Sobre o Autor

Cecília Meireles

Cecília Meireles foi uma poetisa e jornalista, e é considerada umas das maiores escritoras brasileiras.

Recordação Agora, o cheiro áspero das flores leva-me os olhos por dentro de suas pétalas. Eram assim teus cabelos; tuas pestanas eram assim, finas e curvas. As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo, tinham a mesma exaltação de água secreta, de talos molhados, de pólen, de sepulcro e de ressurreição. E as borboletas sem voz dançavam assim veludosamente. Restitui-te na minha memória, por dentro das flores! Deixa virem teus olhos, como besouros de ónix, tua boca de malmequer orvalhado, e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios, com suas estrelas e cruzes, e muitas coisas tão estranhamente escritas nas suas nervuras nítidas de folha, - e incompreensíveis, incompreensíveis.

É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz? Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível Precisamos acreditar, ter fé e lutar para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos, realidade!

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos só em nós mesmos ou só nos outros. […]

Ó MEU DEUS Ó meu Deus, se esta é a distância qu separa a mocidade da infância, se são teus estes modos de verdade, que outros hei de querer meus? Ó meu Deus, se este é o caminho que traça a tua bondade, devagarinho farei seus meu amor, minha saudade, e em tudo serei adeus.

TODOS ACORDAMOS TRISTES Todos acordamos tristes e impacientes: que melancolia desceu na chuva da noite? Que sonhos teve cada um de nós, já esquecidos e ainda atuantes? Que anjos amargos ficaram à nossa cabeceira? Todos acoradamos com o coração pesado e os lábios aflitos. Que bebida acerba nos foi vertida dos céus? Que confidências nos fizeram os mortos e os Santos? Nossos olhos abriram-se a custo, sob muito sal. Nossos braços estavam sem força, ao despertar do dia. Por que montanhas caminhamos, de íngreme pedra? Que desertos atravessamos, de vento e areia? Em que mares deixamos a sombra do nosso vulto? Acordamos despojados, divididos, dolentes, e, exaustos, começamos a recompor aquilo que, sem nenhuma certeza, supomos, no entanto, ser, em alma e esperança.

OS MORTOS SOBEM AS ESCADAS Os mortos sobem as escadas, sorrindo com seus claros dentes. Alegrias que nunca tiveram quando eram vivos e presentes, felicidades que apenas sonharam e foram lágrimas somente. Os mortos sobem as escadas: inesperados visitantes vindos dos reinos sem fronteiras às nossas casas, dessemelhantes. Ai, bem se vê que não estão vendo que um vivo é um morto mais distante!

HUMILDADE Tanto que fazer! livros que não se lêem, cartas que não se escrevem, línguas que não se aprendem, amor que não se dá, tudo quanto se esquece. Amigos entre adeuses, crianças chorando na tempestade, cidadãos assinando papéis, papéis, papéis... até o fim do mundo assinando papéis. E os pássaros detrás de grades de chuva. E os mortos em redoma de cânfora. (E uma canção tão bela!) Tanto que fazer! E fizemos apenas isto. E nunca soubemos quem éramos, nem pra quê.

CONHEÇO A RESIDÊNCIA DA DOR Conheço a residência da dor. É um lugar afastado, Sem vizinhos, sem conversa, quase sem lágrimas, Com umas imensas vigílias, diante do céu. A dor não tem nome, Não se chama, não atende. Ela mesma é solidão: nada mostra, nada pede, não precisa. Vem quando quer. O rosto da dor está voltado sobre um espelho, Mas não é rosto de corpo, Nem o seu espelho é do mundo. Conheço pessoalmente a dor. A sua residência, longe, em caminhos inesperados. Às vezes sento-me à sua porta, na sombra das suas árvores. E ouço dizer: “Quem visse, como vês, a dor, já não sofria”. E olho para ela, imensamente. Conheço há muito tempo a dor. Conheço-a de perto. Pessoalmente.

GATO NA GARAGEM Que imensa preguiça! Um gato se estica longo, de pelica, de pluma e peliça. A noite é de tubos de rodas e cubos borracha e aço curvos em subsolos turvos. Que noite! uma poça de sombra na boca. Cega, se alvoroça e infla, a pupila oca. Luminosos manda seus olhos; verde anda em luz; anda e nada e é dono do nada. A noite postiça! E o gato se estica em sua pelica, em sua peliça.

É preciso amar as pessoas e usar as coisas e não, amar as coisas e usar as pessoas

ESPELHO CEGO Onde a face de prata e cristal puro, e aquela deslumbrante exatidão que revela o mais breve aceno obscuro e o compasso das lágrimas, e a seta que de repente galga os céus do olhar e em margens sobre-humanas se projeta? Onde as auroras? Onde, os labirintos, - e o frêmito, que rasga o peso ao mar, - e as grutas, de áureos lustres e aéreos plintos? Ah, - que fazes do rosto que te entrego? - Musgos imóveis sobre a sua luz... Limos...Liquens - Opaco espelho cego!

Se não chover nem ventar, se a lua e o sol forem limpos e houver festa pelo mar, - ir-te-ei visitar. Se o chão se cobrir de flor, e o endereço estiver claro, e o mundo livre de dor, - ir-te-ei ver, amor. Se o tempo não tiver fim, se a terra e o céu se encontrarem à porta do teu jardim - espera por mim. Cantarei minha canção com violas de eternamente que são de alma e em alma estão. - De outro modo, não.

BERCEUSE PARA QUEM MORRE Dorme... Dorme... Rolam pelas vertentes das montanhas, as estrelas cadentes... Meu amor, a noite mansa dança,dança no silêncio do Jardim... Lento, um cipreste balança... Tu, descansa, meu amor, perto de mim... Dorme, dorme como as rosas noturnas, quando há trevas perigosas de furnas... Meu amor, não se descreve esta neve que dos céus descendo vem... É um beijo breve... O mais breve... O mais leve... Que não se deu em ninguém... Dorme... O luar se espalha triste na altura... Quem sabe, é, tudo que existe, loucura?

FLOR JOGADA AO RIO Entre eclusa e esparavel faremos a canção triste para uma flor de papel. O esparavel a amparar-te, a eclusa a esperar por ti e o tempo amargo a quebrar-te. Flor imaginária _ flor que vais viver para sempre só de imaginário amor. Por isso, entre o esparavel e a eclusa ficas tão triste como a canção num papel.

ATÉ QUANDO TERÁS, MINHA ALMA, ESTA DOÇURA Até quando terás, minha alma, esta doçura, este dom de sofrer, este poder de amar, a força de estar sempre _ insegura _ segura como a flecha que segue a trajetória obscura, fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?

O MUNDO DOS HOMENS ENVOLVE-ME O mundo dos homens envolve-me, porém não me abraça. Eu não tenho nada com a onda, mesmo que naufrague dentro dela. Se tu não sentes esta coisa simples que eu sinto, esta unidade que não se rompe, mesmo quando compreende e participa... (Então, ó deuses, de que somos, de quem somos, quem somos, e como provaremos sermos todos irmãos?)

Lamento do oficial por seu cavalo morto Nós merecemos a morte, porque somos humanos e a guerra é feita pelas nossas mãos, pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra, por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens que trazemos por dentro, e ficam sem explicação. Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia, os cálculos do gesto, embora sabendo que somos irmãos. Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros! Que delírio sem Deus, nossa imaginação! E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha, que, enganada, recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno, ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração. Animal encantado - melhor que nós todos! - que tinhas tu com este mundo dos homens? Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada em carne e sonho, que os teus olhos decifravam... Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos... Como vieste morrer por um que mata seus irmãos! (in Mar Absoluto e outros poemas: Retrato Natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.)

O instante existe (...) Não sou alegre nem sou triste: (...) Não sito gozo nem tormento. Atravesso noite e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço. não sei, não sei. Não sei se fico ou passo.

Canção da tarde no campo Caminho do campo verde estrada depois de estrada. Cerca de flores, palmeiras, serra azul, água calada. Eu ando sozinha no meio do vale. Mas a tarde é minha. Meus pés vão pisando a terra Que é a imagem da minha vida: tão vazia, mas tão bela, tão certa, mas tão perdida! Eu ando sozinha por cima de pedras. Mas a tarde é minha. Os meus passos no caminho são como os passos da lua; vou chegando, vai fugindo, minha alma é a sombra da tua. Eu ando sozinha por dentro de bosques. Mas a fonte é minha. De tanto olhar para longe, não vejo o que passa perto, meu peito é puro deserto. Subo monte, desço monte. Eu ando sozinha ao longo da noite. Mas a estrela é minha.

CANÇAO EXCÊNTRICA Ando à procura de espaço para o desenho da vida. Em números me embaraço e perco sempre a medida. Se penso encontrar saída, em vez de abrir um compasso, protejo-me num abraço e gero uma despedida. Se volto sobre meu passo, é distância perdida. Meu coração, coisa de aço, começa a achar um cansaço esta procura de espaço para o desenho da vida. Já por exausta e descrida não me animo a um breve traço: - saudosa do que não faço, - do que faço, arrependida.

Nem tudo é fácil É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste. É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre. É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia. É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua. É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo. É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar. É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo. Se você errou, peça desculpas... É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado? Se alguém errou com você, perdoa-o... É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender? Se você sente algo, diga... É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar alguém que queira escutar? Se alguém reclama de você, ouça... É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você? Se alguém te ama, ame-o... É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz? Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível Precisamos acreditar, ter fé e lutar para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos, realidade!!!

Canção Não te fies do tempo nem da eternidade, que as nuvens me puxam pelos vestidos que os ventos me arrastam contra o meu desejo! Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã morro e não te vejo! Não demores tão longe, em lugar tão secreto, nácar de silêncio que o mar comprime, o lábio, limite do instante absoluto! Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã eu morro e não te escuto! Aparece-me agora, que ainda reconheço a anêmona aberta na tua face e em redor dos muros o vento inimigo... Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã eu morro e não te digo...

...Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda...

“Acima de nós, em redor de nós as palavras voam e às vezes pousam.”

Se as respostas foram dadas e você não faz parte da solução, então é porque o problema é você!

Permita que eu que me conforme em ser sozinha.

Pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças.

É difícil fazer alguém sorrir,assim como é fácil fazer chorar.

Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.

Se volto sobre o meu passo, é já distância perdida. Meu coração, coisa de aço, começa a achar um cansaço esta procura de espaço para o desenho da vida. in Antologia Poética