ando √† procura de espa√ßo para o desenho da vida. Em n√ļmeros me embara√ßo e perco sempre a medida. Se penso encontrar sa√≠da, em vez de abrir um compasso, protejo-me num abra√ßo e gero uma despedida. Se volto sobre meu passo, √© dist√Ęncia perdida. Meu cora√ß√£o, coisa de a√ßo, come√ßa a achar um cansa√ßo esta procura de espa√ßo para o desenho da vida. J√° por exausta e descrida n√£o me animo a um breve tra√ßo: - saudosa do que n√£o fa√ßo, - do que fa√ßo, arrependida.

Canção da tarde no campo Caminho do campo verde estrada depois de estrada. Cerca de flores, palmeiras, serra azul, água calada. Eu ando sozinha no meio do vale. Mas a tarde é minha. Meus pés vão pisando a terra Que é a imagem da minha vida: tão vazia, mas tão bela, tão certa, mas tão perdida! Eu ando sozinha por cima de pedras. Mas a tarde é minha. Os meus passos no caminho são como os passos da lua; vou chegando, vai fugindo, minha alma é a sombra da tua. Eu ando sozinha por dentro de bosques. Mas a fonte é minha. De tanto olhar para longe, não vejo o que passa perto, meu peito é puro deserto. Subo monte, desço monte. Eu ando sozinha ao longo da noite. Mas a estrela é minha.

O instante existe (...) Não sou alegre nem sou triste: (...) Não sito gozo nem tormento. Atravesso noite e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço. não sei, não sei. Não sei se fico ou passo.

Lamento do oficial por seu cavalo morto N√≥s merecemos a morte, porque somos humanos e a guerra √© feita pelas nossas m√£os, pelo nossa cabe√ßa embrulhada em s√©culos de sombra, por nosso sangue estranho e inst√°vel, pelas ordens que trazemos por dentro, e ficam sem explica√ß√£o. Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia, os c√°lculos do gesto, embora sabendo que somos irm√£os. Temos at√© os √°tomos por c√ļmplices, e que pecados de ci√™ncia, pelo mar, pelas nuvens, nos astros! Que del√≠rio sem Deus, nossa imagina√ß√£o! E aqui morreste! Oh, tua morte √© a minha, que, enganada, recebes. N√£o te queixas. N√£o pensas. N√£o sabes. Indigno, ver parar, pelo meu, teu inofensivo cora√ß√£o. Animal encantado - melhor que n√≥s todos! - que tinhas tu com este mundo dos homens? Aprendias a vida, pl√°cida e pura, e entrela√ßada em carne e sonho, que os teus olhos decifravam... Rei das plan√≠cies verdes, com rios tr√™mulos de relinchos... Como vieste morrer por um que mata seus irm√£os! (in Mar Absoluto e outros poemas: Retrato Natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.)

O MUNDO DOS HOMENS ENVOLVE-ME O mundo dos homens envolve-me, porém não me abraça. Eu não tenho nada com a onda, mesmo que naufrague dentro dela. Se tu não sentes esta coisa simples que eu sinto, esta unidade que não se rompe, mesmo quando compreende e participa... (Então, ó deuses, de que somos, de quem somos, quem somos, e como provaremos sermos todos irmãos?)

AT√Č QUANDO TER√ĀS, MINHA ALMA, ESTA DO√áURA At√© quando ter√°s, minha alma, esta do√ßura, este dom de sofrer, este poder de amar, a for√ßa de estar sempre _ insegura _ segura como a flecha que segue a trajet√≥ria obscura, fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?

FLOR JOGADA AO RIO Entre eclusa e esparavel faremos a canção triste para uma flor de papel. O esparavel a amparar-te, a eclusa a esperar por ti e o tempo amargo a quebrar-te. Flor imaginária _ flor que vais viver para sempre só de imaginário amor. Por isso, entre o esparavel e a eclusa ficas tão triste como a canção num papel.

BERCEUSE PARA QUEM MORRE Dorme... Dorme... Rolam pelas vertentes das montanhas, as estrelas cadentes... Meu amor, a noite mansa dan√ßa,dan√ßa no sil√™ncio do Jardim... Lento, um cipreste balan√ßa... Tu, descansa, meu amor, perto de mim... Dorme, dorme como as rosas noturnas, quando h√° trevas perigosas de furnas... Meu amor, n√£o se descreve esta neve que dos c√©us descendo vem... √Č um beijo breve... O mais breve... O mais leve... Que n√£o se deu em ningu√©m... Dorme... O luar se espalha triste na altura... Quem sabe, √©, tudo que existe, loucura?

Se não chover nem ventar, se a lua e o sol forem limpos e houver festa pelo mar, - ir-te-ei visitar. Se o chão se cobrir de flor, e o endereço estiver claro, e o mundo livre de dor, - ir-te-ei ver, amor. Se o tempo não tiver fim, se a terra e o céu se encontrarem à porta do teu jardim - espera por mim. Cantarei minha canção com violas de eternamente que são de alma e em alma estão. - De outro modo, não.

ESPELHO CEGO Onde a face de prata e cristal puro, e aquela deslumbrante exatidão que revela o mais breve aceno obscuro e o compasso das lágrimas, e a seta que de repente galga os céus do olhar e em margens sobre-humanas se projeta? Onde as auroras? Onde, os labirintos, - e o frêmito, que rasga o peso ao mar, - e as grutas, de áureos lustres e aéreos plintos? Ah, - que fazes do rosto que te entrego? - Musgos imóveis sobre a sua luz... Limos...Liquens - Opaco espelho cego!

√Č preciso amar as pessoas e usar as coisas e n√£o, amar as coisas e usar as pessoas

GATO NA GARAGEM Que imensa preguiça! Um gato se estica longo, de pelica, de pluma e peliça. A noite é de tubos de rodas e cubos borracha e aço curvos em subsolos turvos. Que noite! uma poça de sombra na boca. Cega, se alvoroça e infla, a pupila oca. Luminosos manda seus olhos; verde anda em luz; anda e nada e é dono do nada. A noite postiça! E o gato se estica em sua pelica, em sua peliça.

CONHE√áO A RESID√äNCIA DA DOR Conhe√ßo a resid√™ncia da dor. √Č um lugar afastado, Sem vizinhos, sem conversa, quase sem l√°grimas, Com umas imensas vig√≠lias, diante do c√©u. A dor n√£o tem nome, N√£o se chama, n√£o atende. Ela mesma √© solid√£o: nada mostra, nada pede, n√£o precisa. Vem quando quer. O rosto da dor est√° voltado sobre um espelho, Mas n√£o √© rosto de corpo, Nem o seu espelho √© do mundo. Conhe√ßo pessoalmente a dor. A sua resid√™ncia, longe, em caminhos inesperados. √Äs vezes sento-me √† sua porta, na sombra das suas √°rvores. E ou√ßo dizer: ¬ďQuem visse, como v√™s, a dor, j√° n√£o sofria¬Ē. E olho para ela, imensamente. Conhe√ßo h√° muito tempo a dor. Conhe√ßo-a de perto. Pessoalmente.

HUMILDADE Tanto que fazer! livros que n√£o se l√™em, cartas que n√£o se escrevem, l√≠nguas que n√£o se aprendem, amor que n√£o se d√°, tudo quanto se esquece. Amigos entre adeuses, crian√ßas chorando na tempestade, cidad√£os assinando pap√©is, pap√©is, pap√©is... at√© o fim do mundo assinando pap√©is. E os p√°ssaros detr√°s de grades de chuva. E os mortos em redoma de c√Ęnfora. (E uma can√ß√£o t√£o bela!) Tanto que fazer! E fizemos apenas isto. E nunca soubemos quem √©ramos, nem pra qu√™.

OS MORTOS SOBEM AS ESCADAS Os mortos sobem as escadas, sorrindo com seus claros dentes. Alegrias que nunca tiveram quando eram vivos e presentes, felicidades que apenas sonharam e foram lágrimas somente. Os mortos sobem as escadas: inesperados visitantes vindos dos reinos sem fronteiras às nossas casas, dessemelhantes. Ai, bem se vê que não estão vendo que um vivo é um morto mais distante!

TODOS ACORDAMOS TRISTES Todos acordamos tristes e impacientes: que melancolia desceu na chuva da noite? Que sonhos teve cada um de nós, já esquecidos e ainda atuantes? Que anjos amargos ficaram à nossa cabeceira? Todos acoradamos com o coração pesado e os lábios aflitos. Que bebida acerba nos foi vertida dos céus? Que confidências nos fizeram os mortos e os Santos? Nossos olhos abriram-se a custo, sob muito sal. Nossos braços estavam sem força, ao despertar do dia. Por que montanhas caminhamos, de íngreme pedra? Que desertos atravessamos, de vento e areia? Em que mares deixamos a sombra do nosso vulto? Acordamos despojados, divididos, dolentes, e, exaustos, começamos a recompor aquilo que, sem nenhuma certeza, supomos, no entanto, ser, em alma e esperança.

√ď MEU DEUS √ď meu Deus, se esta √© a dist√Ęncia qu separa a mocidade da inf√Ęncia, se s√£o teus estes modos de verdade, que outros hei de querer meus? √ď meu Deus, se este √© o caminho que tra√ßa a tua bondade, devagarinho farei seus meu amor, minha saudade, e em tudo serei adeus.

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos só em nós mesmos ou só nos outros. […]

√Č dif√≠cil entregar-se? Mas quem disse que √© f√°cil ser feliz? Nem tudo √© f√°cil na vida...Mas, com certeza, nada √© imposs√≠vel Precisamos acreditar, ter f√© e lutar para que n√£o apenas sonhemos, Mas tamb√©m tornemos todos esses desejos, realidade!

Recordação Agora, o cheiro áspero das flores leva-me os olhos por dentro de suas pétalas. Eram assim teus cabelos; tuas pestanas eram assim, finas e curvas. As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo, tinham a mesma exaltação de água secreta, de talos molhados, de pólen, de sepulcro e de ressurreição. E as borboletas sem voz dançavam assim veludosamente. Restitui-te na minha memória, por dentro das flores! Deixa virem teus olhos, como besouros de ónix, tua boca de malmequer orvalhado, e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios, com suas estrelas e cruzes, e muitas coisas tão estranhamente escritas nas suas nervuras nítidas de folha, - e incompreensíveis, incompreensíveis.