Livros de Adélia Prado

Sobre o Autor

Adélia Prado

Escritora, professora pro formação, revitalizou a literatura inserindo a mulher como intelectual, mesmo acumulando as funções domésticas.

Melhores Livros de Adélia Prado

O que precisa nascer#8232; tem sua raiz em chão de casa velha.#8232; À sua necessidade o piso cede,#8232; estalam rachaduras nas paredes,#8232; os caixões de janela se desprendem.#8232; O que precisa nascer#8232; aparece no sonho buscando frinchas no teto,#8232; réstias de luz e ar.#8232; Sei muito bem do que este sonho fala#8232; e a quem pode me dar#8232; peço coragem.

Festa do corpo de Deus Como um tumor maduro a poesia pulsa dolorosa, anunciando a paixão: “Ó crux ave, spes única Ó passiones tempore”. Jesus tem um par de nádegas! Mais que Javé na montanha esta revelação me prostra. Ó mistério, mistério, suspenso no madeiro o corpo humano de Deus. É próprio do sexo o ar que nos faunos velhos surpreendo, em crianças supostamente pervertidas e a que chamam dissoluto. Nisto consiste o crime, em fotografar uma mulher gozando e dizer: eis a face do pecado. Por séculos e séculos os demônios porfiaram em nos cegar com este embuste. E teu corpo na cruz, suspenso. E teu corpo na cruz, sem panos: olha para mim. Eu te adoro, ó salvador meu que apaixonadamente me revelas a inocência da carne. Expondo-te como um fruto nesta arvore de execração o que dizer é amor, amor do corpo, amor. Ó mistério, mistério, suspenso no madeiro o corpo humano de Deus. É próprio do sexo o ar que nos faunos velhos surpreendo, em crianças supostamente pervertidas e a que chamam dissoluto. Nisto consiste o crime, em fotografar uma mulher gozando e dizer: eis a face do pecado. Por séculos e séculos os demônios porfiaram em nos cegar com este embuste. E teu corpo na cruz, suspenso. E teu corpo na cruz, sem panos: olha para mim. Eu te adoro, ó salvador meu que apaixonadamente me revelas a inocência da carne. Expondo-te como um fruto nesta arvore de execração o que dizer é amor, amor do corpo, amor.

Deus de vez em quando me tira a poesia e eu olho pedras e vejo pedras mesmo...

“Dor não tem nada a ver com amargura. Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais. É pra ensinar a gente a viver.”

Então eu virei pra ela e falei assim: ah, nada, boba, também é assim, se der, bem, se não der, amém, toca pra frente.

A mim que desde a infância venho vindo, como se o meu destino, fosse o exato destino de uma estrela, apelam incríveis coisas: pintar as unhas, descobrir a nuca, piscar os olhos, beber. Tomo o nome de Deus num vão. Descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer. Vinte anos mais vinte é o que tenho, mulher ocidental que se fosse homem, amaria chamar-se Fliud Jonathan. Neste exato momento do dia vinte de julho, de mil novecentos e setenta e seis, o céu é bruma, está frio, estou feia, acabo de receber um beijo pelo correio. Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.

Vale a pena esperar, contra toda a esperança, o cumprimento da promessa que Deus fez a nossos pais no deserto. Até lá, o sol com chuva, o arco-íris, o esforço de amor, o maná em pequeninas rodelas, tornam boa a vida. A vida rui? A vida rola mas não cai. A vida é boa.

Desejo a máquina do tempo para que não haja o havido e eu recomece misericordiosamente. Do livro Os Componentes da banda

Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota

Há sempre uma razão, embora não haja nenhuma explicação.

Fui dormir umas vezes tão feliz, que, se soubesse minha força, levitava. Em outras, tanta foi a tristeza que fiz versos

Era raiva não. Era marca de dor.

Quem carrega o mar nos seus limites tem carinho com o mar.

Amor pra mim é ser capaz de permitir que aquele que eu amo exista como tal, como ele mesmo. Isso é o mais pleno amor. Dar a liberdade dele existir ao meu lado do jeito que ele é.

Sofro por causa do meu espírito de colecionador-arqueólogo. Quero pôr o bonito numa caixa com chave para abrir de vez em quando e olhar.

Um corpo quer outro corpo. Uma alma quer outra alma e seu corpo.

Não tenho tempo algum, pois ser feliz me consome!

Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo.

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento.

De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo.

Divago, quando o que quero é só dizer te amo.

Estremecerei de susto até dormir, e no entanto é tudo tão pequeno. Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota.

.Eu ponho o amor no pilão com cinza e grão de roxo e soco. Macero ele, faço dele cataplasma e ponho sobre a ferida.

Tudo manha, truque, engenho: é descuidar, o amor te pega, te come, te molha todo. Mas água o amor não é.

Quanto a mim, dou graças pelo que agora sei e, mais que perdôo, eu amo.

O amor usa o correio, o correio trapaceia, a carta não chega, o amor fica sem saber se é ou não é.

.Meu coração vai desdobrando os panos, se alargando aquecido, dando a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.

Faça-se a dura vontade do que habita meu peito: Vem, Jonathan, traz flores pra minha mãe e um par de algemas pra mim.

.O amor me fere é debaixo do braço, de um vão entre as costelas, atinge o meu coração é por esta via inclinada

Aqui se passa fome, aqui se odeia, aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.