Livros de Adélia Prado

Um corpo quer outro corpo. Uma alma quer outra alma e seu corpo.

Sobre o Autor

Adélia Prado

Escritora, professora pro formação, revitalizou a literatura inserindo a mulher como intelectual, mesmo acumulando as funções domésticas.

Melhores Livros de Adélia Prado

Mais frases de Adélia Prado

Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida, virou só sentimento.

O que a memória ama, fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.

O sonho encheu a noite Extravasou pro meu dia Encheu minha vida E é dele que eu vou viver Porque sonho não morre.

Não quero faca, nem queijo. Quero a fome.

Deus é mais belo que eu. E não é jovem. Isto sim, é consolo.

Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.

O que a memória ama, fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.)

A coisa mais fina do mundo é o sentimento. (Ensinamento)

Ama e nem sabe mais o que ama. (Pranto Para Comover Jonathan)

As sensibilidades sem governo.

Quando nasci um anjo esbelto,desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira(…)Vai ser coxo na vida é maldição para homem.Mulher é desdobrável. Eu sou.

Assim que escurecer vou namorar. Que mundo ordenado e bom! Namorar quem? Minha alma nasceu desposada com um marido invisível.

A vida é muito bonita, basta um beijo e a delicada engrenagem movimenta-se, uma necessidade cósmica nos protege.”

Mulher é desdobrável. Eu sou.

Não me falou em amor. Essa palavra de luxo.

Não tenho tempo algum,porque ser feliz me consome

NÃO TENHO TEMPO ALGUM, PORQUE SER FELIZ ME CONSOME

Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande.

AMOR FEINHO Eu quero amor feinho. Amor feinho não olha um pro outro. Uma vez encontrado, é igual fé, não teologa mais. Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo e filhos tem os quantos haja. Tudo que não fala, faz. Planta beijo de três cores ao redor da casa e saudade roxa e branca, da comum e da dobrada. Amor feinho é bom porque não fica velho. Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é: eu sou homem você é mulher. Amor feinho não tem ilusão, o que ele tem é esperança: eu quero amor feinho.

Com licença poética Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos -- dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.

A Serenata Uma noite de lua pálida e gerânios ele virá com a boca e mão incríveis tocar flauta no jardin. Estou no começo do meu dessespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa. Eu que rejeito e exprobo o que não for natural como sangue e veias descubro que estou chorando todo dia, os cabelos entristecidos, a pele assaltada de indecisão. Quando ele vier, porque é certo que vem, de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? A lua, os gerânios e ele serão os mesmos - só a mulher entre as coisas envelhece. De que modo vou abrir a janela,se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?

Eu quero uma licença de dormir, perdão pra descansar horas a fio, sem ao menos sonhar a leve palha de um pequeno sonho. Quero o que antes da vida foi o sono profundo das espécies, a graça de um estado. Semente. Muito mais que raízes. (Exausto)

Um corpo quer outro corpo. Uma alma quer outra alma e seu corpo. Este excesso de realidade me confunde. Jonathan falando: parece que estou num filme. Se eu lhe dissesse você é estúpido ele diria sou mesmo. Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear eu iria. As casas baixas, as pessoas pobres, e o sol da tarde, imaginai o que era o sol da tarde sobre a nossa fragilidade. Vinha com Jonathan pela rua mais torta da cidade. O Caminho do Céu.

O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta.

Casamento Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como “este foi difícil” “prateou no ar dando rabanadas” e faz o gesto com a mão. O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. Por fim, os peixes na travessa, vamos dormir. Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva.

(...)fiquei doida no encalço. Só melhoro quando chove.

Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra

“...me consola, moço. Fala uma frase, feita com o meu nome, Para que ardam os crisântemos E eu tenha um feliz Natal!...”

“Dor não tem nada a ver com amargura. / Acho que tudo que acontece / é feito pra gente aprender cada vez mais, / é pra ensinar a gente a viver. Desdobrável. / Cada dia mais rica de humanidade”

Sofro por causa do meu espírito de colecionador-arqueólogo. Quero pôr o bonito numa caixa com chave para abrir de vez em quando e olhar.

Meu Deus, me dê cinco anos. Me dá a mão, me cura de ser grande!

Dor não tem nada haver com amargura. Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais, é pra ensinar a gente a viver. Desdobrável. Cada dia mais rica de humanidade.

Beleza não é luxo. É uma necessidade!

Quero comer bolo de noiva, puro açúcar, puro amor carnal disfarçado de corações e sininhos: um branco, outro cor-de-rosa, um branco, outro cor-de-rosa.

Estou no começo do meu desespero, e só vejo dois caminhos: ou viro doida, ou santa.

Me dão mingaus, caldos quentes, me dão prudentes conselhos, eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido, a tua boca de brasa.

Com perdão da palavra, quero cair na vida.

Tudo que a memória amou já ficou eterno

Um corpo quer outro corpo, uma alma quer outra alma e seu corpo. Este excesso de realidade me confunde.

Eu mesma não entendo minha enormíssima paciência de ficar à toa, só pensando, pensando e sentindo.

.Preciso mentir um pouco para que o ritmo aconteça e eu própria entenda o discurso.

Quero você na minha frente, extático, (...) e eu para todo o sempre olhando, olhando, olhando...

Eu quero depois, quando viver de novo, a ressurreição e a vida escamoteando o tempo dividido, eu quero o tempo inteiro.

A gente tem sede de infinito e de permanência, então, esse ser que assegura a permanência das coisas, é que eu chamo de Deus. É o absoluto.

Eu acho que Deus é uma projeção humana, é um desejo infinito que nós temos de adoração, e de algo que nos suspende com o sentido absoluto.

Se pudesse, hoje, varria, isso mesmo, varria as pessoas todas com vassoura, como se fossem ciscos.

Resumo Gerou os filhos, os netos, deu à casa o ar de sua graça e vai morrer de câncer. O modo como pousa a cabeça para um retrato é o da que, afinal, aceitou ser dispensável. Espera, sem uivos, a campa, a tampa, a inscrição: 1906-1970 SAUDADE DOS SEUS, LEONORA.

Quando dói, grito ai, quando é bom, fico bruta. As sensibilidades sem governo. Mas tenho meus prantos, claridades atrás do estômago humilde e fortíssima voz pra cânticos de festa.

Com licença poética Quando nasci um anjo esbelto,desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos- dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree,já a minha vontade da alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. O que a memória ama, fica eterno. Te amo com a memória, imperecível. Casamento Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. É tão bom, só a gente sozinho na cozinha,de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como este foi difícil, prateou no ar dando rabanadas e faz o gesto com a mão. O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. Por fim, os peixes na travessa, vamos dormir. Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva. O sonho encheu a noite Extravasou pro meu dia Encheu minha vida E é dele que eu vou viver Porque sonho não morre Dor não tem nada haver com amargura. Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais, é pra ensinar a gente a viver. Desdobrável. Cada dia mais rica de humanidade. As coisas tristíssimas,vão desaparecer quando soar a trombeta. Levantaremos como deuses, com a beleza das coisas que nunca pecaram, como árvores, como pedras, exatos e dignos de amor. Não quero faca, nem queijo. Quero a fome Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo sua matéria, fauna e flora, seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios de tua barba. Esmero. Exausto Eu quero uma licença de dormir, perdão pra descansar horas a fio, sem ao menos sonhar a leve palha de um pequeno sonho. Quero o que antes da vida foi o sono profundo das espécies, a graça de um estado. Semente. Muito mais que raízes. Simplesmente amor Amor é a coisa mais alegre Amor é a coisa mais triste Amor é a coisa que mais quero Por causa dele falo palavras como lanças Amor é a coisa mais alegre Amor é a coisa mais triste Amor é a coisa que mais quero Por causa dele podem entalhar-me: Sou de pedra sabão. Alegre ou triste Amor é a coisa que mais quero. As línguas são imperfeitas pra que os poemas existam... Os diamantes são indestrutíveis? Mais é meu amor. O mar é imenso? Meu amor é maior, mais belo sem ornamentos do que um campo de flores. Mais triste do que a morte, mais desesperançado do que a onda batendo no rochedo, mais tenaz que o rochedo. Ama e nem sabe mais o que ama.

Vale a pena esperar, contra toda a esperança, o cumprimento da Promessa que Deus fez a nossos pais no deserto. Até lá, o sol com chuva, o arco-íris, o esforço de amor, o maná em pequeninas rodelas, tornam boa a vida. A vida rui? A vida rola mas não cai. A vida é boa.

Aqui se passa fome, aqui se odeia, aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.

.O amor me fere é debaixo do braço, de um vão entre as costelas, atinge o meu coração é por esta via inclinada

Faça-se a dura vontade do que habita meu peito: Vem, Jonathan, traz flores pra minha mãe e um par de algemas pra mim.

.Meu coração vai desdobrando os panos, se alargando aquecido, dando a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.

O amor usa o correio, o correio trapaceia, a carta não chega, o amor fica sem saber se é ou não é.

Quanto a mim, dou graças pelo que agora sei e, mais que perdôo, eu amo.

Tudo manha, truque, engenho: é descuidar, o amor te pega, te come, te molha todo. Mas água o amor não é.

.Eu ponho o amor no pilão com cinza e grão de roxo e soco. Macero ele, faço dele cataplasma e ponho sobre a ferida.

Estremecerei de susto até dormir, e no entanto é tudo tão pequeno. Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota.

Divago, quando o que quero é só dizer te amo.

De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo.

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento.

Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo.

Não tenho tempo algum, pois ser feliz me consome!

Um corpo quer outro corpo. Uma alma quer outra alma e seu corpo.

Sofro por causa do meu espírito de colecionador-arqueólogo. Quero pôr o bonito numa caixa com chave para abrir de vez em quando e olhar.

Amor pra mim é ser capaz de permitir que aquele que eu amo exista como tal, como ele mesmo. Isso é o mais pleno amor. Dar a liberdade dele existir ao meu lado do jeito que ele é.

Quem carrega o mar nos seus limites tem carinho com o mar.

Era raiva não. Era marca de dor.

Fui dormir umas vezes tão feliz, que, se soubesse minha força, levitava. Em outras, tanta foi a tristeza que fiz versos

Há sempre uma razão, embora não haja nenhuma explicação.

Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota

Desejo a máquina do tempo para que não haja o havido e eu recomece misericordiosamente. Do livro Os Componentes da banda

Vale a pena esperar, contra toda a esperança, o cumprimento da promessa que Deus fez a nossos pais no deserto. Até lá, o sol com chuva, o arco-íris, o esforço de amor, o maná em pequeninas rodelas, tornam boa a vida. A vida rui? A vida rola mas não cai. A vida é boa.

A mim que desde a infância venho vindo, como se o meu destino, fosse o exato destino de uma estrela, apelam incríveis coisas: pintar as unhas, descobrir a nuca, piscar os olhos, beber. Tomo o nome de Deus num vão. Descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer. Vinte anos mais vinte é o que tenho, mulher ocidental que se fosse homem, amaria chamar-se Fliud Jonathan. Neste exato momento do dia vinte de julho, de mil novecentos e setenta e seis, o céu é bruma, está frio, estou feia, acabo de receber um beijo pelo correio. Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.

Então eu virei pra ela e falei assim: ah, nada, boba, também é assim, se der, bem, se não der, amém, toca pra frente.

“Dor não tem nada a ver com amargura. Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais. É pra ensinar a gente a viver.”

Deus de vez em quando me tira a poesia e eu olho pedras e vejo pedras mesmo...

Festa do corpo de Deus Como um tumor maduro a poesia pulsa dolorosa, anunciando a paixão: “Ó crux ave, spes única Ó passiones tempore”. Jesus tem um par de nádegas! Mais que Javé na montanha esta revelação me prostra. Ó mistério, mistério, suspenso no madeiro o corpo humano de Deus. É próprio do sexo o ar que nos faunos velhos surpreendo, em crianças supostamente pervertidas e a que chamam dissoluto. Nisto consiste o crime, em fotografar uma mulher gozando e dizer: eis a face do pecado. Por séculos e séculos os demônios porfiaram em nos cegar com este embuste. E teu corpo na cruz, suspenso. E teu corpo na cruz, sem panos: olha para mim. Eu te adoro, ó salvador meu que apaixonadamente me revelas a inocência da carne. Expondo-te como um fruto nesta arvore de execração o que dizer é amor, amor do corpo, amor. Ó mistério, mistério, suspenso no madeiro o corpo humano de Deus. É próprio do sexo o ar que nos faunos velhos surpreendo, em crianças supostamente pervertidas e a que chamam dissoluto. Nisto consiste o crime, em fotografar uma mulher gozando e dizer: eis a face do pecado. Por séculos e séculos os demônios porfiaram em nos cegar com este embuste. E teu corpo na cruz, suspenso. E teu corpo na cruz, sem panos: olha para mim. Eu te adoro, ó salvador meu que apaixonadamente me revelas a inocência da carne. Expondo-te como um fruto nesta arvore de execração o que dizer é amor, amor do corpo, amor.

O que precisa nascer#8232; tem sua raiz em chão de casa velha.#8232; À sua necessidade o piso cede,#8232; estalam rachaduras nas paredes,#8232; os caixões de janela se desprendem.#8232; O que precisa nascer#8232; aparece no sonho buscando frinchas no teto,#8232; réstias de luz e ar.#8232; Sei muito bem do que este sonho fala#8232; e a quem pode me dar#8232; peço coragem.